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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





HELENO GODOY 


Professor de Teoria da Literatura e Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Católica de Goiás e professor titular de Literatura Inglesa na Universidade Federal de Goiás, onde também leciona Literatura e cinema.

 

É autor de Os veículos (Práxis, 1968), As lesmas (Agepel, 2002), O ser da linguagem (UFG) e A ordem da inscrição (UFG) e Identidades prováveis, representações possíveis (2005) e Lugar comum e outros poemas (Kelps, UCG, 2005).

  “Um poeta substantivo”, assim David Oscar apresenta o poeta goiano Heleno Godoy: “O poeta tem uma necessidade absoluta de partir sempre da realidade,do dado concreto,seja ele um fato,um objeto ou uma pessoa  e, com o instrumental poético que possui e domina, descreve-lo e penetra-lo, revela-lo de uma maneira mais viva e profundamente pessoal. É no espaço do poema, nesse lugar comum da poesia, que a subjetividade se objetiva e que certas relações são possíveis.” E conclui: “Heleno Godoy é, dos poetas que conheço, o mais clássico dos vanguardistas, e isso não é pouco.”

Eu acrescento: “Leve e denso, sutil mas agudo, confessional mas transcendente, confidente: paisagens interiores de refinado encantamento. Ele pretende o lugar comum — “se outro / melhor não houver”, mas sabe que “tudo aí se estabelece”. ANTONIO MIRANDA. 

Leia também ensaios de Heleno Godoy:

POESIA: MODOS DE VER por Heleno Godoy

CIRO PALMERSTON MUNIZ: POESIA E AUTOBIOGRAFIA, por Heleno Godoy

 

 

 

 

GODOY, Heleno. Lugar comum e outros poemas.  Goiânia, GO: Kelps, 2005.  126 p.   14X21 cm. (Coleção Goiana em Prosa e Verso)   capa: Fabiene Barros.  ISBN 85-7692-025-5  Col. Bibl. Antonio Miranda

 

Um Espelho, Outra Vez

 

Este rosto de hoje é uma farsa

sobreposta a uma face inversa.

Imersa em espera e corroída

por si mesma, em aqui ficando,

ela teima em não se ver como é.

 

Não um espelho à sua frente,

não aquele ricto no músculo

que se contrai a cada dor, cada

picada ou mordida, mas espasmo

irreprimível, uma corrida lágrima.

 

Pois é assim que nos portamos

e nos postamos diante de uma

foto, gatos desconfiados, que

olham atrás do papel ou espelho,

buscando lá um passado perdido,

 

uma data já esquecida, roupa

envelhecida e fora de moda,

uma fantasia de pirata, um

holandês não voador, preso

aos tamancos de madeira,

 

deselegante no andar, como se

assustado com o peso do sapato

estranho, um cachimbo falso

no canto da boca, um olhar

triste, e era foto de carnaval.

 


GODOY, HelenoTrímeros (Livro de Odes).  Goiânia, GO: Editora da UCG, 1993.  131 p.  14x21 cm.   ISBN  857103-934-0    Capa elaborada pelo autor. Col. Bibl. Antonio Miranda

 

O Lápis

O lápis vai sempre além de si.
Deixa um rastro apagável, é verdade,
mas, por certo, indica um caminho,
um arranhão, o risco dos grandes
heróis, um bilhete tímido de amante
inexperiente, uma assinatura
quase invisível num canto de
página de caderno velho.

São dele as anotações apressadas,
os números imperfeitos, um quase
arredondar o mundo e dar-lhe
cores novas, como as de uma
árvore vermelha ou de um cavalo
violeta. Um lápis é a maneira
do uso, o abuso da opressão,
o que é leve e o que pode ser livre.

 

O Espelho

Diante de um espelho não se põe
um sujeito, mas uma linguagem.

Nele não se articula um rosto,
mas uma fala comprometida.
O espelho não é, pois, inocente,
reflete o abismo de uma ousadia,

o jogo narcísico de uma mentira,
a ânsia de uma farsa, o medo

de uma falha, o fio branco de um
engodo recente ou centenário,

e o medo, na própria articulação
de suas angústias irresolvidas.

 

 

 

 

Como somos

(poemas de um livro inédito)

 

Heleno Godoy

 

Este Édipo, um Outro

 

Não a mãe, mas a forma do pai

por quem, de tanto repetir-se,

já não sabia a quem buscava.

 

Não o pai, mas o desejo da mãe

por quem, de tanto se esconder,

já não sabia onde a procurava.

 

Nem o desejo, avesso ao do pai,

por quem anda por aí, sem saber

de que são feitos seus sonhos; ou

da mãe, como quem a encontra

 

ao acaso e, numa encruzilhada,

mata-a tal se matasse a um anjo.

Este, que aqui desenha seu sonho,

e aquele lá, que apunhala rápido.

 

 

Megera, Identidade Inscrita

 

Está na face e no resto de seu corpo

pelo caminho percorrido, lá deixado

ao acaso, aos trancos e aos poucos.

 

Não lhe doem os ossos, arrasta-os

como quem soma uns centavos, um

a um de seus passos pouco a pouco

se ajuntando bem além de si mesma.

 

Está no corpo como já está na face

exposta ao castigo: um solo sulcado,

largado como barrancos sem plantio.

 

Não lhe matam seus ossos, nem deixam

que lhe desapareçam os músculos, ela só

necessita deles para sua andança sem fim,

seu resgate de uma identidade ao infinito.

 

 

 

Narciso, sua Máscara Refletida

 

Este que me vê e aquele outro,

o que reflete a si mesmo nessa

máscara n’água, ou é um espelho

contra a própria face ali exposta

e sobre a qual se inclinam flores.

 

De uma lado, meu animal armado,

nítida sombra de um peixe cinza;

do outro, furtivo e cinza também,

um gato que pula o muro erigido

entre nós – a palavra dita como se

mágica, o silêncio recolhido como

ouro de uma sequência de tempos

e tempos de estarmos ali, sem outro

lugar pra onde pudéssemos um dia ir.

 

 

Electra e Orestes, um Assassinato

 

Somos bandidos ao brandirmos

espada e lei contra quem

nos traiu.

 

Recompensa? Portamos escuro

o escudo de culpas que

nos infligiram.

 

Apenas retomamos o que nos

tomaram, refizemos o nó-

laço de nossa ferida,

vestimos-nos

 

para esconder essa vergonha:

órfãos de um pai que preferia

a guerra, de mãe que se vingava

na cama em que fomos feitos.

 

 

 

 

Aquiles, Meu Calcanhar II

 

A água não me cobriu o corpo,

sobrou o calcanhar impune,

lugar onde o logro encontrou

a lógica de sua fina trajetória.

 

A água não foi o suficiente para

me tornar um deles, o calcanhar

fincou-me em terra onde homens

se crêem melhores ao matarem,

 

em si e noutros, a ilusão com que

se nutrem, nutrem a vida que levam,

desfazendo os nós, que dia-a-dia,

estabelecem em sua resistência.

 

 

Tirésias, Um Outro

 

Diante de mim, aquele que é

ou pensa que seja o que não

vê – diante dele, aquele outro,

sabedor que não vê – e nisso

 

crê, pois enxerga lá adiante,

diante de si mesmo posta,

a resposta não procurada,

pelo outro já encontrada.


Helena, a que Causou a Guerra

 

Não é por mim esta estultice que já

dura dez anos, é por eles mesmos, por

suas lanças em ristes e suas espadas

desembainhadas.

 

Por mim, bastava um só escudo sem

fendas ou buracos por onde pudessem

penetrar todas as flechas que lançam

tesas e flambantes.

 

Não sou causa, sou a desculpa, como

sempre sucede, quando se lançam à luta,

evitam o raciocínio, perdem o controle

da arma que empunham,

 

querendo a custo forçá-la na fenda que

se forma, afinal, em nossa só carência.

 

 

Psiquê, a Curiosa

 

Não lamento ter querido ver,

lamento não ter confiado em

meu tato – não há monstruos-

idades tão grandes assim, nem

mesmo no escuro de um canto,

numa cama nua, povoada apenas

por um deus cansadoadormecido.

 

Ah! sim, lamento a vela que se der-

retia em minhas mãos trêmulas.

Que pena só terem inventado

depois o que poderia ter-me salvo

de mim mesma e dessa solidão

a que me condenei, ao não con-

fiar mais em meus dedos e de-

 

pender destes olhos que me enga-

naram, desta vista que, por ser in-

precisa, precisou de uma luz a mais,

de uma certeza impossível, de uma

confirmação questionável, de uma

crença absoluta no poder da forma

exata – que acordou e partiu para

sempre.

 

 

Medusa, a que Impede

 

Sou forte e tenho o poder de impedir

que um professor, no futuro, dê aulas

ou curso, pois pouco importa a quem

impeça, sempre triunfo sobre a capa-

idade alheia, a alheia sorte com que as-

sino trabalhos de alunos e estabeleço

então meu nome como o melhor para

um cargo qualquer que me destinam.

 

Sou mais do que todos estes cabelos

sem pente, serpentes de que me visto,

atavio de que me sirvo para, de onde

estou, mirar as escolhas alheias, a meia

sorte com que pretendem, de onde estão,

arrancar-me a carne que visto e avario.

 

 

 

 

GODOY, HelenoA Ordem da inscrição.  Poemas (janeiro julho 2000).  Goiânia: Editora UFG, 2004.  162 p.  13,5x19,5 cm.  Miolo: Papel pólen 80 gr.  Capa: cartão supremo 240 gr.  Tiragem: 500 exs.  Col. A.M. (EA)

 

 

11

 

 

A ordem das coisas não impõe
só um limite, pode impor vários,
como os das paredes de uma casa,
internas como também externas.

 

Quadrados que se circunscrevem
contraditoriamente, uma parede
interna se opõe, mas complementa,
uma outra que a abarque, externa-


mente. Se alguém chora em um dos
quartos e o som desse choro ultra-
passa uma parede, estende-se, rever-
bera lá fora, na mais externa delas,

 

e ainda é audível, constrói-se a sant-
idade do silêncio quebrado, limites
transpostos, a eterna chama que am-
para a prática da próxima convivência.

 



Heleno Godoy

 

De
Heleno Godoy
FÁBULA FINGIDA  1976-1984
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
171 p.  (Coleção Poiesis) 
Prêmio Bolsa de Publicações José Décio Filho 1984


definições:

— meu corpo entende, é como me exprimo
coisa extensa enquanto considerada

— prefiro-te porque percebo, pareces o que
te indico, conceito e causa, em parceria

— entrego-me o que queres, atributo
e estabilidade, essa a causa adequada

— recebo-te como me devolvo, afeccção
corpo potência, aumentada e devolvida

um abismo não é só armadilha:navio ou muralha
pode ser escada por onde se sobe
batalha que já foi travada
uma frase, se o seja, promove uma partilha

uma ausência neste mês mata: faca fincada em rês
pôde ser cravada: a festa empresta seu ar de gasto
confeito de bolo, intrepidez

nem o abraço é só cortesia: confete ou maravilha
pode ser bolacha que se comeu
euforia que já foi provada
o disfarce, se o vale, comporta a fantasia

uma ânsia este mês aviva: esforço, forçado haver
foi já notado: a fuga completa seu quê de volta
pouso forçado, fátuo ser

 

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Noite de Natal, 2006


Quem se arriscaria, nesta noite,

a um novo palpite: encurtar asas

deste anjo rebelde, ampliar rotas

de pássaros migratórios? Mas de

 

que nos serviriam menos penas, rotas

outras, mais traiçoeiras, um sertão

e suas veredas revisitadas por um

olhar erroneamente cubista, pois

 

jamais fragmentada aquela linguagem,

tão grande em suas múltiplas veredas?

Que anjo não deixaria, nesta noite

e em todas as outras (pois temos de

 

aturá-lo), novas penas crescerem;

que pássaros (temos de admitir)

outras fáceis rotas não buscariam?

Reconheçamos também assim esta

 

noite: um encurtamento de toscas rotas,

um ampliar de duras penas, uma pluralidade

de visões integrativas, estas sim, cubistas,

no sertão e em todas as suas veredas.
 

Álbum de Família

 

Esta menina com uma flor na mão

não sabe ainda, mas será minha mãe.

Aquele menino lá, de uniforme, será

um de meus muitos tantos tios.

De um lado como do outro, não

faltarão parentes: este meu avô

aqui, de bigode, ou esta avó magra,

que irá morar longe, num sanatório.

Numas outras fotos, estes outros

avós, que a sorte e a saúde muito

mais tempo mantiveram por perto.

 

De uma caixa de sapatos é que saem,

pois lá guardadas, todas essas fotos

velhas, algumas com rasgados, outras

amareladas, outras tantas desfocadas.

 

Não estão num álbum dispostas,

ordenadas e exibidas. Não. Aqui,

nesta caixa, muito mais que num

álbum organizado, encontro certas

as biografias que me fascinam,

as lembranças embaralhadas,

roupas às vezes em desalinho,

instantâneos precisos, muito

mais nítidos que fotos de estúdio

ou de festas fartas, de aniversários

ou casamentos, batizados, enterros.  

 

 

Uma Idéia de Perda em Pirenópolis
 

O que se perde junto com uma igreja

incendiada? Um orgulho antigo, uma

vaidade permanente, uma arrogância

para o porvir? O que se perde para

além da casa própria ou esta concha

carregada às costas, como caranguejo?

 

Perde-se a alma ou o lugar da reza,

crença que arde no fogo, umas tantas

imagens de madeira, castiçais velhos ...

Ah, sim, umas sepulturas lá plantadas,

 almas ausentes, aqueles ossos, um teto

 que rui e arde entre labaredas altas.

 

Parece que se perde o rumo da vida!

Besteira, perde-se apenas um sapato,

ou os dois, neste corre-corre por mais

um balde d'água e tanta impaciência

pela perda de panos, santos de madeira,

alguns andares, flores de brocado, velas.

 

Perde-se também um par de óculos,

uma bengala, talvez, um missal pesado

e colorido, todo escrito em Latim,

e em desuso, tal como se perdem

uns castiçais de prata e uns tantos

tocheiros derretidos. Ou evaporados!

 

Tudo acontece quando se perdem

andaimes e vasos de flores, uma casa

como um santuário, um paiol velho

como a sacristia, um túmulo como

também o corpo, que já se decompôs

há muito e se recupera na lembrança.  


Requiem / AEternam lEternal Rest l Repos Éternel / Ewige Ruhe
Requerer Eterno / Eterno Resto / Repouso Eterno / Erguida Rua

Nota:  A seguir, “uma longa “tetra-tradução” do texto da missa de defuntos, tal como utilizada por Giuseppe Verdi em sua monumental Messa da Requiem, composta em homenagem a Alessandro Manzoni e apresentada pela primeira vez na igreja de San Marco, em Milão, no dia 22 de maio de 1874. Heleno Godoy partiu do texto da missa em latim, inglês, francês e alemão, para chegar a um texto em português  pela mais rigorosa “transcriação”.  

 

1. Requerer eternamente.

Recusar, naturalmente.

Reclamar constantemente.

Erguer, regularmente,

um recurso eterno:

garantir ao que resta,

ó donas e ó senhores

de todos os domínios,

repouso eterno, luz

perpetuada sobre ele.

 

Nós loucos, senhores,

dizemos ao deus logro

de Sião tão longe, dece-

­pados hinos, homen-

agem paga a tíbio redentor.

 

Elevando a voz exaurida,

em oração, meio de omis-

­são a ser pago, quem escuta

nosso pedido racional

e vê nossa flecha?

 

Deste ônibuscaro vem

a fúria bifronte, corrente

que vem de ti e come

o que te omite, a grama

e o eterno resto

e o luminoso brilho.

 

Aqui, garantindo a regra

e o domingo, ó domínios,

a luz que chia e olhos jamais

deleite, luxo que esmorece, ao

pé de estranho, piedoso dito.

 

 

2.   Direis a ira do dia, da ilha deste

dia de jogo, tábuas da cólera,

zonas de um Zeus solvente

e consumido.

 

Séculos nas favas, dádiva

do anúncio sibilante, quando

lêem o teste, já tremendo/

temendo concha e arrocho.

 

Qual foi o efeito aparente,

em grãos de zimbro, quando,

julgando, vêm venturosos a um juiz?

 

Quanto tremor neste futuro,

uma concha que se come

para render/arrochar um estrito

arredio, esta flanela flâmula!

 

 

3.   A turba que mira ouve este trompete

escandindo seu som prodigioso,

pousado e lauto e de posse erguida.

 

Pôr sepulturas em regiões

acrósticas, graves de lendas,

tais as sepultas ervas,

em chás bebidas.

Com o ressurgir da criatura,

mancando os ares, toda

a criação se arrepende,

recavando a gleba.

 

Rendendo a conta concha,

judicando e respondendo

ao som juiz da fonte, e afronta

a criatura, a tuba mira e sopra.

 

 

4.   Livremente, a escritura busca

5.   ser vizinha e ousa, na busca,

ser trazida a proferir, para quem

tudo contém, todo o conteúdo

dado ou entregue a quem anda

por mundos e sítios do mundo,

erguendo sedas e tomando as-

­sentos. Donde as cercas sítios de

rios que cercam sedentos apelos,

cachos vendas, ao jugo do verbo

e vento, quem de lado aparece,

apela, ri do resto impuro, nuli­-

ficando o que remanesce e revém

inavegando, rastejando o nada

como súbita flama flâmula e falha.

 

 

5.    Aqui, a soma de um mísero

tão discurso. Qual chave,

que direito agora?

 

Miserável sagacidade protege

quem patrocina e roga eventos.

 

Justo o mais bravamente sábio

e garantido, ajustando as penas

e garantindo um vazamento justificado.

 

6.   Rei tremendo, resto que

lembra a justa majestade

de quem salva, voz sonante,

freio dinheiro grato, a fonte

do posto, pista da propriedade,

e é surdo ao pé da grande volta.

 

7.   Recordar ao pé do justo gentio

suavemente, doce malte erguido.

 

Qual a soma de tua causa e via,

a razão de tímido olho, por meu

rejeitar o passo de um jogo escalado?

 

Quaresma, me sediaste o lasso passo,

o que sepultou quem me esposava

ou suspendia, redimindo crustáceos

passos e tais muitos trabalhos em vão,

e vem aqui quem sofre, cruz pendente.

 

Tanto labor, em teu caso, ritualmente

julgando a vingança e a justa sentença,

ao gerenciar a regra e dar, fato remissão,

o prêmio do esquecimento, antes do dia

reconhecendo a rendição gerida/ querida.

 

 

8.   De joelhos e gemendo, em gemido tanto

quanto réu, grunhindo como símio acusado,

culpa roubada, guia rendido, pêssego regur-

­gitado, esta face em chamas e em suplicante par-

­ceria espargindo súplica, céu dela que implora.

Quantas Marias absorvidas, esperadas por sua

perda, vergadas e ladras exaltadas, vergastadas

à ladra fé. Meu preço, assim rendida a esperança,

vai por dívida, vai por menos flechas, prece

minha sem mérito, mas tua a misericórdia,

o bom feito e benigno brilho de fogo eterno ..

Bem, de baixo, e engolfando perenes crimes

ígneos, um lugar de larga esfera, estas ovelhas

localizadas no prado e separadas dos bodes por

entre britas, estátuas na parte destra estendidas

por reta mão entre bocas, estabelecidas como

à minha direita, uma tal dita seita e serventia ..

 

 

9.   Confrontando os mal ditos danados,

confundindo olho sombra, flamingos

que acirram os aflitas.

 

Flâmulas consignam-se flambantes,

verdadeiras e devoradoras beladonas.

 

A vaca que comeu com pressa

o apelo por entre selvas, um ouro

em súplica e bem debaixo da cura

quase cínica, entre cedros reduzida

e zunindo o fim desta verdade.

 

Gerando meu fim,

ajudando à última hora,

ardendo neste sinal,

queimando este final.  

 

 

10.    Lacrimosa deusa da ilha, furos e toras,

jornadas de lamas, grades de traumas

regurgitando as favas das achas que

arriscam o homem e revivem sua cinza

 

Justo no mundo, o homem arrisca

a culpa de abater o jugo, este culpado

perdão lugar, aqui erguido em parte

dada e em doce repouso, gentil garantia.

 

 

11.   Oferto o domínio, jejum cristalizado,

o reino da glória que rói/rui o relicário

e anima o homem fidelidade, o que

entrega aos só fiéis a partilha das almas

de fidançados defuntos, estátuas nos

buracos. E pânico no hall de entrada,

um pênis infernal em profundo lugar,

como jaula de leão ou guelra de leão,

um rato louco absorvendo este tártaro

mar salgado e o engolfando candente

e obscuro. A sede significa santo milagre,

mais que santo nesta tênebra festa, uma

outra porta-estandarte sondando sua re­-

presentação. Luz santa conduzida e que

verá sua luminosidade leite, quando

o óleo prometido, dado à sede de jade

dos defuntos, galopará seminua e sólida

para a sua própria prole posteridade.

 

Hóstias e preces te louvam em árvore,

te afrontam com pregos, trazem ofertas

e láudano, sacrifícios e praias, luares

nimbos, selos súplicas, memórias fáceis

remendando o dia, ajuntando mais oito

memórias, alta demanda da morte que

domina e faz este passo de morte em

via de traurnatizar, transpirar e vitalizar

de novo, com veemência, o semi-

justo símile na própria prosperidade.

 

 

12.    Santo, santo, santo sábado este rolo/

dolo santo. Domínio a dar ao sábado

os lordes do grande halo dos armados/

amados do céus e que da terra são

repensados/ renhidos/plenos da glória

tua: um hosana às excelsas e beneditas

células, senhores, um hosana aos mais

altos céus em excelsos halos planaltos.

 

 

13.    Joelho que se deu e tolhe os pecados do mundo,

que toma do alheio os sinais do mundo, que

afasta os pêssegos do mundo. Dona, eis, pois,

reclamante e garantindo o resto, afastando pés-

­segos de novo, dona reclamante e serpentina,

dê a eles um repouso eterno e merecidamente

trocando os pecados deste resto do nosso mundo.

 

 

14.   Luz eterna,

luxo aéreo

lixo etéreo.

 

A luz se fez mais eterna,

luxo se fez mais etéreo,

lixo se faz mais aéreo.

 

Domínios que são pios,

toda arte é boa. O carro

teu é misericordioso.

 

Seja digno, heliotrópio,

denso em teu gosto,

humilde em teu gasto.

 

Requisita de tua eterna

dona e da luz perpétua

que perpetuem a tua arte boa

e jamais o repouso misericordioso.

 

 

15.    Libertem-me, domínios, da morte eterna,

ou entreguem-me, na eterna sorte, à cela

etérea deste jogo terreno. Um dia na ilha

tremenda, tremendo no dia feio, quando

altos e baixos forem abrandados, hinos ao

ungido erguido, o céu movendo-se como

ao julgar o mundo pelo fogo a fazer furor.

 

 

Tremem os fatos que são egoístas, cinzelados

no medo e trementes, assim também santos

e crentes e tementes, recobrando a angústia

que os dissuade e venera, atendendo ao julga-

mento e à cólera, quando céu e terra serão

abrandados/igualados/irmanados/transformados.

 

Dias de ira, sim, ó deus da ilha, aquele dia de rato,

jogo da cólera, maldade e angústia, o grande

jogo de te amar/armar, jovem tábua das zonas

de calamidade e miséria. Quando virás julgar

o mundo pelo fogo que o consome, por

séculos ignorando este magno e amargo vale

excedendo em amargura e rico em tão furor?

 

Reclamo eterno, reclamar eternamente, ó dona

em seus domínios, e garantir a eles e dar-lhes re-

­pouso eterno, perpétua luz que lhes brilhe sobre,

com luminosidade aeretérea, aos olhos nunca

em leite iluminados, luz chiada, brilho sobre este

domínio de luxo aéreo, lixo eterno e luz etérea.

 

============================================================Hoje é dia de Natal (2008) e aproveito a quietude para ler poemas de meus amigos que estavam à minha espera na estante de minha casa. Um deles é o Heleno Godoy, que anda desaparecido. Aqui vão dois poemas colhidos durante a leitura, para compartilhar com os leitores:

 

A COLHER

Ela não serve só para líquidos
ou alguma coisa arredondada.
Também serve para coisas
soltas, em sua forma curva.

A colher transporta, rola,
volteia na ponta dos dedos
ou no fundo do prato.

A colher é instável:
pousada em forma côncava,
balança e derrama;
pousada em forma convexa,
não pára, desequilibra.

Uma colher é como lua
minguante ou crescente:
inválida, transitória,
sua própria utilidade.

 

 

A NAVALHA

Não há quem não se amedronte
dela, sentado na cadeira
do barbeiro apressado, falante
e inatento.

Antes uma lâmina inofensiva
em aparelho convencional,
fofo e brando ao ser usado.

A navalha não pensa,
e olha vagamente as coisas,
cortando-as destra, mecânica.

Uma navalha é como um olho
arguto, astuto, cauteloso:
brilha e arma, serpente,
um golpe só, profundo e nítido,
compadecido mesmo, em sua
asséptica habilidade.

 

         (Do Livro dos Substantivos Comuns  1969-1975 (1902-1993), incluídos na antologia de inéditos TRÍMEROS (Goiânia: Editora UCG, 1993)

 

 

De
Heleno Godoy
A casa.
Poemas 1986-1991.
  2 ed.   
 Goiânia: Cânone editorial, 2001. 
 135 p   ISBN 85-87635-06-9

 

 

No limite da hera, esse esplendor

das horas rente ao muro,

a casa se esverdeia - o traço

do um outro estado; sequência,

 

No limite do vaso, esse furto

do jardim junto à porta,

a casa se enfeita - o trato

de um outro espaço: premência.

 

No limite da mesa, esse fausto

da horta junto ao prato,

a casa se alimenta - retraio

de um outro espanto: falência.

 

No limito da cama, esse encanto

do corpo junto ao corpo,

a casa se experimenta - contrato

de um outro assalto: carência.

 

 

 

Página ampliada e republicada em dezembro de 2008; ampliada e republicada em julho de 2011.

 

 

 
 
 
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