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FRANCISCO CARVALHO Nasceu em São Bernardo das Russas, interior do Ceará, em 1927. Poeta de obra vasta e contínua, vem merecendo o reconhecimento de seus pares e do público em geral. O poema foi extraído de seu livro Centauros Urbanos, de 2003.
De Quadrante solar. Poesia.
VERDADE
Minha verdade é um punhado de sonhos extraviados.
minha verdade são os mortos que pelejam contra mim.
são as palavras e a marca do seu reflexo no espelho.
minha verdade é este sangue da noite desmoronada.
minha verdade é a memória do meu remorso bastardo.
minha verdade é a incerteza do tempo que nos rumina.
minha verdade é esta insônia que me atravessa a retina
como uma flecha de areia que abrisse a carne da rima.
minha verdade é esta negra ronda do corpo e da alma
este saber que me iludo e este cansaço de tudo.
CIDADE DAS ÉGUAS RUSSAS
Cidade das éguas russas que só pastam saudade nos campos encardidos a melodia cinzenta dos tangedores de cabras.
A alvenaria solitária da igreja matriz varando os olhos cegos da noite e o repentino crepúsculo dos morcegos.
Mestre João Rodrigues ferreiro tribal o canto do martelo na bigorna é o vinho derramado de uma taça que transborda.
Os velhos ao gamão à sombra do tamarindo monsenhor Vital pastorava o luar como se fosse um rebanho de carneiros balindo.
Os mortos passam lentamente pela rua principal do fundo da torre negra o sino os acompanha com lágrimas de metal.
O tempo passa boiando nas lerdas águas do Araibu cabritos reluzentes brincam de ciranda com os meninos no patamar azul.
Léguas de vento e pó se alastram na alma e no corpo as opas vermelhas dos irmãos do Santíssimo saúdam o Cristo morto. Os pendões da procissão e a palidez do andor madeira ensangüentada onde balança a rosa das cinco chagas em flor.
Cidade das éguas russas que pastam nos campos ralos das éguas que se foram tangidas pelo vento da respiração dos cavalos.
Cidade das éguas russas que só pastam saudade os caminhos do morto que vai para a eternidade passam pelo meu corpo.
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