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Sobre Antonio Miranda
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



H. DOBAL

 

(1927-2008)

 

Encontro num sebo de calçada no Setor de Diversões Sul, em Brasília, o livro Gleba dos ausentesUma antologia provisória (2002, Livraria e Editora Corisco, Teresina-PI), do poeta piauiense H. Dobal*. A capa num azul, parecendo um barco navegando no céu, ou no desperdício do tempo. E penso no tempo que desperdicei em não aproveitar a presença carinhosa deste poeta, que trabalhava aqui em Brasília, no mesmo setor em que encontro o seu livro. Visitei-o uma única vez quando ele trabalhava naquele setor, numa repartição do Ministério da Fazenda. Em seguida, ele me mandou uma carta calorosa sobre meu livro que tinha deixado com ele.

 

Trata-se de um poeta de visão especial sobre o mundo. Destes poetas flaneur da memória. Destes poetas que estão sempre passeando sobre a superfície do mundo, e a sua poesia nos leva a passear com as suas palavras.

 

A apresentação da antologia é de H. Paulo Nunes, que assinala a certa altura sobre H. Dobal: “...um nome, dos maiores de nossa cultura; uma obra, das mais representativas da poesia de língua portuguesa; e um público cada dia mais exigente e interessado em seus livros”. Edmilson Caminha, também piauiense, em artigo que escreveu sobre o poeta, diz que “os versos de H. Dobal são daqueles que, sozinhos, valem por uma literatura”.

 

H. Dobal nasceu em Teresina (PI) em 1927. Bacharel em direito, funcionário público, residiu em Brasília, Londres e Berlim.    

                                        (Salomão Sousa. Brasília, 2/5/2007)

 

*Hindemburgo Dobal Teixeira

 

Bibliografia: O Tempo Conseqüente  (estréia, 1966); O Dia Sem Presságios (1970), Prêmio Jorge de Lima do INL; A Viagem Imperfeita (1973); A Província Deserta (1974); A Serra das Confusões (1978); A Cidade Substituída (1978); Os Signos e as Siglas (1986); Uma Antologia Provisória (1988); Cantiga de Folhas (1989); Roteiro Sentimental e Pitoresco de Teresina (1992); Ephemera (1995); Grandeza e Glória nos Letreiros de Teresina ( 1997); Lírica (2000); Um Homem Particular (contos -1987, Coleção Contar, vol.4, 2002); Gleba de Ausentes -Uma antologia provisória 2002 - ano do sesquicentenário deTeresina.

 

Veja também: TEXTOS em PORTUGUÊS /  en FRANÇAIS

 

 

CHUVA

 

A chuva cata segredos

nas folhas vivas da tarde.

O leve passar do vento,

o lento passar do tempo

nas folhas vivas da tarde.

E a chuva a chuva,

as águas doces da chuva,

no lento apodrecer

das folhas mortas da tarde

vão despertando os segredos da vida.

 

 

CAMPO MAIOR

 

Ai campos do verde plano

todo alagado de carnaúbas.

Ai planos dos tabuleiros

tão transformados tão de repente

num vasto verde num plano

campo de flores e de babugem

 

Ai rios breves preparados

de noite e nuvem. Ai rios breves

amanhecidos na várzea longa,

cabeças d’água do Surbim

no chão parado dos animais,

no chão das vacas e das ovelhas.

 

Ai campos de criar. Fazendas

de minha avó onde outrora

havia banhos de leite. Ai lendas

tramadas pelo inverno. Ai latifúndios.

 

 

FACTUS EST

 

O que fez o verão também fez

esta água parada água de mal viver.

Fez o dia de cacto e macambira, o dia de sono e sol

sobre a sombra dos pequizeiros. Fez a luz nos olhos

das onças pretas. Os bichos bravos

pisando macio nas folhas secas. As passadas fundas

na areia das trilhas

onde os comboios de jumentos

levaram suas cargas

de carne-seca, farinha e rapadura.

O que fez da vida a selva escondida nos troncos

sob o sol. Fez os olhos da pedra

que vence os verões. Fez as palhas da carnaúba

e as águas cortadas

águas mornas

água de barro

água de cacimba

que a sede não refuga.

O que parou as águas fez irreal este silêncio

dos chapadões. Fez os bichos obstinados

de sol e de poeira: as cabras as formigas

os cupins o homem sóbrio

e os seus dias de mal viver.

 

 

RUÍNAS

 

Estas velhas paredes não confessam

à brisa sem memória os seus segredos.

A pedra construída sobre a pedra,

numa estranha argamassa reforçada

por suor de escravo e óleo de baleia,

como se alguém quisesse levantar,

contra o sereno da noite,

contra a ferrugem do mar,

uma alvenaria libertada

de tudo o que a morte corrompe.

Mas pouco permanece. Estas paredes

vão-se abatendo semi-destruídas

pelo puro movimento dos dias.

 

Bate na tarde um vento claro,

bate no peito uma lembrança

que estas paredes não confessam:

A vida. A mágoa sem remédio. O jogo do amor,

talvez mais difícil naquele tempo.

 

 

De
LÍRICA
Editores: Cineas Santos /  Marcílio Rangel
Teresina: Oficina da Palavra / Instituto Dom Barreto [2000]

 


CANTIGA DE VIVER

SOZINHO NA CAMA
UM HOMEM ESPERA SUA HORA.
A INESPERADA HORA DE TANTOS.

A VIDA É UM CANTIGA TRISTE
MAIS TRISTE E À-TOA QUE A DAS ANDORINHAS
— LAS OSCURAS GOLONDRINDAS
TÃO MAL VIVIDA
TÃO MAL FERIDA
TÃO MAL CUMPRIDA.

A VIDA É UMA CANTIGA ALEGRE:
O PRIMEIRO SORRISO DE CADA FILHO
E TODOS OS MICROAMORES
QUE INUTILIZAM
A VITÓRIA DA MORTE.


OS NAMORADOS

ESTA ELEGIA PARA OS NAMORADOS
QUE ANDAM EM SILÊNCIO PELA PRAÇA MORTA,
DE PASSO LEVE, INCERTO COMO O SONHO
A QUE SE ENTREGAM SOLITARIAMENTE.

É TRISTE E BREVE COMO OS NAMORADOS
E O SEU AMOR DE ADOLESCÊNCIA. MORTA
TODA A TERNURA FICARÁ E O SONHO
TAMBÉM SURGINDO SOLITARIAMENTE.

QUE ESTE SILÊNCIO VENCE OS NAMORADOS,
COMO UM AVISO FÚNEBRE E FATAL,
APARECENDO EM MEIO AOS CARINHOS.

LEMBRANDO AMOR E SONHO ABANDONADOS
E O RISO FRÁGIL, RÁPIDO, IRREAL:
“TANTO MAIS JUNTOS QUANTO MAIS SOZINHOS”.

 


AMOR

NA CALMA DA TARDE
VEM UM PENSAMENTO.
PARTIR PARA SEMPRE.
SÓ. NO ADEUS DO VENTO.

VÃO AS VELAS CÔNCAVAS
SOBRE O MAR ABERTO
VÃO LEVANDO O AMOR
AO DESTINO CERTO;

TURVA CALMARIA
AFUNDA O VERÃO.
NAUFRAGADO AMOR.
O AMOR É SOMENTE
UMAS DESSAS COUSAS
QUE VÊM E QUE VÃO.

 

 

 

Página ampliada e republicada em julho de 2009 



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