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FRANCISCO CARVALHO

( 1927-2013 )

 

Nasceu em São Bernardo das Russas, interior do Ceará, em 1927. Poeta de obra vasta e contínua, vem merecendo o reconhecimento de seus pares e do público em geral. O poema foi extraído de seu livro Centauros Urbanos,  de 2003.

 

EN FRANÇAIS

Francisco Carvalho

De
Francisco Carvalho

Quadrante solar. Poesia.  
Capa: José Moraes.
 São Paulo:  L R Editores, 1982.  
 "Prêmio Bienal Nestlê de Literatura Brasileira".

 

 

 

VERDADE

 

Minha verdade é um punhado

de sonhos extraviados.

 

minha verdade são os mortos

que pelejam contra mim.

 

são as palavras e a marca

do seu reflexo no espelho.

 

minha verdade é este sangue

da noite desmoronada.

 

minha verdade é a memória

do meu remorso bastardo.

 

minha verdade é a incerteza

do tempo que nos rumina.

 

minha verdade é esta insônia

que me atravessa a retina

 

como uma flecha de areia

que abrisse a carne da rima.

 

minha verdade é esta negra

ronda do corpo e da alma

 

este saber que me iludo

e este cansaço de tudo.

 

 

 

CIDADE DAS ÉGUAS RUSSAS

 

Cidade das éguas russas

que só pastam saudade

nos campos encardidos

a melodia cinzenta

dos tangedores de cabras.

 

A alvenaria solitária

da igreja matriz

varando os olhos cegos

da noite

e o repentino crepúsculo dos morcegos.

 

Mestre João Rodrigues

ferreiro tribal

o canto do martelo na bigorna

é o vinho derramado

de uma taça que transborda.

 

Os velhos ao gamão

à sombra do tamarindo

monsenhor Vital pastorava o luar

como se fosse um rebanho

de carneiros balindo.

 

Os mortos passam lentamente

pela rua principal

do fundo da torre negra

o sino os acompanha

com lágrimas de metal.

 

O tempo passa boiando

nas lerdas águas do Araibu

cabritos reluzentes

brincam de ciranda com os meninos

no patamar azul.

 

Léguas de vento e pó

se alastram na alma e no corpo

as opas vermelhas

dos irmãos do Santíssimo

saúdam o Cristo morto.

Os pendões da procissão

e a palidez do andor

madeira ensangüentada

onde balança a rosa

das cinco chagas em flor.

 

Cidade das éguas russas

que pastam nos campos ralos

das éguas que se foram

tangidas pelo vento

da respiração dos cavalos.

 

Cidade das éguas russas

que só pastam saudade

os caminhos do morto

que vai para a eternidade

passam pelo meu corpo.

 

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MEMÓRIA DO APOCALIPSE

 

O som de um realejo se dissolve na espuma da tarde

gatos famélicos passeiam nos muros dos quintais

um bêbado rodopia nas pernas bambas

automóveis de luxo semeiam estridências metálicas

e claridades surrealistas nas avenidas.

 

Crianças cor de ocre disputam migalhas de colostro

Perfuratrizes golpeiam as entranhas do asfalto

puérpuras de mamilos de loba vagueiam pelas ruas

de um paraíso sem anjos e mulheres.

 

Uma revoada de andorinhas destrói a Torre de Pisa

um navio apita solenemente pelos soldados

mortos na guerra do Peloponeso

peixes cor-de-rosa discutem eutanásia com facas amoladas

vendedores de anzol trapaceiam ampolas de morfina.

 

Gueixas fumam cigarros de ópio nas esquinas das catedrais

fantasmas barrocos despencam de torres góticas

computadores de última geração alardeiam

o suposto suicídio de Osama Bin Laden.

 

Cães treinados para castrar adolescentes investem

contra os mamilos de esfinges de pedra

que se entregam à volúpia dos faunos, num campo

onde outrora deceparam tulipas vermelhas.

 

De
DIMENSÃO DAS COISAS
Fortaleza:Editora Instituto do Ceará, 1966.

A CIDADE ELEGÍACA
(fragmentos)

6
A cidade. A asfixia. Nos arranha-céus
as janelas emolduram suicídios banais.
Os públicos enternecimentos caninos
nos becos diuréticos. Meu coração
é o centro do mundo. Seu eixo submerso.
Não há solução para o absurdo da vida.
A alma é igual a uma teorema metafísico.
(O quadrado da hipotenusa é igual
à soma do quadrados dos catetos.)
Contudo o mistério permanece. E a ronda
vespertina das mulheres andróginas.
O complô. O medo. A volúpia da hora
expectante, o dealbar do insólito.
Deus é dinâmico até quando silencia.
Notes de abril para os esponsais de Andrõmeda!
Constelações do pecado, onde serei póstumo?

 

POEMA DA EMBRIAGUEZ

Bebem uns por desprazer,
astros, flor, vinho, absinto.
Bebem Deus para o esquecer.
Eu só bebo o que não sinto.

Outros bebem por desvelo,
solidões, o amor que dói.
Bebem Deus para esquecê-lo.
Eu só bebo o que não foi.

Outros bebem sal do mar,
azuis de ontem e de hoje.
Bebem Deus para o matar.
Eu só bebo o que me foge.

Alguns bebem céus e ventos,
som, memória, espera e gesso.
Bebem Deus e anjos imensos.
Eu só bebo o que me esqueço.


SONETO À RENDEIRA

O linho é uma oração remota, nesse
fluir fabril de fio para a flor.
Move-se o coração da moça, e esquece
o tempo prisioneiro, em derredor

da sombra esguia que à almofada tece.
Move-se, em seu afã modelador
de paz, o mito imemorial da prece
que do limbo da morte inventa o amor.

Movem-se dentro dela o sol e o vento.
Move-se o mar, e os pórticos se movem
das águas em perpétuo movimento...

Move-se a gênese em seu corpo jovem.
E, enquanto o olhar medita, os dedos tecem
gestos de amor que os lábios não conhecem.

 

DISCURSO PARA INICIADOS, poema do cearense FRANCISCO CARVALHO, na voz do poeta José Inácio Vieira de Melo, gravado para o PORTAL DE POESIA IBEROAMERICANA — www.antoniomiranda.com.br - em video realizado pelo webdesigner Juvenildo Barbosa Moreira, durante a Fliporto - Festival Literário,  Olinda, Pernambuco, 2010.  ´POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA


 

CARVALHO, Francisco.  Olhos  de  ressaca. 2ª. edição.  Fortaleza, CE: Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará, 2000.   30 folhas. Edição artesanal.  15x20,5 cm.   Ex. bibl. Antonio Miranda

 

         SONETO A CAPITU

         Oh! flor do céu! Oh! flor cândida e pura!
         Desce do olimpo à terra prometida.
         Quando eu remava a barca da loucura,
         tu pisavas meu versos, distraída.

         Tua nudez é o mito que se cala
         para escutar os olhos de quem ama.
         Falo à serpente, mas a minha fala
         entre em teu corpo e nele se derrama.

         Não dês ouvido às súplicas dos bardos,
         ó pastora do vento e suas crias.
         Podes mata-los com teus negros dardos.

         Do amor se diz que é o fio da navalha.
         Ao vendaval dos sonhos e dos dias,
         perde-se a vida, ganha-se a batalha.

 

         VÃ FILOSOFIA

         Oh! flor do céu! Oh! flor cândida e pura!
         Dizem que o amor é pérola sem preço.
         Sei que as ideias mudam de figura,
         mas não sei se te odeio ou te mereço.

         Se te mereço, ó noiva das campinas,
         vem ter comigo a este solar dos ventos
         onde me afogo em negros pensamentos
         e me entrego a volúpias clandestinas.

         Lamento que estejamos separados,
         talvez por um capricho do destino
         ou dos deuses gerados por cavalos.

         Do amor resta a memória de uma palha
         crestada por um fogo repentino.
         Ganha-se a vida, perde-se a batalha.

 

Página ampliada e republicada em janeiro de 2009. Ampliada em março de 2107

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

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