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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



CARLOS NEJAR

 

Estamos efetivamente diante de um dos grandes nomes da poesia brasileira contemporânea. Sabia de sua existência mas só travei contato com a sua vasta produção literária recentemente. Uma falha. Gosto de tudo que ele escreve mas tenho uma predileção muito especial por Ordenações (Porto Alegre: Editora Globo, 1970).

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL


Contato

 

Não contratei com a vida.

O que ela me liga

é uma conquista de viver,

é uma fúria aprendida,

mas que gosta de ventar em mim.

 

Nunca segui cláusulas,

normas de existir.

Deixo que outros as cumpram

ou descumpram,

em artigo de morte ou vício.

Deixo que os contratantes

tentem apanhar a vida

em desídia;

ou busquem leva-la

aos ombros, na garupa

dos próprios escombros.

 

Não contratei com a vida.

Se ela me deu temores, desespero,

não me queixo, nem combato.

Não uso a legítima defesa

para impedir seu parto;

que ela nasça em mim,

cresça e se desfaça
 

Culpa não tenho

deste amor em desgraça,

deste amor sem casamento,

padrinhos, festas oficiais

e oferendas.

 

Não contratei;

o estado de graça

é castigá-la

com merecimento,

desamarrá-la das horas,

matá-la em nós.

E continuar vivendo.

 

 

Retorno

 

Voltei da morte,

órfão.

Desci as escadas

do empório;

entre os móveis

e os suspensórios,

minha alma escorre.

Que alma?

 

Voltei da morte;

nada enxergo

senão a vida;

nada receio

de seus conselhos.

Tudo me intriga

e sou tão velho

nesta medida.

 

Voltei da morte,

tão cheio de arte

e de requintes

que todo afinco

no amor é parte.

 

Voltei da morte.

Larga a viagem

de meus confrontos.

Espelho torto,

vejo-me nela.

posta num canto.

 

Que alma é esta,

feita de engodos

e de florestas?

Nascida há pouco,

morta num pasmo,

ressuscitada,

deixada ao largo?

 

Voltei da morte,

voltei a salvo

do julgamento

e outros contágios,

achando em tudo

diverso modo,

diverso enleio

e o parentesco

vazio de enredo.

 

Voltei da morte

tão estrangeiro

na sua ordem,

descontraído,

míope no esforço

de compreendê-la,

estando morto.

 

Voltei, a tempo

e, a contragosto.

 

 

Crença

 

Ainda serei eterno.

Não sei quando.

Sei que a sombra se alonga

e eu me alongo,

bólide na erva.

 

Ainda serei eterno.

Tenho ânsias cativas

no caderno. Cortejo

de símbolos, navios

e nunca mais me encerro

no meu fio.

 

Ainda serei eterno.

O mês finda, o ano,

o recomeço.

E o fraterno em mim

quer campo, monte, algibe.

Mas sou pequeno

para tanto aceno.

 

Metáforas me prendem

o eterno

que se pretende isento.

 

Numa dobra me escondo;

Noutra, deito.

Os nomes me percorrem no poente.

Sou sobrevivente

de alguma alta esfera

que saia de si mesma

e é primavera.

 

O eterno ainda será viável

como o sol, o dia,

o vento;

misturado ao que me entende

e transborda.

Misturado ao permanente

que me sobra.

 

 

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Extraídos de

ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA

Org. y traducción de Xosé Lois García

Santiago de Compostela: Edición Loiovento, 2001.

 

 

DE LONGO CURSO

        

Para Elza

 

Minha alma descansa

na tua alma,

onde a luz jamais

desativada:

é um navio de longo

curso pela água.

 

Redonda a luz e nós

atracamos na foz

com o fundo calmo.

Em mim te almas

E te amando, eu almo.

 

 

O CEGO DA GUITARRA

(GOYA)

 

Cego com os olhos

e morto. Cegos

os ouvidos. Cegos os olhos

de remota lembrança.

Nariz adunco e morto.

Chapéu entornado

E morto. Sob a capa,

Mortalha. Morto

morto morto.

 

Mas a guitarra

salta, a guitarra

letrada e casta

jorra e alegria

de um povo

em torno.

 

A guitarra é o cego.

A guitarra é o cego.

A guitarra tem os olhos

acesos.

 

 

AOS AMIGOS E INIMIGOS

 

 

De amigos e inimigos

fui servido,

agora estamos unidos,

atrelados ao degredo.

 

Nunca fui o escolhido

onde os deuses me puseram.

Nem sou deles, sou de mim

e dos íntimos infernos.

 

Não.

Não me entreguem aos mortos,

os filhos que me pariram

e plasmei com meus remorsos

no seu mágico convívio.

 

De amigo e inimigos

fui servido

e com tão finada vida

e alegados motivos,

que ao dar por eles, já partira

e quando dei por mim, não estava vivo.

 

         Donações, 1969.

 

 

NOSSA SABEDORIA

 

Nossa sabedoria é a dos rios.

Não temos outra.

Persistir. Ir com os rios,

onda a onda.

 

Os peixes cruzarão nossos rostos vazios.

Intactos passaremos sob a correnteza

feita por nós e o nosso desespero.

Passaremos límpidos.

 

E nos moveremos,

rio dentro do rio,

corpo dentro do corpo,

como antigos veleiros.

 

         Árvore do Mundo, 1977

 

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TEXTOS EN ESPAÑOL

 

 

Extraídos de

ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA

Org. y traducción de Xosé Lois García

Santiago de Compostela: Edición Loiovento, 2001.

 

                                                               DE LARGO CURSO

 

                                               Para Elza

 

                                      Mi alma descansa

                                      en tu alma,

                                      donde la luz está jamás

desactivada:

es un navio de largo

curso por el água.

 

Redonda la luz y nosotros

atracamos en la desembocadura

con el fondo sosegado.

En mí revives

y amándote, yo revivo.

 

         Melhores Poemas, 1997

 

 

EL CIEGO DE LA GUITARRA

(GOYA)

 

Ciego con ojos

y muerto. Ciegos

los oídos. Con los ojos

de remoto recuerdo.

Nariz curvada y muerta.

Sombrero ladeado

y muerto. Bajo la capa

mortaja.  Muerto

muerto muerto.

 

Pero la guitarra

salta, la guitarra

letrada y casta

mana la alegría

de un pueblo

alrededor.

 

La guitarra es el ciego.

La guitarra es el ciego.

La guitarra tiene los ojos

ardientes.

 

 

         Melhores Poemas, 1997

 

 

 A LOS AMIGOS Y ENEMIGOS

 

De amigos y enemigos

fui servido,

ahora estamos unidos,

prendidos al destierro.

 

Nunca fui el escogido

donde los dioses me pusieron.

Ni soy de ellos, soy mío

y de los íntimos infiernos.

 

No.

No me entreguen a los muertos,

los hijos que me parieron

y plasmé con mis remordimientos

en su mágico convivir.

 

De amigos y enemigos

fui servido

y con tan rematada vida

y alegados motivos,

que al dar com ellos, ya marchara

y cuando dí conmigo, no estaba vivo.

 

         Donações, 1969.

 

 

SABIDURÍA

 

Nuesra sabiduría es la de los ríos.

No tenemos otra.

Persistir. Ir con los rios,

ola a ola.

 

Los peces cruzan nuestros rostros vacíos.

Intactos pasaremos bajo la corriente

hecha por nosotros y nustro desespero.

Pasaremos transparentes.

 

Y nos moveremos,

río dentro del río,

cuerpo dentro del cuerpo,

como antiguos veleros.

 

         Árvore do Mundo, 1977

 

 

 Página ampliada e republicada em dezembro de 2007.

 

 


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