JOSÉ EDUARDO DEGRAZIA
Nasceu em Porto Alegre em 1951. Publicou dezenas de artigos e crônicas em jornais e revistas do Brasil e do exterior. Tem publicados os livros de poemas, Lavra permanente, Cidade submersa, A porta do sol, Piano arcano, e A urna Guarani; seus livros de contos são: O atleta recordista, A orelha do bugre, A terra sem males, e Os leões selvagens de Tanganica; recentemente saiu sua novela O reino de macambira.
Traduziu livros de Pablo Neruda, poetas latino-americanos e italianos.
Foi premiado em poesia, conto, teatro e tradução.
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTO EN ESPAÑOL
DISCÍPULOS DE EROS
Os namorados
são transparentes
quando olhados
de frente
de lado
de perto
ou distante
são diamantes
amantes, amantes
amantes
dão-se as mãos
simplesmente
mentes e olhos
mentem versos
verdades várias
vôos
são pássaros
são peixes
imersos no mar
do amor
esquecidos
de tudo
de nada
de todos
jogam dados
do destino
cantam hinos
são apenas
lábios, lábias
sedução
sábios e vivos
inocentes
e meninos
enquanto amor
os domina
e ilumina.
A HORA CERTA
Quando não se puder
mais olhar uma flor,
quando não se puder
mais amar uma mulher,
quando o mundo for
só aparência de ser
e não permitir alegria,
é a hora certa de plantar,
é a hora certa de cantar,
é a hora certa de amar
é a hora certa de ver,
é a hora certa de viver,
é a hora certa de colher,
a manhã sempre vem,
o amor pode voltar
pra te dizer que a vida
vale a pena ser vivida.
É a hora certa de plantar,
é a hora certa de cantar,
é a hora certa de amar,
é a hora certa de ver,
é a hora certa de viver,
é a hora certa de colher.
RECEITA
Para Sérgio Faraco
Não deixe o tempo
passar correntes
em volta de seu corpo,
e que as aranhas
teçam teias
em seus dedos.
É preciso impedir
que os olhos acostumem
o olhar pela janela,
na mesma rua
onde homens cinzentos
cruzam maquinalmente.
É necessário ter sapatos
bem engraxados,
sem furos nas solas,
para que os pés não cansem
e não se machuquem
nas pedras do caminho.
Morar em casas
com porão, sótão e quintal,
onde possamos encontrar
pessoas desconhecidas
e objetos indecifráveis
na soleira da porta.
Ter reservas de carinho,
coleções de selos e de moedas,
ter amigos que gostem
de música e poesia,
bolsos e armários embutidos.
Ter sempre a esperança
de encontrar o amor
num parque possível,
sábado ou domingo
ou outro dia qualquer.
Antes de tudo
e principalmente,
é preciso ter paciência,
crer que os tempos mudam
e que teias de aranha
não crescem sem motivo.
TRÊS LIVROS DE POESIA
(uma seleção)
DENOMINAÇÃO
Com tua fala
noturna
feres o dia
e te refazes.
Dentro
da bruma
escalas
nova ressonância.
Do fundo
do poço
retiras
a inocência
trescalas
a perdidos,
sonho de amuragem
e jardim
entre muros.
Pousas em cada
coisa o nome
que lhe cabe.
GRITO
Poema-grito
a doer comigo
na caverna.
Guilhermino Cesar
Projétil
no revólver
minha fala
aguarda
meu grito
se guarda
na escura
caverna
que se puxe
o gatilho
e se encontre um peito:
a enxada e seu eito.
FORMA DO POEMA
O poema tem freio
de espuma e vento
difícil é achar
o momento exato
de contê-lo
nas mãos
e deixar que via:
forma concreta de poema.
CONSCIÊNCIA
O dínamo ronca
o seu maior
de-
feito
sobre o mundo.
A engrenagem
tritura an-
seios
téreis.
Sabes inútil
o protesto:
ninguém seguirá
teu último gesto.
Cabeça baixa
só tua consciência
continuará gritando.
Irás para o matadouro.
POEMA URBANO
No edifício
mil vidraças
refletem
meu rosto
sem graça.
Na fumaça
dos carros
meu travo
meu nojo.
No estojo
do apartamento
meu corpo
de cimento.
No bulício
da partida
minha ferida.
CIDADE ESTRANHA
Caminho pelas ruas
da cidade
e a tristeza
escala os muros
das velhas mansões.
Por trás das árvores
uma lua bêbada
sorri.
Entro num cinema
para ver gente:
está vazio.
Aos poucos se enche o cinema
com todos
os meus antigos fantasmas.
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TEXTO EN ESPAÑOL
POEMA DE JOSÉ EDUARDO DEGRAZIA
Traducción de Virglilio López Lemus
RECETA
Para Sérgio Faraco
No deje que el tiempo
pase corrientes
alrededor de su cuerpo
y que las arañas
tejan telas
en sus dedos.
Es preciso impedir
que los ojos se despierten
al mirar por la ventana,
en la misma calle
donde hombres cenicientos
cruzan maquinalmente.
Es preciso tener zapatos
bien amarrados,
sin huecos en las suelas,
para que los pies no se cansen
y no se dañen
con las piedras del camino.
Vivir en casas
con portal, sótano y pátio,
donde podamos encontrar
personas desconocidas
y objetos indescifrables
en el umbral.
Tener reservas de cariño,
coleciones de sellos y de monedas,
tener amigos que gusten
de música y de poesia
bolsos y armários llenos.
Tener siempre la esperanza
de encontrar el amor
en um parque posible,
sábado o domingo
o cualquier outro dia.
Ante todo
y principalmente,
es preciso tener paciencia,
creer que los tiempos cambian
y que las telas de araña
no crecen sin motivo.
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