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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





GILBERTO MENDONÇA TELES

Um dos primeiríssimos nomes da poesia de Goiás. Há tempos tento comunicar-me com ele, além das leituras de sua fértil poesia... Ambos temos residência temporária em Pirenópolis, mas a sorte ainda não nos colocou um diante do outro. Certamente já cruzamos pelas ruas empedradas da mágica cidade colonial de Goiás que nós tanto amamos...

Gilberto é um grande poeta, um grande ensaísta. Hoje começo com uns poucos de seus versos, da obra notável que é Plural de nuvens (Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1990). Em outra oportunidade, depois de um encontro que vai acontecer em algum momento, publicaremos outros poemas e a foto do autor...            Antonio Miranda

Convidado oficial da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, participa da antologia  POEMÁRIO da I BIP.

Veja também: GILBERTO MENDONÇA TELES  - EN ITALIANO     /     EN FRANÇAIS


PLURAL DE NUVENS

 

Se há um plural de nuvens e se há sombras

projetadas no texto das cavernas,

por que não mergulhar, tentar nas ondas

a refração dos peixes e das pedras?

 

Há sempre alguma névoa, um lado obscuro

que atravessa o poema.  Há sempre um saldo

de formas laterais, um como escudo

que não resiste muito a teu assalto.

 

Se alguma luz na contraluz se esbate,

se há curso dos dias sole e vento,

talvez na foz do rio outra cidade

venha no teu olhar amanhecendo.

 

Importa é ler de perto a cavidade

das nuvens e espiar os seus não-ditos:

o mais são armas para teu combate,

falsos alarmes para os teus sentidos.

 

 

DECLINAÇÃO

 

O mar não me levou:

                                   o meus cuidados

(o que era ruim /o que era bom demais)

ficaram por aí, pelos cerrados,

à sombra dos paus-terras de Goiás.

 

O mar não me lavou:

                                   meu corpo todo

tem as marcas da terra – o sol, o chão,

os cheiros doces dos quintais, do lodo,

e a febre do meu T nesta sezão.

 

Eu sou quem sou. Não me mudei. Mudou-me

uma parte da vida, mas foi sem:

não me levou nem me lavou,

                                               livrou-me

da danação de todo mal, amém.

 

(Se houver louvor aqui, se alguma luva,

qualquer pessoa a pode usar por mim:

a minha história é como um guarda-chuva

que a gente esquece,

                                  quando chega ao fim.)

 

 

 

CHÁ DAS CINCO

                                para Jorge Amado

 

Chá de poejo para o teu desejo

chá de alfavaca já que a carne é fraca

chá de poaia e rabo de saia

chá de erva-cidreira se ela for solteira

chá de beldroega se ela foge ou nega

chá de panela para as coisas dela

chá de alecrim se ela for ruim

chá de losna se ela late ou rosna

chá de abacate se ela rosna ou late

chá de sabugueiro para ser ligeiro

chá funcho quando houver caruncho

chá de trepadeira para a noite inteira

chá de boldo se ela pedir soldo

chá de confrei se ela for de lei

chá de macela se não for donzela

chá de alho para um ato falho

chá de bico quando houve fuxico

chá de sumiço quando houver enguiço

chá de estrada se ela for casada

chá de marmelo quando houver duelo

chá de douradinha se ela for gordinha

chá de fedegoso pra mijar gostoso

chá de cadeira para a vez primeira

chá de jalapa quando for no tapa

chá de catuaba quando não se acaba

chá de jurema se exigir poema

chá de hortelã e até amanhã

chá de erva-doce e acabou-se

 

(pelo sim pelo não

                               chá de barbatimão)

 

 

ANÚNCIO

 

1

Troco urgentemente uma secretária

eletrônica, 22ov, bastante conservada

    (motivo mudança de amor e domicílio),

por uma secretária invisível,

dessas que fazem desaparecer

tudo de repente:

                           colóquio de alquimistas

                           congressos de bruxas

                            reuniões de catedráticos

                            e até o I simpósio

                            de mulheres jubilosas.

 

Que seja loirena e diligente,

que seja meiga, sobretudo quando visível.

Que não se esqueça dos pequenos aniversários

(uma semana disso, um mês daquilo)

e os saiba comemorar condignamente

nalgum lugar secreto:

                                   ilha ou limbo

                                   beira de mar

                                   quarto de hotel

                                   fumaça de cachimbo.

Que seja também multilíngüe

para entender-me em todos os sentidos.

E que não perca nunca o seu charme

para me seduzir ou raptar-me

nas horas mais incríveis de solidão.

 

(Cartas para esta redação.)

 

2

Preciso urgentemente encontrar

minha secretária invisível

que se perdeu sexta-feira

em reuniões e telefonemas

e me deixou a ver navios.

 

Melhor: um submarino atômico

que entrou pelo rio e bombardeou

toda a cidade, virando-a

pelo avesso, como um absurdo

e até remoto cataclismo.

 

(Gratifica-se bem quem der notícia

a esta redação. Ou à polícia.)

 

 

ELIPSE

 

Vim descobrir o que ficou de elipse

e precisão,

o que se fez sucinto e reticente,

o inacabado do cabo Não.

 

Vim recolher esta úmida sintaxe

que foi além

e não poupou a rigidez da língua

que ficou sem.

 

E vim, não para ver, deixar a meio

fala e raiz:

vim extrair de ti a própria essência

do que não fiz. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 




Antonio Miranda e Gilberto Mendonça Teles no 1° festival de Poesia de Goyaz
fotos: Juvenildo Barbosa Moreira

 

De

ARTE DE AMAR
Rio de Janeiro: Imago Editora, 1977

 

RECEITA

 

Tome a palavra suja,

"cabeluda" e com c'aspas,

essa que tem açúcar

no sangue, e sobretaxa.

 

Tome a que, sendo escrava

da tribo e do tributo,

mostra no corpo as marcas

de lacre, logro e lucro.

 

Pode ser a de baixo

calão, a manteúda,

como opção, como cágado,

essa que se disputa

 

nas feiras, que é falada,

que é falida e que gruda,

tome a palavra chata,

tome a palavra chula

 

e bote tudo às claras

e gema e até misture

coisas de corpo e alma,

de vida e de cultura

 

e leve ao forno e passe

a forma na gordura,

depois coma e disfarce

os bigodes da gula.

 

 

ANULAÇÃO

 

Ocupar o espaço

contido na sombra,

ser o pó do espesso,

o vão da penumbra,

 

o dó sem começo,

o nó sem vislumbre,

o invisível traço

do não-ser: escombro.

 

Ser zero, ou nem isso:

 

letra morta, timbre

do vazio no osso.

 

Ser aquém do nome

— o só do soluço

de coisa nenhuma.


 



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