Poeta paranaense de projeção nacional, pode ser considerado uma figura emblemática na evolução (ou revolução) da poesia brasileira. Figura polêmica já devidamente assumida e assimilada pela crítica, até mesmo por aquela de extração mais acadêmica. Não foi sempre assim... Começou com os livros Catatau (1979 e Não fosse isso e Era Menos/Não fosse tanto e era quase (1980) em edições do autor. Seguiram-se obras “alternativas” e marginais até as mais comerciais: Caprichos e Relaxos (1983), MatsuóBashô (1983), Jesus a.C. (1984); Agora é que são elas (1984) e Leon Trotski, a paixão segundo a revolução (estes últimos pela Brasiliense) e, postumamente uma coleção sob o título de La vie em close..., com sucessivas edições, pela mesma editora paulista.
Ironia, hoje os direitos autores estão reservados ao Espólio. Seja como for, estamos publicando alguns de seus poemas que julgamos já de domínio público, considerando que esta é uma edição virtual, sem fins lucrativos, de divulgação cultural. É uma homenagem ao grande poeta, uma tentativa de aproximá-lo do público dos internautas e um convite para que busquem seus livros nas bibliotecas e nas livrarias, para continuar a leitura de outros textos. Vale sempre a pena quando a alma não é pequena...
“elas quando vêm
elas quando vão
versos que nem
versos que não
nem quero fazer
se fazem por si
como se em vão
elas quando vão
elas quando vêm
poesia que sim
parecem que nem
(Leminski, Caprichos e relaxos, 1983)
um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto
SINTONIA PARA PRESSA E PRESSÁGIO
Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Sôo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.
Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.
ROUND ABOUT MIDNIGHT
um vulto suspeito
e o pulo de um susto
à solta no peito
no beco sem saída
caminhos a esmo
o leque de abismos
entre um eco
e seus mesmos
CURITIBAS
Conheço esta cidade
como a palma da minha pica.
Sei onde o palácio
sei onde a fonte fica,
Só não sei da saudade
a fina flor que fabrica.
Ser, eu sei. Quem sabe,
esta cidade me significa.
HEXAGRAMA 65
Nenhuma dor pelo dano.
Todo dano é bendito.
Do ano mais maligno,
nasce o dia mais bonito.
1 dia,
1 mês, 1
ano
DIONISIOS ARES AFRODITE
aos deuses mais cruéis
juventude eterna
eles nos dão de beber
na mesma taça
o vinho, o sangue e o esperma.
SACRO LAVORO
as mãos que escrevem isto
uma dia iam ser de sacerdote
transformando o pão e o vinho forte
na carne e sangue de cristo
hoje transformam palavras
num misto entre o óbvio e o nunca visto
O que amanhã não sabe,
o ontem não soube.
Nada que não seja o hoje
jamais houve.
El espléndido corcel
ve la sombra del chicote
y corre, esplendores del caballo
em laberintos de la crin
excitado por el viento
cancelas espacios de quimera
consumes el tiempo
hoguera que héroes incinera
tênia impulsos de cielo
y avidez sobre el mar
los campos azulados del pólo
el cielo piel de onza
y slides del zodíaco
los campos dolorosos del piélago
donde pacen peces
y el nudo de los pulpos adoba al sol
aquí la fábula habla
en el marco del juego de las olas
hiere los cascos en las estrellas
y picado por los filos
de las fieras del horóscopo
se turba un poco
cae la vigilia en el sueño
lúcido y súbito ya no mártir
queda en la tierra, caballo
el ojo lleno de estrellas
el cuerpo soso de las olas
y el corazón en el pecho
iHecho un plebe dormido!
Extraído de la revista BLANCO MÓVIL, n. 75, México, Primavera de 1998.
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Trad. Mario Camara
HEXAGRAMA 65
Ningún dolor por el daño.
Todo daño es bendito.
Del año más maligno,
nace el dia más bonito
1 día,
1 mes, 1
año
DIONISIOS ARES AFRODITE
a los dioses más crueles
juventud eterna
ellos nos dan de beber
en la misma copa
vino, sangre y esperma
SAGRADO LAVORO
las manos que escriben esto
un dia iban a ser de sacerdote
transformando el pan y el vino fuerte
en la carne y sangre de cristo
hoy transforman palabras
en un mixto entre lo obvio y lo nunca visto
Born in Curitiba onAugust 24,1945, Paulo Leminski led a life on the margins of society, working in advertisitng and intermittent collaboration with newspapers and journals. Leminski died in 1989 from alcohol abuse. Despite the difficulties of his life, he wrote several works of prose fiction and poetry.
He is now recognized as one of the most important poets of his generation.
BOOKS OF POETRY: Quarenta Cliques em Curitiba (1979); Polonaise (1980); Caprichos e Relaxos (São Paulo: Editora Brasiliense, 1983), Distraídos Venceremos (1987); La vie en close (São Paulo: Editora Brasiliense, 1991)
Pelo
pelo
branco
magnólia
o
azul
manhã
vermelho
olha
(from Caprichos e Relaxos, 1983)
Through
through
magnolia
white
the
morning
blue
sees
red
—Translated from the Portuguese by
Michael Palmer
O Assassino Era O Escriba
Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito
inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida,
regular como um paradigma da la conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto
adverbial, ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.
(from Caprichos e Relaxos, 1983)
The Assassin Was the Scribe
My professor of syntactical analysis was a sort of
nonexistent subject.
A pleonasm, principal predicate of your life,
common as a paradigm of conjugation.
Between subordinated oration and adverbial
adjunct he had no doubts: always found an
asyndetic way to torture us with an appositive.
He married grammatical rectitude.
Was unhappy.
Was possessive like a pronoun.
And she was bitransitive.
He tried to go to the USA.
No way.
They discovered an indefinite article in his suitcase.
His moustache's exclamation point declined explicatives,
connectives and passives, forever.
One day I greased him with a direct object through the head.
—Translated from the Portuguese by Michael Palmer
Dois Loucos No Bairro
um passaos dias
chutando postes para ver se acendem
o outro as noites
apagando palavras
contra um papel branco
todo bairro tem um louco
que o bairro trata bem
só falta mais um pouco
para eu ser tratado também
(from Caprichos e Relaxos, 1983)
Two Madmen in the Neighborhood
one of them spends his days
kicking lampposts to see if they light up
the second his nights
erasing words
from white paper
every neighborhood has a madman
it takes beneath its wing
not long till I can
be treated for the same damn thing
- Translated from the Portuguese by Regina Alfarano,
with revisions by Dana Stevens
Seleção de poemas publicados originalmente em:/ Poems from:
NOTHING THE SUN COULD NOT EXPLAIN: 20 CONTEMPORARY BRAZILIAN POETS, edited by Régis Bonvicino, Michael Palmer and Nelson Ascher. In> THE PIPE – ANTHOLOGY OF WORLD POETRY OF THE 20TH CENTURY. Vol. 3. Los Angels, USA: Green Integer, 2003.
Edição com o apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil e do Consulado Geral do Brasil em San Francisco, California, USA
ASSALTARAM A GRAMÁTICA
Jovens e vivazes, provocadores e inovadores... Alice Ruiz... todos jovenzinhos..., Chacal e Chico Alvim, Cristina César, Paulo Leminski, Wally Salomão... e outros mais, num video imperdível, memorável, enviado por Edson Cruz, do Sambaquis, que recebeu do Giuseppe Zani, via Ricardo Aleixo, que... agora passamos adiante. Vejam e repassem....
COMENTÁRIO SOBRE A SUSPENSÃO DO VÍDEO:
Aqui está um bom exemplo da confusão referente à Lei do Direito Autoral no Brasil... Recebemos este vídeo pela Internet, de um dos personagens do vídeo, pedindo a difusão...
Foi o que fizemos. A produtora entrou com um pedido para o reconhecimento de seus direitos autorais. O vídeo não foi publicado em nosso Portal, apenas fizemos um link, a pedido de um dos poetas. A fonte onde está depositado deve ter suspenso a disponibilização do video até que se resolva a questão. Sem entrar no mérito do recurso da produtora, fica sempre aquela pergunta: em alguma instância os poetas participantes do vídeo vão receber por sua imagem? Mas a questão é outra: quando o Brasil vai adotar o FAIR USE, quando a divulgação for sem fins lucrativos, por interesse estritamente cultural? Fica aqui o link cego para representar o dano à cultura. Sem com isso querer contestar o pleito da produtora, cuja decisão cabe à justiça, nos estreitos, estreitíssimos, espaços da lei vigente, que estava em processo final de discussão para ser reformada e que atualmente está de molho... Uma lei só é boa quando for justa para todos.