FRANCISCO MARCELO CABRAL
Cataguases, Minas Gerais, 1930.
Obra poética: O Centauro (1949); Inexílio (1979); Baile de Câmara (1992); Poema em Três Cantos (2000); Pedra de Sal (2003); Livro dos Poemas (antologia, 2003) e Cidade Interior (2007.
“O livro é grande. Sincero o digo, olha: até do “Poema da Identidade” estou gostando... Não é engraçado? Poesia é coisa-causa, difícil e fácil; é uma espécie de contágio.” Guimarães Rosa, 1954.
“Rigoroso, inventivo, impecável.” José Lino Grünewald, 1993
“Se toda viagem é a bus de um regresso — primordialmente um regresso à infância —, Francisco Marcelo Cabral, como não poderia deixar de ser, assim regressa, sem cessar, à sua ítaca-mundominias.” André Seffrin
INSTABILIDADE
Pêndulo indeterminado,
inextinguível e liberto,
vacilo entre o duplo fim.
Anseio por horizontes
do começado caminho:
vejo a luz e quero ir.
Que me rouba o ser estável?
Abro os olhos, nada vejo,
sinto a ausência do meu corpo,
rubro poente de mim.
As idas de longe acenam.
Ai, me perco nas veredas,
Quero as vindas, dai-me as vindas.
Quê me perturba a beleza?
Oh, não cantará as musas
o que a si próprio se oculta
nas dobras do não-dizer.
Minhas vestes já rasgadas
minhas mãos desencarnadas
minha presença ocultaram.
Quê me liberta o inefável?
Anjo de asas caídas,
os olhos não volverei
para contemplar os despojos.
Meu vôo cortei bem rente.
Não satisfeito, amputei-me
e apenas amanheci.
Quê me detém na pureza?
SONETINO
Não eu, que a tenho em pedaços
e apenas procuro recompô-la
como a um arlequim desfeito, exposto
a só se perder, malbaratado.
Eu não! Outros que a vão buscar, úmidos
do próprio suor reminerado.
A mim me cabe mais: a vida é um
Respirar esperançado.
Sou o pássaro e me lanço
a toda a liberdade, o olho contra o sol
e contra o vento as penas, como
quem se afasta só sem mais ruído
que um ligeiro adejar de asa acesa
e vai, lá em Minas, repousar.
PEDRA
Escrevemos
Porque sabemos
que vamos morrer.
Escrevemos
porque não sabemos
por quê.
DOCA
Para Alberto da Costa e Silva
Necessário dar ao poema
endereço e compromisso
e não deixar à solta
— nave de papel e tinta
que a água do tempo dissolve.
A uma inspeção de minúcias
deve ser submetido
para que em cada atracagem
uma laboriosa estiva
libere a apreciada carga.
Necessário armar o poema
com rigorosa treliça:
que não pareça destroços
de naufrágios reunidos.
O poeta habite o poema
ou dele se distancie
que o que segue transportado
no convés e nos porões
como o ar em nossos foles
se esvazia e se repõe.
Se não lhe dá uma rota
ao poema, largado à sorte
das coisas que só flutuam
sem a nitidez das naus,
o poeta voga à matroca,
e o poema atraca no caos.
CIDADE INTERIOR
É onde à noite os medos
convocam as fantasias das sombras
cortam as luzes das ruas
e ao fraco luar se tropeça
em cães ressoando
e mal se ouve a suave respiração dos sonhos
as pisadas no tambor dos pesadelos
e os silvos remordidos do gozo
(e onde mortos rumorejam pelas grotas)
uma cidade para sempre estacionada
no poema
- falsa e inesquecível.
VITAMORS
Para Ascendino Leite
O passado mal se equilibra, nos derruídos blocos
desunidos
da extinta harmonia.
O futuro demole todo o cristal
e dura como o barro — a perspectiva do pó.
Sonhos, amores, juventude
— o presente é o tempo que morre em você.
A CARNE DA PALAVRA
Há no teu nome tanto
de animal e alvorada, tanta vida,
que o amo também.
Pronunciá-lo é gozar,
sentir tua presença,
palpável cristal.
És insondável, és,
embora em superfície toda brilhe
tua estrela, tua fonte.
Tens derramado em tuas letras
um sangue algum, que te define e forma
e se comunica e vem
ou sou eu quem o extrai
e do aparente friúme da palavra
reacende a chama essencial.
Pode muito Eros:
de seu reino de asas cortadas
nunca escaparás.
Que a palavra em ti
pertence-me, e eu condeno-te a sofrer
a límpida maldade
do verso que te despe.
Confia, pois vai nisto, bem que rude,
um amargo travo de amor.
AI DE NÓS
Oh, um carvalho crescendo é tão sério
(e vem o lenhador com seu machado e fere-o).
A carne é mesmo triste? Um barco é triste?
Que nos cabe de tudo quando existe?
Eu em trânsito estou, vida é viagem
E não deflagrei auroras nem miragens.
Aquele que chegou, a terra quere-o
(ai de nós, se não fosse o mistério).
POEMAS INÉDITOS
POEMA
A palavra nasce de onde morre
breve fulguração da fala
na voz e na página.
Necessário atá-la a outra palavra
igualmente fugaz
— corrente de brilhos longos e curtos
nave passando iluminada.
O silêncio gera a palavra e consome
sua espessa matriz
No universo sem som e sem tempo
haver a palavra é inútil
rede para a luz e o vento.
O visgo e o ferrão da palavra
impõem cuidados ao toque:
faca afiada ,
empunhada pela lâmina.
A agulha da palavra crava
na mão e na boca que arrisca
comunhão impossível
do visível
e do imaginado.
HORA NENHUMA
Pelas frestas do soalho coa-se a luz
— crinas oblíquas do cavalo dos ventos
Tremem as velas e as roupas finas
aos sopros e assovios dessa luz sem sombra
que tanto medo me dá
A mãe sussurra não olhes o piso nem as telhas
nas paredes nuas o sono nos aguarda
entre as manchas de mofo e seus desenhos
de limo verde.
Aqui mora a noite
Seu cheiro de roupa guardada
Suas lãs descoradas e ásperas
Como peles selvagens mal curtidas
Essas coisas velhas rescendem a calor suado
Debaixo da cama arfa um cachorro cego
E um jarro de miosótis tinge com sua morte azul a penumbra e o silêncio.
O medo não abre os olhos do menino
Que apenas pressente o universo no quarto
E embarca no bote de espumas
Sabendo tudo em volta irreal.
O sono se abate sobre o peito
como um par de asas sem ave
uma rajada de brisa adocicada e morna
uma persiana que desce nos fios.
A mãe já não diz mais nada que se ouça
apenas nela vibra o sopro que ressoa
na delicada respiração do menino
—fonte e sinal da vida que prossegue.
AINDA MAIS
Escrevo a língua do meu avô
e tenho a sua cara
no espelho fugidio onde busco
as marcas do que sou.
Vejo o rio passar
Os peixes das palavras boquejam espuma e água suja
no sulcado perau dos versos
o poema flui arrastando em sua calda
a mudez dos afogados e os gritos
dos pescadores de areia.
Um passo atrás, que eu possa ver
essa procissão que se arrasta
desde muito antes do ano de mil
novecentos e trinta, quando eu mesmo
vazei num jato de sangue e soro
e gritei pela primeira vez: eu
— e não, e nunca na verdade, fui ouvido.
Um passo atrás
que o sol está secando as chuvas do poente
um corpo vai-se atirar na direção do naufrágio
e a chama de uma vela
será enviada a procurá-lo
Escrevo a língua do meu avô
sem sua permissão,
por isso apenas busco seduzir
os fantasmas que me visitam
por isso venho até o rio
para olhá-lo nos olhos
e numa canção inaudível
berçar os seres amáveis que o habitam
e se coçam nas facas dos peixes
Vejo o rio passar e mal me vejo
enquanto envelheço à sua beira
A luz e o silêncio em mim sabem a vida
e enquanto respiro
tudo o que não entendo faz sentido
Página publicada em janeiro, republicada em agosto de 2008. |