NICANOR PARRA
(1914- )
Num país de grandes e célebres poetas de glória universal como Pablo Neruda e Gabriela Mistral – para citar apenas os prêmios Nobel -, o nome de Nicanor Parra não é menos famoso no universo latino-americano e mundial, embora ainda não devidamente conhecido no Brasil. Daí a razão de nosso empenho em dar a conhecer ao grande público brasileiro esta figura notabilíssima e polêmica que já está na casa dos 90 anos (em 2004). UM ANTI-POETA, assim ele mesmo se considera e se consagra. Às vezes lembra um Fernando Pessoa mais radical, mas trata-se de um autor originalíssimo que influenciou toda uma geração de poetas rebeldes das Américas.
Para Julio Ortega – antologista do poeta em POEMAS PARA COMBATIR LA CALVICIE (México, Fondo de Cultura Econômica, 1993, com várias edições) a anti-poesia seria um projeto sistemático de recuperação da fala empírica, popular. Para este crítico,
“Parra pôs em prática uma poética da contra-dicção: a anti-poesia assumia com fervor seu primeiro dia iconoclasta enquanto atualizava a tradição, tão clássica como popular, de temporalidade do oral e a imediatez do nome.”( ) E completa o raciocínio: “Numa prática de reapropriações e desconstruções, Parra fez do poema um campo verbal de exploração, deslindamento e reafirmação. Explorava a textura de diferentes espaços de ocorrência da fala (a publicidade, as comunicações, a rua, a festa, a conversação); deslindava entre diversas formulações da fala poética (solilóquio, contraponto, notação, canção); e reafirmava a qualidade temporal do colóquio, sua instância sensível, sua articulação múltipla no ato da enunciação. Estes trabalhos sobre a dicção dão à “anti-poesia” sua textura complexa e dúctil, sua temperatura coloquial, seu fraseio paralelístico e oposicional, e seu peculiar humor, sóbrio e paradoxal”.
A anti-poesia é um caminho que contradiz o estabelecido, que pretende romper com as convenções poéticas esterilizadas; desce da torre de marfim e freqüenta o mercado, fala do vulgar sem medo de sua contaminação... Parra desconcerta por sua épica mundana, por sua iconoclastia sem caretas, por sua ironia lúcida e sem grandes sutilezas, libérrima. Usa palavras que podem chocar os ouvidos edulcorados pela tradição lírica, imagens que levam ao desconcerto e ao desassossego por quebrar tabus e lugares-comuns, ao descarnar-se ou imolar-se sem piedade como no célebre poema Eu Pecador: “eu ladrão de galinha / eu bailarino imóvel no ar”, seguindo pela oximorização como no verso “eu comunista, eu conservador” que registra, surpreende e denuncia a contradição do homem comum. Não é poeta de unanimidades embora tenha um público cativo por força de sua capacidade de incomodar e divertir...
ORTEGA, Julio. “Prólogo”. In: PARRA, Nicanor. Poemas para combatir la calvície. Santiago de Chile: Fondo de Cultura Econômica, 1999. 392 p. (6ª. Reimpressão)
PÉREZ-LABORDE, Elga. A questão teórica do Esperpento e sua projeção estética: variações esperpênticas da Idade Média ao Século XXI. Brasília: UNB/TEL, 2004. p. (Tese de doutorado)
Em Espanhol/En Españhol
POEMAS EM PORTUGUÊS
Tradução de Antonio Miranda
Senhoras e senhores
Esta é a nossa última palavra
- Nossa primeira e última palavra –
Os poetas desceram do Olimpo.
Para os nossos antepassados
A poesia era um objeto de luxo
Mas para nós
É um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.
Diferente de nossos antepassados
- E o digo com todo respeito... –
Nós sustentamos
Que o poeta não é um alquimista
O poeta é um homem como os outros
Um pedreiro que constrói seu muro
Um construtor de portas e janelas.
Nós conversamos
Na linguagem de todos os dias
Não acreditamos em signos cabalísticos.
Ademais, uma coisa:
O poeta está aí
Para que a árvore não cresça torcida.
Esta é a nossa mensagem.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
O poeta Barata
O poeta Rato de Biblioteca.
Todos estes senhores
- E o digo com muito respeito...-
Devem ser processados e julgados
Por construírem castelos no ar
Por esbanjarem o espaço e o tempo
Redigindo sonetos à lua
Por agruparem palavras ao azar
Conforme a última moda em Paris.
Para nós, não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce no coração do coração.
Nós repudiamos
A poesia de óculos escuros
A poesia de capa e espada
A poesia de chapéu abanado.
Propiciamos a mudança
A poesia a olho nu
A poesia a peito aberto
A cabeça de cabeça descoberta.
Não acreditamos em ninfas nem tritões.
A poesia tem que ser assim:
Uma garota rodeada de espigas
Ou não ser absolutamente nada.
Porém, no plano político
Eles, nossos avós imediatos,
Nossos bons avós imediatos!
Refrataram e se dispersaram
Ao passarem pelo prisma do cristal.
Uns poucos se tornaram comunistas
Não sei se foram realmente.
Suponhamos que foram comunistas,
O que eu sei é o seguinte:
Que não foram poetas populares,
Foram uns reverendos poetas burgueses.
Devemos dizer as coisas como são:
Somente um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Sempre que puderam
Declararam de palavra e de peito
Contra a poesia dirigida
Contra a poesia do presente
Contra a poesia proletária.
Aceitemos que foram comunistas
Mas a poesia foi um fracasso
Surrealismo de segunda mão
Decadentismo de terceira mão,
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjetiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia calcada
Na revolução da palavra
Em circunstâncias de poder fundar-se
Na revolução das idéias.
Poesia do círculo vicioso
Para meia dúzia de eleitos:
“Liberdade absoluta de expressão!”
Hoje nos persignamos perguntando
Para que escreviam essas coisas
Para assustar ao pequeno burguês?
Tempo miseravelmente perdido!
O pequeno burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.
Como vão assustá-lo com poesias?!
A situação é a seguinte:
Enquanto eles estavam
Por uma poesia do crepúsculo
Por uma poesia da noite
Nós propugnamos
A poesia do amanhecer.
Esta é a nossa mensagem.
Os resplendores da poesia
Devem chegar a todos por igual
A poesia chega para todos.
Nada mais, companheiros
Nós condenamos
- E o digo com respeito...-
A poesia do pequeno deus
A poesia da vaca sagrada
A poesia do touro furioso.
Contra a poesia das nuvens
Nós contrapomos
A poesia da terra firme
- Cabeça fria, coração ardente
Somos pés-no-chão decididos...
Contra poesia de café
A poesia da natureza
Contra a poesia de salão
A poesia de protesto social.
Os poetas desceram do Olimpo.
Extraído de Outros Poemas (1950-1968).
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Uma vez andando
por um parque inglês
com um angelorum
sem querer deparei,
Bom dia, disse,
e eu o contestei,
êle no castelhano,
mas eu em francês
Dites moi, dom anjo,
Comment va monsieur.
Ele me deu a mão,
eu o peguei pelo pé:
há que ver, senhores,
como um anjo é!
Fátuo como o cisne,
frio como um trilho,
gordo como um pavão,
feio como você.
Assustou-me um pouco
mas não me mandei.
Busquei-lhe as plumas
plumas encontrei,
duras como a dura
casca do peixe.
Melhor seria ter
encontrado o Lúcifer!
Chateou-se comigo,
atirou-me um revés
com sua espada de ouro,
mas eu me agachei.
Anjo mais absurdo
não voltarei a ver.
Morto de riso
disse good bye sir,
siga teu caminho,
que passes bem,
que te pise um auto,
que te mate um trem.
Já se acabou o conto,
um, dois, três.
Extraído de Poemas y antipoemas. 1954.
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O autor não responde pelos incômodos que possam causar seus escritos.
Apesar dos pesares
o leitor deverá dar-se sempre por satisfeito.
Salebius, que além de teólogo foi um humorista consumado,
depois de ter reduzido a pó o dogma da Santíssima Trindade
será que respondeu por sua heresia?
E se chegou a responder, como é que fez!
Em que forma desbaratada!
Apoiando-se em que cúmulo de contradições!
Segundo os doutores da lei este livro não deveria publicar-se:
a palavra arco-íris não aparece nele em parte alguma,
menos ainda a palavra dor,
a palavra torquato.
Cadeiras e mesas é que aparecem a granel,
Ataúdes!, utensílios de escritório!
o que me enche de orgulho
porque, no meu modo de ver, o céu está caindo aos pedaços.
Os mortais que leram o Tractus de Wittgenstein
podem bater com uma pedra no peito
porque é uma obra difícil de encontrar-se:
mas o Círculo de Viena foi dissolvido faz tempo,
seus membros dispersaram sem deixar rastro
e eu decidi declarar guerra aos cavalieri della luna.
Minha poesia pode perfeitamente não levar a parte alguma:
“os risos deste livro são falsos!”, argumentam meus detratores,
“suas lágrimas, artificiais!”
“Em vez de suspirar, nestas páginas a gente boceja”.
“Dá patadas como criança de colo”.
“O autor faz-se entender pelos espirros.”
De acordo: convido-os a queimar vossas naves,
como os fenícios pretendo criar meu próprio alfabeto.
Então, por que molestar o público?, perguntarão os amigos leitores:
“Se o próprio autor começa desprestigiando seus escritos,
que se pode esperar deles!”
Cuidado, eu não desprestigio nada
ou, melhor dizendo, exalto meu ponto de vista,
vanglorio as minhas limitações
ponho nas nuvens minhas criações.
Os pássaros de Aristófanes
enterravam suas próprias cabeças
os cadáveres de seus pais
(cada pássaro era um verdadeiro cemitério voador).
No meu modo de ver
chegou a hora de modernizar esta cerimônia
e eu enterro minhas plumas na cabeça dos senhores leitores!
Extraído de Poemas y antipoemas. 1954.
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Aos amantes das belas letras
faço chegar meus melhores desejos
vou mudar os nomes de algumas coisas
Minha posição é esta:
o poeta não cumpre sua palavra
se não muda os nomes das coisas.
Por que razão o sol
há de seguir chamando-se sol?
Peço que se chame Micifuz
o das botas de quarenta léguas!
Meus sapatos parecem ataúdes?
Saibam que de agora em diante
os sapatos se chamam ataúdes.
Tudo bem, a noite é longa
todo poeta que tenha auto-estima
deve ter seu próprio dicionário
e ante que eu esqueça
o próprio deus deve mudar de nome
que cada quem o chame como queira:
este é um problema pessoal.
Extraído de Poemas de salón. (1954-1962)
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Independentemente
dos desígnios da Igreja Católica
eu me declaro país independente.
Aos quarentaenoveanos de idade
um cidadão tem o pleno direito
de rebelar-se contra a Igreja Católica.
Que a terra me trague, se minto.
A verdade é que me sinto feliz
à sombra destes aromas em flor
feitos à medida de meu corpo.
Extraordinariamente feliz
à luz destas mariposas fosforescentes
que parecem cortadas com tesouras
feitas à medida de minh´alma.
Que me perdoe o Comitê Central.
Em Santiago de Chile
aos vinte e nove de novembro
do ano de mil novecentos e sessenta e três:
plenamente consciente dos meus atos.
Extraído de La camisa de fuerza ( 1962-1968)
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Independentemente
Dos vinte milhões de desaparecidos
Quanto vocês crêem que custou
A campanha de endeusamento de Stalin
Em dinheiro constante e sonante:
Afinal, os monumentos custam dinheiro.
Quanto vocês crêem que custou
Demolir essas massas de concreto?
Apenas a remoção da múmia
Do mausoléu para a vala comum
Deve ter custado uma fortuna.
E quanto vocês crêem que gastaremos
Para repor as estátuas sagradas?
Extraído de La Camisa de Fuerza (1962-1968).
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eu galã imperfeito
eu dançarino à beira do abismo,
eu sacristão obsceno
menino prodígio das lixeiras,
eu sobrinho – eu neto
eu confabulador de sete solas,
eu senhor das moscas
eu esquartejador de andorinhas,
eu jogador de futebol
eu nadador de Estero las Toscas,
eu profanador de tumbas
eu satanás enfermo de papeiras,
eu conscrito remisso
eu cidadão com direito a voto,
eu pastor de ovelhas do diabo
eu boxeador vencido por minha sombra,
eu bebedor insigne
eu sacerdote da boa mesa,
eu campeão da cueca*
eu campeão absoluto do tango
da guaracha, da rumba, da valsa,
eu pastor protestante
eu camarão, eu pai de família,
eu pequeno burguês
eu professor de ciências ocultas,
eu comunista, eu conservador
eu recopilador de santos velhos,
(eu turista de luxo)
eu ladrão de galinhas
eu bailarino imóvel no ar,
eu verdugo sem máscara
eu semi-deus egípcio com cabeça de pássaro,
eu de pé em uma rocha de cartão:
façam-se as trevas
faça-se o caos,
façam-se as nuvens,
eu delinqüente nato
surpreendido em flagrante
roubando flores à luz da lua
peço perdão a torto e a direito
mas não me declaro culpado.
*dança nacional do Chile
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