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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

HILDA HILST

Hilda Hilst (Jaú-SP, 1930 – Campinas-SP, 2004)

 

é uma das protagonistas fundamentais da paisagem literária brasileira e de língua portuguesa do século XX. Com mais de 40 livros escritos em verso, dramaturgia, crônica e prosa, publicados entre 1950 e 2000, Hilda Hilst é uma poeta lúcida, culta, consciente de suas ações e palavras. Com fervoroso amor pela originalidade, sua obra registra um intenso trabalho de linguagem e de musicalidade, um imaginário poético no qual questionamentos metafísicos se mesclam com fatos cotidianos. Corajosa, livre, apaixonada pela vida, os seres humanos e os animais, Hilda Hilst tocou sem pudor temas tabus como a morte, o sexo e Deus. A partir de 1966, Hilda Hilst decide viver na Casa do Sol, a 11 quilômetros de Campinas-SP, onde funciona atualmente a Instituição Hilda Hilst – Centro de Estudos Casa do Sol, presidida pelo escritor José Luis Mora Fuentes, amigo da escritora. Suas Obras Reunidas foram reeditadas recentemente pela Editora Globo. Ler Hilda Hilst significa entrar em contato com a dinâmica da vida, com a complexidade humana e do próprio texto, numa combinação refinada de sons, palavras e imagens.  

 

 

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS  /  TEXTOS EM ESPAÑOL 

 

Texto e seleção dos poemas: Cristiane Grando

Tradução ao espanhol: Cristiane Grando e Espérance Aniesa 

 

Lean otros poemas de HILDA HILST

traducidos por LEO LOBOS (Chile) en

http://www.letras.s5.com/hh281204.htm

 

 

 

Como se te perdesse, assim te quero.

Como se não te visse (favas douradas

Sob um amarelo) assim te apreendo brusco

Inamovível, e te respiro inteiro

 

Um arco-íris de ar em águas profundas.           

 

Como se tudo o mais me permitisses,

A mim me fotografo nuns portões de ferro       

Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima

No dissoluto de toda despedida.

 

Como se te perdesse nos trens, nas estações

Ou contornando um círculo de águas

Removente ave, assim te somo a mim:

De redes e de anseios inundada.

 

Amavisse (1989)

 

 

 

Como si te perdiese, así te quiero.

Como si no te viese (habas doradas

Bajo un amarillo) así te comprendo brusco

Inamovible, y te respiro entero

 

Un arco iris de aire en aguas profundas.           

 

Como si todo y más me permitieses,

Me fotografío a mí en unos portones de hierro   

Ocres, altos, y yo misma diluida y mínima

En lo disoluto de toda despedida.

 

Como si te perdiese en los trenes, en las estaciones

O contorneando un círculo de aguas

Ave movediza, así te sumo a mí:

De redes y de ansias inundada.

 

 

 

 

É crua a vida. Alça de tripa e metal.

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

Como-a no livor da língua

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

No estreito-pouco

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturno pela rua

Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

 

Alcoólicas (1990)

 

 

 

Es cruda la vida. Asa de tripa y de metal.

En ella me despeño: piedra dilación herida.

Es cruda y dura la vida. Como un pedazo de víbora.

La como en la lividez de la lengua

Tinta, te lavo los antebrazos, Vida, me lavo

En lo delgado-poco

De mi cuerpo, lavo las vigas de los huesos, mi vida

Tu uña plomiza, mi abrigo rosso.

Y deambulamos de coturno por las calles

Púrpuras, góticas, ebrias de cuerpo y copas.

La vida es cruda. Hambrienta como el pico de los cuervos.

Y puede ser tan generosa y mítica: arroyo, lágrima

Ojo de agua, bebida. La vida es líquida.

 

 

      

 

 

Que este amor não me cegue nem me siga.

E de mim mesma nunca se aperceba.

Que me exclua do estar sendo perseguida

E do tormento

De só por ele me saber estar sendo.

Que o olhar não se perca nas tulipas

Pois formas tão perfeitas de beleza

Vêm do fulgor das trevas.

E o meu Senhor habita o rutilante escuro

De um suposto de heras em alto muro.

 

Que este amor só me faça descontente

E farta de fadigas. E de fragilidades tantas

Eu me faça pequena. E diminuta e tenra

Como só soem ser aranhas e formigas.

 

Que este amor só me veja de partida.

 

Cantares do sem nome e de partidas (1995)

 

 

 

Que este amor no me ciegue ni me siga.

Y de mí misma nunca se perciba.

Que me excluya del estar siendo perseguida

Y del tormento

De sólo por él saber que estoy siendo.

Que la mirada no se pierda en los tulipanes

Pues formas tan perfectas de belleza

Vienen del fulgor de las tinieblas.

Y mi Señor habita el rutilante oscuro

De un supuesto de hiedras en el alto muro.

 

Que este amor sólo me haga descontenta

Y harta de fatigas. Y de fragilidades tantas

Yo me haga pequeña. Y diminuta y tierna

Como sólo suelen ser las arañas y hormigas.

 

Que este amor sólo me vea de partida.

 

 

 

 

Demora-te sobre a minha hora.

Antes de me tomar, demora.

Que tu me percorras cuidadosa, etérea

Que eu te conheça lícita, terrena

 

Duas fortes mulheres

Na sua dura hora.

 

Que me tomes sem pena

Mas voluptuosa, eterna

Como as fêmeas da Terra.

 

E a ti, te conhecendo

Que eu me faça carne

E posse

Como fazem os homens.

 

Da morte. Odes mínimas. (1980)

 

 

 

Página publicada em outubro de 2007


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FILÓ, A FADINHA LÉSBICA

 

Poema de Hilda Hilst

 

 

Ela era gorda e miúda.

Tinha pezinhos redondos.

A cona era peluda

Igual à mão de um mono.

Alegrinha e vivaz

Feito andorinha

Às tardes vestia-se

Como um rapaz

Para enganar mocinhas.

Chamavam-lhe “Filó, a lésbica fadinha”.

Em tudo que tocava

Deixava sua marca registrada:

Uma estrelinha cor de maravilha

Fúcsia, bordô

Ninguém sabia o nome daquela cô.

Metia o dedo

Em todas as xerecas: loiras, pretas

Dizia-se até...

Que escarafunchava bonecas.

Bulia, beliscava

Como quem sabia

O que um dedo faz

Desce que nascia.

Mas à noite... quando dormia...

Peidava, rugia... e...

Nascia-lhe um bastão grosso

De início igual a um caroço

Depois...

Ia estufando, crescendo

E virava um troço

Lilás

Fúcsia

Bordô

Ninguém sabia a cô do troço

da Fadinha Filó.

Faziam fila na Vila.

Falada “Vila do Troço”.

Famosa nas Oropa

Oiapoc ao Chuí

Todo mundo tomava

Um bastão no oiti.

Era um gozo gozoso

Trevoso, gostoso

Um arrepião nos meio!

Mocinhas, marmanjões

Ressecadas velhinhas

Todo mundo gemia e chorava

De pura alegria

Na Vila do Troço.

Até que um belo dia...

Um cara troncudão

Com focinho de tira

De beiço bordô, fúcsia ou maravilha

(ninguém sabia o nome daquela cô)

Seqüestrou Fadinha

E foi morar na Ilha.

Nem barco, nem ponte

o troncudão nadando feito rinoceronte

Carregava Fadinha.

De pernas abertas

Nas costas do gigante

Pela primeira vez

 Na sua vidinha

Filó estrebuchava

Revirando os óinho

Enquanto veloz veloz

O troncudão nadava.

A Vila do Troço

Ficou triste, vazia

Sorumbática, tétrica

Pois nunca mais se viu

Filó, a Fadinha lésbica

Que à noite virava fera

E peidava e rugia

E nascia-lhe um troço

Fúcsia

Lilás

Maravilha

Bordô

Até hoje ninguém conhece

O nome daquela cô.

E nunca mais se viu

Alguém-Fantasia

Que deixava uma estrela

Em tudo que tocava

E um rombo na bunda

De quem se apaixonava.

 

Moral da estória, em relação à Fadinha:

Quando menos se espera, tudo reverbera.

 

Moral da estória, em relação ao morador

da Vila do Troço:

         Não acredite em fadinhas.

         Muito menos com cacete.

         Ou somem feito andorinhas

Ou te deixam cacoetes.

 

 

 

Extraído de BUFÓLICAS. São Paulo:  GLOBO, 2002

ISBN 85-250-3490-8

 

É pouco conhecida e difundida a “poesia pornográfica” da grande Hilda Hilst. A Editora Globo vem reeditando suas obras, em boa hora, para revelar todas as facetas desta extraordinária escritora.  No caso das “Bucólicas”, com ilustrações de Jaguar. Merecem uma visita, sem preconceitos. Sobre a obra cabe o comentário da “orelha” do livro: “Há medidas, contudo, nestes versinhos bandalhos, predominantemente redondilhas e brancos: são as de fundação de um discurso que, em face do absurdo de tudo, articula política a humor, desengano a desmesura.”.” Ou, mais explicitamente, no comentário competente de Alcir Pécora:

Todos esses livros estão longe da literatura pornográfica banal e recolhem verdadeiras gemas da matéria baixa, como antes já fizeram em língua portuguesa, autores excelents como Gregório de Maatos, Tomás Pinto Brandão, Bocage, Nicolau Tolentino, Bernardo Guimarães etc. Mais especificamente, Bufólicas é um exercício de estilo que parodia tanto fábulas antigas, com suas histórias de maravilhas que constituem alegorias morais, auanto contos de fadas, aos quais també

 

Página ampliada e republicada em abril de 2008

 



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