PLURAL DE NUVENS
Se há um plural de nuvens e se há sombras
projetadas no texto das cavernas,
por que não mergulhar, tentar nas ondas
a refração dos peixes e das pedras?
Há sempre alguma névoa, um lado obscuro
que atravessa o poema. Há sempre um saldo
de formas laterais, um como escudo
que não resiste muito a teu assalto.
Se alguma luz na contraluz se esbate,
se há curso dos dias sole e vento,
talvez na foz do rio outra cidade
venha no teu olhar amanhecendo.
Importa é ler de perto a cavidade
das nuvens e espiar os seus não-ditos:
o mais são armas para teu combate,
falsos alarmes para os teus sentidos.
DECLINAÇÃO
O mar não me levou:
o meus cuidados
(o que era ruim /o que era bom demais)
ficaram por aí, pelos cerrados,
à sombra dos paus-terras de Goiás.
O mar não me lavou:
meu corpo todo
tem as marcas da terra – o sol, o chão,
os cheiros doces dos quintais, do lodo,
e a febre do meu T nesta sezão.
Eu sou quem sou. Não me mudei. Mudou-me
uma parte da vida, mas foi sem:
não me levou nem me lavou,
livrou-me
da danação de todo mal, amém.
(Se houver louvor aqui, se alguma luva,
qualquer pessoa a pode usar por mim:
a minha história é como um guarda-chuva
que a gente esquece,
quando chega ao fim.)
CHÁ DAS CINCO
para Jorge Amado
Chá de poejo para o teu desejo
chá de alfavaca já que a carne é fraca
chá de poaia e rabo de saia
chá de erva-cidreira se ela for solteira
chá de beldroega se ela foge ou nega
chá de panela para as coisas dela
chá de alecrim se ela for ruim
chá de losna se ela late ou rosna
chá de abacate se ela rosna ou late
chá de sabugueiro para ser ligeiro
chá funcho quando houver caruncho
chá de trepadeira para a noite inteira
chá de boldo se ela pedir soldo
chá de confrei se ela for de lei
chá de macela se não for donzela
chá de alho para um ato falho
chá de bico quando houve fuxico
chá de sumiço quando houver enguiço
chá de estrada se ela for casada
chá de marmelo quando houver duelo
chá de douradinha se ela for gordinha
chá de fedegoso pra mijar gostoso
chá de cadeira para a vez primeira
chá de jalapa quando for no tapa
chá de catuaba quando não se acaba
chá de jurema se exigir poema
chá de hortelã e até amanhã
chá de erva-doce e acabou-se
(pelo sim pelo não
chá de barbatimão)
ANÚNCIO
1
Troco urgentemente uma secretária
eletrônica, 22ov, bastante conservada
(motivo mudança de amor e domicílio),
por uma secretária invisível,
dessas que fazem desaparecer
tudo de repente:
colóquio de alquimistas
congressos de bruxas
reuniões de catedráticos
e até o I simpósio
de mulheres jubilosas.
Que seja loirena e diligente,
que seja meiga, sobretudo quando visível.
Que não se esqueça dos pequenos aniversários
(uma semana disso, um mês daquilo)
e os saiba comemorar condignamente
nalgum lugar secreto:
ilha ou limbo
beira de mar
quarto de hotel
fumaça de cachimbo.
Que seja também multilíngüe
para entender-me em todos os sentidos.
E que não perca nunca o seu charme
para me seduzir ou raptar-me
nas horas mais incríveis de solidão.
(Cartas para esta redação.)
2
Preciso urgentemente encontrar
minha secretária invisível
que se perdeu sexta-feira
em reuniões e telefonemas
e me deixou a ver navios.
Melhor: um submarino atômico
que entrou pelo rio e bombardeou
toda a cidade, virando-a
pelo avesso, como um absurdo
e até remoto cataclismo.
(Gratifica-se bem quem der notícia
a esta redação. Ou à polícia.)
ELIPSE
Vim descobrir o que ficou de elipse
e precisão,
o que se fez sucinto e reticente,
o inacabado do cabo Não.
Vim recolher esta úmida sintaxe
que foi além
e não poupou a rigidez da língua
que ficou sem.
E vim, não para ver, deixar a meio
fala e raiz:
vim extrair de ti a própria essência
do que não fiz.
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