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Cecília Meireles Veja também: TEXTS IN ENGLISH
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De
SERENATA
Fechai os olhos, donzelas,
(...) CLARA
REINVENÇÃO
reinventada.
Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas... Ah! tudo bolhas que vêm de fundas piscinas de ilusionismo... — mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.
Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus braços. Projeto-me por espaços cheios da tua Figura. Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço... Só — no tempo equilibrada, desprendo-me do balanço que além do tempo me leva.
Só — na treva, fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.
MOTIVO Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.
Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento.
Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço - não sei, não sei. Não sei se fico ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: - mais nada.
RETRATO
Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazio, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: - Em que espelho ficou perdida a minha face?
LEVEZA
Leve é o pássaro: e a sua sombra voante, mais leve.
E a cascata aérea de sua garganta, mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se deslizar seu canto, mais leve.
E o desejo rápido desse antigo instante, mais leve.
E a fuga invisível do amargo passante, mais leve.
CADA PALAVRA UMA FOLHA
Cada palavra uma folha no lugar certo.
Uma flor de vez em quando no ramo aberto.
Um pássaro parecia pousado e perto.
Mas não: que ia e vinha o verso pelo universo.
HUMILDADE Tanto que fazer! livros que não se lêem, cartas que não se escrevem, línguas que não se aprendem, amor que não se dá, tudo quanto se esquece.
Amigos entre adeuses, crianças chorando na tempestade, cidadãos assinando papéis, papéis, papéis... até o fim do mundo assinando papéis.
E os pássaros detrás de grades de chuva. E os mortos em redoma de cânfora.
(E uma canção tão bela!)
Tanto que fazer! E fizemos apenas isto. E nunca soubemos quem éramos, nem para quê.
SEGUNDO MOTIVO DA ROSA
A Mário de Andrade
Por mais que te celebre, não me escutas, embora em forma e nácar te assemelhes à concha soante, à musical orelha que grava o mar nas íntimas volutas.
Deponho-te em cristal, defronte a espelhos, sem eco de cisternas ou de grutas ... Ausências e cegueiras absolutas ofereces às vespas e às abelhas,
e a quem te adora, ó surda e silenciosa, e cega e bela e interminável rosa, que em tempo e aroma e verso te transmutas !
Sem terra nem estrelas brilhas, presa a meu sonho, insensível à beleza que és e não sabes, porque não me escutas . . .
VIGÍLIA
Como o companheiro é morto, todos juntos morreremos um pouco.
O valor de nossas lágrimas sobre quem perdeu a vida, não é nada.
Amá-lo, nesta tristeza, é suspiro numa selva imensa.
Por fidelidade reta ao companheiro perdido, que nos resta?
Deixar-nos morrer um pouco por aquele que hoje vemos todo morto.
O CAVALO MORTO
Vi a névoa da madrugada deslizar seus gestos de prata, mover densidade de opala naquele pórtico de sono.
Na fronteira havia um cavalo morto.
Grãos de cristal rolavam pelo Seu flanco nítido: e algum vento torcia-lhe as crinas, pequeno, leve arabesco, triste adorno
— e movia a cauda ao cavalo morto.
As estrelas ainda viviam e ainda não eram nascidas ai! as flores daquele dia ...
— mas era um canteiro o seu corpo:
um jardim de lírios, o cavalo morto.
Muitos viajantes contemplaram a fluida música, a orvalhada das grandes moscas de esmeralda chegando em rumoroso jorro.
Adernava triste, o cavalo morto.
E viam-se uns cavalos vivos, altos como esbeltos navios, galopando nos ares finos, com felizes perfis de sonho.
Branco e verde via-se o cavalo morto,
no campo enorme e sem recurso
- e devagar girava o mundo entre as suas pestanas, turvo orno em luas de espelho roxo.
Dava o sol nos dentes do cavalo morto.
Mas todos tinham muita pressa, e não sentiram como a terra procurava, de légua em légua, o ágil, o imenso, o etéreo sopro que faltava aquele arcabouço.
Tão pesado, o peito do cavalo morto!
METAL ROSICLER, 9
Falou-me o afinador de pianos, esse que mansamente escuta cada nota e olha para os bemóis e sustenidos ouvindo e vendo coisa mais remota. E estão livres de engano os seus ouvidos e suas mãos que em cada acorde acordam os sons felizes de viverem juntos.
"Meu interesse é de desinteresse: pois música e instrumento não confundo, que afinador apenas sou, do piano, a letra da linguagem desse mundo que me eleva a conviva sobre-humano. Oh! que Física nova nesse plano para outro ouvido, sobre outros assuntos...”
De
De
Há mil rostos na terra: e agora não consigo Esperamos assim. Por esperança, a espera Qualquer palavra que te diga é sem sentido.
a que não se recusa a esse final convite, em máquinas de adeus, sem tentação de volta.
Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza: Eu sou essa pessoa a quem o vento leva: já de horizontes libertada, mas sozinha.
Se a Beleza sonhada é maior que a vivente, dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho? Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.
Pêlos mundos do vento, em meus cílios guardadas vão as medidas que separam os abraços. Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:
«Agora és livre, se ainda recordas».
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TEXTOS EN ESPAÑOL
REINVENCIÓN
La vida sólo es posible reinventada.
Anda el sol por las campiñas, pasa la mano dorada por las aguas, por las hojas... ¡Ah! todo pompas que vienen de hondas piscinas de ilusionismo... — sin nada.
Pero la vida, la vida, la vida sólo es posible reinventada.
Viene la luna y retira las cadenas de mis brazos. Me proyecto a unos espacios llenados de tu Figura. ¡Todo mentira! Mentira de la luna, en noche oscura.
No te alcanzo, no te encuentro... En el tiempo equilibrada, del columpio me desprendo que afuera del tiempo lleva.
Sola — en nieblas, quedo: recibida y dada.
Porque la vida, la vida, la vida sólo es posible reinventada. MOTIVO Traducción de Patricia Tejeda
Canto porque el instante existe y mi vida está completa. No soy alegre ni soy triste: soy poeta.
Hermano de las cosas fugitivas, no siento gozo ni tormento. Atravieso noches y dias en el viento.
Si desmorono o si edifico, si permanezco o me deshago - no sé, no sé. No sé si es que me afirmo o paso.
Sé que canto. Y la canción es todo. Tiene sangre eterna la ala ritmada. y un dia sé que estaré mudo: - ?más?, nada.
RETRATO Traducción de Patricia Tejeda
No tênia este rostro de hoy, así calmo, así triste, así magro, ni estos ojos tan vacíos, ni el lábio amargo.
No tenía estas manos sin fuerza, tan inertes y frias, y muertas; no tenía este corazón que ni se muestra.
No percibí esta mudanza, tan simple, tan cierta, tan fácil: - ?En qué espejo mi rostro perdido se deshace?
LEVEDAD Traducción de Patricia Tejeda
Leve es el pájaro: y su sombra volante, más leve.
Y la cascada aérea, de su garganta, más leve.
Y lo que recuerda, oyéndose deslizar su canto, más leve.
Y el deseo rápido de este antiguo instante, más leve.
Y la fuga invisible del amargo pasante, más leve.
CADA PALABRA UNA HOJA Traducción de Patricia Tejeda
Cada palabra uma hoja en el lugar perfecto.
Una flor de vez en cuando en el ramaje abierto.
Un pájaro que parecia posado y cierto.
Mas, no: que iba y venía el verso por el universo.
HUMILDAD Traducción de Patricia Tejeda
!Tanto que hacer! libros que no se leen, cartas que no se escriben, lenguas que no se aprenden, amor que no se da, todo cuanto se olvida.
Amigos entre adioses, niños llorando en la tempestad, ciudadanos firmando papeles, papeles, papeles...
Y los pájaros detrás de rejas y lluvias, y los muertos em redomas de alcanfor.
(!Y una canción tan bella!)
!Tanto que hacer! E hicimos apenas esto. Y nunca supimos quiénes éramos ni para qué.
Las traducciones de Patricia Tejeda han sido extraídas de la obra GABRIELA MISTRAL & CECÍLIA MEIRELES/ GABRIELA MISTRAL Y CECÍLIA MEIRELES. Edição conjunta da Academia Chilena de la Lengua y Academia Brasileira de Letras, em 2003. Una bella edición bilíngüe de textos de las grandes poetas de Sudamerica, fuera de mercado pero disponible en muchas bibliotecas de los dos países.
De: POETAS AMERICANAS. Selección de Reybaldo Jiménez. Buenos Aires: Editorial Leviatan, 1998. 142 p. Poetas internacionais, incluindo a brasileira Cecília Meireles.
De
EPIGRAMA N.° 1
Posa sobre esos espectáculos infatigables una sonora o silenciosa canción: flor del espíritu, desinteresada y efímera.
Por ella, los hombres te conocerán, por ella, los tiempos versátiles sabrán que — aunque inútilmente — el mundo más bello quedó cuando anduvo por él tu corazón.
EPIGRAMA. N.° 3
Mutilados jardines y primaveras abolidas abrieron sus milagrosos ramos en el cristal en que se posa mi mano,
(¡Prodigioso perfume!
Recompusiéronse tiempos, formas, colores, vidas.
¡Ah, mundo vegetal, nosotros, humanos, lloramos
CANCIÓN EXCÉNTRICA
Ando en procura de espacio para dibujar la vida. En números me embarazo, pierdo siempre la medida. Si pienso encontrar salida, en vez de abrir un compás, arrojóme en un abrazo, en despedida tenaz,
Si vuelvo sobre mi paso,' todo lejos y fugaz.
Y mi corazón de acero, ya sintiendo ya el cansancio de esta búsqueda de espacio para dibujar la vida.
Hoy, exhausta y descreída, no me animo a un breve trazo: — saudosa de lo que no hago, — de lo que hago, arrepentida.
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