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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TRIBUTO AO POETA

AFFONSO AVILA

AFFONSO AVILA - A MANEIRA TEXTUAL DE VER

Por Antonio Miranda

 

 Palestra apresentada na sessão do TRIBUTO AO POETA dedicada ao Affonso  Ávila, no auditório da Biblioteca Nacional de Brasília, dia 24 de junho de 2009.

 

“maneira de fazer da leitura uma maneira textual de ver
         — ou de ler como se víssemos o que as palavras significam”,

                                                        BENEDITO NUNES, p. 25.

 

sob permanente pressão crítica, provocada pela instabilidade das formas em evolução” que se constitui numa “épica do instante.”                           AFFONSO ÁVILA

AFFONSO AVILA

As epígrafes assinalam e orientam o sentido da poesia de Affonso Ávila, de quem usa as palavras para inscrever em vez de escrever, para ilustrar em vez de descrever. Épico de circunstância, mas com substrato histórico e projeção para a modernidade constante — a tal “épica do instante”.

A vanguarda é sempre retrógrada quando passa. Mas a poesia de Ávila parece que se situa num espaço temporal imanente, numa modernidade que nunca se consome.

Muitas vezes laureado. Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, 1991; Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes, 2003, Prêmio Wessel, e muitos outros. É surpreendente que o autor tenha, em vida, o reconhecimento devido, quando outros vanguardistas só foram descobertos pelos pósteros. Sousândrade, entre eles, para citar apenas um.

AFFONSO AVILA

“Quando antitradicionalista, ele é um desviante; beneficia-o a rebelde vontade de negar o aceito, o consagrado, o dito e o redito, o por demais expressado. E negando-os, principia a mudar-se e a mudar a poesia. Mudando a poesia, critica-a e, por sua vez, entra em crise. É a crise o comum estado de consciência do poeta em nosso tempo.” 

“É uma poesia difícil”, reconhece Antônio D´Elia,  p.57) e acrescenta; “Os poemas de Affonso Ávila são belos. Sente-se neles essa beleza — um pouco fria, é claro — da poesia pura.” [ sobre Carta do Solo, 1961]. 

Hermético? Certamente que não! Concreto, conciso, minimalista, raramente discursivo, mas, neste caso, com a economia máxima das palavras, como se estas fossem a razão última de sua poesia. Palavras-coisas. Há quem o associe ao concretismo, ao poema-processo, a uma superação do verso de João Cabral de Melo Neto por sua alcalina engenharia e pela voz quase árida e penetrante: aquilo da “faca só lâmina”. Tem tudo a ver, mas não é uma imitação consciente, mais bem um desvio. Sendo barroco, nunca teve medo da imitação, desde que reelaborada, transfigurada em novos sentidos. Artesão da palavra, sim, mas na sua cristalização no espaço-tempo, em sua consubstanciação de significados. 

         “Em crise, o poeta de hoje, temendo a insídia da linguagem, para melhor poder estadear, na palavra, o que em torno de si se dá — procura mostrar, enfim, o que ela enuncia. E que outro melhor meio de  mostrar do que fazer ver, colocar o que se mostra verbalmente, como uma coisa no espaço à frente de quem lê — intuída pelo poeta e perceptível para o leitor?”  Benedito Nunes, p. 25) 

Repito: conciso, mesmo quando faz multiplicar as palavras numa litania visual que vai tecendo uma mensagem além das palavras. Como que contradizendo o que dele diz o crítico Benedito Nunes: “Mineiro de poucas palavras no verso e na vida” (p. 26)

AFFONSO AVILA

O poeta inicia-se pelos sonetos de versos introspectivos, intimistas, com algum hermetismo.  Sem os ressábios parnasianos, fugindo dos preciosismos e dos adjetivos dos simbolistas e até do versilibrismo ainda em voga. O poeta reconhece estar “em pleno desconcerto das palavras” (Soneto do Ad vento, p. 42).    Há quem o associe, apressadamente, à “Geração 45”. Seu primeiro livro – O Açude e os Sonetos da Descoberta –reúne seus versos escritos entre 1949 e 1953. Na opinião de Henriqueta Lisboa, “Cuja força emotiva está presente no ritmo, no verbo substancial, na mesma escolha do parcimonioso adjetivo.” (Fortuna crítica, p. 14).   Da obra citada  extraímos o
 

SONETO

Não vos traga tristeza a chuva fria
a se esgueirar nas tardes sem corola.
Sobe o chumbo (o sem cor) das coisas vivas
sufocando o clamor das vossas horas.

Sobre o ontem deitastes. Neve amiga
da pegada os sinais na terra afoga
(vede o exemplo da nuvem que destila
o fel de si na gota que se evola).

Sede o espelho, não mais.  O próprio nervo
se desfaça no plano de cristal
onde a imagem enfim se compreende.

Plenitude da origem e do termo
o nimbo vos ensine o largo mar.
Sereis então o grande indiferente.


Na época do modernismo tardio, da restauração conservadora da Geração 45 e às vésperas das vanguardas verbivocovisuais dos concretistas, Affonso Ávila se inaugura nesse rito de passagem que ele soube apropriadamente absorver sem aderir.  

“(...) chegar ao essencial, ao ponto que une criação e reflexão, após um percurso solitário de lutas e desafios para construir a história de Minas, descobrir as identidades brasileiras e descobrir-se a si mesmo.” Camila Diniz, editora do Suplemento Literário de Minas Gerais. 

Ou melhor dizendo, nas palavras de Antonio D´Elia, Affonso Ávila “ fala mais a uma sensibilidade refletida do que ao sentimento.” (p. 15)
 

BARROCOLAGENS
(1981)

 

Vamos saltar para uma obra de sua maturidade — Barrocolagens — porque ela é a chave para entender em larga medida a poesia de Affonso Ávila.  Separata da revista Barroco (11, 1981). Os especialistas chamam a atenção para a sigla “AA” que aparece no alto da página, dando a entender que Affonso Ávila é também o crisol ou amálgama de autores que o precederam, não somente os poetas arcádicos, mas sobretudo os cronistas que inscreveram a história de Minas. Autores de textos que ele usou, transformou numa espécie de intratextualidade de apropriação débita, ostensiva.

AFFONSO AVILA

No entender de Anelito Pereira de Oliveira, na interpretação de A.A., seguindo o pensamento de Lacan, o Barroco é “um campo material, bruto, onde vozes e imagens encenam o sofrimento de corpos e almas “encorpadas”. (Fortuna Crítica, p. 31) Relação corpo-alma, promíscua, o corpo tentando dominar o espírito. O autor barroco

 “(...) usa elementos técnicos e artifícios de nossa era pós-moderna, como o recurso parodístico e a técnica do pastiche – apropriação crítica de textos que constrói réplicas textuais capazes de alargar e burla a possível exaustão de procedimentos criativos”.  

Afirma Carlos Drummond de Andrade, em carta ao poeta (1953) referindo-se ao livro “O açude...”, vendo no autor uma “tendência ao aprofundamento”.  (p.49), a busca de interrelações de palavras e sentidos que configuram sua poesia.

 

É bom lembrar, uma vez mais, que o conceito de autoria e originalidade é um fetiche, algo que os autores medievais – ao recuperarem os valores helênicos e clássicos –, cultivavam em sentido contrário, absorvendo e recriando a partir das formas e fórmulas consagradas.  Barrocolagens, em certo sentido, assume esta antropofagia literária. *

 

*Rogério Barbosa da Silva, na análise do livro Barrocolagens de A.A., reconhece o artifício e sua transliteração textual: “Embora estejamos lidando com as palavras textuais de cada autor “pastichado”, seu conteúdo já não é o mesmo por não pertencerem suas palavras ao mesmo contexto, e até mesmo porque a orientação da leitura acaba mudando. É notório que a transcontextualização já induz uma operação crítica da leitura. Estas questões estão, porém, na base da própria idéia de representação artística, e foram tratadas por Giles Deleuze em seu ensaio “A reversão do platonismo”.” (p. 167)  

 

AA (Antonio Vieira/Luís de Góngora/Juan de la Cruz/Garcilaso de la Vega/Oswald de Andrade)

 

I

OS REMÉDIOS DO AMOR E O AMOR SEM REMÉDIO SÃO AS

QUATRO COISAS E UMA SÓ

O PRIMEIRO REMÉDIO É O TEMPO

TUDO CURA O TEMPO, TUDO FAZ ESQUECER, TUDO GASTA,

TUDO DIGERE, TUDO ACABA,

ATREVE-SE O TEMPO A COLUNAS DE MÁRMORE, QUANTO

MAIS A CORAÇÕES DE CERA?

SÃO AS AFEIÇÕES COMO AS VIDAS, QUE NÃO HÁ MAIS CERTO

SINAL DE HAVEREM DE DURAR POUCO, QUE TEREM DURADO MUITO

SÃO COMO AS LINHAS QUE PARTEM DO CENTRO PARA A

CIRCUNFERÊNCIA, QUE QUANTO MAIS CONTINUADAS,

TANTO MENOS UNIDAS

POR ISSO OS ANTIGOS SABIAMENTE PINTARAM O AMOR

MENINO, PORQUE NÃO HA AMOR TÃO ROBUSTO QUE

CHEGUE A SER VELHO

DE TODOS OS INSTRUMENTOS COM QUE O ARMOU A

NATUREZA, O DESARMA O TEMPO

AFROUXA-LHE O ARCO, COM QUE JÁ NÃO TIRA

EMBOTA-LHE AS SETAS, COM QUE JÁ NÃO FERE

ABRE-LHE OS OLHOS, COM QUE VÊ O QUE NÃO VIA

E FAZ-LHE CRESCER AS ASAS, COM QUE VOA E FOGE

Y SÓLO DE EL AMOR QUEDA EL VENENO

 

 

Silviano Santiago afirmou que “os poemas de Barrocolagens justificam a idéia de que a tradução de um significante avança um novo significado” (citado por SILVA, p. 169).

 

O barroco evita uma comunicação explícita, prefere os circunlóquios, o disfarce, o despiste na construção de uma teia de sentidos em lugar da comunicação linear. Fonte para o gongorismo posterior. Ávila transita neste território híbrido com lucidez, como buscando luz no túnel, enxergando nas trevas.  Quem não conhece os “labirintos” criados pelos poetas medievais, em mosteiros, pacientemente? Sonetos circulares, tentativas palindrômicas, esferoidais, dando uma visualidade aos poemas? Cruzando acrósticos no interior dos poemas, traçando linhas diagonais pelas letras do tecido dos poemas? Até o “palavra-puxa-palavra” que pareceu ser uma grande novidade na feitura de poemas, entre nós, em meados do século passado, já era uma prática nos tempos de Gregório de Matos: 

 

“Para a tropa do trapo vazo a tripa
E mais não digo, porque a musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.”

 

AFFONSO AVILA

CÓDIGO DE MINAS
(1963-1967) 

Trata-se de um livro-síntese de toda a obra artesanal de A.A., código de Minas também código de toda a sua produção poética.

Vamos direto a alguns textos desta obra, antes de tecer qualquer comentário, pois eles antecipam o que se possa dizer...  

eu em mim
eu em minas
eu em minas de mim

(...)
eu em onírico de mim
eu em omisso de mim
eu em opaco de mim

(...)
 

1720
         o pai com a febre no pântano
         o filho conferindo o ganho
         o neto com os escravos
                   (pai rouba
                   filho come
                   neto passa fome)

(...)
1930
         o pai conservador
         o filho contemporizador
         o neto conspirador
                   (pai rouba
                   filho come
                   neto passa fome)

(...)
        
o sogro na situação
         o consogro na oposição
         o genro na coligação
                   (na prebenda a parentela)

         o irmão na câmara federal
         o cunhado na câmara estadual
         o concunhado na câmara municipal
                            (no cartório  a parentela)

(...)

Publicada originalmente em 1967, com uma edição pela Civilização Brasileira em 1969, sob censura, a obra foi reeditada na íntegra somente trinta anos depois, pela 7Letras. Texto multiforme, que parte da recuperação de leis, preceitos, disposições, normas, regras e regras oitocentistas, revisitados e analisados na perspectiva do tempo, numa reinterpretação histórica que envolve a relação dos fastos passados com os desvios históricos de outros tempos. Ronaldo Polito (p. 75) registra que o poemário de Àvila comporta lugares-comuns, chavões e palavras de ordem, tradições, personagens e lugares da mineiridade, revisitada e reinterpretada ideologicamente, sem descuidar da sátira e da crítica.  Seriam os “resíduos seiscentistas de que nos fala Benedito Nunes em relação à obra citada.“ Vale dizer, “interferir politicamente com a poesia no contexto adverso de nossa história contemporânea” (Ronaldo Polito, p. 78), com raiva e ironia: 

O burocrata é o censor
O burro crasso é o censor
O burguês clássico é o censor
(sua informação é o estado de minas
sua informação é o estágio de minas
sua informação é a estafa de minas)
 

A negrita é nossa para deixar óbvia sua referência ao jornal O Estado de Minas... Polito conclui: “Este código se constitui de 21 peças a modo de monumentos-ruínas que repropõem uma leitura às avessas do baú de ossos.” (p. 79) Seriam as “reproduções infiéis” de textos, na opinião arguta do comentarista. “Em vez de argumentação, a decomposição; em vez de justificativa, o estranhamento” (p. 79).

Paralelismo referencial, justaposto e contraposto, coloca o fato e sua contrafação, lado a lado, para um confronto de idéias e valores, tarefa interpretativa que fica a cargo do leitor, pois o autor apenas monta diametricamente sua composição: 

Com sua crosta
com sua crônica
de cera e diamantes
de seriados amantes
de recintados balofos
de reincidentes abortos
as deselegantes senhoras
as dezmaiselegantes senhoras
 

Como disse Picasso, Ávila também “não busca, encontra” para dizer que não tem um plano concebido para a montagem: vai montando num exercício de palavra-puxa-palavra, sentido buscando sentido, numa colagem de textos e intenções súbitas, no decurso do discurso. Versos interrompidos e recompostos em mosaico, como as colchas de retalhos que formam um cenário para a interpretação, pois não é explicita além de seu conjunto. Mas é nas entrelinhas — literalmente — que se encontra a mensagem do poeta 

Devagar... atenção
a 200 m
fiéis saindo
da igreja

devagar... atenção
há 200 anos
fiéis saindo
da igreja

                                                                                  (Passagem de Mariana) 

em que o poeta monta seu significado valendo-se de recursos de composição tipográfica, substituindo “a” por “há” para demonstrar que se trata de um exercício lúdico de arquitextura, de inscrição no tecido e forma do poema, onde forma e fundo são ambivalentes. As idéias surgem das palavras, de sua composição, em vez de buscar palavras para descrever idéias. Colecionador de frases-feitas, de motes e slogans, de citações recursivas, de sentidos e contra-sentidos, numa ideogramização que supera o discurso linear. 

? o amor o que é o amor            uma ciência
uma ocorrência                          uma intercorrência
uma vivência                             uma convivência
uma ascendência                       uma condescendência

----------------

uma vidência                             uma evidência
uma inerência                            uma inferência
o amor que é o Amor                  uma insciência?

 

AFFONSO AVILA

 

CANTARIA BARROCA

A matéria-prima do poeta, além das palavras, dos documentos, inclui também imagens, objetos, vivências com a história de Minas que está à vista, em toda parte, não apenas nos arquivos, mas nas fachadas, na linguagem, na idiossincrasia.

 Exercendo

“uma crítica exercida não apenas sobre a linguagem, mas principalmente sobre a realidade de que ela emerge, que ela exprime, que ela denuncia, realidade que cabe ao artista auxiliar a modificar com a ação sempre renovadora da arte verdadeiramente inventiva”, 

prognostica o próprio A. A.. Exemplos:


& a gente pensa que está subindo
& está é descendo
& a gente pensa que está sabendo
& está descrendo
& a gente pensa que está somando
& está é diminuindo
& a gente pensa que está salvando
& está é destruindo

& a lição é fingir
& a lição é fingir de morto
(...)
 

A diagramação lembra, sem dúvida, os “labirintos” medievais, os textos palindrômicos, as construções textuais barrocas em forma renovada e inovadora: 

& em cada conto te cont
o & em cada enquanto me enca
nto & em cada arco te a
barco & em cada porta m
e perco & em cada lanço t
e alcanço & em cada escad
a me escapo& em cada pe
dra te prendo & em cada g
rade me escravo & em ca
da sótão te sonho & em cada
esconso me affonso & em
cada cláudio te canto  & e
m cada fosso me enforco&

 

CARTA DO SOLO
(1957-1960)

Não sendo possível apresentar e analisar todos os (muitos) livros de A.A, vale ressaltar Carta do Solo por sua singularidade, pelo retorno ao discurso que remonta ao trovadorismo popular, valendo-se de ritmo e rimas entre comuns e preciosas. 

CASTRAÇÃO

Com suas iníquas
máquinas de tédio
aprende o degredo
com seus chãos reversos

— com suas escumas
de vinagre e pasmo
celebra os opróbrios
com seu desamparo

— com suas sezões
de pejo e salsugem
arqueja os verões
com seus gozos rudes

— com suas ilhargas
de fuligem e asco
deslembra as novilhas
com seus curvos favos

— com suas obesas
barbelas de adorno
ostenta a vergonha
com seu grão roncolho

 

                               IMPROVISO  

 

                            A palavra justa

                            a mim não pertence,

                            busco-a nessa luta

                            em que não se vence,

                            trabalho diário,

                            pelo amor de sempre. 

 

                            A palavra triste

                            a mim não pertence,

                            perco-a numa lide

                            cujo amor me vence,

                            trabalho diário
                            pelo amor de sempre. 

 

                            A palavra louca

                            a mim não pertence,

                            bebo-a noutra boca

                            e ela me convence,

                            trabalho diário

                            pelo amor de sempre.

 

 

                            De Carta do Solo, "Tendência",

 

                                   Belo Horizonte, 1961.

AFFONSO AVILA


CÓDIGO NACIONAL DE TRÂNSITO
(1971)

Outra obra singular. Um texto dado e outro contraposto, dialeticamente: um no sentido oficial, mandatório, ostensivo; o outro na contramão, no contra-sentido, não do código de trânsito em si, mas da conjuntura em que ele se revela. Na oposição a uma ordem estabelecida autoritariamente.  Como disse o crítico Fritz Teixeira de Sales (p.119); “O código mostra uma face das coisas, mas ao poema cumpre desvendar a outra face oculta pelo código.” Em paralelo, o texto oficial e o contexto: 

“dirija com prudência
divirja com prudência
divida com prudência
desdiga com prudência.”
 

E mais um fragmento:

 
não ultrapasse
quando a faixa for contínua
não ultraje a pátria
quando a farsa for contínua
não vire a página
quando a farsa for contínua
não pule a pauta
quando a farsa for contínua
não mude a prática
quando a farsa for contínua

Ou seja,”do texto vão sendo fisgadas as centelhas conotativas que haviam sido encobertas pela superfície denotativa. Por conseguinte, o processo composicional, centrado na contraposição barroca da montagem (...)” (p.120), resultando em um “efeito poético conscientizador”., “numa poética metonímica”, conforme a análise percuciente de Fritz Teixeira de Salles. 

AFFONSO AVILA

 

De 

O DISCURSO DE DIFAMAÇÃO DO POETA
(1978)


Ávila trilhou pelas vanguardas de seu tempo, sem filiar-se plenamente a elas. Promoveu-as organizando exposições, palestras, fazendo contatos – principalmente com os membros do concretismo — os irmãos Campos, Décio Pignatari – aqueles que percorreram o caminho do poema-processo.  “Affonso Ávila recolheu, da poesia concreta, a lição do apuro gráfico, da síntese, da imprevisibilidade dos signos” (Moacy Cirne, p. 151). Mas sua trilha tinha uma base barroca, híbrida, em que ele avançou, independente, no seu percurso criativo original. Inclusive na resposta à suposta alienação das vanguardas no processo político em curso. Foi engajado, assumindo uma linguagem politizada, mas equidistante das ortodoxias do realismo soviético e do discurso panfletário dos poetas da linha de protesto.  Como ressalta Moacy Cirne (p. 151), seu Discurso da Difamação do Poeta (1978) “fornece ao leitor substanciosas indicações que problematizam a relação discurso artístico/discurso político”.
 

AFFONSO AVILA

Affonso Ávila e Haroldo de Campos 

Lembra aquela máxima que foi muito discutida na época, atribuída a Mao Tsé Tung (outros atribuem-na a Maiakovisky) de que uma arte para ser verdadeiramente revolucionária deve ser, precisa ser esteticamente revolucionária, como no caso da poesia de Affonso Ávila.
 

ARTE DE FURTAR 

 

O poeta declarou que toda criação é tributária de outras

criações no permanente processo de linguagem da poesia

 

O poeta afirmou que todo criador é tributário de outros no

processo de linguagem da poesia

 

O poeta se confessou um criador tributário de outros na

linguagem de sua poesia

 

O poeta não esconde que sua poesia é tributária da linguagem

de outros criadores

 

O poeta não esconde que sua poesia é influenciada pela

linguagem de outros criadores

 

O poeta não faz segredo de que se utiliza da linguagem de

outros poetas

 

O poeta fala abertamente que se apropria da linguagem de

outros poetas

 

O poeta é um deslavado apropriador de linguagens

 

O POETA É UM PLAGIÁRIO 

 

Neste poema metapoético, A.A. refere-se à multivocalidade intrínsica da poesia, de recorrência às fontes primevas e contemporâneas, da força do contexto no texto. 

Se quiséssemos estabelecer algum paralelo da poesia de A.A. com algum poeta vanguardista, seria com o suíço-boliviano Eugen Gomringer,   considerado um dos “pais” do Concretismo, a partir de seu livro Konslellationen, de 1953. Sua obra só foi traduzida (por Percy Garnier e Philadelpho Menezes) e publicada no Brasil em 1988 – quando Avila já estava com sua obra consolidada —, embora já fossem conhecidas algumas de suas composições, divulgadas em revistas de vanguarda nos anos 50. Efetivamente, os versos repetidos com variações mínimas de palavras (ex. “resplandece intenso/ resplandece externo/ resplandece alternante”, do Gomringer), recurso  largamente usado por A.A. em sua fase mais barroca, também já era utilizada por poetas como e.e. cummings. O próprio Affonso Ávila nos afirma a multivocalidade da poesia, reconhecendo que o poeta se vale de intertextualidades e até de imitação. Por certo, há quem encontre resquício de Oswald de Andrade na poesia de Gromringer (ex. “sol sul sal” precedente no poema América do Sul do nosso modernista-mor).  De qualquer maneira, vale reconhecer que A.A. faz um uso mais apropriado e aprofundado do recurso do que o precedente.

AFFONSO AVILA

O BELO E O VELHO
(1982-1986)

 

Livro publicado em Florianópolis pela Editorial Noa Noa, em 1987, apenas 350 exemplares, é hoje peça disputada por colecionadores. Está entre os mais experimentalistas da linguagem na produção do autor.



te alerta poeta que a p/i te espreita

         desestruturou o discurso e embaralhou as letras

te aleart paeto que o pe te recrimina

         barroquizou a linguagem e descurou da doutrina

te alaert peota que o sni te investiga

         parodiou o sistema e ironizou a política

te alaret poate que o womens lib te corta o genitálio

         glosou o objeto sexual e teve orgasmo solitário

te alerat peato que a puc te escanteia

         foi tema de mestrado e não quis compor a mesa

te alreta petoa que a cb não te reedita

         gastou muito papel e pouco sangue na tinta

te alrate petao que a abl te indexa

         fez enxertos de inglês e sujou a água léxica

te arealt patoe que a cnbb te exorciza

         macarronizou o latim e não aprendeu a nova missa

te alatre potae que o esquadrão te desova

         traficou palavrina e não destruiu a prova

te atrela ptoea que o doicodi te herzoga

         suspeito sem suspeição e enforcado sem corda

 

i must be gone and live                         or stay and die

 

AFFONSO AVILA

 

O VISTO E O IMAGINADO
(1988-1990)

 

Prêmio Jabuti como o melhor lançamento do gênero poesia no ano 1990. Na opinião do também poeta Nelson Ascher, “com O Visto e o Imaginado, Affonso Ávila chega ao ponto mais alto da sua poesia”, lógico, em seu momento, ou seja, no início da década dos 90... No entendimento do crítico, uma obra “auto-reflexiva”.

Trata-se de um percurso literário pela arquitetura da Pampulha, em preito (peito aberto) às contribuições de JK, Niemeyer, Portinari e Burle Marx que pautaram a arquitetura moderna brasileira: “Não ganhei a palma do Oscar/ ganhei a prancheta de Oscar.”. Niemeyer e Ávila, cada um à sua maneira, conseguiram aproximar o barroco de nossa modernidade, naquela perspectiva de Edgar Morin de que a melhor vanguarda se hasteia na tradição.

 

Mediterrâneo, isolado nas colinas de Minas, o poeta reclama: “Nasci num país/isento de mar”... Uns trechos do livro:

 

redondo
                   bar
                   ó meu mar

azul sem retórica
                   isto é que é brasil céu de anil
                   outra leitura: trata-se simplesmente de um céu de abril

 

iate clube
                   metáfora a mais
                   no mar a menos de minas

Poema-piada vem da tradição modernista: Oswald, Bandeira, Drummond... Affonso Ávila cultiva a paródia, a ironia, o sarcasmo e a piada...


        
paródia malgré le garçon

                   mundo imundo

                   se eu chamasse o Raimundo
                   ele traria café
                   não traria uma solução

 

 

DÉCADE 7
dez odes joco-sérias


(1998-2000)

 

Na opinião de Jacó Guinsburg, nesta fase – diríamos nós, “fin-de-siècle” do poeta, “não flui mais como um ego definido, mas como um self-universo”... Perquiridor, cáustico e extremamente crítico da convencionalidade. Sem deixar sua ironia, o telúrico e o experimentalismo. Uma relação “entre memória individual e histórico” (Júlio Castañon Guimarães, p. 195), arrematando: “uma memória sem autocomplacência”.

Versos taquirrítmicos, construindo e desconstruindo sentidos.


Seu dia de glória já passou

Advertência da gerontóloga

 

rosto composto mosto decomposto em cara-

                   quadro vegetal de arcimboldo

retro old man maquiado de fimbrias desfibradas

         do diabo guisado requentado em rescaldo ou

                                                        rescoldo

(sabe-se aqui o que de culinária quando muito de

                                      azia e suas carquejadas)
de rabanete nabo quiabo em babas mal

                                                        temperadas

mas vá lá vadio pé-de-valsa goliardo goliold(o)

young old man without gold or god oficial de

                                      ofício das madrugadas

o dia foi duro irmão durão as favas a fatiota de

                                                        dom Bertoldo 

 

 

Quand nous étions à Nantes
la saison était très belle encore

 

Do primeiro exercício de francês

coração sôfrego e sofrido
insofreado sexo
óbvia obviação do vivido
imprevisível acaso do nexo
arresto sequestro do amplexo
pra pro nobis compungido
genitália em genuflexo
extrema unção do sentido

 

AFFONSO AVILA

 

CANTIGAS DO FALSO ALFONSO EL SÁBIO

(1987-2001)

Uma das mais recentes e bem engendradas peças do autor, invocando e evocando Alfonso El Sábio como se fora um sósia por antecipação.  Pretexto para discursar, de forma lúdica, seu próprio memorialismo confundido com a história de Minas. E o barroco tem fronteiras que chegam às origens ibéricas...

 

 

CANTIGA DE NOSSA SENHORA DA MODÉSTIA

 

do nicho elipse ontem fresta

sem coroa ou aura à sobretesta

sem louvor barroco à testa

cheia de graça em enfesta

lindeira de urbe e floresta

névoa ao olho imanifesta

oculta por imolesta

flor ou bem que se requesta

coração que se empresta

a nenhum juro infunesta

em seu sol tarde seresta

de som noite que se apresta

ao ardor deste à ânsia desta

dada mão furtiva ou presta

príncipes de brim voile em véstía

rímel pó rouge à arte honesta

na esquina de amor ou festa

ao cadente beijo da hora é esta

sua luz vertia em réstia

nossa senhora da modéstia
 

 

CANTIGA DE ESPANTO E BEM-DIZER
PARA O MINEIRO HÉLIO GRAVATÁ

(fragmentos)

mas que coisa é mineiridade,
conceito que o aurélio mal dá?
ora, pergunte ao gravatá!

 

de todo o ouro e do diamante
estatística haverá?

— ora, pergunte ao gravatá!

 

o obelisco da praça sete
de que pedra consistirá?

— ora, pergunte ao gravatá!

 

por que, como e quando ocorreu
ocorreu a cassação de JK?

ora, pergunte ao gravatá!

                                      

Que fazer, Myriam, se sem fonte
a BARROCO não sairá:
— demitiram o gravatá!

minha terra tem um arquivo onde encantava o gravatá,
mas sem nosso sábio lá nenhum papel encontro eu mais...

e agora”ai de nós, ai do reino, ai de minas gerais!”

 

Na lide com a poesia affonsina, Sebastião Nunes (p. 217) reconhece ser o autor um “Poeta difícil por sua própria carga de originalidade, que jamais afaga o sentimentalismo dos leitores acostumados aos derramamentos e floreios discursivos”.  Sobre a questão, faço minhas as palavras de Antônio Sérgio Bueno: “A poesia de Affonso tem apurada oralidade e privilegiada visualidade.” (p. 205)

Difícil, mas fascinante.  Sem dúvida, estamos diante de um fenômeno singular de criação poética, que marca a nossa poesia pós-moderna de forma modelar, no melhor sentido cervantino do termo.

 

                                                                  Brasília, maio-junho de 2009.

 

AFFONSO AVILA

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ÁVILA, Affonso. Homem ao termo: poesia reunida (1949-2005).   Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.669 p-.

 

ÁVILA, Affonso.  O poeta e a consciência crítica; uma linha de tradição, uma atitude de vanguarda.  Petrópolis: Editora Vozes, 1969.  103 p.

 

FORTUNA CRÍTICA DE AFFONSO ÁVILA. Introdução de Melânia Silva de Aguiar.  Belo Horizonte: Secretaria de Esado de Cultura de Minas Gerais; Arquivo Público Mineiro, 2006.  483 p. ilus.

 

GOMRINGER, Eugen. 31 Poemas. Tradução Percy Garnier {e} Philadelpho Menezes; edição multilíngüe.  São Paulo: Arte Pau-Brasil, 1988.

NUNES, Benedito. “Código de Minas & Poesia Anterior”. In: Revista Colóquio Letras. Lisboa, n. 3, p. 89, set. 1971.

AFFONSO AVILA

 

 

by Guilherme Mansur

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