REINVENTANDO-ME
Como a ave mitológica,
cada dia renasço
das próprias cinzas.
Reinvento o calendário
para rea(s)cender a minha vida.
Velho dilema:
se cruzo os braços, fracasso;
se avanço o semáforo, desapareço.
Mas não sei se continuo
como Sísifo sem sua
doida roda-viva:;
ora pedra sobre os escombros
de mim mesmo,
ora aclive ressuscitado
em constante desafio.
Não resisto ao amanhã,
mas estou perdido no ontem
enquanto o presente
me sentencia e descaminha.
Enquanto não estendem a ponte
tento fazer a catarse
de um salto dialético impossível.
SINTOMAS
Esse o tempo
do sexo e do nada fácil:
somos vítimas da máquina
e de seu complexo...
... corpos em intenso fluxo
Vidas mais do que perplexas.
RECOMPENSA
A manhã e seus tropeços
a tarde e seus cansaços,
resíduos de um velho dia.
Na noite, os meus abraços
entre seus braços
de farta coreografia.
MOSAICO
Não me importa o que sou.
De nada vale a pena
deslumbrar-se
na vã tentativa de admirar
o que fez, o que foi, o que tem.
Orgulho-me, sim,
Daquilo que não fui.
Só assim consigo estar mais leve
e ver além do sol,
porque das decepções que não sofri
e das frustrações que não tive
a mim e aos demais poupei.
Entre tantas despedidas,
amizades desfeitas ou amores inconclusos,
ficou-me a estrada
e a estranha, iniludível sensação
de estar inacabado.
PÓRTICO DO MENINO
Perguntei pelo menino que fui
às raízes de mim.
Grave, distraído o achei.
Anderson Braga Horta
Prévia e veloz
(com uma solenidade inquisitória)
a infância me nutre novamente
com teimosa nostalgia.
Pássaros mastigando
o que é morto nos homens,
olhos fixos garimpando lições antigas
nas espinhas que cravejam
a face naufragada
nas re-
lembranças que deflagram fugas inefáveis.
E o corcel que urgente irrompe
diante de minhas retinas enfastiadas de memória
traz a lâmina de rude aprendizado.
IMAGEM VIRTUAL
Sobre o beiral da velha ponte
de Cataguases
contemplo águas andarilhas
mirando o leito de antanho:
lâmina que me disseca
para um lúcido reconhecimento.
O rio que, inexorável, me escapa,
carrega antigas histórias
rumo ao mar das utopias:
reencontro nas catarses.
Nesse itinerário que serpenteia
por antigas paragens,
lanço barcos sem rumo
para o resgate do que f(l)ui
no espelho provisório
dos meus anos.
POEMA DA IMPERMANÊNCIA
Poesia que se cumpre
contra os muros e a solidão,
lâmina afiada
escandindo os meus ais...
... viagem inclemente da pena
sobre o desafio desvairado
da pauta nua
escrachando o que há em mim
ou o que ai está
clamando por catarses.
É a palavra,
a palavra em si mesma
reverberando
estende a ponte, atravessa o pântano
m dores & delícias
e nos faz alcançar o atalho,
as serventias ou, quem sabe,
o íntimo gozo ou a invernia.
Verbo que se expande e corrói
a espúria indigência de nossas almas
e nos confirma
o necessário esforço da superação.
CONTRA-SENSO
Este País é um caldeirão,
de miséria, sangue e luto.
Não fossem os ingredientes
Candelária, Carandiru, Ianomâmis,
Corumbiara, Eldorado dos Carajás, Vigário Geral
de dava para matar a fome,
não a gente.
Meu país é uma nação
perdida nas praças agonizantes,
nas selvas incultas,
na dor dos párias,
nos labirintos do Orçamento,
navegando em rios
de sangue e suor.
Enquanto isso,
o futuro hiberna
sem resposta,
sob os mármores,
cúmplices impagáveis do poder.
O Brasil
Encontrou o seu caminho,
desde Cabral & caminha:
só que vive na contramão.
De chacina
em chacina,
eis a nossa sina.
Extraídos de Cancãs dentro da noite. Brasília: Thesaurus, 1999.
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