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AUGUSTO DE CAMPOS
(1931- )




Comentário de Jayro Luna

Doutor em Literatura Portuguesa (USP)

A chamada poesia de vanguarda, nome genérico para uma gama de correntes e tendências poéticas surgidas notadamente a partir da década de 50, das quais sem dúvida, das mais importantes, pelo caráter original e instauradora de uma prática renovadora da produção poética.é a poesia concreta.

Colocando como novo limite da poesia, não mais a linearidade do verso, mas o espaço bidimensional da página, e que depois, passa a ser explorado inclusive em perspectiva, passando para a ilusão da tridimensionalidade, a poesia concreta abria um leque de possibilida­des criativas que trouxe muita empolgação nos anos 60.   Com o conceito de verbivocovisualidade os concretos busca­vam definir sinteticamente as possibilidades da palavra neste tipo de poesia. Além da palavra enquanto signo oral e escrito, cores, formas e o próprio espaço eram elementos de composição. Por outro lado, idéias advindas da teoria da informação e da comunicação tiveram ampla acolhida na Teoria da Poesia Concreta.

No caso, específico da estocástica, isto é, do conceito de probabilidades estatísticas, um bom exemplo é o poema "Acaso" de Augusto de Campos, de 1963.   Haroldo de Campos, a respeito desse poema observa que:   "O poema 'acaso' (1963) de Augusto de Campos, fundado nas possíveis permutações de letras dessa palavra, a qual, como que por acaso, só é legível uma vez em todo o texto, e esse acaso, perdido no aparente anonimato de seqüências de letras privadas (ou quase) de semântica (digo 'quase' porque numa delas, por exemplo, se  pode reconhecer a palavras caos ... ), é que constitui a informação estética, poema." (CAMPOS, Haroldo de. A Arte no Horizonte do Provável, p.31).

 

O referido poema de Augusto de Campos, utiliza 60 combina­ções possíveís entre as cínco letras de acaso, dividídos em grupos de 6 combinações cada. A relação entre o significado da palavra "acaso" e o poema é evidente.

   

Extraído de LUNA, Jayro.  Caderno de Anotações. Belo Horizonte/São Paulo: Signos/Editora Oporetuno, 2005. p. 77-80.

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TENSÃO 

Este poema é, como afirma Charles Perrone, “uma teia de elos sonoros e semânticos meticulosamente construída” (*)”Ten-são” é o tema que se expande. “Tem” em forma  de cruz para cima (“tem”), para um lado (“tem”), para o outro (“tam”) e para baixo (“tom”). “São” o faz em diagonal “som”  e “sem som” . Os elementos que sobram formam um triângulo: “con”, ”com” e “can”- e uma diagonal: “bem”, “bem”. Todos estão a uma mesma distância do centro que é um nó em tensão. Segundo os princípios das palavras, há quatro grupos (“t”, “s”, “k” e “b”, mas há somente um se considerarmos as letras finais (todas estão enlaçadas pela nasalização). Assim como Augusto de Campos extrai quantidade de possibilidades do visual das palavras, também aproveita sua sonoridade, indo do “com som” ao “sem som” e extraindo valor onomatopaico das sílabas. Ao fazer um percurso clássico do olhar – da direita à esquerda -, vê-se que o poema é a tensão entre o silêncio: do “com som” ao “sem som”.

Extraído de AGUILAR, Gonzalo.  Poesia concreta brasileira: as vanguardas na encruzilhada modernista.  Sâo Paulo: Edusp, 200-5.  P. 197.

 

O texto original explica que o poema foi composto por Augusto de Campos em sua fase “matemática” em que há o uso intencional das leis gestálticas (explicadas à página 196 da op. cit), “segundo o modelo regular que dispõe os signos em uma quadrícula”.

(*) PERRONE, Charles. Seven faces (Brazilian Poetry sice Modernism). Durham;London: Duke University Press, 1996.

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sol  de maiakovski”, uma “intradução” de Augusto de Campos, termo usado pelo poeta-tradutor para uma criação a partir da tradução... [“A palavra joga com “tradução”, “introdução”, o prefixo “in” (este “in”, que se opõe ao “ex”, é a interioridade do poema, de todos os poemas inventivos ou radicais com os quais os poetas concretos se sentem identificados a partir dos critérios de inovação), e também o termo “intra”, que marca o caráter textual e autonomaizador da operação”. Gonzalo Aguilar, op. cit. p. 282

O poema em questão recoloca o verso  na criação do poeta, embora mantenha a idéia da quadrícula, da geometrização do poema.  Aguilar informa, acredito que equivocadamente, que “Os versos de Maiakóvski combinam-se aqui com versos de canções de Caetano Veloso (“gente é pra briilhar”) e de Roberto Carlos (“que tudo mais vá pro inferno”). Em verdade, “gente é pra brilhar,/ que tudo mais vá pro inferno”  são versos do próprio Maiakóvski, de 1920, do longo e famoso poema “ A Extraordinária Aventura Vivida Por Vladmir Maiakóvski no Verão na Datcha”, em tradução feita pelo próprio Augusto de Campo; não são versos de Caetano e Roberto Carlos, que simplesmente teriam se apropriado dos mesmos, “intertextualmente” em suas famosas canções. De tão difundidas, passaram a ser atribuídas a eles e não ao verdadeiro autor e tradutor...

Vale ainda ressaltar que a palavra “tudo” aparece em realce, no centro da composição.Antonio Miranda

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Poema de Augusto de Campos, da série “poetamenos” (texto previsto para duas vozes-cores, masculina e femina).


Extraídos do livro TEORIA DA POESIA CONCRETA: textos críticos e manifestos 19501960,  de autoria de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2006.

Página ampliada e republicada em abril e,uma vez mais, em outubro de 2008.


 


 

 

 
 
 
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