POESIA GOIANA
Coordenação de Salomão Sousa
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LÊDA SELMA
É baiana de Urandi, mas é em Goiás que construiu sua vida e sua carreira poética. Licenciada em letras vernáculas pela Universidade Católica de Goiás e pós-graduada em lingüística pela UFG. É membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Compositores. Poetisa, cronista, contista, assina crônicas no jornal Diário da Manhã e participa também de várias antologias nacionais e internacionais. Homenagens e prêmios por suas obras literárias já recebeu vários, incluindo aí os títulos de cidadã goiana e goianiense. Tem sete livros de poemas publicados, sendo Sombras e Sobras (2007) o último.
ENIGMA
Sou una e múltipla, fragmentada e inteira,
curva e planície, zênite e abisso.
Sou superfície e fosso, laços e cisão,
silêncios e barbúrdias, muitas e nenhuma.
Meus pedaços me juntam em esfinge
e me insulam no arco-das-sete-cores
de onde espio infinitos e precipícios
como se dona de todos os mundos.
Minhas antíteses, polaridades
se perdem sempre em meus campos
e ocultam verdades, faces e falácias
do medo que me escamoteou os sonhos.
Meus inversos mostram os enigmas
(guardados em redoma de alabastro),
que escondem máscaras, alegorias
e as almas dos amores todos,
cujos corpos há muito migraram.
CONTRASTES
Trago nos olhos
túneis e vaga-lumes,
e nas mãos,
riachos e beija-flores.
Na alma,
tenho cisnes e graúnas;
no peito,
uma tulipa vermelha
e réquiens de violeta.
RISCO
Fechei-me em teias
e nos fios de minhas sinas
estrangulei-me.
Mas sobrevivi ao rufar de asas.
Fecundei silêncios
e desatei a solidão
que me repartiu em nadas.
E sobrevivi ao cadáver de tantas dores.
SOMBRAS
Sento-me à mesa e divido as culpas
numa ceia farta
de esperanças murchas e de sonhos avariados.
E tudo é sem rosto, disforme e insosso
como um verso falso.
E tudo é só um vulto nas sombras dos cacos.
E é só um morto
— menino em trapos —
que matou a fome dilatando as narinas
ou estendendo o braço....
GOIÂNIA MORENA
Goiânia morena
de corpo esguio
e ancas largas,
de manhãs soltas ao vento,
de tardes acaloradas,
de ventre escancarando
a prenhez de sol e flores.
Terra-mulher sedenta
e de desejos flamantes,
Goiânia goiana, amante,
das noites tão luzidias,
queimando emoções vadias
em seu braseiro de estrelas.
Balzaquiana-menina,
de pele sempre suada,
Goiânia das madrugadas,
das parcerias com a lua,
da irradiação de amores,
dos sonhos azuis, viajores,
dos humores de poesia.
Goiânia de lascivas formas,
cabelos de flamboiã,
dos bem-te-vis, beija-flores,
das praças, parques, jardins,
morena de olhos dourados,
balzaquiana-menina,
que ao esposar Goiás
se fez em terra-mulher.
Página publicada em janeiro de 2008. |