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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


MYRIAM FRAGA 

Escritora, poeta, jornalista e biógrafa. Tem 20 livros publicados, entre poesia e prosa. Pertence à Academia de Letras da Bahia e ao Conselho de Cultura do Estado. Participou de várias Antologias no Brasil e exterior, tendo poemas traduzidos para o inglês, francês e alemão. Entre suas recentes publicações: Sesmaria e Femina (poesia), Jorge Amado, Castro Alves, Luis Gama e Carybé (literatura infantil), Leonídia – a musa infeliz do poeta Castro Alves (biografia). É diretora da Casa de Jorge Amado, em Salvador, Bahia, Brasil.

“A poesia de Myriam Fraga insere-se nesta vertente que não apela para o tom confessional do sujeito que canta. Poesia de grande força expressiva, épica e dramática, configura um que se coloca em constante estado de alerta para colher e acolher os resíduos de acontecimentos que constituem a história coletiva através d de seus personagens e seus mitos. “ (...) “E, nesta perspectiva, o tempo e a memória constituem importantes vertentes da poesia desta autora, transformando-se em uma temática que perpassa os vários poemas: Guardo a memória / Do mundo / E amadureço / Intemporal e etérea /No que teço.” EVELINA HOISEL

TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL

Veja também>>> POÈMES EN FRANÇAIS

POEMS IN PORTUGUESE AND ENGLISH

 

De
Myriam Fraga
OS DEUSES LARES
Monotipias de Calasans Neto.
Salvador: Edições Macunaíma / Artes Gráficas, 1991.
formato 29x21 cm. Não informa sobre o número de exemplares da tiragem,
nem dá outras informações sobre a edição.

 

2

De que serve a memória
— fuso e roca —
farta de prodígios,
tinjo e lavo
o fio das meadas,
o fio desta vida

lavo com água e
mornos sais
                 o corpo
e enquanto afagas
tua remota cicatriz
tuas
chagas enigmáticas,
heroicos feitos, falos
eu refaço
            as feridas
minhas — doces talhos
de incruentas batalhas.         

 

Poemas extraídos de O ESCRITOR – Revista da UBE – União Brasileira de Escritores, n. 116, agosto de 2007, cujo editor é o poeta Izacyl Guimarães Ferreira.

 

 

CARNIVALE

 

Porque a carne

É a carne

E tudo mais é fraco

A vida se renova

A cada novo acaso.

 

Será mesmo a alegria

O gole mais amargo

De um Pierrot que a si mesmo

Reconhece palhaço?

 

Ó espelho. Ó espelho,

Cada dias mais baço,

Que alvo contorno é este,

Que disfarce

Afasta deste rosto

O ríctus de cansaço?

 

Nas se é apenas um rito,

Se é apenas passagem,

Um frenesi, um espasmo,

Um galope de cascos,

Rutilantes, no asfalto.

 

E ao estridente soar

Das guitarras em pânico,

O tempo se desdobra

Em mil estilhaços

Fragmentos de nada...

 

Ó Deusa Carnivale,

Embala nos teus braços

A alegria dos tristes,

Este embaraço

Do sorriso que se perde

Em carmim e alvaiade.

 

No rescaldo da festa

Recolhe os pedaços

Deste deus que é delírio

Mas que é também fracasso

 

Breve

Todo ardor será cinza

Somente a enigmática

Face nos espelhos

Recompondo o disfarce.

 

 CHUVA 

Reminiscências

A inquietar

Como a chuva nos vidros.

 

Sol que avança,

Inexorável,

O tempo, com suas marcas,

 

Sua umidade em rios,

Dissolvendo a paisagem,

 

Seu mofo, sua

Insidiosa presença

Escorrendo da tarde.

 

Um gotejar sinistro,

O salitre

Infiltra-se nas frestas

Reacendendo feridas.

 

Ó coração,

Não te atormentes,

Não te levantes contra mim,

Esquece.

 

 

Fêmina.  Salvador: FCJSA; Copene, 1996. p. 109)

 

 

VIAGEM A MARROCOS

 

         Para Zélia e Jorge Amado

 

Na cara o vento sul

— Ou será o simum?

O balançar ondeado

Dos camelos.

 

Fez, Rabat e Casablanca,

Terracota sutil de Marrakesh,

A cristalina fonte

Em meio à pedra.

 

Azilah, tuas sílabas

Adejam como aves,

Como asas roçando

Em minha face.

 

O meu deus é ninguém,

Morreu menino e é doce

Como um fruto,

Como as águas de Oxum

Lavando-me as feridas.

 

Guarda para mim,

Azilah,

Tuas tâmaras mais doces,

Mais secretas...

 

Um minarete escreve

Linhas tortas

No canto que se enrola

Pela tarde.

 

Como um risco de giz

Meu caminho é um círculo,

As caravanas passam...

 

No regaço

O cão, morto, não ladra.

 

 

Fêmina.  Salvador: FCJSA; Copene, 1996. p. 121-122)


De
POESIA REUNIDA
Salvador: Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, 2008. 496 p.
ISBN 978-85-7196-088-6

Ressaca

A ressaca é como vinho
Passada a embriaguês
Resta um co(r)po vazio

 

Corpo

O corpo,
Esta ilusáo, 

A transparência
Onde o tempo se inscreve, 

A esculpida
Relembrança
— o não vivido. 

O corpo,
Este completo desfrutar-se,
Onda, peixe, sereia,
De barbatanas selvagens
Como facas. 

Corpo — o corpo,
Território do nunca,
Inigualável
País do meu espanto. 

De todos os espantos.
(des)encontros, naufrágios,
Precipícios. 

Pássaro-fêmea, carne
Colada em moldura,
Pele, poro.

 

De
Myriam Fraga
Sete poemas, de amor e desespero,
de Maria de Póvoas, também chamada
Maria dos Povos, à partida do poeta
Gregório de Mattos para o degredo em Angola.
Salvador: Edições Macunaima, 1995.  Formato 30x11 cm

 

 

 

III

 

Maria de Póvoas,

Maria dos Povos,

Maria, alma ardente

E as mãos tão vazias...

 

Que vida enganosa

A tua, Maria,

Tecendo as esperas,

Somando as partilhas,

O sexo em chamas

E a fala macia.

 

Maria... a cinza na testa,

A oração na madrugada,

Maria, um lobo na espreita,

Um verso como cilada,

O amor é como veneno,

Como sombra na calçada,

 

Assombração que faz medo,

Maria, é só um poeta

Caminhando pela estrada

E a noite esconde o segredo

De tua pele alvoroçada,

De tua língua, de seus dedos.

 

Somente um poeta

E a chama

Que te confunde e reclama

 

O ontem já tão distante...

Tantos dias, longos anos,

Maria, tanto abandono,

Somente o vento nas folhas

E no peito... desenganos.

 

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SESMARIA

De

MYRIAM FRAGA
SESMARIA
Gravuras de Calazans Neto
Salvador:  Edições Macunaima, 2000

 

O SOCORRO

O vento trouxe a notícia
Na corcova.

Dromedário do silêncio,
O vento,
Mensageiro de inventos.

O cristal da mensagem
É um búzio oco
Onde assenta o milagre.

Flauta que se desdobra
Ao ansioso sopro
Da espera.

A fúria explode em velas
Do outro lado
Do deserto-oceano.
Rompe o muro,
Meridiano azul que nos separa
Do sibilante recado.

O vento,
Tração de animal louco
Pelo mar,
Trouxe a esperança
Nos cascos,

Trouxe o grito
De guerra
E o pressentido sinal.

Coagulado nos poros
Do vazio, o alarme,
Súbitas letras de sal
Na tarde.

 

De
Myriam Fraga
A LENDA DO PÁSSARO
QUE ROUBOU O FOGO

Ilustrações: Calasans Neto
Salvador: Edições Macunaíma, 1983. s.p.

Formato  xxx  A edição, de 2000 exs, inclui
um disco LP em separado, com poemas de
Myriam Fraga musicalizados por Carlos Pita..


UMA ESTÓRIA SEM NOME

Esta estória não tem nome,
Esta estória não tem jeito,
É só um risco no escuro
É só o traço do açoite.

Este canto é como o sangue
Navegando nos meus longes,
Sou eu o Pássaro, o alcance
Do gesto além do horizonte.

Busco o fogo, busco a chama
Para além do meu cansaço

O que busco é só o começo
Sua imagem,
Sua exata partitura,
E o salto além da voragem.

Onde vou vai o meu pássaro.

 

O FEITICEIRO CEGO

O feiticeiro cego, o xamã,
O sábio decifrador do búzios,
O pajé, o agoureiro
Adivinho das vísceras,
O que sabe o segredo das ervas,
O relicário
Dos últimos venenos.

Este.  O que move a roda escura
Dos dias.  Dos teus dias.

Este. O do vinho. O profundo
Silente.  O que te deu a asa
E o poderoso destino de subir
Aos mais altos sendeiros.

O que te deu o poder
Do fero bico adunco
E à leveza das asas.
E as garras.  As garras.

O que te deu o voo
E o destino de pássaro.

 

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Extraídos de
ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA
Org. y traducción de Xosé Lois García
Santiago de Compostela: Edición Loiovento, 2001.

 

ELEGIA N. 8

PENÉLOPE

Hoje desfiz o último ponto,
A trama do bordado.

No palácio deserto ladra
o cão.

Um sibilo de flechas
devolve-me o passado.

Com os olhos da memória
Vejo o arco
Que se encurva,
A força que o distende.

Reconheço no silêncio
A paz que me faltava,
(No mármore da entrada
Agonizam os pretendentes).

O ciclo está completo
a espera acabada.

Quando Ulisses chegar
A sopa estará fria.

 

ABRIL

Escrevo de memória.
A infância é um bolo
Na garganta
E a dor de dividir-se
Nos espelhos.

Que foi feito de mim,
Daquela estória
Que eu me contei um dia
E que perdi?

Escrevo sempre à noite;
Pela manhã apago
E recomeço.

É tão difícil viver,
É tão de açoite
O vento nas vidraças!

É abril e chove
E a terra morta
Onde o lilás floresce
É minha pátria agora,
Meu destino. Insula.

 

DEZEMBRO

Na mesa do Natal
Duas velas acesas,
Fina luz verberando
O amarelo dos pêssegos.

Era contada sempre
A mesma estória,
Na sombra verde sombra
Dos pinheiros.

Uma estrela de papel,
Entre tâmaras e purpurina,
Apontava o caminho
Aos magos tutelares.

No pátio um leão vermelho
Quebrava nozes com as patas.

 

ESFINGE

Revesti-me de mistério
Por ser frágil,
Pois bem sei que decifrar-me
É destruir-me.

No fundo não me importa
O enigma que proponho.

Por ser mulher e pássaro
E leoa,
Tendo forjado em aço
Minhas garras,
É que se espantam
E se apavoram.

Não me exalto.
Sei que virá o dia das respostas
E profetizo-me clara e desarmada.

E por saber que a morte
É a última chave,
Adivinho-me nas vítimas
Que estraçalho.

 

ESTÁTUA

Tudo são memórias,
Tatugens
         Na carne.

Que fina erosão
Esculpe
Meus sentidos?

E em cada poro
Desenha
O peso exato
Da mão no meu vestido?

===================================================

TEXTOS EN ESPAÑOL

Extraídos de
ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA
Org. y traducción de Xosé Lois García
Santiago de Compostela: Edición Loiovento, 2001.
                           

 

PENELOPE

Hoy deshice el último punto,
La trama del bordado.

En el palacio desierto ladra
El perro.

Um silbido de flechas
Me devuelve el pasado.

Con los ojos de la memoria
Veo el arco
Que se curva,
La fuerza que lo extiende.

Reconozco en el silencio
La paz que me faltaba,
(En el mármol de la entrada
Agonizan los pretendientes).

El ciclo está completo
La espera finalizada.

Cuando Ulisis llegue
La sopa estará fria.

         Fémina, 1996

 

ABRIL

Escribo de memoria.
La infância es un pastel
En la garganta
Y el dolor de dividirse
En los espejos.

¿Qué fue de mí,
De aquella historia
Que yo me conte un día
Y que perdí?

Escribo siempre por la noche;
Por la mañana apago
Y recomienzo.

ίEs tan difícil vivir,
azota tanto
el viento en las vidrieras!

Es abril y llueve
Y la tierra muerta
Donde las lilás florecen
Es mi patria ahora,
Mi destino. Isla.

 

DICIEMBRE

En la mesa de Navidad
Dos velas encendidas,
Fina luz reverberando
El amarillo de los melocotones.

Siempre se contaba
La misma historia,
En la sombra verde sombra
De los pinos.

Una estrella de papel,
Entre dátiles y purpurina,
Indicaba el camino
A los magos tutelares.

En el pátio un león rojo
Rompía nueces con las patas.

 

LA ESFINGE

Me revesté de misterio
Por ser frágil,
Pues bien se que decifrarme
Es destruirme.

En el fondo no me importa
El enigma que propongo.

Por ser mujer y pájaro
Y leona,
Habiendo forjado en acero
Mis garras
Se espantan
Y se aterran.

No me exalto.
Se que vendrá el día de las respuestas.
Y me profetizo clara y desarmada.

Y por saber que la muerte
Es la última llave,
Me adivino en las víctimas
Que despedazo.

 

ESTATUA

Todo son memorias
Tatuajes
         En la carne.

¿Qué fina erosión
Esculpe
Mis sentidos?

¿Y en cada poro
Dibuja
El peso exacto
De la mano em mi vestido?

         Fémina, 1996

 

Página ampliada e republicada em janeiro de 2008.

 

 

 

 



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