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NAURO MACHADO
“É difícil qualificar esses poemas escritos, por assim dizer, no avesso da linguagem. Não é pela compreensão lógica que eles nos atingem mas pelo sortilégio de um falar desconcertante e único.” FERREIRA GULLAR
Nauro Machado é uma oportuna indicação de seu amigo Fernando Mendes Vianna, que escolheu os sonetos que incluímos aqui, extraídos de sua máxima antologia: Nau de Urano, edição do Governo do Maranhão, em 2002. A.M. TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
CALENDÁRIO
Tomaste parte em nenhuma outra guerra. Não perdeste pés ou mãos dentro desta. Não abriste túmulo em nenhum lugar. Nada quiseste além dos teus haveres. Teu país de bois na aurora plantados, levou-o o tempo na usura do ocaso. Fizeste nada sábado, domingo, segunda, terça, quarta, quinta e sexta. Igual a todos, somaste semanas, Unindo a noite ao dia e o dia às noites. Escuta: o tempo passa! E o teu passou. Passou o bonde, o colégio, a criança. Já o adulto vai-se: está chegando ao fim como um ronco doído em cosa podre, como um enlatado para ninguém. Made in Brazil. Tonel à água lançado No porto noite. Minha família! Ó alma.
Masmorra Didática, 1979
FILA INDIANA
Um atrás do outro, atrás um do outro, ano após ano, ano após outros, minuto após minuto, século após séculos, continuam
(a conduzir seus madeiros na perícia dos próprios dramas).
um após do outro, atrás um do outro, anos após ano, ano após outros, minuto após minuto, século após séculos, e de novo
um atrás do outro, atrás um do outro, até a surdez final do pó.
AS PRAGAS
Porque não estive às portas de Madri, de onde escuto, ainda, o “no pasarán”. Te abjuro, Senhor, enfim, e a Ti, a quem, outrora, chamei de pai e bom.
Porque não estive às portas de Madri, lutando, às claras, com porcos-burgueses, luto e lutarei, em trevas, por aqui, Te abjurando, Pai, por milhões de vezes.
Entanto, saibam-no todos, e ouvi que aos homens-bestas, com meus punhos, sorvo-os enquanto, ao longe, às portas de Madri, se erguer, incólume, o sangue dos povos!
Décimo Divisor Comum, 1972
CAXANGÁ
Há um desespero real na palavra, um desespero contra o desespero, enlouquecido em tudo que é palavra incapaz de dizer o real nela, e um desespero dentro, um desespero da palavra assentada na palavra, de palavra assentada nela mesma, canal e boca de uma angústia virgem, de um dia novo contra a noite fora envolvendo de luto os nomes todos: Antônio, tênis, sonho, árvores, morte. Sombra dentro de sombra, mas girando em rodopio eterno, o pião da sombra, o que fazer da voz, senão clamar em uivos de absurda sombra, à noite geradora de braços e destroços vagando intérminos no extinto brado?
------------------------------------------------------------------------ Extraídos de la
CALENDARIO
En ninguna otra guerra participaste. No perdiste pies ni manos en esta. No abriste sepulcro en ningún lugar. Nada quisiste más que tus bienes. Tu país de bueyes en la aurora plantados, lo llevó el tiempo en la usura del ocaso. Nada hiciste el sábado, domingo, lunes, mares, miércoles, jueves y viernes. Igual a todos, sumaste semanas, uniendo la noche al día y el día a las noches. ίEscucha: el tiempo pasa! Y el tuyo pasó. Pasó el tranvía, el colegio, el niño. Ya se va el adulto: estás llegando al fin Como un quejido ronco cosa podrida, Como un enlatado para nadie. Made in Brazil. Tonel al agua lanzado En el Puerto en la noche. ίMi familia! Oh alma.
Masmorra Didática, 1979
FILA INDIA
Uno tras otro, tras de uno otro, año tras año, uno tras otros, minuto tras minuto, siglo tras siglos, continuan
(conduciendo sus cruces con la pericia de los propios dramas)
uno tras otro, atrás uno del outro, año tras año, año tras de otros, minutos tras minutos, siglo tras siglos, y de nuevo
uno tras del outro, atrás uno del otro, hasta la sordidez final del polvo.
LAS PLAGAS
Porque no estuve a las puertas de Madrid, desde donde escucho, aun, el “no pasarán”. Te adjuro, Señor, enfín, y a Tí, a quien, antes, llamé padre y bueno.
Porque no estuve a las puertas de Madrid, luchando claramente, com cerdos burgueses, lucho y lucharé, en tinieblas, por aquí, Te adjuro, Padre, millones de veces.
ίMientras tanto, sépanlo todos, escuchen que a los hombres bestias, con mis puños, los aplasto hasta que, a lo lejos, a las pueras de Madrid, se levante, incólume, la sangre de los pueblos!
Décimo Divisor Comum, 1972
CAXANGÁ
Hay un desespero real en la palabra, un desespero contra el desespero enloquecido en todo lo que es palabra incapaz de decir lo real en ella, y un despero dentro, um desespero de la palabra asentada en la palabra, de la palabra asenta en ella misma, canal y boca de una angustia virgen, de un día nuevo contra la noche afuera envolviendo de luto todos los nombres: Antonio, tênis, sueño, árbol, muerte. Sombra dentro de sombra, pero girando en eterno remolino, la peonza de la sombra, ¿en qué hacer con la voz, sino clamar con aullidos de absurda sombra, a la noche generadora de brazos y destrozos vagando interminables em el extinto grito?
O Calcanhar do Humano, 1981
Página ampliada e republicada em dezembro de 2007.
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