Coordination de ARICY CURVELLO
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Poemas traduzidos ao Francês, retirados do livro: “La Rose du Peuple: la poésie de Carlos Drummond de Andrade”, de Dionysio Toledo, Wander Melo Miranda, Celso Libânio (coordenadores). Belo Horizonte: Edições Margens/Márgenes; Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, 2005, 1a. e única edição. Com apoio da Faculdad de Humanidades/Universidad Nacional de Mar del Plata (Argentina); Facultad de Filosofia y Letras/ Universidad de Buenos Aires (Argentina); Universidade Federal da Bahia (Brasil); Dipartimento di Studi Filologici, Linguistici e Letterari/ Università degli Studi di Roma Tor Vergata, Roma (Itália).
EM PORTUGUÊS / EN FRANÇAIS
Os mortos de sobrecasaca
Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.
Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas.
Oficina irritada
Eu quero escrever um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.
Quero que o meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.
Este meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.
Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.
Documentário
No Hotel dos Viajantes se hospeda
incógnito.
Já não é ele, é um mais-tarde
sem direito de usar a semelhança.
Não sai para rever , sai para ver
o tempo futuro
que secou as esponjeiras
e ergueu pirâmides de ferro em pó
onde uma serra, um clã, um menino,
literalmente desapareceram
e surgem equipamentos eletrônicos.
Está filmando
seu depois.
O perfil de pedra
sem eco.
Os sobrados sem linguagem.
O pensamento descarnado.
A nova humanidade deslizando
isenta de raízes.
Entre códigos vindouros
a nebulosa de letras
indecifráveis nas escolas:
seu nome familiar
é um chiar de rato
sem paiol
na nitidez do cenário
solunar.
Tudo registra em preto-e-branco
afasta o adjetivo da cor
a cançoneta da memória
o enternecimento disponível na maleta.
A câmera
olha muito olha mais
e capta
a inexistência abismal
definitiva/infinita.
Poesia
Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever,
no entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
Inunda minha vida inteira.
POEMA QUE ACONTECEU
Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.
A mão que escreve este poema
não sabe que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.
SEGREDO
A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance de nosso corpo.
E´ a revolução? o amor?
Não diga nada.
Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.
EN FRANÇAIS
Les morts en redingote
(Trad. Ilda Mendes dos Santos)
Il y avait dans un coin du salon un album de photographies insupportables,
haut de plusieurs mètres et agé de minutes infinies,
sur lequel tous se penchaient
dans la joie de se moquer des morts en rendigote.
Un vers a commencé a ronger les rendigotes indifférentes
et il a rongé les pages, les dédicaces et même la poussière des portraits.
Une seule chose il n’a pu ronger, l’ immortel sanglot de vie qui jaillissait
qui jaillissait de ces pages.
Chantier irrité
( Trad. Ilda Mendes dos Santos)
Je veux composer um sonnet dur
comme jamais um poète n’oserait l’ écrire.
Je veux peindre um sonnet obscur,
séc, etouffé, difficile à lire,
Je veux que mon sonnet, à l’ avenir,
n’ éveille en personne aucun plaisir.
Et que, dans son air méchant, immature,
il sache en même temps, être, ne pas être.
Mon verbe antipathique et impur
doit piquer au vif, doit faire souffrir,
tendon de Vénus sous le pédicure,
Personne ne s’en souviendra: tir sur le mur,
chien pissant dans le chaos, tandis qu’ Arcturus,
clair énigme, se laisse découvrir.
Documentaire
(Trad. Anne-Marie Quint)
C’est à l’ Hôtel des Voyageurs qu’il va loger
incognito.
C’est n’est plus lui, , c’est un plus-tard
privé du droit d’utiliser sa ressemblance.
Il ne sort pas pour revoir, il sort pour voir
le temps futur
qui a desséché les acacias
et a élevé des pyramides de fer en poudre
là où une montagne, un clan, un enfant,
ont littéralement disparu
et où surgissent des equipments électroniques.
Il est en train de filmer
son après.
Le profil de la pierre
sans écho.
Les grandes demeures sans langage.
La pensée décharnée.
La nouvelle humanité qui glisse
libre de racines.
Parmi les codes à venir
la nébuleuse de lettres
indéchiffrables dans les écoles:
son nom familier
est un cri de souris
sans cave
dans la netteté du décor
sous-lunaire.
Il enregistre tout en noir et blanc
il écarte l’adjectif de couleur
la chansonnette de la mémoire
l’attendrissement disponible dans sa valise.
La caméra
regarde bien regarde encore
et capte
l’inexistence abyssale
déffinitive/infinie.
POÈME QUI EST ARRIVÉ
(Trad. Ilma Mendes dos Santos)
Nul désir en ce dimanche
nul problème en cette vie
le monde s’est arreté soudain
les hommes sont restés silencieux
dimanche sans commencement ni fin.
La main qui écrit ce poème
ne sait pas ce qu’elle écrit
mais il est possible qu’elle s’en moquerait
si elle le savait.
POÉSIE
(Trad. Ilda Mendes dos Santos)
J’ ai passé une heure à penser à un vers
Que ma plume n’a pas voulu écrire.
Pourtant, il est là-dedans
et ne veux pas sortir.
Mais la poésie de ce moment
inonde ma vie tout entière.
SECRET
(Trad. Ilma Mendes dos Santos)
La poésie est incommunicable.
Reste tort dan ton coin.
N’ aime pas.
J’ entends dire qu’il y a une fusillade
à la portée de notre corps.
Est-ce la révolution? l’ amour?
Ne dis rien.
Tout est possible, moi seul impossible.
La mer déborde de poissons.
Il y a des hommes qui marchent dans la mer
comme s’ils marchaient dans la rue.
Ne reconte pas.
Suppose qu’ un ange de feu
ait balayé la face de la terre
et que les hommes sacrifiés
aient demandé pardon.
Ne demande rien.
Página publicada em setembro de 2008
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