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PLANO PARA EVACUAR O SENADO FEDERAL
Poema do Barão de Pindaré Júnior*
Sair em massa evacuando
—evacuar é a palavra certa!—
o recinto, o plenário,
o mictório, o conciliábulo, a sinecura
pode também saltar de asa delta do trigésimo andar do anexo
e pousar no teto do Palácio do Planalto para um desagravo
— a gentalha dos assessores e cabos eleitorais aplaudindo
a performance ou
valer-se de um advogado de porta de presídio
e/ou um lobista de plantão para pagar as despesas da retirada
— porque sim, por que não?!—
com direito a recesso
remunerado e aposentadoria
— cuidado com os batedores de carteira pelo caminho!
todos são inocentes
mesmo depois de comprovadas as fraudes, falcatruas
salve-se quem puder!!!
os ratos saem livremente
pelos esgotos
meia dúzia de senadores
honestos
na cesta de ovos
estão contaminados
a imagem pública corroída
pela hantavirose
pela saliva de discursos e despistamentos
o romeu tuma garante
que nem pai-de-santo faz um descarrego
quem carregava tudo era mesmo o severino
agora é o renan
que só sai pela culatra
Pseudônimo de Antonio Miranda para cantigas de escárnio e mal dizer...
ESTATISTICAMENTE EU JÁ MORRI
Poema do Barão de Pindaré Júnior”
Depois dos sessenta anos de idade
ninguém se apresenta como aniversariante
mas como sobrevivente
— começa a contagem regressiva.
Aos sessenta é candidato...
aos setenta é um defunto anunciado,
aos oitenta é um fenômeno,
aos noventa é um milagre!!!
Podem trazer teorias e prognósticos,
receitas gerontológicas e cirúrgicas...
Melhor idade, separar o corpo da mente...
Medito sobre personagens longevos
(convivo com um na intimidade...)
que contradizem a razão, contra-senso
— e às vezes até o bom senso...
Do alto de meus cem anos
(nasci no Império e ainda não entrei
na pós-modernidade...)
sou uma raridade! Que barbaridade!!!
Mas, confesso, já estou preparado:
o paletó de madeira na garagem
para aquela última viagem...
21.05.2007
* Perdoem a molecagem do Barão com seu amigo
poeta João Carlos Taveira às vésperas de completar
60 anos... (em setembro). O Barão não pretende —
aliás, muito pelo contrário... — estragar a festa, quer
apenas divertir, à sua maneira.
OLHO DE VIDRO
Poema do Barão de Pindaré Júnior*
Um braço mecânico, um coração de plástico,
um fêmur de alumínio, um fígado transplantado,
um pênis de borracha, uma dentadura acrílica,
uma namorada virtual, uma viagem simulada,
um sentimento de auto-ajuda, uma paixão de locadora,
um orgasmo por teleconferência. Why not?
Tipo assim: relacionamento programado,
com um beijo dos mais performáticos
— imaginem! fotografado com o celular.
Vai aparecer em tudo que é blog!
Vou fazer a tradução automática
e mandar por e-mail para todos os meus
desconhecidos.
Chácara Irecê, 12.05.2007
*pseudônimo de Antonio Miranda para canções de escárnio de maldizer.
AMOR DE QUALQUER JEITO
Poema do Barão de Pindaré Junior*
Qualquer tipo de amor satisfaz:
torto, enviesado, acanhado.
Amor secreto, loquaz, discreto
— tanto faz — amor descarado,
escondido, coletivo ou privado.
Amor a conta-gotas, minguado.
Amor dilacerado, extrovertido.
Que venha de uma vez, se não,
aos poucos, para instalar-se.
Amor de ocaso, de perdição,
cabisbaixo, ou de cabeça para baixo.
*pseudônimo de Antonio Miranda.
AO MEU ENTERRO
Poema do Barão de Pindaré Júnior*
Ao meu enterro eu não vou
— vão ter que me levar.
Não quero figuras estranhas
rindo de minha morte,
tomando o meu vinho
e o meu pé,
em espalhafato, lançando
farpas, lembrando gafes.
Depois que estiver morto
ninguém mais vai me ver torto.
Depois de algum pranto
acanhado
de algum amigo do peito
— suspeito —
vou virar santo.
Brasília, 6/4/2007.
*pseudônimo de Antonio Miranda para cantigas de escárnio e maldizer.
ANCESTRES
Poema do Barão de Pindaré Junior*
Esse velho que aparece
espelho
olhando com sarcasmo
e marasmo
não sou eu.
Deve ser
o meu pai desvalido
meu avô ido
meu bisavô desmilingüido..
*Barão de Pindaré Junior é o pseudônimo de Antonio Miranda para textos de escárnio e maldizer
AD NAUSEUM
Poema do Barão de Pindaré Júnior*
A esta tribuna subiram
magistrados e prelados
que não tinham o que dizer;
neste jornal escreveram
insignes pensadores e escritores
que não sabiam a que vieram;
neste microfone vociferaram
ínclitos líderes e até mártires
sem nenhum sentido da razão;
os melhores discursos foram censurados,
perseguidos, os autores execrados
mas, relidos, não diziam nada.
MILAGRE DO BURACO DO METRÔ
Poema do Barão de Pindaré Júnior
Você viu na TV
o lugar-comum
que todo mundo
repete e todo mundo
acredita...
O rapaz ia para o trabalho
mas o ônibus não parou.
Ele, então, se salvou
do terrível acidente:
do afundamento do metrô.
Mas outros sete morreram.
—Foi Deus que me salvou!
declarou, convencido.
E quem matou os sete infelizes?!
Nesse incidente,
um é milagre,
o outro é acidente.
Entendeu? Nem eu.
16.1.2006
HAMBURGER ASSASSINO
Barão de Pindaré Junior*
Aquela carne macerada
leva pelanca, plástico,
pata de rato, dejeto
e dedo de menino
desaparecido
com quetichupe e
batata-frígida.
Em qualquer lugar
do mundo
sabe sempre igual.
Abrimos a caixa e ele
—o hambúrguer—
nos devora por inteiro!!!
TATUAGENS
Barão de Pindaré Junior*
Indeléveis, inconsúteis.
A primeira tatuagem
ninguém esquece: da ferragem
do parto.
E a palmada
no quarto escuro?!
—a nádega ardendo!
Em sendo adulto:
porrada, muita porrada
por toda parte.
Hematomas, cicatrizes.
Amores desenganados,
corações e flechas partidas
no pescoço, no umbigo.
Tatuagens de sonho e pesadelo.
Tatuagens metafísicas
(que ninguém percebe)
de desejos insatisfeitos
e arrependimentos.
Nos ombros
os símbolos pátrios;
nos braços: as corporações
o time no peito
e no rosto
os valores penhorados. Assumidos.
Heróis de histórias em quadrinhos
pelos músculos das pernas
e figuras obscenas (pirografias,
pudicícias rubicundas)
nas partes mais baixas.
E aquele desejo mais
recôndito, excitante
(nem falo do que se trata...)
a inscrição desdobrável:
Lembranças de P-E-R-N-A-M-B-U-C-O !
Chácara Irecê, 6/6/06
A SENILIDADE DO BARÃO
Poema do Barão de Pindaré Jr.*
Por favor, não me venham com esse papo
furado de que idade é uma questão de espírito...
Pode ser... mas que é que eu faço
com as pelancas do braço
com as rugas
e com a flacidez das nádegas?
Recorro ao Pitanguy, escondo com camadas
de roupa ou de cosmético ou
me exibo como um maracujá de gaveta?
Ok, oitenta anos valem quatro vez mais
que vinte... Mas, aonde? No Clube da Terceira Idade?
No chá da Academia? No Instituto Histórico?
Ok, tem muito velho pra frente...
Mas, quem vem atrás? Eu, heim... ridículo!
Perfeito: tem velho jovial, avançado
na vanguarda... tem jovem antiquado.
E daí, pra que serve esse consolo?
Nem vale aquela piada: troco 80 por 4 de 20...
Que é que eu faço com elas? Rezo o terço no quarto?
Exato: existem exceções... Picasso era um tesão
em seus noventa aninhos.... Ou não... apesar do (re)nome.
Mas podes crer: o que abunda é velho
resmungão, ranzinza, rabugento. rrrrrrr.... Eu, rrrrr...rrrr...
* Barão de Pindaré Jr. é o pseudônimo de Antonio Miranda para poemetos politicamente incorretos...
INVADIRAM O CONGRESSO NACIONAL
Poema do Barão de Pindaré Júnior.*
Para o escritor e amigo Yves Hublet
e sua bengala justiceira.
Ladrões, lobistas, vendilhões
invadiram o Congresso Nacional
há muito tempo
e acamparam por lá!
Bancadas de ruralistas,
de banqueiros e bicheiros,
da igreja e da cerveja,
seguidos de apadrinhados
— salafrários com salários
e benefícios perdulários —
em hordas sazonais,
em escárnio aviltante.
Picaretas alugados ao Executivo
de turno, soturno rodízio
— prodígio mancomunado
com o Judiciário.
Trens da alegria, maracutaias, mordomias,
anões de saia justa, mansalões, bravatas
— promiscuidade, negociatas escandalosas
e impunidade — pizzaiolos cantando hinos
e dançando quadrilhas: a honra pelas virilhas!
O Barão de Pindaré Jr., indignado,
invade também, de bengala em riste,
e com ele os sem terra, os sem-vergonha,
os sem fé, os sem esperança,
os sem lei, os inocentes úteis
e os idealistas inúteis
que depredam tudo.
Aquilo virou mesmo uma zona
de
guerra.
Brasília, 06/06/06
*Barão de Pindaré Júnior é um heterônimo do poeta Antonio Miranda.
DASGAY
Poema do Barão de Pindaré Jr. *
Depois da DASLU e da controvertida DASPU
é a vez – previsivelmente – da DASGAY.
Modelitos fresquíssimos e chiquérrimos
ainda que valendo-se de materiais
os mais banais: filós, rendas, retrós,
muito veludo e cetim, seda e brocados
— tudo bem bolado, nada básico...
Penhoar transparente, com lantejoulas.
Nada de ceroulas! só mesmo calcinha
com paetês, bustiês insinuantes.
E a grande novidade: jeans!!!
Sim: jeans, bem transado, colante!
Mas com um detalhe intrigante
— exigência do freguês — não se sabe
bem por que - feiche-éclair
bem longo, na parte traseira.
Nada de preconceitos! Mais respeito,
minha gente, pois o cliente é sempre rei
- ou é rainha, como queira...
*Barão de Pindaré Jr. é o pseudônimo usado por Antonio Miranda para
seus poemas satíricos ou “politicamente incorretos”.
DASLU X DASPU
A aristocrática Daslu
tem agora concorrência
- a grife da Daspu.
Ilegal, desleal, desigual?
Qual nada, acho legal!
A marca das putas
é bem mais democrática...
A empresária da Daspu
contesta o protesto da Daslu:
afinal, pode ou não pode
exercer a criatividade?
Não fede, vai tomar angu
- vocifera a proprietária
da marca Daslu: uma ONG!
E sugere à Daslu adquirir
seus modelitos incrementados
para sair do marasmo:
de longe, clientes mais satisfeitas
com os sonhos turbinados!
Afinal, o traje faz o monge.
4/12/2005, depois de ver a matéria do Fantástico.
“a eficiência e a moralidade costumam andar de mãos dadas”
Richard Posner
I. Pressuposto
Parece que a economia explica tudo.
Homus economicus: ter ou não ter
eis a questão! E por que não?!
II. A tese
Ter um corpo estranho:
nas entranhas contradições
tamanhas aflições dos travestis
estar homem e ser mulher
III. Conclusão
Em vez de problema
- ensinaria Levitt – o travesti seria solução...
se não para si, com com seu dilema
mas no teorema do menor custo.
Liberando e mesmo incentivando
o casamento com travestis
- milagre econômico! –
freamos a bomba demográfica
e economizamos gastos
do Social Security.
..................................................................................................................
COMENTÁRIO:
Segundo a revista VEJA (nº 1931) de 16 de nov. 2005, Steven Levitt, autor do bestseller Freakonomics, “tornou-se um fenômeno desvendando o lado oculto do cotidiano”. Mais importante do que isso: “Steven Levitt presta um serviço ao tirar as ferramentas econômicas dos especialistas e torná-las acessíveis a mais gente”. O insigne Barão de Pindaré Jr mordeu a isca... Entendeu a mensagem do Lewitt quando afirmou à Veja que “as pessoas estão olhando para o lado errado”. Muita gente não sabe que o Barão é estrábico. Quis dar a sua modesta contribuição como pessoa que aplica o senso comum que está na base do raciocínio do professor da Universidade de Chicago. Como o Barão não maneja a estatística, pede a ajuda dos economistas para a demonstração de sua tese. Aliás, no presente raciocínio, o Barão não é a favor nem contra, aliás muito pelo contrario... Usando a mesma lógica estatística do Lewitt, VEJA já vaticionou a possibilidade do autor de Freakomics (desculpem, Freakonomics) vir a ser indicado para o Prêmio Nobel!
Barão de Pindaré Jr. é o heterônimo do poeta Antonio Miranda.
Poema escrito no dia 15 de novembro de 2005.
CAIXA DOIS E METÁSTASE
Poema do Barao de Pindaré Jr. *
Porque sempre foi assim
nao tem por que ser sempre assim.
Acuado pela crise
o Presidente Lula orquestrou
a tese do Caixa Dois
como um vício republicano
- a compra de votos –
trocando o efeito pela causa:
um determinismo político
execrável mas justificável.
Instado a pronunciar-se
depois da queda de ministros e assessores
e de aliados envolvidos com os escândalos
declarou-se surpreso e traído;
afirmou que cortaria da própria carne
se preciso fosse
como a oferecer outro dedo ao sacrifício
- mas nao apontou culpados.
Quando a crise arrefeceu
saturada e alastrada pelos partidos
da base aliada e entre adversários
pelas empresas estatais e fundos de pensao
no escambo e escambau
numa trama tentacular e cancerosa
o Presidente ofereceu cargos
e liberou verbas aos políticos
e admitiu que houve erros
mas nunca-jamais corrupçao
em seu governo
(dizendo ser essa a prática de governos anteriores)
logo aplaudido pelos acusados
e ameaçados de cassaçao de mandatos.
Mas a crise se alastra
subterrânea e sub-reptícia
e os cadáveres saem dos arquivos
para as manchetes dos jornais
na metástase do poder corrompido
nos estertores de um sistema político
falido.
[Ainda sonho com o parlamentarismo
com partidos estáveis, fidelidade partidária
com uma nova Constituinte
com uma verdadeira reforma política!!!]
Agora sao os canalhas
que se tornaram heróis
e saem dos bueiros, das prisoes
das quadrilhas organizadas
para a glória pública
da delaçao premiada.
Barao de Pindaré Jr. é o heterônimo do poeta Antonio Miranda.
Poema escrito no dia 9 outubro de 2005.
VERDADES OFICIAIS
Poema do Barão de Pindaré Júnior*
Todos somos iguais perante a lei
e os direitos constitucionais são para todos
os parentes, os amigos e correligionários.
Todos somos inocentes até prova em contrário
alguns são considerados inocentes
mesmo depois de comprovados
os seus crimes contra o erário público.
Repetimos, para que não reste dúvida:
usufruímos de todos os direitos constitucionais
- tortura, nunca mais!!!
e estamos livres de preconceitos
- quem duvida?!?!
e somos cordiais.
Nossos políticos são mais honestos
nossos banqueiros mais patriotas
e os juristas mais judiciosos.
Nosso céu tem mais estrelas
nossos coqueiros têm mais cocos
nossas galinhas põem mais ovos.
Brasília, 8 de outubro de 2005, depois de refletir sobre a CPI do Mensalão, dos Bingos, do...
e de verificar os gastos de membros do governo com cartões institucionais.
*heterônimo do poeta Antonio Miranda.
MANCHETES DE JORNAL E DERIVAÇÕES
Poema do Barão de Pindaré Júnior*
Cortou o pênis do marido adúltero quando ele dormia.
Costurou a vagina da filha solteira depois da terceira gravidez.
Puseram a mãe falecida no freezer e foram pular Carnaval.
Mata a família e vai surfar nas ondas da Barra.
Bombeiro morre queimado ao salvar maníaco pirotécnico.
Policial e bandido matam juiz que chefiava a quadrilha.
Presidente dá cheque em branco a político desonesto.
Político desconta cheque do Presidente mas já estava bloqueado.
Marido e mulher brigam por causa de amante.
(O amante era do marido mas ela também queria.)
Padre recolhe criança abandonada na igreja.
(DNA revela que era mesmo filho dele.)
* heterônimo de Antonio Miranda: www.antoniomiranda.com.br
Chácara Irecê, 25 de setembro de 2005
A RAZÃO DA SEM-RAZÃO
Poema do Barão de Pindaré Jr.*
Não sei se foi Platão
que suspeitou da razão
e pregou a misantropia.
Se não, quem teria sido?
Certamente foi Sócrates
quem levantou a questão:
de que o raciocínio falha
e às vezes atrapalha.
Confiar nos políticos
e em suas pregações;
acreditar nos profetas
e em seus argumentos...
Decidir com base na lógica
para atingir a felicidade:
pelo luxo do entendimento
de uma verdade da vontade...
O misantropo odeia a razão
e escolhe guiado pelos instintos,
pela intuição, mas ele sabe
que só o ignorante é feliz.
(Chácara Irecê, GO, julho 2005)
* heterônimo de Antonio Miranda.
Poema do Barão de Pindaré Jr.
Esquece o torrão natal
e a tua namorada
- a malfadada lua!
Poupa-nos de tuas auto-flagelações
e de tuas vãs convicções.
Por conseguinte, deixa em paz
tua infância singular
(feita de mesmice e opacidade)
- a poesia está farta de exemplos
de auto-glorificação.
Deixa o confessionário
para a hora do espelho
e a tua letárgica nudez
para o desconcerto dos mais próximos.
(julho 2005)
Barão de Pindaré Jr.
Poema do Barão de Pindaré Jr.
Casamento não une duas metades
num todo indivisível...
nada de cara-metade
complementaridade...
O casamento deve unir
e manter
dois inteiros
dois parceiros
se é para valer
- disse a divorciada na TV.
Barão de Pindaré Jr.
ESTOU LOGADO EM VOCÊS
(i.e. ESTOW LOGADO EM VO6)
Queridas Cybermarias:
Tiro meu fardão e prosódia
despojo-me de toda retórica
fico nu sem a gramática
ao entrar nos orkuts e blogs
com algum constrangimento.
Agora sou Julinho Parrudão
lincado a sites, em chats
e redes de relacionamento.
Naum eh fácil a descontrução
de minha personalidade mas btf
em alguma compensação
jah que naum tow conforme
com meu perfil retrô
- preciso me upgradar!!!
já q ngm m intende
eu preciso me xplik.
Agora sou Julinho Parrudaum
malho e freqüento xops com ctza
e estow ligado em vo6
estou a fim, aham, msm, vlw.
Assinado: ex-Barão de Pindaré Jr.
EXCURSÃO AO LITORAL
Não fosse a poluição sonora
de tantos alto-falantes
todos ao mesmo tempo
- I R R I T A N T E S !!! –
carros-de-som com suas bocas
enervantes, circulantes
tonitruantes, no mesmo espaço
eu gritando gritando gritando
ao pé-do-ouvido
sem ser ouvido...
Não fosse pela voz estridente
e mastigante do cantor (???)
e o mesmíssimo verso insistente
da MESMÍSSIMA música (?!?!)
inclemente, demente...
falando de sexo circunstante
ou seja lá o que for
pois não deu para entender...
Não fosse o ambiente atordoante
de carnaval permanente
entre bafos de cerveja
e o suor transpirante
nesse calor abrasante...
Não fossem as moscas
tão INSISTENTES!!!
sobre o exposto tira-gosto
por isso mesmo: sem gosto...
e aquele cheiro estonteante
dos sovacos no ônibus
ainda presentes...
e essa areia escaldante
sob um sol inclemente.
Não fosse tanta gente feia
e abundante, tanta tanta
tanta farofa repugnante
tanta fritura e tanto lixo
e tanta buzina na estrada...
Não fosse tão congestionada
esta praia tão distante...
Não fossem os preços
ESCORCHANTES!!!
e o serviço incompetente
até dava para encarar...
Ir de excursão é muito bom
voltar pra casa é ainda melhor...
Barão de Pindaré Jr.
O POETA ANTROPOFÁLICO
Um poeta amigo meu
só fala do que é seu.
Sintomaticamente,
considera-se um Perseu.
Hedonista, machista
sem crenças e esperanças.
Diz-se amado e desejado
por todas as mulheres!
Escreve com o corpo
e só ama na cama.
Leitor de Sade e Bocage,
só que literalmente.
Escreve com o lápis-pênis,
o poeta antropofálico.
Sente mais prazer
em contar que em praticar...
- se é que sente
ou se mente pra valer...
Dorme nu em pêlo
refletindo-se em espelhos;
rumina gozos futuros
e passados, em constante pesadelo.
Sexo e nexo
em seu maniqueísmo enfadado:
sonha sendo devorado
por vaginas com dentes...
Barão de Pindaré Jr.
O Conde de Affonso Celso louvou
sem modéstia e sem medida
as grandezas do Brasil
sem considerar as mazelas.
A superioridade territorial
é mesmo proverbial:
Canadá, Estados Unidos
Rússia e China
-uns ricos, outros pobres-
não o são por dimensão
se menos pela enormidade
muito menos pela densidade
da população.
Não há país mais belo que o Brasil
mesmo sendo “inculto e selvagem”
“faz vantagem nos campos elísios,
hortos pênseis e ilha de Atlanta”
disse o jesuíta Simão de Vasconcelos
comparando o sim com o não
ou então, apelando ao Rocha Pitta:
“em cuja superfície tudo são
montanhas e costas tudo são aromas”
“em cuja superfície tudo são frutas
em cujo centro tudo são tesouros”
as águas as mais puras
salubérrimo o ar
onde sempre é verão.
“Nosso céu tem mais estrelas
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores”
(Gonçalves Dias)
Tais primores, incontáveis, indizíveis
mundo de aprazíveis excelsitudes
garante o patriota Celso, tudo
sempre o maior do mundo!
A começar pelo Amazonas
(que só é batizado em território nacional)
e culminando no Corcovado
com “panorama surpreendente, único”
e não poderia ser diferente....
Minas de ouro e jazidas diamantinas
“um imenso escrínio de gemas”
“até a poeira dos caminhos é aurífera”
sem falar de riquezas naturais
e dos valores sobrenaturais
e mais e mais!
Nunca foi vencido, jamais foi humilhado!
Expulsou franceses, batavos e ingleses
sempre garrido, em peito inflado.
Em resumo, tudo nos favoreceu
e nada nos ameaça
nem vulcões, nem terremotos
temos jaça, temos raça
(e agora, até taça!)
sem preconceitos, privilegiados.
“Há, pois, em ser brasileiro,
o gozo de um benefício”
uma vantagem
“uma superioridade”
e “nenhum perigo inevitável
ameaça o desenvolvimento
do Brasil”.
Exceção ao malefício
dos maus governos
e fraqueza das instituições
republicanas.
Mas Deus “não nos abandonará”
garante o Conde, e nos
“reserva alevantados destinos”
- quando e onde? “Confiemos”.
Barão de Pindaré Jr.
Solano López usava
a Bandeira Imperial brasileira
como tapete
(uma afronta!)
-hoje, repatriada, virou relíquia
no Museu Histórico Nacional.
A Guerra do Paraguai
seria uma infâmia
contraposta à insânia de sua deflagração.
A História é mesmo dos vencedores
carregando em seu andores
ardores de sublimação transfigurada
- pátria amada idolatrada!!!-
na coleção do Museu
na memória pública
do interesse privado.
Havendo erro de cada lado
o que resta
é a Bandeira reconquistada
se é que ela presta
se não fora fabricada lá mesmo
ou importada.
Tanto faz...
livre da afronta e do insulto
jaz a nossa bandeira imperial
depositada para seu culto
-e valha tanta besteira!-
já que a História
não é só feita de glória.
Barão de Pindaré Jr.
Eleito e reeleito, Chico Fossa, sergipano
-bem podia ser capixaba ou baiano,
antes fosse paraense ou rondonense-
tem muitos filhos entre os tantos eleitores
filhos de muitas mulheres, tantos afilhados
-tantos!- nem se lembra mais deles:
sobrinhos, apadrinhados, cabos eleitorais
e tantos outros mais, tanto faz.
Chico Fossa é um fenômeno eleitoral:
quanto menos fala, mais claro seu discurso
quanto mais fala – lugares-comuns, cacoetes-
menos diz, menos afirma, mais se deduz
e ele sempre seduz com seus falsetes:
Chico Madeira, Chico Seresta, Chico Só
dá nó em pingo d´água, sem eira nem beira
militando sempre à esquerda da esquerda.
Barão de Pindaré Jr.
-
1. SEQÜESTRO
Se você for seqüestrado
vá de bom grado
é melhor do que viver
abandonado.
Atrase ao máximo o pagamento
de suas dívidas.
Se você morrer antes, sem dúvida
vai economizar um bom dinheiro.
Deixa de ansiedade
não apresse o tempo
melhor seria retardá-lo
entendeu?
Não invoque Deus
a qualquer pretexto
não congestione a fila
que Ele agradece.
Barão de Pindaré Jr.
Um helicóptero pousa na Praça dos 3 Poderes.
Não é um helicóptero, é um pterodátilo
ou um fusca com asas.
São agora muitos helicópteros
ou seriam bicicletas voadoras
como mariposas assanhadas
- é dia cívico
e o Presidente vai ao púlpito
mas é o Porta-Voz que vocifera.
Mais helicópteros pairando
sobre as torres gêmeas do Congresso Nacional
e cai uma chuva de guaraná
sobre a passeata dos desempregados
- chuva de pregos, de notas promissórias
como confetes para as massas atônitas.
Ministros revezam-se nas cadeiras
e um deles vai deixar o cargo
vai ser transformado em pterodátilo
enviado por sedex para a Favela da Rocinha
com os projetos e relatórios que o Presidente não leu.
Mandam junto, para baratear os custos
os Anais do Congresso e a Carta de Caminha.
Uma vaca suicida despenca da janela
do Supremo Tribunal, enquanto
vampiros espreitam dos ministérios
(engastados em prebendas e sinecuras)
depósitos de sangue e fundos de pensão.
Do púlpito, o porta-voz
canta o Hino Nacional em esperanto
um sindicalista faz reivindicações reiterativas
um diplomata brasileiro pensa em inglês
e blasfema em francês
para o gáudio de jornalistas oficiais
que produzem releases em chinês
enquanto desfila um batalhão engalanado
e descem a rampa do Planalto
os lobistas, os assessores especiais
as delegações nordestinas, um marqueteiro
e o que sobrou de um grupo de pagode.
O público, faminto, ovaciona.
Barão de Pindaré Jr.
PAÍS INCONCLUSO
“Já desisto de lavrar
este país inconcluso
de rios informulados
e geografia perplexa.”
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
I
Eu, nem tanto.
É uma lavra complexa
em terras sediciosas
e arbitrárias.
No entanto,
sedutoras.
Capitanias hereditárias
(promissoras!)
atávicas, refratárias
à transformação
senão pela ação
contestatária.
Que assim seja!
Pela lavra reflexa
da palavra incidente
sobre o país obtuso
e demente.
Com bisturis e acicate
na visão de gabinete
em versos brancos
verdes e amarelos.
Haja ira e ironia!
II
Brasil que o poeta
percebe envergonhado
de paletó e gravata
numa leitura de enfado.
Uma geografia perplexa
de estados maiores
e províncias menores
numa política
de supremacias
e inferioridades
sob o disfarce
federativo.
Depois da Guerra, alçado
aos seus questionamentos.
Depois de Getúlio Vargas
e antes do mesmo Getúlio.
Claros enigmas, eleições:
pretensas mudanças
informuladas, atadas
a estruturas pensas
a conchavos subterrâneos
a acordos de aparência
sujeitos às fraturas
de qualquer dissidência.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Rosa do Povo, cancerosa
em que o poeta
protesta mas desanima
assina o livro-de-ponto
depois
aperta o detonador
do poema
e desperta
as consciências
na penumbra surda
das massas, no aconchego
das musas.
Barão de Pindaré Jr.
PARTIDOS-REPARTIDOS
O Positivismo era a unanimidade
entre civis e militares
no Império do Brasil
mas eles estavam divididos
e aguerridos
(quando não estavam mancomunados).
No regime monárquico
(democrático e escravagista!)
o Imperador era supra-partidário
com posições libérrimas
em seu poder arbitrário
sobre as disputas acérrimas
entre conservadores e liberais
entre generais e civis.
Depois das fronteiras defendidas
definidas e pacificadas
as espadas, enfim, ensarilhadas
vem a malfadada “questão militar”
-a politização dos quartéis:
um Exército deliberante
polemizando pela imprensa
em tom beligerante.
O Abolicionismo dos conservadores
tinha a oposição dos liberais...
Havia vanguardas cautelosas
e conservadores sediciosos...
e o paradoxo nada trivial
do conservador liberal...
e muita propaganda republicana
entre os descontentes fardados.
Liberais defendendo ideais
republicanos
e republicanos
exaltando reivindicações liberais.
Nada mais conservador do que um liberal
mais monarquista do que um republicano!
A alforria dos escravos
(sem a pretendida indenização...)
uniu os ressentidos
de todos os partidos.
Liberais estrategicamente conservadores.
Conservadores tacitamente republicanos
políticos compondo e trocando
posições e funções nos gabinetes.
Crises, cisões, alas, facções
fusões entre contrários
adversários nos próprios partidos
correligionários fazendo oposição.
Com a Proclamação da República
(um ato heróico, de madrugada)
houve então a debandada:
conservadores e liberais
tornaram-se todos republicanos
(mantendo títulos de nobreza)
em novos grupos contrapostos
em dissidências figadais.
Cada partido em seu trono
com seu líder ou seu dono
seu reduto eleitoral
seu mandatário.
Assim o quadro partidário:
ninguém da Direita
todo mundo da Esquerda
“aliás, muito pelo contrário”.
Barão de Pindaré Jr.
A MULHER DO BARÃO
Ela é mesmo ideal:
linda, mais que linda,
gostosa, mais que gostosa
e prendada
- cozinha, lava, borda –
e ama como uma cadela
no cio.
Nada de brio
no seu relacionamento:
é feita para o momento
e mais e mais e mais!!!
Jamais está mal-humorada
nada de demanda, nem se queixa
- até parece uma geisha ! –
está sempre conformada
com o que tem.
E, no entanto, como diz
um canalha amigo meu:
eu tanto me esforço!
dou tudo que ela quer
mas não é mole!!!
Limpa, é econômica, ingênua
pois bem, com a vantagem
de também ser burra.
- Se ela fosse inteligente,
não ia gostar da gente.
Barão de Pindaré Jr.
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