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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

VICENTE HUIDOBRO

 VICENTE HUIDOBRO (1893-1947) — Chileno. Dos maiores poetas da América. Instituiu o Criacionismo. Em Paris desde 1916, escreveu em francês parte de sua obra. Alguns títulos: Horizon Carré (1917), Tour Eiffel, Hallalí (1918), Saisons Choisies (1921), Automne Regulier (1925), Altazor (1931). Dos poemas aqui traduzidos, “Mares Articos” é de Poemas Articos (1918); os dois outros, de Espejo de Agua (1916).

Vea/veja tb: POESIA VISUAL DE VICENTE HUIDOBRO

ARTE POETICA


Que el verso sea como una llave
Que abra mil puertas.
Una hoja cae; algo pasa volando;
Cuanto miren los ojos creado sea,
Y el alma del oyente quede temblando.

Inventa mundos nuevos y cuida tu palavra;
El adjetivo, cuando no da vida, mata.

Estamos en el ciclo de los nervios.
El músculo cuelga,
Como recuerdo, en los museos;
Mas no por eso tenemos menos fuerza:
El vigor verdadero
Reside en la cabeza.

Por qué cantáis la rosa, ¡oh, Poetas!
Hacedla florecer en el poema;

Sólo para nosotros
Viven las cosas bajo el sol.

El Poeta es un pequeño dios.

ARTE POÉTICA 
Tradução de Anderson Braga Horta


Que o verso seja como uma chave
Que abra mil portas.
Uma folha cai; algo passa voando;
Quanto fitem os olhos criado seja,
E a alma de quem ouve fique tremendo.

Inventa mundos novos e cultiva a palavra;
O adjetivo, quando não dá vida, mata.

Estamos no ciclo dos nervos.
O músculo pende,
Como lembrança, nos museus;
Mas nem por isso temos menos força:
O vigor verdadeiro
Reside na cabeça.

Por que cantais a rosa, ó Poetas!
Fazei-a florescer no poema.

Somente para nós
Vivem as coisas sob o sol.

O Poeta é um pequeno deus.


 


EL ESPEJO DE AGUA

 Mi espejo, corriente por las noches,
 Se hace arroyo y se aleja de mi cuarto. 

 Mi espejo, más profondo que el orbe
 Donde todos los cisnes se ahogaron.
 

 Es un estanque verde en la muralla
 Y en medio duerme tu desnudez anclada.
 

 Sobre sus olas, bajo cielos sonámbulos,
 Mis ensueños se alejan como barcos.


 De pie en la popa siempre me veréis cantando.
 Una rosa secreta se hincha en mi pecho
 Y un ruiseñor ebrio aletea en mi dedo.


O ESPELHO DE ÁGUA
Tradução de Anderson Braga Horta

Meu espelho, correndo pelas noites,
Torna-se arroio e foge do meu quarto. 


Meu espelho, mais profundo que o orbe
Onde todos os cisnes se afogaram. 


É um tanque verde na parede, e nele
Dorme tua desnudez ancorada.


Em suas ondas, sob uns céus sonâmbulos,
Os meus sonhos se afastam como barcos. 


De pé na popa sempre me vereis cantando.
Uma rosa secreta intumesce em meu peito
E um rouxinol ébrio esvoaça em meu dedo.

 

 

 

 

 

 


MARES ARTICOS

 Los mares árticos
                            Colgados del ocaso

 Entre las nubes se quema un pájaro

 Día a día
              Las plumas iban cayendo
Sobre las tejas de todos los tejados

 Quién ha desarrollado el arco-iris
                                                      Ya no hay descanso

                                          Blando de alas
                                                                Era mi lecho 

         Sobre los mares árticos

 Busco la alondra que voló de mi pecho


MARES ÁRTICOS

Tradução de Anderson Braga Horta

 

Os mares árticos
                            Pendurados do ocaso

 Por entre as nuvens se queima um pássaro

 Dia a dia
              As plumas iam caindo
Sobre as telhas de todos os telhados

 Quem desembrulhou o arco-íris
                                                   Já não há descanso

                                     Brando de asas
                                                            Era meu leito

 Sobre os mares árticos

 Busco a calhandra que voou de meu peito

 


CANCIÓN DE LA MUERVIDA

Mi mano derecha es una golondrina
Mi mano izquierda es un ciprés
Mi cabeza por delante es un señor vivo
Y por detrás es un senõr muerto.
Llevan su cuerpo como el tallo de un nenúfar precioso
Y no van más lejos que un tiro de pistola
Cuentan los días con huesos de frutas
Que guardan en jaulas como pájaros
Cuentan las estrellas y les dan nombres amistosos y tibios
Es preciso no confundir los lechos y no equivocarse de plato
Es preciso cantar como un nenúfar precioso

Un pájaro trina para mil orejas anónimas
Una estrella brilla para mil ojos recién nacidos
El pájaro cambia de día con una mirada
La estrella deposita la muerte y sigue su camino.


CANÇÃO DA MORVIDA
Tradução de José Jeronymo Rivera

A minha mão direita é uma andorinha 
A minha mão esquerda é um cipreste 
A minha cabeça pela frente é um senhor vivo 
E por detrás é um senhor morto. 

Os mortos perderam toda a confiança
 
Nas fundações de nossas casas e de nossas línguas 
E ainda de nossos relógios enrolados no infinito 
Que podemos dizer-lhes 
Eles sobem no telhado da eternidade 
E olham ao longe 
Prendem solidamente as nuvens que estão cheias. 
Tocam o sino do vazio que deve saudar os séculos 
Como um chapéu 
Levam um anel em cada um dos cinco sentidos 
E um pássaro em cada céu 
Estão desterrados da terra enceuados no céu 
Eles descascam a cortiça dos séculos. 

Os vivos alongam seu cipreste 
Para dar bons dias à andorinha 
Se afastam sorridentes até o horizonte 
Sobem cantando até o andar da morte 
Falam em uma língua há muito tempo adormecida 
São póstumos como os ecos da flor do trovão 
E tal como os perfumes 
Trazem o corpo como a haste de um nenúfar precioso 
E não vão mais longe do que um tiro de pistola 
Contam os dias com caroços de frutas 
Que guardam em gaiolas como pássaros 
Contam as estrelas e lhes dão nomes amistosos e mornos 
É preciso não confundir os leitos e não se enganar de prato 
É preciso cantar como um nenúfar precioso 

Um pássaro trina para mil orelhas anônimas
 
Uma estrela brilha para mil olhos recém-nascidos 
O pássaro troca de dia com um olhar 
A estrela deposita a morte e segue o seu caminho.

 


MARINO  

Aquél pájaro que vuela por primera vez

Se aleja del nido mirando hacia atrás

 

Con el dedo en los labios

                       os he llamado.

 

Yo inventé juegos de agua

En la cima de los árboles.

 

Te hice la más bella de las mujeres

Tan bella que enrojecías en las tardes.

La luna se aleja de nosotros

Y arroja una corona sobre el polo

Hice correr ríos

                       que nunca han existido

 

De un grito elevé una montaña

Y en torno bailamos una nueva danza.

Corté todas las rosas

De las nubes del este

Y enseñé a cantar a un pájaro de nieve

 

Marchemos sobre los meses desatados

 

Soy el viejo marino

                       que cose los horizontes cortados



MARINHO

Versão de Antonio Miranda

 

Aquele pássaro que voa por primeira vez

Se afasta do ninho olhando para trás

 

Com o dedo nos lábios

                                    eu os chamei

 

Eu inventei jogos de água

Na copa das árvores

 

Fiz de ti a mais bela das mulheres

Tão bela que enrubesces nas tardes

 

                   A lua se afasta de nós

                   E lança uma coroa sobre o pólo

 

Fiz correr rios

                      que nunca existiram

 

Com um grito elevei uma montanha

E arredor bailamos uma nova dança

 

                   Cortei todas as rosas

                   Das nuvens do leste

 

E ensinei um pássaro de neve a cantar

 

Marchemos pelos meses desatados

 

Sou o velho marinheiro

                                      que costura os horizontes cortados

 

 

VICENTE HUIDOBRO

 

De
HOMENAGEM A VICENTE HUIDOBRO
NO 40º ANIVERSÁRIO DE SUA PARTIDA
1º  de dezembro de 1988.

Brasília: Embaixada do Chile,

Academia Brasiliense de Letras,
Instituto Cultural Brasil-Chile, 1988
Capa: retrato do poeta por Pablo Picasso.

 

 

POEMA FUNERÁRIO

 

A Guillaume Apollinaire

 

    Tradução de  Domingos Carvalho da Silva

 

 

O pássaro de luxo mudou de estrela

Aparelhai sob a tormenta de lágrimas

Vosso ataúde à vela

Em que se afasta a máquina do fascínio

 

Na vegetação das lembranças

As horas que nos cercam criam as viagens.

 

Ele vai rápido

          Ele vai rápido impelido por suspiros

O mar está repleto de naufrágios

Atapetei o mar para a sua passagem.

 

Assim é a viagem primitiva e sem bilhete

A viagem instrutiva e secreta

Nas galerias do vento

 

As nuvens se apartam para que ele possa passar

E as estrelas se acendem para mostrar o caminho

 

Que procuras nos bolsos de tua roupa?

Terás perdido a chave?

 

No .meio desta zuada celeste

Em toda a parte reencontras tuas horas antigas

 

O vento é negro e há estalactites em minha voz

Dize-me Guilherme,

Terás perdido a chave do infinito?

 

Uma estrela impaciente ia dizer que tem frio

 

As agulhas da chuva começam a costurar a noite.

 

Quando está pensativo diante de céu

Quando estás machucado em tuas almofadas

Quando te sinto chorar atrás de minha janela

Quando choramos sem razão como tu choras.

 

Eis aqui o mar

O mar onde se estilhaça o cheiro das cidades

Com o regaço cheio de barcos e peixes e outras coisas alegres

Esses barcos que pescam à margem do céu

Esses peixes que escutam cada raio de luz

Essas algas com sonhos seculares

E essa onda que canta melhor do que as outras

 

Eis aqui o mar

O mar que se estende e que se agarra as suas margens

O mar que envolve as estrelas em suas ondas

O mar com sua pele martirizada

E o sobressalto de suas veias

Com dias de paz e noites de histeria.

 

E do outro lado — que há do outro lado?

Que escondes mar do outro lado?

O começo da vida longo como uma serpente

Ou o começo da morte mais funda que tu mesmo

E mais alta do que todos os montes?

Que há do outro lado?

A milenária vontade de fazer uma forma e um ritmo

Ou o turbilhão eterno de pétalas partidas?

 

Eis aí o mar

O mar aberto de par em par

Eis ai o mar partido de repente

Para que o olho veja o começo do mundo

Eis aí o mar

De uma onda a outra há o tempo da vida

De suas ondas aos meus olhos há a distância da morte.

 

 

 

MONUMENTO AO MAR

 

    Tradução de  Domingos Carvalho da Silva

 

Paz sobre a constelação cantante das águas

Acotoveladas como os ombros da multidão

Paz sobre o mar às ondas de boa vontade

Paz sobre a lápide dos naufrágios

Paz sobre os tambores do orgulho e as pupilas tenebrosas

E já que sou o tradutor das ondas

Paz também sobre mim.

 

Eis aqui o molde cheio de fragmentos do destino

O molde da vingança

Com suas frases iracundas desatando-se dos lábios

Eis aqui o molde cheio de graça

Porque és suave e estás aí hipnotizado pelas estrelas.

Eis aqui a morte inesgotável desde o princípio do mundo

Até o fim de quem for o último a poder medir o tempo

Porque um dia ninguém mais irá a passeio pelo tempo

Ninguém ao longo do tempo pavimentado de planetas mortos.

 

Este é o mar

O mar com suas próprias ondas
Como os seus próprios sentidos

O mar tentando romper suas correntes

Querendo imitar a eternidade

Querendo ser pulmão ou névoa de pássaros cativos

Ou o jardim dos astros pendurados no céu

Sobre as trevas que arrastamos

Ou que casualmente nos arrastam

Quando de súbito voam todas as pombas da lua.

E escurece mais do que nas encruzilhadas da morte

O mar entra na carruagem da noite

E se afasta para o mistério dos seus esconderijos profundos

E se ouve apenas o ruído das rodas

E a asa dos astros aprisionados no céu

Este é o mar

Saudando de muito longe a eternidade

Saudando os astros esquecidos

Este é o mar que desperta como o choro de um menino

O mar abrindo os olhos e tateando o sol com o tremor das mãos pequenas

O mar empurrando as ondas que embaralham os destinos.

 

Levanta-te e saúda o amor dos homens.

Escuta o nosso riso e também o nosso pranto

Escuta os passos de milhões de escravos

Escuta o protesto interminável

Dessa angústia que se chama homem

Escuta a dor milenária dos corações de carne

E a esperança que lhes renasce das próprias cinzas cada dia.

 

Também nós te escutamos

Ruminando tantos astros colhidos em tuas redes

Ruminando eternamente os séculos naufragados

Também nós te escutamos

Quando revolteias em teu leito de dor

Quando teus gladiadores se batem entre si

Quando tua cólera faz estalar os meridianos

Ou mesmo quando te agitas como uma grande feira em festa

Ou mesmo quando amaldiçoas os homens

Ou te finges adormecido

Aranha tremula em tua grande teia à espera da presa

Choras sem saber porque choras

E nós choramos crendo saber porque choramos

Sofre sofre como sofrem os homens

Que se ouça o ranger de teus dentes na noite

Que te revolvas em teu leito

Que a insônia não te deixe atenazar os sofrimentos,

Que os meninos te apedrejam as janelas

Que te arranquem o cabelo

Tosse tosse rebenta em sangue os teus pulmões

Que tuas ferragens enferrujem

E te vejas calçado como erva de campo.

 

Sou porém vagabundo e tenho medo que me escutes

Tenho medo de tua vingança

Esquece minhas maldições e cantemos juntos esta noite

Digo-te faze-te homem como eu me faço às vezes mar

Esquece os presságios funestos

Esquece a explosão dos meus roçados.

Eu estendo-te as mãos como flores

Digo-te façamos as pazes

Tu és o mais poderoso

Que eu aperte tuas mãos nas minhas

E que haja paz entre nós

Sinto-te junto ao meu coração
Quando escuto o gemer dos teus violinos
Quando aí e estendes como o pranto de um menino.

 

 


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