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RONALD DE CARVALHO

 

RONALD DE CARVALHO

(1893-1935)

 

 

Diplomata e literato brasileiro nascido no Rio de Janeiro, RJ, um dos mais significativos expoentes do modernismo brasileiro. Após formar-se em direito (1912), ingressou na carreira diplomática (1914). Conciliando a literatura com a diplomacia, seus primeiros poemas denotavam forte cunho simbolista. A estréia em livro ocorreu com Luz gloriosa (1913), que revelava influência de Verlaine e Baudelaire.

Participou na Semana de Arte Moderna (1922), iniciando sua criação no âmbito do modernismo. Morreu em um acidente de automóvel no Rio de Janeiro, quando ele era secretário da presidência da república. Em sua obra também foram destaques Poemas e sonetos (1919), Pequena história da literatura brasileira (1919), Epigramas irônicos e sentimentais (1922), Toda a América (1926), considerado sua obra mais representativa da fase poética, Espelho de Ariel (1923) e Estudos brasileiros (três séries: 1924-1931).
 

Fonte: http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/

 

Fundador da revista Orpheu, em companhia de Luis de Montalvor, que exerceu uma influência notável na intelectualidade de seu tempo.

 

 

Vea: TEXTOS EN ESPAÑOL

 

 

RONALD DE CARVALHO

 

RONALD DE CARVALHO
JOGOS PUERIS
XIII DESENHOS DE NICOLA DE GARO
(edição facsimilar da original de 1926)

[com a grafia da época}

 

O CANTO QUE ME ENSINASTE

O CANTO  que me ensinaste foi virgem e livre:
todas as águas balançaram nelle,
todos os ventos murmuraram nelle,
todos os perfumes se impregnaram nelle.

Foi como um vôo,
foi como um vôo longo, longo,
um vôo todo verde n  teu sol todo de ouro, no eu ar todo azul<
o canto virgem, o canto livre que me ensinaste.

HOKUSAI

Nos charcos chatos
caniços verticaes
rompem rectos
a luz redonda...

A lua redonda
onde pula a carpa de Hokusai...

 

MEIO –DIA

CHOQUE de claridades
Palmas paradas
Brilhos saltando nas pedras enxutas.
Batendo de chofre na luz
as andorinhas levam o sol na ponta das asas!


I
INSC RIÇAO PARA O CORPO DE UMA MULHER VIRGEM

TEU corpo foi como a noite no alto da montanha,
a noite cheia de papoulas,
a noite cheia de mato fresco e vozes silvestres.
Teu corpo foi humido como as plantas que nascem pelo chão,
como as avencas alongadas sobre os rios,
como o ar arrepiado e subtil antes da chuva.

Teu corpo foi mysterioso como um Valle,
como um Valle cheio de silencio.

Teu corpo foi inutil como um longo dia de tedio...


ANTHROPOMORPHISMO


A LUZ sinuosa salta sobre os troncos duros.
De ramos em ramo as folhas todas se lambem,
línguas tremulas, breves, celeres batendo!

Escorre mel do ar...

As mãos do vento baixam sobre o corpo moreno da terra aspera, excitante.

No silencio mono, fatigado, vertiginoso,
cáem gotas pesadas de resina pelo chão...

 

 

    ´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´ 

Epigrama

 

Enche o teu copo, bebe o teu vinho,

enquanto a taça não cai das tuas mãos...

Há salteadores amáveis pelo teu caminho.

Repara como é doce o teu vizinho,

repara como é suave o olhar do teu vizinho,

e como são longas, discretas, as suas mãos...

 

 

Sabedoria

 

Enquanto disputam os doutores gravemente

sobre a natureza

do bem e do mal, do erro e da verdade,

do consciente e do inconsciente;

enquanto disputam os doutores sutilíssimos,

aproveita o momento!

 

Faze da tua realidade

uma obra de beleza

 

Só uma vez amadurece,

efêmero imprudente,

o cacho de uvas que o acaso te oferece...

 

 

O Mercador de Prata, de Ouro e Esmeralda

 

Cheira a mar! cheira a mar!

As redes pesadas batem como asas,

As redes úmidas palpitam no crepúsculo.

A praia lisa é uma cintilação de escamas.

Pulam raias negras no ouro da areia molhada,

O aço das tainhas faísca em mãos de ébano e bronze.

Músculos, barbatanas, vozes e estrondos, tudo se mistura,

Tudo se mistura no criar da espuma que ferve nas pedras.

 

 

De
Ronald de Carvalho
TODA A AMÉRICA
Ilus. Nicola De Garo.
 Rio de Janeiro: Pimenta de Mello e Cia, 1925.   150 p.   ilus.  
Aparece 1926 na folha de rosto, mas no colofão informa-se que foi impresso em 1925)

 

BARBADOS

Na ilha toda clara, lavada pelas águas,
há pregões de miçangas e quinquilharias.
As casas de madeira têm varandas preguiçosas,
varandas úmidas, de tetos baixos, que deitam sombras voluptuososas.

O sol brinca nas ruas,
por onde rolam os grandes ventos da maresia!

Súbito,
num escorrer de linhas oleosas,
balançando os quadris, uma miss de ébano,
sorve a luz que lhe lateja nos seios trêmulos
e lhe penetra o ventre, longa e profundamente...

 


(Ortografia atualizada. A seguir, fac-símile da primeira página do poema)

 

 

BRASIL

(fragmento)

 

 

Eu ouço o chiar das caatingas — trilos, pios,

pipilos, trinos, assobios, zumbidos, bicos

que picam, bordões que ressoam retesos,

tímpanos que vibram límpidos, papos

que estufam, asas que zinem zinem

rezinem, cri-cris, cicios, cismas, cismas

longas, langues — caatingas debaixo do céu!

Eu ouço os arroios que riem,

pulando na garupa dos dourados gulosos,

mexendo com os bagres no limo das luras

e das locas;

 

 

BARBADOS

 

A ilha toda clara,

levada pelas águas,

há pregões de miçangas e quinquilharias.

 

As casas de madeira têm varandas

preguiçosas,

varandas úmidas, de tetos baixos,

que deitam sombras voluptuosas.

O sol brinca nas ruas,

por onde rolam os grandes ventos da maresia!

 

Súbito,

num escorrer de linhas oleosas,

balançando os quadris, uma miss de ébano,

sorve a luz que lhe lateja nos seios trêmulos

e lhe penetra o ventre, longa e profundamente.

 

 

                   Ilha de Barbados, 1923.

 

 

TONALÁ

 

A Carlos Obregón Santacecilia

 

                  

                   Pintada por um alfarrero,

debaixo dos cardos maciços,

Tonalá é uma cidade poblana,

agachada na terra,

vestida de barro cinzento, de chita e miçanga,

fazendo tibore e pratos de argila.

 

Nossa Senhora de Guadalupe ri em toso os nichos,

com grandes olhos de vidro e bochechas

rosadas,

para as indiazinhas que mordem tamales

e para os gorriones que brinca de esconder

com o sol nas hortas verdes.

Em cada pátio a louça crua estala na luz,

na luz de Jalisco intrigante, plebéia,

que salta nas sombras

pula nos muros

molha-se nos charcos

e cai das árvores

como as tunas maduras,

e baila no chão

rola

ciranda

repiqueteia

como a sandália de verniz de um jarabe

pchola,

e fica assustando o ar

como o lenço vermelho de uma novilhada brava!

 

Sobre a porta das casas de adobe,

vestido de china poblana,

Nossa Senhora de Guadalupe ri em todos os nichos,

com os olhos de vidro bem aberto

e as bochechas bem rosadas,

ri para o dia tranqüilo,

para as estradas que mergulham no silêncio

morno,

para os cães que rossonam com o focinho

entre as patas,

ri para o céu azul e brunido,

azul e brunido como os olhos de vidro de

Nossa Senhora de Guadalupe!

 

                   Tonalá, México, 1923

 

                                     

                                        JORNAL DOS PLANALTOS

                                             A Carlos Pellicer

 

Fronteira do Rio Grande

 

Fervura de areias,

Cardos.

Cardos.

Magueyes.

Pedras que se levantam e rompem o horizonte.

Chão de cintilações.

Silêncios vigiados,

homens por trás de todos os silêncios...

Campainhas de canras.

Fogo de sarapes.

México!

 

                   Junho, 1923

 

 

Xochimilco ou o Epigrama da Índia exilada

 

Olhei-me nas tuas águas,

Xochimilco.

Que águas poderão agora

Refletir-me?

 

                   Junho, 1923

 

Puebla

 

Noite sem melancolia,

noite precisa,

onde os contornos, de tão esguios,

ondulam.

As folhas e as estrelas se adelgaçam.

Teu perfil primitivo é um pássaro que vai voar!

A noite é um azulejo de Puebla.

 

 

                   1 de agosto, 1923

 

 

         TODA A AMÉRICA

                   3

           A Renato Almeida

 

 

Onde estão os teus poetas, América?

Onde estão eles que não compreendem

os teus meios-dias voluptuosos,

as tuas redes pesadas de corpos eurítmicos,

que se balançam nas sombras úmidas,

as tuas casas de adobe que dormem

debaixo dos cardos,

os teus canaviais que estalam e se

derretem em pingos de mel,

as tuas solidões, por onde o índio passa,

coberto de couro, entre rebanhos de cabras,

as tuas matas que chiam, que trilham,

que assobiam e fervem,

os teus fios telegráficos que enervam a

atmosfera de humores humanos,

os martelos dos teus estaleiros,

os silvos das tuas turbinas,

as torres dos teus altos fornos,

o fumo de toas as tuas chaminés,

e os teus silêncios silvestres que absorvem

e espaço e o tempo?

 

Onde estão os teus poetas, América?

 

Onde estão eles que não se debruçam

sobre os trágicos suores das tuas sestas bárbaras?

No teu sangue mestiço crepitam fogos de queimadas,

juízes, tribunais, leis, bolsas, congressos,

escolas, bibliotecas, tudo se estilhaça

em clarões, de repente, nos teus pesadelos irremediáveis.

Ah! Como sabes queimas todos esses

troncos da floresta humana,

e refazer, como a Natureza, a tua ordem pela destruição!

 

Onde estão os teus poetas, América?

 

Onde estão eles que não vêem o alarido

construtor dos teus portos,

onde estão eles que não vêem essas bocas

marítimas que te alimentam de homens,

que atulham de combustível as fornalhas

dos teus caldeamentos,

onde estão eles que não vêem todas essas

proas entusiasmadas,

e esses guindastes e essas gruas que se cruzam,

e essas bandeiras que trazem a maresia

dos fiordes e dos golfos,

e essas quilhas e esses cascos veteranos

que romperam ciclones e pampeiros,

e esses mastros que se desarticulam,

e essas cabeças nórdicas e mediterrâneas,

que os teus mormaços vão fundir em bronze,

e esses olhos boreais encharcados de luz

e de verdura,

e esses cabelos muitos finos que procriarão

cabelos muito crespos,

e todos esses pés que fecundarão os teus

desertos!

 

Teus poetas não são dessa raça de servos

que dançam no compasso de gregos e latinos,

teus poetas devem ter as mãos sujas de

terra , de seiva e limo,

as mãos da criação!

E inocência para adivinhar os teus prodígios,

e agilidade para correr por todo o teu

corpo de ferro, de carvão, de cobre, de

ouro, de trigais, milharais e cafezais!

 

Teu poeta será ágil e inocente, América!

A alegria será a sua sabedoria,

a liberdade será a sua sabedoria,

e sua poesia será o vagido da tua própria

substância, América, da tua própria

substância lírica e numerosa.

 

Do teu tumulto ele arrancará uma energia submissa,

e no seu molde múltiplo todas as formas caberão,

e tudo será poesia na força de sua inocência.

 

América, teus poetas não são dessa raça

de servos que dançam no compasso de

gregos e latinos!

 

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TEXTOS EN ESPAÑOL

 

De
Ronald de Carvalho
TODA LA AMÉRICA
3a. edición
Traducción de Francisco Villaespesa
São Paulo: Editora Hispano-Brasileña,  1935

 

Brasil
(fragmento)


¡Yo escucho el chirriar de las caatingas
— trinos, píos, silbidos, zumbidos,
picos que pican, bodones que resuenan tensos,
tímpanos que vibran límpidos,
cris-cris, siseos, penares largos, lánguidos
— caatingas debajo del cielo!

¡Yo oigo los arroyos que ríen,
saltando en la grupa de los dorados golosos,
jugando con los bagres en el limo
de las covachas  las ovas! ...


BARBADOS

En la isla clar,
labada por las aguas,
hay pregones de bujerías
y quincallerías...

Las casas de madera tienen barandas perezosas,
barandas húmedas, de techos bajos,
que arrojan sombras voluptuosas...

EL Sol juega en las calles
donde ruedan los grandes vientos de la marejada>

Súbito,
en un escurrir de líneas olesosas<
balanceando las caderas, una miss de ébano,
sorbe la luz que le palpita en los senos trémulos
y le penetra en el vientre, larga ay profundamente...

 

TONALÁ

Pintada por un alfarero,
debajo de los cardos macizos,
Tonalá es una china poblana,
agachada en tierra,
vestida de barro ceniciento,
de indiana y abalorios,
haciendo tibores y platos de arcilla.

Nuestra Señora de Guadalupe
ríe en todas las hornacinas,
con grandes ojos de vidirio y mofletes rosados,
para las indiecitas que muerden tamales
y para los gorriones que juegan al escondite
con el Sol en las huertas verdes...

En cada patio la loza viva estalla en la luz,
en la luz de Jalisco, intrigante, plebeya,
que salta en la sombra,
trepa por los muros,
se moja en los charcos,
y cae de los árboles
como tunas maduras,
y baila en el suelo,
rueda,
gira,
repiquetea,
como sandalia de charol de un jarabe engreído,
y queda asustando el aire
como la capa bermeja de una novillada brava!

Sobre las pueras de las casas de adobe,
vestida de china poblana,
Nuestra Señora de Guadalupe
ríe en odas las hornacinas,
con los ojos de vidrio bien abiertos
y los mofletes sbien rosados,
ríe para el día tranquilo,
para las estradas que se sumerjen
en el silencio tibio,
para los perros que duermen
con el hocico entre las patas;
ríe para el cielo azul y bruñido,
azul y bruñido como los ojos de vidrio
de Nuestra Señora de Guadalupe!



DIARIO DE LOS ALTIPLANOS

A Carlos Pellicer


FRONTERA DEL RÍO GRANDE

Hervor de arenales.
Cardos.
Cardos.
Magüeyes.
Piedras que se levantan
y rompen el horizonte.

Suelo de centelleos...
Silencios vigilados,
hombres detrás de todos los silencios...



Campanillas de cabras...
Fuego de sapares...

¡México!

                                   Junio, 1923

Xochimilco o el epigrama de la india desterrada

Me miré en tus aguas,
Xochimilco.
¿ Qué aguas podrpan, ahora,
reflejarme?  

                            Junio, 1923

 

Puebla

¡ Noche sin melancolía,
noche precisa, donde los contornos
de tan esbeltos, ondulan !

Hojas y estrellas se adelgazan.

¡ Tu perfil primitivo
es un pájaro que vá a volar!

La noche es un aqzulejo de Puebla. 

 
                                               Agostp. 1923

 

De

9 POETAS DEL BRASIIL
una antología de Enrique Bustamante y Ballivian.
Lima: Centro de Estudios Brasileños,  1978
109 p.

 

 

FILOSOFIA

 

La realidad apenas

es un milagro de nuestra fantasia . . .

Transforma en una Eternidad

tu rápido momento de alegria!

Ama, Hora, sonríe ... y dormirás sin penas

lleno de la belleza que hubo en tu realidad.


 

CANCION DE LA VIDA COTIDIANA

 

El sol brilla en las piedras de la calle pobre y estrecha,

entre las piedras de la calle la grama crece.

 

De una ventana abierta viene una voz doliente,

una voz sin timbre, una voz de lágrimas ignoradas . . .

 

El sol quema las coles en los huertos desiertos.

Vibra en la luz el ojo metálico de un charco de agua.

         (Calle pobre y estrecha donde la grama crece.

calle monótona como el cielo azul,

calle monótona como el cielo lleno de estrellas.

calle de los muros blancos y de los jardines sin flores,

calle de los pregones metálicos e inútiles,

calle de la vida cotidiana . . .)

 

 

ARTE POÉTICA

 

Mira la vida, primero, largamente,

enternecidamente,

como quien la quiere adivinar . . .

Mira la vida riendo o llorando, frente a frente.

Deja, después, al corazón hablar.

 

 

Ronald de Carvalho, retrato
por Cândido Portinari, pintura a óleo/tela
1929 – Rio de Janeiro, 65x54 cm.

 

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Página publicada em março de 2008; ampliada e republicada em janeiro de 2011

 



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