Coordination de ARICY CURVELLO
FERREIRA GULLAR
O TRABALHO DAS NUVENS
Esta varanda fica
à margem
da tarde. Onde nuvens trabalham
A cadeira não é tão seca
e lúcida, como
o coração.
Só à margem da tarde
é que se conhece
a tarde: que são as
folhas de verde e vento, e
o cacarejar da galinha e as
casas sob um céu: isso, diante
de olhos.
e os frutos?
e também os
frutos. Cujo crescer altera
a verdade e a cor
dos céus. Sim, os frutos
que não comeremos, também
fazem a tarde
( a vossa
tarde, de que estou à margem).
Há, porém, a tarde
do fruto. Essa não roubaremos:
tarde
em que ele se propõe a glória de
não mais ser fruto, sendo-o
mais: de esplender, não como astro, mas
como fruto que esplende.
E a tarde futura onde ele
arderá como um facho
efêmero!
Em verdade, é desconcertante para
os homens o
trabalho das nuvens.
Elas não trabalham
acima das cidades: quando
há nuvens não há
cidades: as nuvens ignoram
se deslizam por sobre
nossa cabeça: nós é que sabemos que
deslizamos sob elas: as
nuvens cintilam, mas não é para
o coração dos homens.
A tarde é
as folhas esperarem amarelecer
e nós o observarmos.
E o mais é o pássaro branco que
voa - e que só porque voa e o vemos,
voa para vermos. O pássaro que é
branco
não porque ele o queira nem
porque o necessitemos:
o pássaro que é branco
porque é branco.
Que te resta, pois, senão
aceitar?
Por ti e pelo
pássaro pássaro.
LE TRAVAIL DES NUAGES
Cette véranda est
en marge de
l ‘ aprés-midi. Où des nuages travaillent.
La chaise n’ est pas si sèche
et lucide, que
le coeur.
À peine en marge de l’ aprés-midi
c’ est qu’ on connaît
l’ aprés-midi: ce sont les
feuilles de vert et vent, et
le glousser de la poule et les
maisons sous un ciel: cela devant
des yeux.
Et les fruits ?
et aussi les
fruits. Dont grandir altère
la vérité et la couleur
des ciels. Oui, les fruits
que nous ne mangeons pas, eux aussi
ils font l’ aprés-midi
(votre
aprés-midi duquel je suis en marge.)
Il y a toutefois, l’ aprés-midi
du fruit. Celui-là
ne volerons pas ;
aprés-midi
dans lequel il se propose la gloire de
ne plus être fruit, quoiqu’ il en soit encore
plus: de briller, pas comme astre, mais
comme un fruit qui brille.
Et l’ aprés-midi futur où il
brûlera comme un flambeau
éphémère !
En vérité, il est déconcertant pour
les hommes le
travail des nuages.
Ils ne travaillent pas
au-dessus des villes: quand
il y a des nuages il n’ y a pas
de villes: les nuages ignorent
s’ ils glissent au-dessus de
notre tête: c’ est nous qui savons que
nous glissons sous elles: les
nuages brillent mais ce n’ est pas pour
le coeur des hommes.
L’ aprés-midi est
les feuilles attendent de jaunir
et nous les observons.
Et plus, c’ est l’ oiseau blanc qui
vole ¾ et parce qu’il vole et nous le voyons
il vole pour que nous le voyions. L’ oiseau qui est
blanc
non parce qu’il le veut, non
parce que nous en avons besoin :
l’oiseau qui est blanc
parce qu’ il est blanc.
Que te reste-t-il, donc, sauf
accepter?
Pour toi et pour
l’oiseau oiseau.
( Da antologia bilingüe “Poésie du Brésil”, seleção de Lourdes Sarmento, edição Vericuetos, como nº 13 da revista literária francesa “Chemins Scabreux”, Paris, setembro de 1997.Traduções de Lucilo Varejão, Maria Nilda Miranda Pessoa e outros.)
Página publicada em setembro de 2008. |