FUI SÓ ERRAR EM DESTERROS
só ao mar me soçobrar
de rastro entre espinhos na margaça
as partes podres dos sobros
hordas de amantes aos bagaços
Dizimei-me nos fogos de acreditar
seriam exatas as respostas
nas tormentas inúteis as barcaças
também não retirei as grades
não lancei raios nos escuros
nem flexíveis fiz as ferragens
ossos esses remos sem braços
não deixei o centro o oco todo
não parti para apalpar as luas
e acreditar nos sonhos sem desgraças
ir à caravana dos convidados
aos milagres das certas graças
Desembarquei-me das incertezas?
não fui o varrido, a parte irada?
mas não ser no cerne a certa traça
mas não ser a mão que traça a retirada
AÍ ACOLHES O SOL
as hastes das chuvas
a sanha dos pássaros
os ninhos férteis das aranhas
bem fazes tu
— montanha de Natividade
que não deixas lugar
para nenhuma dúvida
em tuas entranhas!
A TEMPESTADE ESPRAIA CORPOS EM DESMAIO
acende as prontas palhas
ouro sólido escorre pelas calhas
e ergue-se o desengano em outras praias
pensa campos e nuvens e oásis
e deixa falhas frestas faias
e vai anoitecer em outras florestas
em baías sem ancoradouro às cascas às naus
e depois de alegrar poças com outras luas
de brilhar espantalhos em outras touças
a tempestade retorna aos desertos
ameaça minhas tortas tralhas
e volta sem os corais do repouso
em meus dias de trapaças lodaçais
não varre o alcatrão de meus beirais
espalha o amor onde o sol trabalha
E ESTE DARDO DA DÚVIDA
e esta lâmina da dor
e esta noite sem lírio
lanham minhas nádegas
desequilibram minha astúcia
e os poços das ausências
estou perdido das constelações
e perseguido pelo deserto
dos famintos cascavéis
só uma lua sem a flor das águas
arrancará do frio as minhas raízes
derramará mares nos meus vazios
só uma lua fora de estação
fora de órbita de todo planeta
vai me arrancar dos dentes do martírio
VOLTARÁS INTEIRA DAS NAVEGAÇÕES
e dos cortes da madeira
Terás de lutar
e terás de vencer
Não irás ver
aquele que vem sem armas
mais pobre que a mula
sem pastagens
E nada te impedirá a passagem
As flechas cairão sobre os mortos
Passarás sobre os trêmulos troncos
e não te arrojarão
em nenhum rio ilegítimo
Se houver quedas
serão de jacintos secos
e em terrenos desgastados
serão espraiamentos
Não ficarás doente
Pela cegueira
não ficarás cercada
Ainda que te estoquem
a angústia e o prazer
vais te sentir absolta
Trarás outras madeiras
para os cercos do tédio
Voltarás com desconfortos
Quem vem das vitórias
volta pisando em mortos
FALA UM ASTRO A NÓS
Corveta flava
de mil nós
desfaço a âncora
de não sermos sós
Caminho em teus contornos
os prados todos
pistilos estames
sem que possa haver lodo
Use a gaita
em que te danço
Uso o fruto
com que me adornas
Nascerá jaspe nascerá húmus
na tocata de cada dedo
Será mina será morno
em cada apelo
Sou a fúria a baía
a que te amarras
Meu infinito
em que astro caio
Deixo para os dias de esquecer
os pés quebrados os acertos do inimigo
Deixo as intrigas fora da cartilha
os galhos podres o saco de formigas
Busco para os dias de encontrar
os saltos do touro o sangue da ferida
quem entende de desarmar as traças
e de fazer viagens nas minhas superfícies
São lombadas, treliças e feitiços
Se for água basta os pés da leveza
Se for o fogo ainda deixar as naus de cortiça
Se tem de ser o futuro seja mais que abstrair
Não embarcar o domínio das nódoas
Só as ramagens dos touros nas pastagens
as caras dos remos nas superfícies
Já amacio os braços de consentir
Ainda que não venha nenhum barco
e bruma alguma traga a carga de lenha
Ainda que o barqueiro venha louco
e todo o aço da certeza afundará
Ainda que o vento atormente com fúria
e vá a madeira polida afundar-se
Ainda que a carga seja a lâmina
com o colo certo de degolar
Ainda que na porta anunciem
que a florada do dia irá murchar-se
Ainda que seja um vasto mar
e a alma em deleite vá secar-se
Ainda que o mar seja uma rocha
e no deserto o coração vá navegar
Ainda assim o faroleiro acenderá
SAFRAS
No primeiro ano de casado,
a roça deu maravilhas.
Deu o que plantou
e o que não plantou.
O arroz, a taioba, o joá na queimada.
E assim nos próximos cinco anos
até que o quinto filho nasceu.
Daí a roça se afastou
para os matos de mais longe.
Quando os cambitos dos filhos
deram para afinar
e ficar descobertos,
o mato de dar de comer
acabou.
Teve que repetir na terra de antes.
A plantação para o nono filho
não vingou.
Agora, no décimo filho,
nem mesmo plantou.
(Poemas inéditos, publicados em 3/2/2006)
●•
Muitas coisas paralelas
e eu uma delas
Talvez eu fosse o canário
a janela
e tanto não me abro
e tanto não me amarelo
●•
Acende as prontas palhas
ouro sólido escorre pelas calhas
e ergue-se o desengano em outras praias
pensa campos e nuvens e oásis
e deixa falhas frestas faias
e vai anoitecer em outras florestas
em baías sem ancoradouro às cascas às naus
e depois de alegrar poças com outras luas
de brilhar espantalhos em outras touças
a tempestade retorna aos desertos
ameaça minhas tortas tralhas
e volta sem os corais do repouso
em meus dias de trapaças lodaçais
não varre o alcatrão de meus beirais
espalha o amor onde o sol trabalha.
●•
Esqueceu o vértice de uns ombros,
da prata de uns umbrais.
Da possível palmatória na hora do crime,
das algas já em águas claras.
Não se lembrou do instante de inclinar
a palavra — a palavra que liberta o escravo.
Esqueceu de enfiar outra saliva
na travessia de uns umbrais.
Abandonou o sopro
se achou florida a calêndula.
Diante do que dizer,
deixou-se escrava nas escarpas.
Fiquem incompletas a fendas da fala.
●•
Viajei. Vi homens no luxo
Vi crianças no lixo
e no lixo tropecei
Roupas lavadas próximas aos meus passos
e o que encobria úmida
podia ser relva, pedra ou trevo
Nas seis manhãs
as roupas estendidas nas calçadas
Viajei. Vi casais que quase se abraçavam
As sete pontes, algumas de ferro recortado
no estrangeiro
Vi mulheres a sós com os filhos
se sentindo alienígenas
Não pude ver os ausentes companheiros
Não pude ver as freiras recolhidas
e a zabumba a ensaiar o próximo frevo
Viajei. Senti este cheiro de homem
Fezes. Este cheiro ejaculado.
Vestido de passado
comi as minhas sete refeições
bebi os meus sete cálices
Não estive próximo à arma do tiro
Ao morto não levei luto nem mortalha
Viajei. Vi e apalpei
E se acreditei foi pela flor agreste
Foi pelo tremeluzir das luzes sobre as fezes
●•
E se todos decidíssemos pela ausência?
Ficássemos quietos sem nenhum verso
os peixes secos
esquecidos na travessa
Ficássemos com as nádegas mofadas
capim assim torrando
sem que viessem os bafos das bocas
terras férteis sem chuva que as amoleçam
Fôssemos as histórias perdidas
se não vêm quem as ouça
e outro que nunca soube
do encontro que trouxemos tão perto
Estivéssemos onde nenhum herói aparece
nas esquinas onde os homens
não sabem qual será a conversa
Sermos a lua dispersa
o sol que não está mais no universo
Trava que se quebra
e nenhum rosto avança na fresta
Fôssemos o que ria
entre os olhos que padecem
quando fossem as quedas dos planetas
dos rubis adversos