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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte:

http://www.fundaj.gov.br/docs/mauro/mauro.htm

 

 

MAURO MOTA

(1912-1984)

 

 

Mauro Ramos da Mota e Albuquerque nasceu no Recife, Pernambuco, Brasil. Jornalista desde o tempo de estudante. Hoje editorialista do~ "Diário de Pernambuco"; Catedrático do' Instituto de Educação de Pernambuco. Publicou: Poesia: Elegias, 1952; A Tecelã, 1956; ps Epitáfios, 1959; O Galo e o Catavento, 1962; Canto ao Meio; 1964. ,Prosa: Cajueiro Nordestino, 1954; Paisagem das Sêcas, 1958; Capitão de Fandango, 1960; Geografia Literária, 1961; Imagens do Nordeste, 1961; Terra e Gente, 1963, O Pátio vermelho: crônica de uma pensão de estudantes (1968, crônica); Poemas inéditos, 1970; Itinerário, 1975; Pernambucânia ou cantos da comarca e da memória, 1979; Pemambucânia dois (1980); Mauro Mota, poesia (2001), Antologia poética, 1968; Antologia em verso e prosa, 1982.

 

Em 1955, tornou-se catedrático, por concurso, de Geografia do Brasil, no Instituto de educação de Pernambuco. Apresentou a tese "0 Cajueiro Nordestino". Em 15 de março de 1556 foi nomeado pelo Presidente da República Juscelino Kubitschek para o cargo de Diretor a Executivo do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, órgão do Ministério da Educação e Cultura, permanecendo até 1970.

 

 

O COMPANHEIRO

Quero deixar-me longe. Separar-me
de mim. Abandonar-me. Ser-me estranho.
Parto, mas, onde chego, me reencontro.
Despeço-me de novo e me acompanho.

CANÇÃO

Para onde fui? Ou essa
música de onde veio?
Uma flauta divide
a noite pelo meio.

 

 

O CÃO

 

         A Edson Nery da Fonseca

 

É um cão negro. É talvez o próprio Cão

assombrado e fazendo assombração.

Estraçalha o silêncio com seus uivos.

A espada ígnea do olhar na  escuridão

 

separa a noite, abre um canal no escuro.

Cão da Constelação do Grande Cão,

tombado no quintal, espreita o pulo:

duendes, fantasmas de ladrão no muro.

 

o latido ancestral liberta a fome

de tempo, e o cão, presa  do faro, come

o medo e atreva. Agita-se, devora

 

sua ração de cor. Pois, louco e uivante,

lambe os pontos cardeais, morde o levante

e bebe o sangue matinal da aurora.

        

         De Os Epitáfios. Rio de Janeiro:Livraria José Olympio Editora, 1959.  

 

 

ELEGIA N.o 1

 

Vejo-te morta. As brancas mãos pendentes.

­Delas agora, sem querer, libertas

a alma dos gestos e, dos lábios quentes

ainda, as frases pensadas só em certas

 

tardes perdidas. Sob as entreabertas

pálpebras, sinto, em teu olhar presentes,

mundos de imagens que, às regiões desertas

da morte, levarás, que a morte sentes

 

fria diante de todos os apelos.

Vejo-te morta. Viva, a cabeleira,

teus cabelos voando! ah! teus cabelos!

 

Gesto de desespero e despedida,

para ficares de qualquer maneira

pelos fios castanhos presa à vida.

 

         De Elegias.  Edição Jornal de Rio, 1952  

 

 

0 BOI DE BARRO

 

         A Abelardo Rodrigues

 

Andando em muitos sapatos

e jamais nas suas patas,

entre enormes chifres curvos

sente-se (o  boi) entre aspas.

 

É um boi verde vidrado

acuado em cima da estante.

É um boi desenterrado

telúrico e ruminante.

 

Quem o desenterrou foi

Abelardo em Tracunhaém.

No barro da beira-rio

estava escondido o boi

 

desgarrado do rebanho.

Feito do gado anterior,

de estrume e de capim seco,

é este boi ruminador.

 

Estava desfeito ou feito?

No ato da exumação,

apareceram sangrantes

as feridas do aguilhão,

 

da corda e do pau da canga,

da asfixia do cambão,

do ferro em brasa nas ancas,

da chaga da castração.

 

As quatro rodas chiadeiras

do carro que já puxara

rodaram sobre o esqueleto,

fizeram sulcos na cara.

 

A semente vacum dentro

do chão mole do curral.

O boi vegetariano,

vegetal e mineral,

 

comeu do pasto e foi pasto,

misturou-se com o chão

para nascer no roçado,

oculto na plantação,

 

dando marradas no vento

da várzea pernambucana,

esse boi de chifres doces,

chifres de cana-caiana.

 

Toca o chocalho. O mugido

do boi de barro enche a sala.

(Cresce a grama no tapete.)

Pego no boi, ele racha.

 

          De Os Epitáfio.  Rio de Janeiro:Livraria José Olympio Editora, 1959 

 

APARIÇÃO DE 1900

O vulto jovem, longe, longilíneo.
Partida no meio a cabeleira preta.
A barba passa-piolho, as abas do
fraque no hemistíquio do soneto.

Conversa na varanda do sobrado,
pince-nez, cravo na lapela, junto
da moça de marrafa no cocó.

(O piano, chocolate, chá, café),
pastéis de nata, ameixas de Bordeaux,
a louça brasonada, o pão-de-ló.

Roda pelo arrebalde o cabriolé.

Boa noite, Maria, e o poeta volta
ao domicílio do álbum e do silêncio.


DECLARAÇÃO DE BENS DE FAMÍLIA

Cadeiras e sofás, consolo e jarra,
camas e bules, redes e bacias,
a caixa de charão, o guarda-louça,
tetéias, mesa, aparador, fruteira,

a cesta de costura, o papagaio,
a cafeteira, o cromo da parede,
o jogo de gamão, as urupemas,
o álbum, o espelho, o candeeiro belga,

alguidares, baús de roupa, esteiras
de pipiri, a tábua do engomado,
pilão de milho, o tempo do relógio,

quartilhas, almanaques, tamboretes,
o santo da família, a lamparina,
o carneiro de Belém e o seu balido.
               (De Itinerário, 1975).

 

Página ampliada e republicada em setembro de 2008



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