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Como somos
(poemas de um livro inédito)
Heleno Godoy
Este Édipo, um Outro
Não a mãe, mas a forma do pai
por quem, de tanto repetir-se,
já não sabia a quem buscava.
Não o pai, mas o desejo da mãe
por quem, de tanto se esconder,
já não sabia onde a procurava.
Nem o desejo, avesso ao do pai,
por quem anda por aí, sem saber
de que são feitos seus sonhos; ou
da mãe, como quem a encontra
ao acaso e, numa encruzilhada,
mata-a tal se matasse a um anjo.
Este, que aqui desenha seu sonho,
e aquele lá, que apunhala rápido.
Megera, Identidade Inscrita
Está na face e no resto de seu corpo
pelo caminho percorrido, lá deixado
ao acaso, aos trancos e aos poucos.
Não lhe doem os ossos, arrasta-os
como quem soma uns centavos, um
a um de seus passos pouco a pouco
se ajuntando bem além de si mesma.
Está no corpo como já está na face
exposta ao castigo: um solo sulcado,
largado como barrancos sem plantio.
Não lhe matam seus ossos, nem deixam
que lhe desapareçam os músculos, ela só
necessita deles para sua andança sem fim,
seu resgate de uma identidade ao infinito.
Narciso, sua Máscara Refletida
Este que me vê e aquele outro,
o que reflete a si mesmo nessa
máscara n’água, ou é um espelho
contra a própria face ali exposta
e sobre a qual se inclinam flores.
De uma lado, meu animal armado,
nítida sombra de um peixe cinza;
do outro, furtivo e cinza também,
um gato que pula o muro erigido
entre nós – a palavra dita como se
mágica, o silêncio recolhido como
ouro de uma sequência de tempos
e tempos de estarmos ali, sem outro
lugar pra onde pudéssemos um dia ir.
Electra e Orestes, um Assassinato
Somos bandidos ao brandirmos
espada e lei contra quem
nos traiu.
Recompensa? Portamos escuro
o escudo de culpas que
nos infligiram.
Apenas retomamos o que nos
tomaram, refizemos o nó-
laço de nossa ferida,
vestimos-nos
para esconder essa vergonha:
órfãos de um pai que preferia
a guerra, de mãe que se vingava
na cama em que fomos feitos.
Aquiles, Meu Calcanhar II
A água não me cobriu o corpo,
sobrou o calcanhar impune,
lugar onde o logro encontrou
a lógica de sua fina trajetória.
A água não foi o suficiente para
me tornar um deles, o calcanhar
fincou-me em terra onde homens
se crêem melhores ao matarem,
em si e noutros, a ilusão com que
se nutrem, nutrem a vida que levam,
desfazendo os nós, que dia-a-dia,
estabelecem em sua resistência.
Tirésias, Um Outro
Diante de mim, aquele que é
ou pensa que seja o que não
vê – diante dele, aquele outro,
sabedor que não vê – e nisso
crê, pois enxerga lá adiante,
diante de si mesmo posta,
a resposta não procurada,
pelo outro já encontrada.
Helena, a que Causou a Guerra
Não é por mim esta estultice que já
dura dez anos, é por eles mesmos, por
suas lanças em ristes e suas espadas
desembainhadas.
Por mim, bastava um só escudo sem
fendas ou buracos por onde pudessem
penetrar todas as flechas que lançam
tesas e flambantes.
Não sou causa, sou a desculpa, como
sempre sucede, quando se lançam à luta,
evitam o raciocínio, perdem o controle
da arma que empunham,
querendo a custo forçá-la na fenda que
se forma, afinal, em nossa só carência.
Psiquê, a Curiosa
Não lamento ter querido ver,
lamento não ter confiado em
meu tato – não há monstruos-
idades tão grandes assim, nem
mesmo no escuro de um canto,
numa cama nua, povoada apenas
por um deus cansadoadormecido.
Ah! sim, lamento a vela que se der-
retia em minhas mãos trêmulas.
Que pena só terem inventado
depois o que poderia ter-me salvo
de mim mesma e dessa solidão
a que me condenei, ao não con-
fiar mais em meus dedos e de-
pender destes olhos que me enga-
naram, desta vista que, por ser in-
precisa, precisou de uma luz a mais,
de uma certeza impossível, de uma
confirmação questionável, de uma
crença absoluta no poder da forma
exata – que acordou e partiu para
sempre.
Medusa, a que Impede
Sou forte e tenho o poder de impedir
que um professor, no futuro, dê aulas
ou curso, pois pouco importa a quem
impeça, sempre triunfo sobre a capa-
idade alheia, a alheia sorte com que as-
sino trabalhos de alunos e estabeleço
então meu nome como o melhor para
um cargo qualquer que me destinam.
Sou mais do que todos estes cabelos
sem pente, serpentes de que me visto,
atavio de que me sirvo para, de onde
estou, mirar as escolhas alheias, a meia
sorte com que pretendem, de onde estão,
arrancar-me a carne que visto e avario.
Noite de Natal, 2006
Quem se arriscaria, nesta noite,
a um novo palpite: encurtar asas
deste anjo rebelde, ampliar rotas
de pássaros migratórios? Mas de
que nos serviriam menos penas, rotas
outras, mais traiçoeiras, um sertão
e suas veredas revisitadas por um
olhar erroneamente cubista, pois
jamais fragmentada aquela linguagem,
tão grande em suas múltiplas veredas?
Que anjo não deixaria, nesta noite
e em todas as outras (pois temos de
aturá-lo), novas penas crescerem;
que pássaros (temos de admitir)
outras fáceis rotas não buscariam?
Reconheçamos também assim esta
noite: um encurtamento de toscas rotas,
um ampliar de duras penas, uma pluralidade
de visões integrativas, estas sim, cubistas,
no sertão e em todas as suas veredas.
Álbum de Família
Esta menina com uma flor na mão
não sabe ainda, mas será minha mãe.
Aquele menino lá, de uniforme, será
um de meus muitos tantos tios.
De um lado como do outro, não
faltarão parentes: este meu avô
aqui, de bigode, ou esta avó magra,
que irá morar longe, num sanatório.
Numas outras fotos, estes outros
avós, que a sorte e a saúde muito
mais tempo mantiveram por perto.
De uma caixa de sapatos é que saem,
pois lá guardadas, todas essas fotos
velhas, algumas com rasgados, outras
amareladas, outras tantas desfocadas.
Não estão num álbum dispostas,
ordenadas e exibidas. Não. Aqui,
nesta caixa, muito mais que num
álbum organizado, encontro certas
as biografias que me fascinam,
as lembranças embaralhadas,
roupas às vezes em desalinho,
instantâneos precisos, muito
mais nítidos que fotos de estúdio
ou de festas fartas, de aniversários
ou casamentos, batizados, enterros.
Uma Idéia de Perda em Pirenópolis
O que se perde junto com uma igreja
incendiada? Um orgulho antigo, uma
vaidade permanente, uma arrogância
para o porvir? O que se perde para
além da casa própria ou esta concha
carregada às costas, como caranguejo?
Perde-se a alma ou o lugar da reza,
crença que arde no fogo, umas tantas
imagens de madeira, castiçais velhos ...
Ah, sim, umas sepulturas lá plantadas,
almas ausentes, aqueles ossos, um teto
que rui e arde entre labaredas altas.
Parece que se perde o rumo da vida!
Besteira, perde-se apenas um sapato,
ou os dois, neste corre-corre por mais
um balde d'água e tanta impaciência
pela perda de panos, santos de madeira,
alguns andares, flores de brocado, velas.
Perde-se também um par de óculos,
uma bengala, talvez, um missal pesado
e colorido, todo escrito em Latim,
e em desuso, tal como se perdem
uns castiçais de prata e uns tantos
tocheiros derretidos. Ou evaporados!
Tudo acontece quando se perdem
andaimes e vasos de flores, uma casa
como um santuário, um paiol velho
como a sacristia, um túmulo como
também o corpo, que já se decompôs
há muito e se recupera na lembrança.
1. Requerer eternamente.
Recusar, naturalmente.
Reclamar constantemente.
Erguer, regularmente,
um recurso eterno:
garantir ao que resta,
ó donas e ó senhores
de todos os domínios,
repouso eterno, luz
perpetuada sobre ele.
Nós loucos, senhores,
dizemos ao deus logro
de Sião tão longe, dece-
pados hinos, homen-
agem paga a tíbio redentor.
Elevando a voz exaurida,
em oração, meio de omis-
são a ser pago, quem escuta
nosso pedido racional
e vê nossa flecha?
Deste ônibuscaro vem
a fúria bifronte, corrente
que vem de ti e come
o que te omite, a grama
e o eterno resto
e o luminoso brilho.
Aqui, garantindo a regra
e o domingo, ó domínios,
a luz que chia e olhos jamais
deleite, luxo que esmorece, ao
pé de estranho, piedoso dito.
2. Direis a ira do dia, da ilha deste
dia de jogo, tábuas da cólera,
zonas de um Zeus solvente
e consumido.
Séculos nas favas, dádiva
do anúncio sibilante, quando
lêem o teste, já tremendo/
temendo concha e arrocho.
Qual foi o efeito aparente,
em grãos de zimbro, quando,
julgando, vêm venturosos a um juiz?
Quanto tremor neste futuro,
uma concha que se come
para render/arrochar um estrito
arredio, esta flanela flâmula!
3. A turba que mira ouve este trompete
escandindo seu som prodigioso,
pousado e lauto e de posse erguida.
Pôr sepulturas em regiões
acrósticas, graves de lendas,
tais as sepultas ervas,
em chás bebidas.
Com o ressurgir da criatura,
mancando os ares, toda
a criação se arrepende,
recavando a gleba.
Rendendo a conta concha,
judicando e respondendo
ao som juiz da fonte, e afronta
a criatura, a tuba mira e sopra.
4. Livremente, a escritura busca
5. ser vizinha e ousa, na busca,
ser trazida a proferir, para quem
tudo contém, todo o conteúdo
dado ou entregue a quem anda
por mundos e sítios do mundo,
erguendo sedas e tomando as-
sentos. Donde as cercas sítios de
rios que cercam sedentos apelos,
cachos vendas, ao jugo do verbo
e vento, quem de lado aparece,
apela, ri do resto impuro, nuli-
ficando o que remanesce e revém
inavegando, rastejando o nada
como súbita flama flâmula e falha.
5. Aqui, a soma de um mísero
tão discurso. Qual chave,
que direito agora?
Miserável sagacidade protege
quem patrocina e roga eventos.
Justo o mais bravamente sábio
e garantido, ajustando as penas
e garantindo um vazamento justificado.
6. Rei tremendo, resto que
lembra a justa majestade
de quem salva, voz sonante,
freio dinheiro grato, a fonte
do posto, pista da propriedade,
e é surdo ao pé da grande volta.
7. Recordar ao pé do justo gentio
suavemente, doce malte erguido.
Qual a soma de tua causa e via,
a razão de tímido olho, por meu
rejeitar o passo de um jogo escalado?
Quaresma, me sediaste o lasso passo,
o que sepultou quem me esposava
ou suspendia, redimindo crustáceos
passos e tais muitos trabalhos em vão,
e vem aqui quem sofre, cruz pendente.
Tanto labor, em teu caso, ritualmente
julgando a vingança e a justa sentença,
ao gerenciar a regra e dar, fato remissão,
o prêmio do esquecimento, antes do dia
reconhecendo a rendição gerida/ querida.
8. De joelhos e gemendo, em gemido tanto
quanto réu, grunhindo como símio acusado,
culpa roubada, guia rendido, pêssego regur-
gitado, esta face em chamas e em suplicante par-
ceria espargindo súplica, céu dela que implora.
Quantas Marias absorvidas, esperadas por sua
perda, vergadas e ladras exaltadas, vergastadas
à ladra fé. Meu preço, assim rendida a esperança,
vai por dívida, vai por menos flechas, prece
minha sem mérito, mas tua a misericórdia,
o bom feito e benigno brilho de fogo eterno ..
Bem, de baixo, e engolfando perenes crimes
ígneos, um lugar de larga esfera, estas ovelhas
localizadas no prado e separadas dos bodes por
entre britas, estátuas na parte destra estendidas
por reta mão entre bocas, estabelecidas como
à minha direita, uma tal dita seita e serventia ..
9. Confrontando os mal ditos danados,
confundindo olho sombra, flamingos
que acirram os aflitas.
Flâmulas consignam-se flambantes,
verdadeiras e devoradoras beladonas.
A vaca que comeu com pressa
o apelo por entre selvas, um ouro
em súplica e bem debaixo da cura
quase cínica, entre cedros reduzida
e zunindo o fim desta verdade.
Gerando meu fim,
ajudando à última hora,
ardendo neste sinal,
queimando este final.
10. Lacrimosa deusa da ilha, furos e toras,
jornadas de lamas, grades de traumas
regurgitando as favas das achas que
arriscam o homem e revivem sua cinza
Justo no mundo, o homem arrisca
a culpa de abater o jugo, este culpado
perdão lugar, aqui erguido em parte
dada e em doce repouso, gentil garantia.
11. Oferto o domínio, jejum cristalizado,
o reino da glória que rói/rui o relicário
e anima o homem fidelidade, o que
entrega aos só fiéis a partilha das almas
de fidançados defuntos, estátuas nos
buracos. E pânico no hall de entrada,
um pênis infernal em profundo lugar,
como jaula de leão ou guelra de leão,
um rato louco absorvendo este tártaro
mar salgado e o engolfando candente
e obscuro. A sede significa santo milagre,
mais que santo nesta tênebra festa, uma
outra porta-estandarte sondando sua re-
presentação. Luz santa conduzida e que
verá sua luminosidade leite, quando
o óleo prometido, dado à sede de jade
dos defuntos, galopará seminua e sólida
para a sua própria prole posteridade.
Hóstias e preces te louvam em árvore,
te afrontam com pregos, trazem ofertas
e láudano, sacrifícios e praias, luares
nimbos, selos súplicas, memórias fáceis
remendando o dia, ajuntando mais oito
memórias, alta demanda da morte que
domina e faz este passo de morte em
via de traurnatizar, transpirar e vitalizar
de novo, com veemência, o semi-
justo símile na própria prosperidade.
12. Santo, santo, santo sábado este rolo/
dolo santo. Domínio a dar ao sábado
os lordes do grande halo dos armados/
amados do céus e que da terra são
repensados/ renhidos/plenos da glória
tua: um hosana às excelsas e beneditas
células, senhores, um hosana aos mais
altos céus em excelsos halos planaltos.
13. Joelho que se deu e tolhe os pecados do mundo,
que toma do alheio os sinais do mundo, que
afasta os pêssegos do mundo. Dona, eis, pois,
reclamante e garantindo o resto, afastando pés-
segos de novo, dona reclamante e serpentina,
dê a eles um repouso eterno e merecidamente
trocando os pecados deste resto do nosso mundo.
14. Luz eterna,
luxo aéreo
lixo etéreo.
A luz se fez mais eterna,
luxo se fez mais etéreo,
lixo se faz mais aéreo.
Domínios que são pios,
toda arte é boa. O carro
teu é misericordioso.
Seja digno, heliotrópio,
denso em teu gosto,
humilde em teu gasto.
Requisita de tua eterna
dona e da luz perpétua
que perpetuem a tua arte boa
e jamais o repouso misericordioso.
15. Libertem-me, domínios, da morte eterna,
ou entreguem-me, na eterna sorte, à cela
etérea deste jogo terreno. Um dia na ilha
tremenda, tremendo no dia feio, quando
altos e baixos forem abrandados, hinos ao
ungido erguido, o céu movendo-se como
ao julgar o mundo pelo fogo a fazer furor.
Tremem os fatos que são egoístas, cinzelados
no medo e trementes, assim também santos
e crentes e tementes, recobrando a angústia
que os dissuade e venera, atendendo ao julga-
mento e à cólera, quando céu e terra serão
abrandados/igualados/irmanados/transformados.
Dias de ira, sim, ó deus da ilha, aquele dia de rato,
jogo da cólera, maldade e angústia, o grande
jogo de te amar/armar, jovem tábua das zonas
de calamidade e miséria. Quando virás julgar
o mundo pelo fogo que o consome, por
séculos ignorando este magno e amargo vale
excedendo em amargura e rico em tão furor?
Reclamo eterno, reclamar eternamente, ó dona
em seus domínios, e garantir a eles e dar-lhes re-
pouso eterno, perpétua luz que lhes brilhe sobre,
com luminosidade aeretérea, aos olhos nunca
em leite iluminados, luz chiada, brilho sobre este
domínio de luxo aéreo, lixo eterno e luz etérea.