A ILHA
E olhamos a ilha assinalada
pelo gosto de abril que o mar trazia
e galgamos nosso sono sobre a areia
num barco só de vento e maresia.
Depois, foi a terra. E na terra construída
erguemos nosso tempo de água e de partida.
Sonoras gaivotas a domar luzes bravias
em nós recriam a matéria de seu canto,
e nessas asas se esparrama nossa glória,
de um amor anterior a todo estio,
de um amor anterior a toda história.
E seguimos no caminho de ser vento
onde as aves vinham ver se havia maio,
e as marcas espalmadas contra o frio
recobriam de brancura nosso rumo.
E abrimos velas alvas que se escondem
dos mapas de um sonho pequenino,
do início de uma selva que se espraia
na distância entre mim e o meu destino.
MARGEM
Vou andando para a beira desse porto,
entre cheiros de cigarra e de sardinha
e um desejo líquido de partir.
Meu olhar desliza no horizonte, querendo saber
a que distância um nome deixa de doer.
seu nome, marcado em minha boca
como a polpa de uma pêra .
O navio enorme avisa que vai embora.
Escrevo a palavra salto,
e paro no sal, e não chego ao alto.
A noite está boiando
num óleo grosso de silêncio e luz.
Molho os pés, penso em seu nome: gozo
de um poço tapado. Insônia de musgos
na beira das águas redondas.
Me vejo na ponta do cais,
cacos de luz
abrindo a cara do mar.
Destroços de palavras, pedaços de seu nome,
sílabas que batem contra os cascos.
Estou parado na beira de um porto,
azul e morte no oco do ar.
BIOGRAFIA
O poema vai nascendo
num passo que desafia:
numa hora eu já o levo,
outra vez ele me guia.
O poema vai nascendo,
mas seu corpo é prematuro,
letra lenta que incendeia
com a carícia de um murro.
O poema vai nascendo
sem mão ou mãe que o sustente,
e perverso me contradiz
insuportavelmente.
Jorro que engole e segura
o pedaço duro do grito,
o poema vai nascendo,
pombo de pluma e granito.
CANTIGA
Senhora, é doença tão sem cura
meu querer de vossos olhos tão distantes,
que digo: é maior a desventura
ver os olhos sem os ver amantes.
Senhora, é doença tão largada
meu querer de vossa boca tão serena,
que até mesmo a cor da madrugada
é vermelha de chorar a minha pena.
POEMA DO INFANTE
É a noite.
E tudo escava tudo
na língua ambígua que desliza
para o esquivo jogo.
Amargo corpo,
que de mim a mim se furta,
não recuso teu percurso
no hálito das pedras
que me existem em ti
— estéril dorso entre águas
estancadas.
O nada, o perto, o pouco,
não posso dividir
do que se espera o que me habita,
ao fazer fluir a via antiga
de um menino que mediu o lado impuro.
Operário do precário,
me limito nesse corpo amanhecido,
asa e gozo onde a morte mora.
Minha vida, mapeada e descumprida,
está pronta para o preço dessa hora.
De
Antonio Carlos Secchin
TODOS OS VENTOS
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002
ISBN 85-209-1299-0
No princípio do princípio
meu início.
Na derivada do nada
minha estada.
No compasso da mudez
minha nudez
"DE CHUMBO ERAM SOMENTE DEZ SOLDADOS"
A José Maurício Gomes de Almeida
De chumbo eram somente dez soldados,
plantados entre a Pérsia e o sono fundo,
e com certeza o espaço dessa mesa
era maior que o diâmetro do mundo.
Aconchego de montanhas matutinas
com degraus desenhados pelo vento,
mas na lisa planície da alegria
corre o rio feroz do esquecimento.
Meninos e manhas, densas lembranças
que o tempo contamina até o osso,
fazendo da memória um balde cego
vazando no negrume do meu poço.
Pouco a pouco vão sendo derrubados
as manhãs, os meninos e os soldados.
ARTES DE AMAR
A Suzana Vargas
paixão e alpinismo sensasão simultânea
de céu e abismo
paixão e astronomia mais do que contar estrelas
vê-las
à luz do dia
amor antigo e matemática equação rigorosa:
um centímetro de poesia
dez quilômetros de prosa
CONFESSIONÁRIO
A Cláudio Murilo
Não posso dar-me em espetáculo.
A platéia toda fugiria
antes mesmo do segundo ato.
Um ator perplexo misturaria
versos, versões e fatos.
E um crítico, maldizendo a sua sina,
rosnaria feroz
conta minha verve
sibilina.
Antonio Miranda e Antonio Carlos Secchin nas palestras
de encerramento do I Simposio Internacional de Poesia,
na Universidade de Brasília, parte da I Bienal Internacional
de Poesia de Brasília, dia 5 de setembro de 2008.
ANTONIO CARLOS SECCHIN : UM FESTSCHRIFT PARA O MESTRE
Festschrift é o termo alemão para um livro em homenagem a um pesquisador, a uma figura ilustre. Geralmente, um reconhecimento em vida para celebrar um personagem da academia, da ciência, da literatura por sua carreira vitoriosa. É exatamente o caso de Antonio Carlos Secchin, ao aposentar-se da Universidade Federal do Rio de Janeiro no auge de sua trajetória de professor, poeta e crítico e pela excepcionalidade de ter conquistado uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.
Antonio Carlos Secchin: escritas e escutas é justamente (!!!) o tributo de amigos, ex-alunos, admiradores e escritores de suas relações. Livro em edição fora do comércio, sem editora, sem catalogação na fonte, sem ISBN, mas bem impresso, certamente exemplares limitados para circulação restrita.
Reúne depoimentos, homenagens e estudos. Nomes conhecidos como o poeta Adriano Espinola, a antologista Edla Van Steen, o poeta e acadêmico (da ABL) Ivan Junqueira e muitos outros dão seu testemunho e apresentam textos sobre a obra poética e literária de Secchin, sem deixar de referir-se também ao bibliófilo da literatura brasileira.
Mas não se trata de uma retirada. Ainda jovem (expressão que irrita a muitos...), no caso dele revela sua maturidade numa fase criativa de sua vida, com a certeza de que vamos seguir disfrutando de muitas de suas contínuas empreitadas na poesia, na crítica, nos estudos bibliográficos, em pesquisas, discursos, ensaios, resenhas e textos de sua tão prolixa mas profunda produção. Sem esquecer de sua extraordinária capacidade de comunicação oral, de seu diálogo inteligente e vivaz, de sua convivência fraterna.
Sem querer, querendo, acabei participando, por fora, nesta quase resenha, deste livro que me foi dedicado pelo autor em sua recente visita a Brasília. E do qual retiro e compartilho com os nossos milhares de internautas um poema seu que está na contra-capa:
Autoria
Por mais que se escoem
coisas para lata do lixo
clipes, cãibras, suores
restos do dia prolixo
por mais que a mesa imponha
o frio irrevogável do aço,
combatendo o que em mim contenha
a linha flexível de um abraço
sei que um murmúrio clandestino
circula entre o rio de meus ossos:
janelas para um mar-abrigo
de marasmos e destroços.
Na linha anônima do verso,
aposto no oposto de meu sim,
apago o nome e a memória
num Antônio antônimo de mim.
(Texto publicado em 21/06/2011, depois de tê-lo como membro da banca de doutorado do (agora doutor) Oto Reifschneider, cuja tese sobre Bibliofilia, defendida na Universidade de Brasília, também inscreve sua condição de bibliófilo. Do amigo Antonio Miranda)
De
Antonio Carlos Secchin
ELEMENTOS
Poesia
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1983.
78 p. (Coleção Poesia Hoje, v. 73)
A seguir, textos extraídos de um exemplar dedicado pelo autor à poeta Marly de Oliveira, em 1988, agora no acervo da Biblioteca Nacional de Brasília
O real é miragem consentida,
engrenagem da voragem,
língua iludida da linguagem
contra a sombra que não peço.
O real é meu excesso.
VER
O dia. Arcos da manhã
em nuvem. Riscos de luz
como vidros arriados.
O claro. A praia armada
entre a sintaxe do verde.
Áreas do ar. Aves
navegando as lajes
do azul.
"DESARMO O RUMO DE MEU DIA FINDO"
A Angela Beatriz de Carvalho
Desarmo o rumo de meu dia findo,
escura fonte que guardou meu sono,
e pressinto os lábios de uma noite vindo
nas âncoras quebradas pelo som do outono.
Eu quero um campo em que as sílabas do vento
me tragam o espaço da manhã tombada.
Quero um tempo novo além do tempo
distraído pelas mãos da madrugada.
E não impeço a terra que já se prepara
num silêncio curvo que anuncia as naves.
E me arremesso a essa praia clara
como um domingo pousado sobre o voo das aves.