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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

SALOMÃO SOUSA
(1952-    )

 

Nasceu em Silvânia (GO). Na década de 70, participou parcialmente do movimento Poesia Marginal. Organizou as antologias Em canto cerrado (de poesia) e Conto candango, com escritores de Brasília. É um dos 47 poetas incluídos no número que a revista portuguesa Anto dedicou em 1998 à literatura brasileira em comemoração aos 500 anos da descoberta do Brasil. Está inserido na Antologia da nova poesia brasileira (1992), de Olga Savary; e na A poesia goiana do século XX, de Assis Brasil.
 

Bibliografia: A moenda dos dias, l979, Ed. Coordenada, Brasília, DF; A moenda dos dias/O susto de viver, 1980, Ed. Civilização Brasileira, em Co-edição com o INL; Falo, 1986, Ed. Thesaurus, Brasília, DF; Criação de lodo, 1993, edição do autor, Brasília, DF; e Caderno de desapontamentos, 1994, edição do autor, Brasília, DF; Estoque de relâmpagos, 2002, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal. Para esse ano, está organizando a antologia Safra Quebrada, em comemoração dos 25 anos de edição de A Moenda dos Dias (1979), que reunirá uma seleção dos poemas dos livros publicados e um livro inédito (Gleba dos Excluídos).
Blog do autor: www.safraquebrada.blogspot.com

 

DESTE PLANALTO CENTRAL Poetas de Brasília. org. Salomão Sousa Inclui prefácio do autor. 

POETAS DE BRASÍLIA, org. Salomão Souza. SP: Dulcinéia Catadora, 2008

 




 

SAFRA QUEBRADA

 

O livro reúne a produção de Salomão Sousa nos últimos 30 anos e mais dois livros inéditos. Edição da Dupligráfica, com apoio do FAC/DF 2007, incluindo fotos de Robson Corrêa de Araújo. Aqui publicamos um dos poemas do livro:

 

 

Não a virada da esquina, do barco

a água a arrancar os caibros, as janelas

a ferrugem a apodrecer os cercos do tédio

Falta-nos a emboscada

a borduna nas têmporas

as esporas nas vísceras da vontade

Falta-nos alguma derrota

o descomedimento, a rota das Índias

a que apontar a boca da espingarda

e não há a caça, e se não há poldro

a beldroega entre as leiras

Passam alimárias e não montamos

Passam as asas e passam as viagens

E nenhuma ranhura no casco!

E ficamos em nenhuma borda de abismo

Só esse lodo, essa lesma

as futricas, os processos renumerados

exames refeitos, glicose, colesterol

Resta invejar quem contratou

quem vai dar o próximo passo

quem irá gastar o resto de pólvora

derramar a tina do desejo

Nem a desventura de estar em campo

perder o jogo, e sair na vaia

 

Não há cordoalha para puxar

Lodo para afundar até os olhos

Não há Tróia

para impedir de ser ateada em fogo

 

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A obra tem uma unidade construtiva, é um livro-poema. Começa com um tom híbrido de épico e lírico — "Depois das derrotas, dos desterros, das ruínas" — e se fecha com o emblemático "Agora vou falar das ilhas de Cetim".

Não é um leitura fácil, muito menos óbvia, por causa da linguagem densa e das desavisadas associações de imagens e de idéias, da ausência de pontuação, do automatismo verbal que vai anunciando mas não necessariamente enunciando, numa espécie de neosurrealismo consciente.  Em tempo: recebeu um prêmio no Festival de Poesia de Goyaz 2006. ANTONIO MIRANDA

 

FUI SÓ ERRAR EM DESTERROS

só ao mar me soçobrar

de rastro entre espinhos na margaça

as partes podres dos sobros

hordas de amantes aos bagaços

Dizimei-me nos fogos de acreditar

seriam exatas as respostas

nas tormentas inúteis as barcaças

também não retirei as grades

não lancei raios nos escuros

nem flexíveis fiz as ferragens

ossos esses remos sem braços

não deixei o centro o oco todo

não parti para apalpar as luas

e acreditar nos sonhos sem desgraças

ir à caravana dos convidados

aos milagres das certas graças

 

Desembarquei-me das incertezas?

não fui o varrido, a parte irada?

mas não ser no cerne a certa traça

mas não ser a mão que traça a retirada

 

 

AÍ ACOLHES O SOL

as hastes das chuvas

a sanha dos pássaros

os ninhos férteis das aranhas

 

bem fazes tu

— montanha de Natividade

que não deixas lugar

para nenhuma dúvida

em tuas entranhas!

 

 

A TEMPESTADE ESPRAIA CORPOS EM DESMAIO

acende as prontas palhas

ouro sólido escorre pelas calhas

e ergue-se o desengano em outras praias

pensa campos e nuvens e oásis

e deixa falhas frestas faias

e vai anoitecer em outras florestas

em baías sem ancoradouro às cascas às naus

e depois de alegrar poças com outras luas

de brilhar espantalhos em outras touças

a tempestade retorna aos desertos

ameaça minhas tortas tralhas

e volta sem os corais do repouso

em meus dias de trapaças lodaçais

não varre o alcatrão de meus beirais

espalha o amor onde o sol trabalha

 

 

E ESTE DARDO DA DÚVIDA

e esta lâmina da dor

e esta noite sem lírio

 

lanham minhas nádegas

desequilibram minha astúcia

e os poços das ausências

 

estou perdido das constelações

e perseguido pelo deserto

dos famintos cascavéis

 

só uma lua sem a flor das águas

arrancará do frio as minhas raízes

derramará mares nos meus vazios

 

só uma lua fora de estação

fora de órbita de todo planeta

vai me arrancar dos dentes do martírio

 

 

VOLTARÁS INTEIRA DAS NAVEGAÇÕES

e dos cortes da madeira

Terás de lutar

e terás de vencer

Não irás ver

aquele que vem sem armas

mais pobre que a mula

sem pastagens

 

E nada te impedirá a passagem

As flechas cairão sobre os mortos

Passarás sobre os trêmulos troncos

e não te arrojarão

em nenhum rio ilegítimo

Se houver quedas

serão de jacintos secos

e em terrenos desgastados

serão espraiamentos

 

Não ficarás doente

Pela cegueira

não ficarás cercada

Ainda que te estoquem

a angústia e o prazer

vais te sentir absolta

 

Trarás outras madeiras

para os cercos do tédio

Voltarás com desconfortos

Quem vem das vitórias

volta pisando em mortos

 


Poemas inéditos
 

 

FALA UM ASTRO A NÓS

Corveta flava

de mil nós

desfaço a âncora

de não sermos sós

 

Caminho em teus contornos

os prados todos

pistilos estames

sem que possa haver lodo

 

Use a gaita

em que te danço

Uso o fruto

com que me adornas

 

Nascerá jaspe nascerá húmus

na tocata de cada dedo

Será mina será morno

em cada apelo

 

Sou a fúria a baía

a que te amarras

Meu infinito

em que astro caio

 

 

Deixo para os dias de esquecer

os pés quebrados os acertos do inimigo

Deixo as intrigas fora da cartilha

os galhos podres o saco de formigas

 

Busco para os dias de encontrar

os saltos do touro o sangue da ferida

quem entende de desarmar as traças

e de fazer viagens nas minhas superfícies

 

São lombadas, treliças e feitiços

Se for água basta os pés da leveza

Se for o fogo ainda deixar as naus de cortiça 

Se tem de ser o futuro seja mais que abstrair

 

Não embarcar o domínio das nódoas

Só as ramagens dos touros nas pastagens

as caras dos remos nas superfícies

Já amacio os braços de consentir

 

Ainda que não venha nenhum barco

e bruma alguma traga a carga de lenha

Ainda que o barqueiro venha louco

e todo o aço da certeza afundará

Ainda que o vento atormente com fúria

e vá a madeira polida afundar-se

Ainda que a carga seja a lâmina

com o colo certo de degolar

Ainda que na porta anunciem

que a florada do dia irá murchar-se

Ainda que seja um vasto mar

e a alma em deleite vá secar-se

Ainda que o mar seja uma rocha

e no deserto o coração vá navegar

 

Ainda assim o faroleiro acenderá

 

 

SAFRAS

 

No primeiro ano de casado,

a roça deu maravilhas.

Deu o que plantou

e o que não plantou.

O arroz, a taioba, o joá na queimada.

 

E assim nos próximos cinco anos

até que o quinto filho nasceu.

Daí a roça se afastou

para os matos de mais longe.

 

Quando os cambitos dos filhos

deram para afinar

e ficar descobertos,

o mato de dar de comer

acabou.

Teve que repetir na terra de antes.

 

A plantação para o nono filho

não vingou.

Agora, no décimo filho,

nem mesmo plantou.

 

 

(Poemas inéditos, publicados em 3/2/2006)

 


POETAS EM SILVÂNIA


Os poetas Salomão Sousa e Antonio Miranda em um beco antigo de Silvânia, Goiás, terra natal de Salomão. Foto de Robson Corrêa de Araújo, julho 2007


 


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