ADÉLIA PRADO
Adélia Prado (1935) surge en Divinópolis, interior de Minas Gerais, con la publicación de Bagaje, en 1976. En esta y en toda su obra siguiente es flagrante una percepción: "respirar es dificil" (sic). En original vuelo solitario, la poesía de Adélia se apropia de epifanías, profana, provoca, gime, siempre bajo el yugo severo de la palabra sagrada.
Lo que atrae en Adélia es que cuanto más crece su obra en calidad y extensión, más comprimido se vuelve su campo de observación. Es una poesia que habla del detalle ínfimo, de gestos, del dulce que se hace y se come de la olla, de pequeños (y grandes) deseos inconfesados, de sentimientos repetitivos, anti-heroicos. En fin, una metafísica única del universo doméstico. Heloisa Buarque de Hollanda
Fuente: http://www.mujeresdeempresa.com/arte_cultura/030701-adelia-prado.shtml
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
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MISSA DAS 10
Frei Jácomo prega e ninguém entende.
Mas fala com piedade, para ele mesmo
e tem mania de orar pelos paroquianos.
As mulheres que depois vão aos clubes,
os mocos ricos de costumes piedosos,
os homens que prevaricam um pouco em seus negócios
gostam todos de assistir a missa de frei Jácomo,
povoada de exemplos, de vida de santos,
da certeza marota de que ao final de tudo
urna confissão "in extremis" garantirá o paraíso.
Ninguém vê o Cordeiro degolado na mesa,
o sangue sobre as toalhas,
seu lancinante grito,
ninguém.
Nem frei Jácomo.
(De O Pelicano, 1987)
PRANTO PARA COMOVER JONATHAN
Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.
(De O Pelicano, 1987)
Trégua
Hoje estou velha como quero ficar.
Sem nenhuma estridência.
Dei os desejos todos por memória
e rasa xícara de chá.
Endecha
Embora a velha roseira insista neste agosto e
confirmem o recomeço estas mulheres grávidas,
eu sofro de um cansaço, intermitente como certas febres.
Me acontece lavar os cabelos e ir secá-los ao sol,
desavisada. Ocorre até que eu cante.
Mas pousa na canção a negra ave e eu desafino rouca,
em descompasso, uma perna mais corta,
a ausência ocupando todos os meus cômodos,
a lembrança endurecida no cristal
de uma pedra na uretra.
O GUARDA-CHUVA PRETO
Esquecido na mesa,
como cabo voltado para cima
e as bordas arrepanhadas,
é como seu dono vestido,
composto no seu caixão.
Não desdobra a dobradiça,
não pousa no braço grave
do que, sendo seu patrão,
foi pra debaixo da terra.
Ele, vai para o porão.
Existe um retrato antigo
em que posou aberto,
com o senhor moço e sem óculos.
Guarda-chuva, guarda-sol,
guarda-memória pungente
de tudo que foi em nós
um pouco ridículo e inocente.
Guarda-vida, arquivo preto,
cão de luto, c]ao jazente.
(De O coração disparado,1987
ROÇA
No mesmo prato
o menino, o cachorro e o gato.
Come a infância do mundo.
(De O coração disparado,1987
VITRAL
Uma igreja voltada para o norte.
À sua esquerda um barranco, a estrada de ferro.
O sol, a mais de meio caminho para oeste.
Tem uns meninos na sombra.
Eu estou lá com um pé apoiado sobre o dedo grande,
a mão que passei no cabelo,
a um quarto de seu caminho até a coxa,
onde vai bater e voltar, envergonhado passo de balé.
Tudo pulsando à revelia de mim,
bom como um ingurgitamento não-provocado do sexo.
A pura existência.
(De O coração disparado,1987
COM LICENÇA POÉTICA
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado para mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
Já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
De Bagagem (1976)
MULHER QUERENDO SER BOA
Me toldam horas de cinza
Rachadas de imprecação.
Ó Deus, não me humilhe mais
com esta coceira no púbis.
Responde-me sobre os mortos,
se mamam,
nesta lua visível em pleno dia,
do seu leite de sonho.
FIBRILAÇÕES
Tanto faz
funeral ou festim
tudo é desejo
que percute em mim.
Ó coração incansável a ressonância das coisas,
amo, te amo, te amo,
assim triste, ó mundo,
ó homem tão belo que me paralisa.
Te amo, te amo.
E uma língua só,
um só ouvido, não absoluto.
Te amo.
Certa erva do campo tem as folhas ásperas
recobertas de pelos,
te amo, digo desesperada
de que outra palavra venha em meu socorro.
A relva estremece,
o amor para ela é aragem.
De O pelicano (1987)
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De
Adélia Prado
CHORINHO DOCE.
Poemas de Adélia Prado.
Maureen Bisilliat - imagens.
São Paulo: Alternativa, 1995. s.p. ilus. col.
Patrocinio Iochpe-Maxio
Maureen Bisilliat vem ilustrando com fotos excepcionais as obras de grandes poetas e escritores brasileiros. No caso da poesia, está também o exemplo de O cão sem plumas, do mestre pernambucano João Cabral de Melo Neto, com imagens tomadas nos manguezais dos alagados de Recife. Fortes, contundentes, ampliando o discurso cabralino. Catadores de guaiamuns atolados na lama. Agora é a vez da mineira Adélia Prado, que Maureen ilustra com rostos e paisagens do sertão, que ambienam e projetam os textos. Livro de circulação restrita, com patrocínio de empresa industrial, encontrável apenas em sebos e bibliotecas, além das coleções particulares.
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Impressionista
Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
Solar
Minha mãe cozinhava exatamente
arroz, feijão-roxinho,
molho de batatinhas.
Mas cantava.
Trégua
Hoje estou velha como quero ficar.
Sem nenhuma estridência.
Dei os desejos todos por memória
e rasa xícara de chá.
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TEXTOS EN ESPAÑOL
Traducción de Diana Bellessi.
Tregua
Hoy estoy vieja como quiero estar.
Sin niguna estridencia.
Cambié todos los deseos por recuerdos.
y una tacita de té.
Endecha
Aunque el viejo rosal insista en este agosto
y confirmen el reinicio estas mujeres grávidas,
yo sufro de un cansancio, intermitente como ciertas fiebres
Me da por lavarme el pelo y salir a secarlo al sol,
desprevenida. Hasta canto a veces.
Pero se posa en la canción un ave negra y yo desafino ronca
desacompasada, una pierna más corta,
la ausencia ocupa todos mis cuartos,
la memoria endurecida en el cristal
de una piedra en la uretra.
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TEXTOS EN ESPAÑOL
TRADUCCIONES DE ADOLFO MONTEJO NAVAS
Capa da edição dedicada à escritora,
publicação do Instituto Moreira Sales,
junho 2000, dirigia por
Antonio Fernando De Franceschi.
ADÉLIA PRADO
(Divinópolis, Minas Gerais, Brasil, 1936)
La aparición de su poesía fue saludada por el propio Drummond de An-
drade. Una poética que consigue reunir religiosidad, eros y cotidianidad, con una escritura de verso narrativo, coloquial y salpicado de elementos geográficos y epifanías místicas, «el fundamento de la mística es el mismo fundamento que el de la poesía», confiesa la autora de Minas Gerais. Poesía que destaca, en primer plano, el sentimiento de la mujer, como razón expresiva. También es autora de varios libros en prosa.
OBRA POÉTICA: Bagagem, 1976; O coração disparado, 1978; Terra de
Santa Cruz, 1981; O pelicano, 1987; A faca no peito, 1988; Oráculos de maio, 1999.
CON LICENCIA POÉTICA
Cuando nací un ángel esbelto,
de esos que tocan la trompeta, anunció:
vas a cargar bandera.
Cargo demasiado pesado para mujer,
esta especie aún avergonzada.
Acepto los subterfugios que me tocan,
sin necesitar mentir.
No soy tan fea que no me pueda casar,
encuentro Río de Janeiro una belleza y
ora sí, ora no, creo en el parto sin dolor.
Pero lo que siento escribo. Acato el destino.
Inauguro linajes, fundo reinos
— dolor no es amargura.
Mi tristeza no tiene pedigrí,
ya mis ganas de alegría,
su raíz va a mi abuelo mil.
Va a ser cojo en la vida es maldición para hombre.
Mujer es desdoblable. Yo soy.
De Bagagem (1976)
VIDRIERA
Una iglesia orientada hacia el norte.
A su izquierda un barranco, la vía del tren.
El sol, a más de medio camino hacia el oeste.
Hay unos niños en la sombra.
Yo estoy allí con el pie apoyado sobre el dedo pulgar,
la mano que pasé por el cabello,
a un cuarto de su camino hasta el muslo,
donde va a golpear y volver, avergonzado paso de ballet.
Todo latiendo en contra mía,
bueno como un engullimiento no provocado del sexo.
La pura existencia.
De O coração disparado (1978)
MUJER QUERIENDO SER BUENA
Me entoldan horas de ceniza
rajadas de imprecación.
Oh Dios, no me humilles más
con este escozor en el pubis.
Respóndeme sobre los muertos,
si maman,
en esta luna visible en pleno día,
de su leche de sueño.
De Terra de Santa Cruz (1981)
FIBRIOLACIONES
Tanto da
funeral o festín
todo es deseo
que repercute en mí.
Oh corazón incansable a la resonancia de las cosas,
amo, te amo, te amo,
así triste, oh mundo,
oh hombre tan bello que me paraliza.
Te amo, te amo.
Y una sola lengua,
un solo oído, no absoluto.
Te amo.
Cierta hierba del campo tiene las hojas ásperas
recubiertas de pelos,
te amo, digo desesperada
de que otra palabra venga en mi socorro.
La hierba se estremece,
el amor para ella es brisa.
De O pelicano (1987)
*De Correspondencia celeste. Nueva poesía brasileña (1960-2000). Introducción, traducción y notas de Adolfo Montejo Navas. Madrid: Árdora Ediciones, 2001 – Obra publicada com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil.
*Nota: o tradutor Adolfo Montejo Navas é amigo comum nosso com Wagner Barja, e o convidamos a participar da exposição OBRANOME 2 no Museu Nacional de Brasília, durante a I Bienal Internacional de Poesia de Brasília 2009. Montejo Navas prometeu-nos suas traduções ao castelhano e só na Espanha, em viagem, é que conseguimos os originais que estamos divulgando parcialmente no nosso Portal de Poesia Ibeoramericana, com os agradecimentos.
Página ampliada e republicada em junho de 2009.
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