SÉRGIO DE CASTRO PINTO
Livros de poesia: Gestos lúcidos (1967), A ilha na ostra (1970), Domicílio em trânsito e outros poemas (1983), O cerco da memória (1993), A quatro mãos (1996) e Zôo imaginário (2005). Participou de muitas antologias e é autor também de ensaios. Vive em João Pessoa, Paraíba, Brasil.
“É epigramático, sem ser enigmático.” José Nêumanne
“Digo “epigramática” não tanto no sentido de “satírica”, antes no de “lapidar” (...), referindo-se às composições curtas, cheias de humour, de ironia, aguçadas com a lâmina de imagens-relâmpago, como Aerofobia: “dou duas voltas / na chave / da porta / e trancafio / a paisagem / lá fora”.” Anderson Braga Horta
as cigarras
são guitarras trágicas.
plugam-se/se/se/se
nas árvores
em dós sustenidos.
kipling recitam a plenos pulmões.
gargarejam
vidros
moídos.
o cristal dos verões.
a girafa (V)
da terra antípoda.
és um gajeiro
que só nuvens
avista.
sarapintado mastro
de uma nau
à deriva.
atos falhos
sequer os ensaio.
mas os meus atos
falhos
encenam-se assim:
eles já no palco
e eu ainda
no camarim.
diário
no guarda-roupa
(imóvel de jacarandá),
os dias antigos
suspensos em cabides
em ritos de abraçar.
sobre imóveis roupas
(diário colorido)
o pássaro distingo:
o pó dos sábados,
memória dos domingos!
Poemas extraídos de O CRISTAL DOS VERÕES. São Paulo: Escrituras, 2007.
Página ampliada e republicada em maio de 2008
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poeta x poema
nem sempre o poeta
ronda o poema
como uma fera à presa.
às vezes, fera presa e acuada
entre as grades do poema-jaula,
doma-o o chicote das palavras.
a coruja
são todo ouvidos
os teus olhos
de vigília
olhos acesos,
luzeiros
de sabedoria.
olhos atentos
à geografia
do dentro,
és uma concha.
um encorujado
caramujo.
monja em voto de silêncio.
as cigarras
são guitarras trágicas.
plugam-se/se/se/se/se
nas árvores
em dós sustenidos.
kipling recitam a plenos pulmões.
gargarejam
vidros
moídos.
o cristal dos verões.
a garça
na tarde gris,
a garça
encolhe a perna:
ariano saci
entre
vitórias-régias?
o pavão
são tantos olhos abertos
sobre a cauda polvilhados
que em leque entreaberto
há sempre quem o enxergue
qual um indiscreto voyeur
em um narciso disfarçado
noturnos
- nenhuma ovelha
pula a cerca
de minha insônia
abato a todas.
e quanto à lã,
serve de enchimento
para o travesseiro.
serve
- a cada manhã –
para travestir-me
de cordeiro.
as frações do boi
- o boi
nos chifres pressente:
armações futuras,
construções de pentes.
o pente
(mudo e capilar)
na cabeça pasta
sem ruminar.
Poemas extraídos do livro ZOO IMAGINÁRIO. Ilustrações de Flávio Tavares. São Paulo: Escrituras, 2005. 64 p.
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Extraídos de
ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA
Org. y Trad. Xosé Lois García
Edicións Laiovento
Santiago de Compostela, 2001
NÔMADE
acha que atritas,
o meu falo queima.
somos trogloditas
descobrindo o fogo.
crescem labaredas.
sob a braguilha
armo uma tenda
com a minha glande.
e o meu falto nômade
rumo à tua tenda
levanta campamento.
A PEDRO NAVA
se a linguagem da nava
é um bisturi afiado
que extirpa o presente
pra restaurar o passado,
pedro rola as pedras
dos seus dias.
e da base ao cume
de cada segundo,
Pedro suporta o peso do mundo.
O PAVÃO
são tantos olhos abertos
sobre a cauda polvilhados
que em leque entreaberto
há sempre quem o enxergue
qual um indiscreto voyeur
em um narciso disfarçado.
SOBRE O MEDO
o medo
se aloja na medula
como um cubo
de gelo.
o medo
se infiltra no tinteiro
e o congela.
o medo
se instala na palavra
e a enregela.
com o medo
aprendi o ofício
de armazenar as palavras
como num frigorífico
com o medo conservo:
dez mil palavras
abaixo de zero.
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TEXTOS EN ESPAÑOL
Extraídos de
ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA
Org. y Trad. Xosé Lois García
Edicións Laiovento
Santiago de Compostela, 2001
NÔMADA
cree que aflige
mi falo quema.
somos trogloditas
descubriendo el fuego.
crecen llamaradas.
bajo la bragueta
monto na tienda
con mi glande.
y mi falo nómada
rumbo a tu grieta
levanta campamento.
A PEDRO NAVA
si el lenguaje de nava
es un bisturi afilado
que extirpa el presente
para restaurar el pasado,
pedro arrulla la piedras
de sus dias.
y desde la base hasta la cumbre
de cada segundo,
pedro soporta el peso del mundo.
EL PAVO REAL
son tantos ojos abiertos
sobre la cola polvoraizados
que en abanico entreabierto
hay siempre quién lo observe
cual un indiscreto voyeur
en un narciso disfrazado.
SOBRE EL MIEDO
el miedo
se aloja en la medula
como un cubo
de hielo.
el miedo
se infiltra em el tintero
y lo congela.
el miedo
se instala en la palabra
y la congela.
con el miedo
aprendi el oficio
de almacenar lãs palabras
como en un frigorífico.
con el miedo conservo:
diez mil palabras
bajo cero.
Página ampliada e republicada em dezembro de 2007
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