RONALDO WERNECK
(1943- )
“Creio que talvez possamos admitir que axista um movimento artístico intitulado “pos-modenismo” e que sua característica primordial seja a intertextualidade, ou a explicação do diálogo que estabelece com própria arte. Explicação porque não só admite mas mesmo denuncia sua filiação. Nesse sentido, pós-moderno é Ronaldo Werneck, que em 1976 lançou a primeira edição, agora revisitada, de(ste) Selva Selvaggia.” Assim começa Luiz Ruffato a apresentação do poeta-cinético ressaltando seu “barbarismo” fundado no “pensamento concretista”, um oxímoro...
“Sua poesia, que nos suga e seduz, é a da palavra, posta a serviço da própria palavra, recriando outra –sua metamorfose”, completa Lina Tâmega Del Pelaso.
Vem recomendado pelo também mineiro Ronaldo Cagiano... mas Ronaldo é já conhecido de todos, mesmo dos que desconhecem a sua intrigante obra. E antes que me esqueça, ele também é de Cataguases, terra da eterna modernidade... (A.M.)
Ronaldo Werneck participou da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, 2008.
Página do autor: www.ronaldowerneck.com.br
Ronaldo Werneck
Há controvérsias 2.
São Paulo: Arte Paubrasil, 2011. 501 p. ilus.
ISBN 978-85-99629-34-5
Lina Tâmega Peixoto afirma que Ronaldo Werneck tem “a habilidade de jogar com as palavras, uma provocação lúdica às formas verbais para alcançar uma linguagem delirantemente estética”. Com humor, leveza, sagacidade. É o que revela este segundo volume em que compila sua vasta produção de crônicas, ensaios, poemas, resenhas, testemunhos, anotações de viagens, delírios, desaforos, elucubrações. A gente sabe que ele é criativo em tempo integral. Material levado aos jornais e agora em volume caprichado, edição primorosa. Vai um dos poemas para o prazer de nossos leitores:
No coração
da metrópole
veja
menina
o verso brotou
de arranco
na esquina
de ouvidor
com rio branco
oval da face que na noite dança
e continuou
martelo
açoite
fustigando a avenida
veja
menina
como o poema
salta do bolso
e dá vida
menina
veja
menina
era um deca
veja menina às vezes proponho
biternárias sucessões atônitas
estilhaços de sol faíscas de sonho
dez sílabas marcadas pela tÕnica
Veja
menina
era um deca
mas já
na esquina
de alfândega
o troço
ora pois
virou
pândega
depois
— NECA!
Centro do Rio no anoitecer dos anos 60/
Jornal Cataguases/ 22.08.2004
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De
MINERAR O BRANCO
Sâo Paulo: artepaubrasil, 2008
ISBN 978-85-99629-14-7
MAR DE CAMÔES AMAR
FLORBELA ESPANCA
— O que tens, bela? A que vens, Florbela?
— Mar de dor, dor a navegar, Camões.
Velas, clarões de carabelas velhas,
trôpegas, tontas sob o azul: canções.
— E tu, Luís, aonde vais, aonde?
— Mar de Camões amar Florbela Espanca
que se esvai: mar. Flor, bela flor: responde
amor, ao brado de seu bardo e canta.
Mas donde vens, vela, branca luz e tanta?
— Do mar me tens: mar, mar, maralto e largo
Flor D'Alma Bolada Conceição Espanca
esse mar, fado, mar de outroragora
doce amar, tanto mar que amar amargo.
—- Flor, bela flor em desconcerto: chora.
MINASCER
florir entre a macela e a paina e a treva
florir ¡mensamente e saber
que tudo em torno é urna ¡mensa solidão
e a cumplicidade ansiada não existe
Octavio Mello Alvarenga, in Rosario de Minas
minas menina
ha que nascer
ser meniminas
em miNascer
só pra saber
em minasCer
mato minério
trem louco vem
enverdecer
ser minastério
anoitecer
ser minaSer
maCio
para Daniela Aragão
terra molhada terra tecer
esse corpo só esse ser geo
graficamente aqui a meu lado
amor maCio amor melado
Juiz de Fora, novembro 2004
& meta-poema
a Affonso Romano de Sant´Anna
[
erra
quem no poema
introduz
a puta palavra puta
não pelo que em si encerra
luz! luz!
mas pela forma impoluta.
mais vale égua
— trepada sem trégua
mais vale vaca
— estuprada a faca
mais vale lady
— mesmo que ela peide
mais vale mãe
— quer ganhe ou não ganhe
corte de seu poema
puta palavra pura
este alazão esconso
cravado em sua gema
o que fica
é um resto de pica
que freme
— sans cesse—
endurece
enobrece
& dignifica
o que
dobra
e fica
é só sua obra
o que sobra
do poema
germe
sêmen
que salta
&
— upa —
se catapulta de sua garupa
Cataguases, 1991
Poemas extraídos de NOITE AMERICANA DORIS: DAY BY NIGHT. Rio de Janeiro: Íbis LIbris; Cataguases: Poemação Produções, 2006. 168 p. ilus.
RE/TOMADA VISUAL
O Poeta na Praça
A Ferreira Gullar
findo o seu cantar
manhã já no meio
o galo-gullar
não cisca:
antes
levanta a crista
e logo ei-lo
esguio
elegante
pela praça do lido:
ereto e no prumo
rumo-leme
passa apressado o poeta
-ZAZ!
esbaforido
o poema bufa atrás:
— a poesia freme
Rio, 2001
Pound/O Mergulho
I would bathe myself in strangeness:
(…)
On to be out of this,
This that is all I wanted
— save the new.
Ezra Pound
A Sérgio Ribas Câmara
nas entranhas
das estranjas
me banhar
lá quero estar
lá onde vou
fico relax
& magnífico
lá quero estar
eu queimo
eu ardo
eu me acabo
lá quero estar
de novo
mais uma vez
make it new
lá quero estar
um mergulho
onde
new faces
luas ares
um mergulho
onde
o sol
não se esconde
lá quero estar
como fora
daqui está
o estopim
claro alarido
ensolarando o sonho
lá quero estar
São Paulo, 1977
CENA 2
tudo que em mim criança
e circo e clowns e dança
tudo que em mim convida
para a festa da vida
e roda roda-rota
rota-roda de acordes
tudo que me recorde
tutto che me a m´acord
ch´é una festa la vita
os pés sujos de infância
tem-pó e água límpida
as mãos suja de dolce
vita em meio: estrada
rota-receio-ponte
de vida e vitelloni
alegria que dança
tutto tutto que em mim
rimini-relembrança
minas em mim redime
tudo que em mim menino
rota-rito-fellini
Cataguases, mar. 2001
Quase-quases
para Sérgio França
quase-quases
quase maia-água
quase meia pata
quase meia cata
quase meia pataca
quase meia pacata
quase-quases
pataca
pacata
pataca
pacata
pataca
quase-quases
pacataguases
Cataguases dez. 1998
amada: flashback1
o retrato nas mãos
ser e grafia
e o tempo entre nós
por trás de cada dia
há que pesar o tempo
encontro grave e vago
no chíaroscuro momento
que só a nós pertence
não-pensamento
há que pesar o tempo
minha amiga minha amada
trazê-Io à luz da alegria
clarão entrevisto
nas frestas da noite
entre ti e tido e tudo
às margens do novo dia
pesá-lo e dizer
a corpo nos conduza
às veredas da aurora
1. Poema musicado por Carlinhos Vergueiro. A canção resultante, “Ser & Grafia” foi gravada
por Edinho Gonçalves no CD Dentro & Fora da Melodia, de RW.
Poema visual
ENVOI
RRRONALDO WWWERNECK
E A POEMAÇÃO
mar interior de minas
mar íntimo, labiríntico
absíntico!!!
egoistica
mente
a gente
se reconhece nos outros.
wwwerneck, doble w, triple w, veja:
alfarrrábico
wwwerborrágico
todo triângulo é vaginal
todo ângulo é marginal
— voragem, miragem, vertigem,
então, afinal — elogiá-lo?
— plagiá-lo?!
ronaldo sempre
em movie/mento:
orgiástico, frenético, cáustico
(um arquétipo) e multifacético.
isso mesmo: cinético
imaginador
— maiakovskiano
mallarmáico
dadaísta – pois
e depois “o mundo é táctil”
dúctil, réptil
“feito de tudo
e de nada”
“o universo / de sua cama”
você engana...
(que bacana! que sacana!)
até acho que ama...
Para você, desde BSB,
alcaparras, algazarras,
farras e fanfarras!!!
ANTONIO MIRANDA
28.01.2006
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