MEMÓRIA DO APOCALIPSE
O som de um realejo se dissolve na espuma da tarde
gatos famélicos passeiam nos muros dos quintais
um bêbado rodopia nas pernas bambas
automóveis de luxo semeiam estridências metálicas
e claridades surrealistas nas avenidas.
Crianças cor de ocre disputam migalhas de colostro
Perfuratrizes golpeiam as entranhas do asfalto
puérpuras de mamilos de loba vagueiam pelas ruas
de um paraíso sem anjos e mulheres.
Uma revoada de andorinhas destrói a Torre de Pisa
um navio apita solenemente pelos soldados
mortos na guerra do Peloponeso
peixes cor-de-rosa discutem eutanásia com facas amoladas
vendedores de anzol trapaceiam ampolas de morfina.
Gueixas fumam cigarros de ópio nas esquinas das catedrais
fantasmas barrocos despencam de torres góticas
computadores de última geração alardeiam
o suposto suicídio de Osama Bin Laden.
Cães treinados para castrar adolescentes investem
contra os mamilos de esfinges de pedra
que se entregam à volúpia dos faunos, num campo
onde outrora deceparam tulipas vermelhas. |