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MURILO MENDES

MURILO MENDES

(1901-1976) 

 

Nacido en Juiz de Fora, Minas Gerais, murió en Lisboa, donde vivía la familia de su esposa Maria da Saudade, hija de Jaime Cortesão, personalidad de prestigio en el movimiento de la Renascença Portuguesa y su revista A Águia. Su inventiva inquietud se manifiesta de niño. En su libro evocador A Idade do Serrote (1958) relata experiencias del hogar y de la calle, describiendo sus peripecias y suspicacias, con dramático sentido del humor y análisis. Llega a ser irónico sin crueldad. Expresa una ilustración fascinante de Ias fuentes de su lirismo, múltiple, denso, mágico, antropológico y sagrado. Su cultura vastísima sirvió muy bien a la divulgación de Brasil en Europa, cuando con los auspicios de ltamaraty (Ministerio de las Relaciones Exteriores) fue el director de Estudios Brasileños en Roma. De manera activa integró el grupo de Antropofagia e Terra Roxa, pero sólo llegó a debutar literariamente con Poemas (1930). En esa primera obra usa como recurso el "poema piada" ("chiste"), con el cual se distinguieron también Oswald y Drummond.

 

Su participación en el Modernismo ha sido substancial. Enamorado de l0 onírico o las imágenes del inconsciente, será uno de los raros surrealistas en la poesía brasileña. La originalidad, el humanismo, la fe católica, la predisposición a la protesta y las llamaradas proféticas marcan afirmativamente su vida y su obra, iluminan su trayectoria. Véase como ejemplo la sucesión de algunos libros: O Visionário (1941), O Discípulo de Emaús (1944), Mundo Enigma (1945), Poesia liberdade (1947), Contemplação de Ouro Preto (1954), magistral demostración de pericia métrica y rítmica. Ha de ser uno de sus poemas ejemplares, cántico eximio de la tierra y su historia, religiosidad anímica de los mineiros estigmados por la cultura del Barroco. Obra completa publicada por Editora Nova Aguilar, de Rio de Janeiro.                                             JOSÉ SANTIAGO NAUD

 

 
TEXTOS EM PORTUGUÊS    /   TEXTOS EN ESPAÑOL

TEXTS IN ENGLISH

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Veja também  POESIA VISUAL DE MURILO MENDES


ZECA BALEIRO interpreta uma composição sua baseada em poema do poeta mineiro MURILO MENDES.

 

MENDES, MuriloJanela do caos. Ilus. Francis Picabia. Paris: Imprimerie Union, 1949. Na época da edição do livro, Picabia vivia sua melhor fase, ligado ao Movimento Dada, fazendo uma arte figurativa, na contra-mão das tendências de seu tempo. “Cet ouvrage de format 25x32,5 cm., sur papier d´Auvergue, composé em Juin 1949, par l´Imprimerie Union por le text, e MM. Desjobert pour les tithographies e suítes em couleur, son la direction de Roberto Assumpção de Araujo, avec le concours de J. Guimarães Rosa et Francette Rio-Branco. La maquete est de Michel Tapié. L édition est limietée à 197 exemplaires numérotés de q à 197 et 23 exeplaires for-commerce”.  Col. Brasiliana Itaú.   Exemplar na Col. A.M “H.C.”  (LA)

 

POEMA DIALÉTICO

I

Todas as coisas ainda se encontram em esboço
Tudo vive em transformação
Mas o universo marcha
Para a arquitetura perfeita.

Retiremos das árvores profanas
A vasta lira antiga.
Sua secreta música
Pertence ao ouvido e ao coração de todos.
Cada novo poeta que nasce
Acrescenta-lhe uma corda.

II
Uma vida iniciada há mil anos atrás
Pode ter seu complemento e plenitude
Numa outra vida que floresce agora.

Nada poderá se interromper
Sem quebrar a unidade.

Um germe foi criado no princípio
Para que se desdobre em plenos múltiplos.
Nossos suspiros, nossos anseios, nossas dores
São gravados no campo do infinito
Pelo espírito sereníssimo que preside às gerações.

III
A muitos só lhes resta o inferno.
Que lhes coube na monstruosa partilha da vida
Senão um desespero sem nobreza, e a peste da alma?
Nunca ouviram a música nascer  do farfalhar das árvores,
Nem assistiram à contínua anunciação
E ao contínuo parto das belas formas.
Nunca puderam ver a noite chegar sem elementos de terror.
Caminham conduzindo o castigo e a sombra de seus atos.
Comeram o pó e beberam o próprio suor.
Não se banharam no regato livre...

Entretanto, a transfiguração precede a morte.
Cada um deve realiza-la na sua carne e no seu espírito
Para que a alegria seja completa e definitiva.

 

IV
É necessário conhecer seu próprio abismo
E polir incessantemente o candelabro que o esclarece.

Tudo no universo marcha, e marcha para esperar:
Nossa existência é uma vasta expectação
Onde se tocam o princípio e o fim.
A terra terá que ser retalhada entre todos
E restituída um dia à sua antiga harmonia.
Tudo marcha para a arquitetura perfeita.
A aurora é coletiva.

 


MURILO MENDES

De
Murilo Mendes
AS METAMORFOSES
Rio de Janeiro: Editora Ocidente, 1938
Capa: Santa Rosa
Ilustrações de Portinari

 



ESTUDO PARA UM CAOS


O ÚLTIMO  anjo derrama seu cálice no ar.

Os sonhos caem da cabeça do homem
As crianças são expelidas do ventre materno
As estrelas se despregam do firmamento.
Uma tocha enorme pega fogo no fogo.
A água dos rios e dos mares jorra cadáveres.
Os vulcões vomitam cometas em furor
E as mil pernas da Grande Dançarina
Fazem cair sobre a terra uma chuva de sangue.
Rachou-se o teto do céu em quatro partes.
Instintivamente eu me agarro ao abismo.
Procurei meu rosto, não o achei.
Depois a treva foi ajuntada à própria treva.



MULHER VISTA DO ALTO DE UMA PIRÂMIDE


Eu vejo em ti as épocas que já viveste
E as épocas que ainda tens para viver.
Minha ternura é feita de todas as ternuras
Que descem sobre nós desde o começo de Adão.
Estás encarcerada nas formas
Que se engrenam em outras na corrente dos séculos.
E outras formas estão ansiosas por despontarem em ti.
Quando eu te contemplo
Vejo tatuada no teu corpo
A história de todas as gerações.
Encerras tua filha, tua neta e a neta de tua neta.
Ó mulher, tu és a convergência de dois mundos.
Quando te olho a extensão do tempo se desdobra ante mim.

 

MURILO MENDES

  

 

=================================================

 

METAFÍSICA DA MODA FEMININA

 

Tudo o que te rodeia e te serve

Aumenta a fascinação e o enigma.

Teu véu se interpõe entre tie meu corpo,

É a grade do meu cárcere.

Tuas luas macias ao tato

Fazem crescer a nostalgia das mãos

Que não receberam meu anel no altar.

Tua maquilagem

É uma desforra sobre a natureza.

Tuas jóias e teus perfumes

São necessários a ti e à origem do mundo

Como o pão ao faminto.

Eu me enrolo nas tuas peles nos teus boás

Rasgo teu peitilho de seda

Para beijar teus seios brancos

Que alimentam os poemas

Entreabro a túnica fosforescente

Para me abrigar no teu ventre glorioso

Que ampliou o mundo ao lhe dar um homem a mais.

Teus vestidos obedecem a um plano inspirado

Correspondem-se com o céu com o mar as estrelas

Com teus pensamentos teus desejos tuas sensações.

A natureza inteira

É retalhada para ornar teu corpo

Os homens derrubam florestas

Descem até o fundo das minas e dos mares

Movem máquinas teares

Soltam aviões pelos ares

Lutam pela posse da terra matam e roubam pelo teu corpo.

O mundo sai de ti, vem desembocar em ti  

E te contempla espantado e apaixonado,

Arco-íris terrestre,

Fonte da nossa angústia e da nossa alegria.

 

Tudo que faz parte de ti — desde teus sapatos ­

Está unido ao pecado e ao prazer,

À teologia, ao sobrenatural.

 

 

(A Poesia em Pânico, 1937)   


 

CHORO DO POETA ATUAL

 

Deram-me um corpo, só um!

Para suportar calado

Tantas almas desunidas

Que esbarram umas nas outras,

De tantas idades diversas;

Uma nasceu muito antes

De eu aparecer no mundo,

Outra nasceu com este corpo,

Outra está nascendo agora,

Há outras, nem sei direito,

São minhas filhas naturais,

Deliram dentro de mim,

Querem mudar de lugar,

Cada uma quer uma coisa,

Nunca mais tenho sossego.

Ó Deus, se existis, juntai

Minhas almas desencontradas.   


 

GRANADA

 

Ninguém soube até hoje se o céu é macho ou fêmea:

Mas o céu de Granada é macho e fêmea.

Granada, dei-te apenas uma semana da minha vida.

Tu me deste séculos de outrora rudes estandartes,

O gênio africano enxertado no castelo da Europa,

A tensão de duas culturas dispares;

E no limite desse tempo épico

A certeza geométrica da cruz.

 

Dás-me agora arquiteturas vermelhas e desertas,

A floresta reduzida no teu centro,

A água árabe explodindo nos jardins do Generalife;

Dás-me a Sierra Nevada e a vega próxima,

O tom vital, altíssimo.

Diviso as marcas digitais do Oriente,

Retomo o caminho de Manuel de Falla;

E o problema español nutre meu sangue.  

 

Distingui na noite de Granada o sol,

O fogo central da terra

Comunicando a gana da vida a qualquer um.

Distingui o sol da noite demarcar torres vermelhas.

Vi gitanos dançando a roa

Nas galerias secretas do Albaicin,

Tocados pelo duende e o sol da noite:

Inventam sem cessar o canto e a dança,

Homem, mulher e criança inventam o ritmo.

Os minutos aumentados aprestavam os dentes:

E tive gana da vida, não quis morrer para sempre.

 

(Tempo Espanhol, 1959) 


 

CERTO MAR

 

O mar não me quer,

O mar não sei por que me abomina,

O mar autárquico:

Ele me atira barbatanas e algas podres,

Destroços de manequins e papéis velhos,

Arrastando para longe barco e sereia.

O mar tem idéias singulares sobre mim,

Manda-me recados insolentes

Em garrafas há muito esquecidas e sujas.

Suprime de repente o veleiro de 1752

Que vinha beirando o cais.

 

Suprime o veleiro e um bando de fantasmas

- Eu bem sei -

Únicos, polidos, um quase nada solenes.

Não tolero mais este safado,

Nem mesmo o admito no outro mundo:

Felizmente a eternidade é límpida,

Sem praia e sem lamentos.

Hei de espiá-lo da Grande rosácea,

Hei de vê-lo um dia lá embaixo,

Inútil: espremida esponja, carcaça de canoa,

Avesso de fotografia.  

 

 

(Parábola, in Poesias, 1959)  


  

MURlLOGRAMA A GABRlELA MISTRAL

 

Num território de trigo

& cobre te criaste criança

De vôo sólidoterrestre.

 

Eu te datilotoquei:

 

Encorpada tal a terra.

Horizonte semovente.

Mesa posta afeto aceso.

 

Índia de alto coturno

Incorporas maia & quíchua

Ao teu espaço de família.

 

Os pés giróvagos traçam-te

Mapa total, periferia & centro

Do teu toque corpóreo, dom.

Andina. Transandina. Íntegra

 

Integras tua saga,

humana Linguagem de vinho culto

Nutrindo um hóspede áspero

 

Chegado de qualquer vento.

Portavas o sal, a raiz

No prato, na própria boca

Comunicando homem & cosmo.

 

 

(Convergência, 1970) 


 

NATAL 1961

 

Deslocados por uma operação burocrática — -o recenseamento da te­rra-a Virgem

                           e o carpinteiro José aportam a Belém.

 

«Não há lugar para esta gente», grita o dono do hotel onde se reali­za um congresso

                           de solidariedade.

 

o casal dirige-se a uma estrebaria, recebido por um boi branco e um burro cansado

                           do trabalho.

 

Os soldados de Herodes distribuem alimentos radioativos a todos os meninos de menos

                           de dois anos.

 

Uma poderosa nuvem em forma de cogumelo abre o horizonte e súbito explode.

 

O Menino nasce morto.

(Roma, 1961

 

MODINHA DO EMPREGADO DE BANCO

Eu sou triste como um prático de farmácia,
sou quase tão triste como um home que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.

Lá fora chove e a estátua de Floriano fica limpa.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos pra não fazerem nada com eles.

Também se o Diretor tivesse a minha imaginação
O Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro luar.

 

         (De Poemas  1925-1974)

 

CAVALOS

 

                Translated by W. S. Merwin

 

Pela grande campina deserta passam os cavalos a galope.

Aonde vão eles?

Vão buscar a cabeça do Delfim rolando na escadaria.

Os cavalos nervosos sacodem no ar longas crinas azuis.

Um segura nos dentes a branca atriz morta que retirou das águas,

Outros levam mensagens do vento aos exploradores desaparecidos,

Ou carregam trigo para as populações abandonadas pelos chefes.

Os finos cavalos azuis relincham para os aviões

E batem a terra dura com os cascos reluzentes.

São os restos de urna antiga raça companheira do homem

Que os vai substituir pelos cavalos mecânicos

E atirá-los ao abismo da história.

Os impacientes cavalos azuis fecham a curva do horizonte,

Despertando clarins na manhã.

 

======================================== 

 

Leila Maria Fonseca Barbosa
Marisa Timponi Pereira Rodrigues

Ismael Nery e  Murilo Mendes: reflexos.
 Juiz de Fora: UFJF / MAMM, 2009.  216 p.  ilus. color.
 ISBN 978-85-62136-00-9

 

A biblioteca do poeta Murilo Mendes, depois de sua morte repentina em Lisboa, em 1977, foi doada pela viúva Maria da Saudade Cortesão Mendes para a Universidade Federal de Juiz de Fora, em sua terra natal.  Leila Maria Fonseca Barbosa e Marisa Timponi Pereira Rodrigues, professoras e pesquisadoras da área de Letras da UFJF dedicaram-se ao estudo do acervo e surgiram duas obras extraordinárias que revelam textos e imagens importantes sobre o nosso grande poeta:  A trama poética de Murilo Mendes (2002, já esgotada) e Ismael Nery e Murilo Mendes: reflexos.

Como se sabe, o pintor e poeta Ismael Nery exerceu, na fase final da obra e da vida de Murilo Mendes, uma influência transformadora, convertendo-o ao cristianismo ao catolicismo expresso no "essencialismo" de pintor-poeta-filósofo, de forma profunda, o que teve um reflexo decisivo sobre sua poesia.

Eu, particularmente, confesso que é a fase do poeta que menos me interessa embora sabe-se que toda a obra dele é excelente e merece atenção, como atestam as duas pesquisadores desta obra descrita acima. Elas intitulam "Ismael Nery: um ente magnético no espelho de Murilo Mendes" o primeiro artigo da obra supra citada. E registram: "Murilo Mendes elege-o e, como porta-voz, registra as teorias estéticas, a visão de mundo, a exuberância intelectual desse múltitplo ente: poeta-filósofo-pintor-desenhista-arquiteto-dançarino-teólogo."

Murilo Mendes faz o retrato poético de seu amigo:

 

SAUDAÇÃO A ISMAEL NERY

Acima dos cubos verdes e das esferas azuis
Um Ente magnético sopra o espírito da vida.
Depois de fixar os contornos dos corpos
transpõe a região que nasceu sob o signo do amor
e reúne num abraço as partes desconhecidas do mundo.
Apelo dos ritmos movendo as figuras humanas.
Solicitação das matérias do sonho, espírito que não nunca descansa.
Ele pensa desligado do tempo,
as formas futuras dormem nos seus olhos.
Recebe diretamente do Espírito
a visão instantânea das coisas, ó vertigem!
penetra o sentido das ideias, das cores, a totalidade da Criação,
olho do mundo,
zona livre de corrupção, música que não para nunca,
forma e transparência.       

(1930)
 

As autoras apresentam a "Cronologia de uma amizade" e uma foto dos dois:


 

Ismael Nery também pinta o retrato de seu amigo Murilo Mendes, de 1923, aquarela sobre papel (29,5x17 cm):



Nasceram no início do século 20, Ismael em 1900 e Murilo em 1901. Os dois se conhecem no Rio de Janeiro na década de 20 e têm em comum o interesse pelo surrealismo, além do modernismo brasileiro, e colaboram na Revista de Antopofogia e Verde.  Em 1929 Murilo apresenta uma exposição de quadros do amigo Ismael  e em 1930 Murilo publica Poemas (1925-1929). A morte de Ismael Nery em 1934 teria provocado "uma crise religiosa que o devolverá a um cristianismo das origens", crêem as autoras que traçam as biografias. Mas foi Pedro Nava, segundo elas,  que descreveu a cena do velório em que Murilo entrou em transe.

Quem quiser, deve continuar a leitura na obra de Lella Maria e Marisa que nos brindaram esta fanaástica coleção de imagens e de revelações sobre os dois gênios i(r)manados pela criação.

Antonio Miranda, julho 2010

 

De
Murilo Mendes
POESIA LIBERDADE
Rio de Janeiro: Agir, 1947.   157 p.

 

 

DESEJO

 

OBSCURA vida

O que te peço

É que reveles teus desígnios

Obscura vida

Que sejas transparente

E concisa

Como por exemplo a morte

- Clara esperança.

 

 

POEMA DE ALÉM – TÚMULO

 

DAQUI de cima

Vejo homens e bichos combatendo

Ao mesmo tempo pelos bens e pela fome

Vejo campos de sangue e ossada

Faixas de terror

Mas vejo essencialmente uma coisa branca

Um castelo branco e simples

Feito de um só diamante

Que da terra não se vê.

 

 

POST  -  POEMA

 

O ANTEONTEM – não do tempo mas de mim –

Sorri sem jeito

E fica nos arredores do que vai acontecer

Como menino que pela primeira vez põe calça

                                                        [comprida.

 

Não se trata de ilusão, queixa ou lamento,

Trata-se de substituir o lado pelo centro.

O que é da pedra também pode ser do ar.

O que é da caveira pertence ao corpo.

Não se trata de ser ou não ser,

Trata-se de ser e não ser.

 

 

MEMÓRIA

 

1

 

NASCI  nu.

 

Quando eu vim me sussurraram:

“Adeus”.

 

Estrelas voando,

Frutos de árvores da inocência

Inclinavam-se.

 

Mulheres cheirosas

Deslizando no mosaico.

 

Seriam para mim esses corpos

Terrestres e celestes

Rolando sem parar na ampulheta divina?

Na cerração do dilúvio

Sanfonas ainda se ouviam

Por detrás da terra.

 

 

2

 

Ilhas e montanhas

Fugi do vosso lugar

Um homem aparece

Lutando com o batismo

- Arriscava a danação –

E . . . mereceu a cruz?

 

Dizei-mo cronistas futuros

Músicos da corte popular celeste

Aprontai flautas e pianos

Louvai o homem com tímpanos

Com Xilofones saxofones

Louvai o homem

Que se arrisca e luta.

 

Louva-o, posteridade dos famintos.

 

 

De

MENDES, Murilo
Contemplação de Ouro-Preto
Rio de Janeiro: Ministério da Educação e
Cultura, Serviço de Documentação, 1954. 
171 p. Ilustrado com fotos  em p&b de Ouro Preto, sem o nome do fotógrafo.  
Os títulos dos poemas em páginas independente em vinhetas.
Formato 16 x 23 cm. (EE)


 

         MONTANHAS DE OUTRO PRETO
        

                   A Lourival Gomes Machado

 

DESDOBRAM-SE as montanhas de Ouro Preto

Na perfurada luz, em plano austero.

Montes contemplativos, circunscritos

Entre cinza e castanho, o olhar domado

 

Recolhe vosso espectro permanente.

Por igual pascentais a luz difusa

Que se reajusta ao corpo das igrejas,

E volve o pensamento à descoberta

 

De uma luta antiquíssima com o caos,

De uma reinvenção dos elementos

Pela força de um culto ora perdido,

 

Relíquias de dureza e de doutrina,

Rude apetite dessa cousa eterna

Retida na estrutura de Ouro Preto.

 

 

 

 

MENDES, Murilo.  Mundo Enigma.  Rio de Janeiro: Edição da Livraria do Globo, 1942.  142 p.   (Col. Autores Brasileiros, 14)  14,5x20 cm.  “ Murilo Mendes “  Ex. na bibl. Antonio Miranda

Como sabemos, Murilo Mendes viveu na Europa durante a 2ª Guerra Mundial. Sendo um católico e poeta, assim registrou a sua experiência:

 

NIHIL

 

Profundo penoso

Das nuvens do inferno

Surgiu meu destino.

 

Grandeza -não tive,

Nem jeito pra vida.

 

Nesta noite maquinal, .

Ouvinte da guerra,

Sem passado nem futuro,

Odiando o presente,

Me encontro face a, face

Com a estátua do pó,

À-toa, esperando

A mão do Criador

Finalmente me abater.

 

 

O OPERADOR

 

Uma mulher corre no jardim

Despenteando as flores

Alguém desmonta o tempo

Édipo propõe um enigma às constelações

O mar muda provisoriamente de lugar

Se assobiares um foxtrote

A ordem se fará outra vez

 

 

 

 

Murilo Mendes, retrato
por
GUIGNARD

TEXTOS EN ESPAÑOL

De
Murilo Mendes
Tiempo Español
Trad. Pablo del Barco.
 s.l.: Almuzara, 2008. 201 p.               (Serie Noche Española, 8)
 Impresso con la colaboración de la Embajada de Brasil en España.

 

NUMANCIA

Prefigurando Guernica
E a resistência espanhola,

Uma coluna mantida
No espaço nulo do outrora.

Fica na paisagem térrea
A dura memória da fome,

Lição que Espanha recebe
No seu sangue, e que a consome.

 

NUMANCIA

Configurando Guernica
Y la resistência espanola,

Una columna mantenida
En el nulo espacio dei ayer,

Queda en el paisaje térreo
La dura memória dei hambre,

Lección que Espana recibe
En su sangre, y Ia consume.

 

O SOL DE GRANADA

    Á memória de Manuel Altolaguirre

O sol de Granada aspira
Arquiteturas abstraías.

O sol de Granada gira
O corpo de Lindaraja.

O sol de Granada inspira
Sangue e ritmo de gitanos.

O sol de Granada mira
As duas faces de Espanha.

 

EL SOL DE GRANADA

            A la memória de Manuel Altolaguirre

El sol de Granada aspira
Arquitecturas abstractas.

El sol de Granada gira
El cuerpo de Lindaraja.*

El sol de Granada inspira
Sangre y ritmo de gitanos.

El sol de Granada mira
La doble cara de Espana.

* Hay testimonio de la existência dei mirador de Lindajara en la Alhambra granadina en 1362, por un texto dei poeta Ibn aljatib; era el sólio para el trono de Muhammad V. Tiene ventana de arcos gemelos, peraltados y angrelados, y se abre a los jardines de Daraja, a través de Ia cual se podia contemplar Ia ciudad de Granada, antes de que füera reformado el espacio por el emperador  Carlos V. (N. dei T.)


PUEBLO

            A Blas de Otero

O pueblo subsiste no ar, no sol de poeira,
Nos quadrados de cal e na secura.

Subsiste na conversa organizada
Em torno da água pública da fonte.

Um som qualquer ressoa prolongado
No ouvido de animal, pessoa ou casa.

Os minutos pacientes limam os dias.
O pueblo destacando-se da história

Participa do obscuro de cada um.
E participam todos deste pueblo

Que rejeitando a ideia do aniquilamento
Joga aos dados a ressurreição da carne.

 

PUEBLO

         A Blas de Otero

El pueblo subsiste en el aire, en el sol de polvo,
En los cuadrados de cal y en la sequía.

Subsiste en la conversación organizada
En torno ai agua pública de la fuente.

Cualquier son resuena prolongado
En el oído de animal, persona o casa.

Los minutos pacientes liman los dias.
El pueblo ai destacarse de Ia historia

Participa de lo oscuro de cada uno.
Y participan todos de este pueblo

Que ai rechazar la idea dei aniquilamiento
Juega a los dados la resurrección de la carne.

 

NA CORRIDA

Soubesse eu distinguir
O milésimo de instante
Em que o olho do touro e o do toureiro
Se cruzam no vértice da luta,
Conhecendo cada um
Que irá matar, ou ser morto.

 

EN LA CORRIDA

Si supiera distinguir
La milésima de instante
En que el ojo dei toro y del torero
Se cruzan en el vértice de la lucha,
Sabiendo cada uno
Que vá a matar, o a ser muerto.



 ANTONIO MIRANDA ENTREVISTA... PABLO DEL BARCO
poeta, ensaista e tradutor de Murilo Mendes, sobre a importância
da obra "Tiempo Español".

===========================================

 Traducciones de Rumen Stayanov,

Dámaso Alonso y Angel Crespo
 

METAFÍSICA DE LA MODA FEMENINA

 

Todo lo que te rodea y te sirve

Aumenta la fascinación y el enigma.

Tu velo se interpone entre tú y mi cuerpo,

Es la reja de mi cárcel.

Tus guantes suaves al tacto

Hacen crecer la nostalgia por las manos

Que no recibieron mi alianza en el altar.

Tu maquillaje

Es una venganza sobre la naturaleza.

Tus joyas y tus perfumes

Te son necesarios a ti y al orden del mundo

Como el pan al hambriento.

Me envuelvo en tus pieles y en tus boas

Rasgo tu pechera de seda

Para besar tus senos blancos

Que alimentan los poemas

Entreabro la túnica fosforescente

Para abrigarme en tu vientre glorioso

Que amplió al mundo dándole un hombre más.

Tus vestidos obedecen a un plano inspirado

Se corresponden con el cielo con el mar las estrellas.

Con tus pensamientos tus deseos tus sensaciones.

La naturaleza toda

Está siendo destruida para ornar tu cuerpo

Los hombres talan bosques

Bajan hasta el fondo de las minas y los mares

Mueven máquinas telares

Sueltan aviones por los aires

Luchan por la posesión de Ia tierra matan y roban por tu cuerpo

El mundo sale de ti, viene a desembocar en ti

Y te contempla asombrado y apasionado,

Arcoiris terrestre,

Fuente de nuestra angustia y de nuestra alegria.

 

Todo lo que forma parte de ti — desde tus zapatos —

­Está unido al pecado y al placer,

A la teología, a lo sobrenatural.

 

 

(Traducción de Rumen Stayanov)  


 

LLANTO DEL POETA ACTUAL

 

Me dieron un cuerpo, !sólo uno!

Para soportar callado

Tantas almas desunidas

Que se empujan unas a otras,

De tantas edades diferentes;

Una nació mucho antes

Que yo apareciera en el mundo,

Otra nació con este cuerpo,

Otra está naciendo ahora,

Bay otras, no sé bien cuántas,

Son mis hijas naturales,

Deliran dentro de mí,

Quieren cambiar de lugar,

Cada una quiere una cosa,

Nunca ya tengo sosiego.

Oh, Dios, si existes, junta

Mis almas extraviadas.

 

(Traducción de Rumen Stayanov)  


 

GRANADA

 

Nadie supo hasta hoy si el cielo es macho o hembra:

Pero el cielo de Granada es macho y hembra.

Granada, te di apenas una semana de mi vida.

Tú me diste siglos de antaño rudos estandartes,

El genio africano injertado en el castillo de Europa,

La tensión de dos culturas dispares

Y en el limite de ese tiempo épico

La certidumbre geométrica de la cruz.

 

Me das ahora arquitecturas rojas y desiertas,

EI bosque reducido en tu centro,

EI agua árabe estallando en los jardines de Generalife;

Me das Sierra Nevada y la vega cercana,

EI tono vital, altísimo.

Diviso las marcas digitales del Oriente,

Retomo el camino de Manuel de Falla;

Y el problema español nutre mi sangre.

 

Distinguí en la noche de Granada el sol,

El fuego central de Ia tierra

Comunicando a cualquiera las ganas de vivir.

Distinguí al sol de la noche demarcando torres rojas

Vi a gitanos bailar la roa

En las galerias secretas del Albaicín,

Tocados por el duende y el sol de la noche:

Inventan sin cesar el canto y el baile,

Hombre, mujer y nino inventan el ritmo.

Los minutos añadidos preparan los clientes:

Y tuve ganas de vivir, no quise morir para siempre.  


 

CIERTO MAR

 

El mar no me quiere,

El mar no sé por qué me abomina,

El mar autárquico:

Él me echa aletas y algas podridas,

Destrozos de maniquís y papeles viejos,

Arrastrando para lejos barco y sirena.

El mar tiene ideas singulares sobre mí,

Me manda recados insolentes

En botellas hace mucho olvidadas y sucias.

Suprime de repente el velero de 1752

Que venía costeando el muelie.

 

Suprime el velero y un bando de fantasmas

— Yo 10 sé bien —

Únicos, pulidos, casi nada solemnes.

No aguanto más este canalia

Ni siquiera lo admito en el otro mundo:

 

Felizmente la eternidad es límpida,

Sin playas y sin lamentos,

He de espiarlo de Ia Gran rosácea,

He de verlo un día aliá, abajo,

Inútil: esponja exprimida, caparazón de canoa,

Dorso de fotografía.

 

 

(Traducción de Rumen Stayanov)

 

Traducciones de Rumen Stayanov extraídas de la antología: POETAS PORTUGUESES Y BRASILEÑOS DE LOS SIMBOLISTAS A LOS MODERNISTAS/ Organización y estudio introductorio de José Augusto Seabra.  Buenos Aires: Instituto Camões; Brasília: Thesaurus, 2002. Edición bilingüe. 

 

 

MURILOGRAMA A GABRIELA MISTRAL

 

En un territorio de trigo

& cobre te criaste niña

De vuelo sólidoterrestre.

 

Yo te dactilotoqué:

Sustantiva como la tierra.

Horizonte movible.

Mesa puesta afecto encendido.

 

India de alto coturno

Incorporas maya & quechua

A tu espacio de familia.

 

Los pies giróvagos te trazan

Mapa total, periferia & centro

De tu toque corpóreo, don.

Andina. Transandina. Íntegra

 

Integras tu saga, humano

Lenguaje de vino culto

Nutriendo un huésped áspero

 

Llegado de cualquier viento.

Portabas la sal, la raíz

En el plato, en la propia boca

Comunicando hombre & cosmos.

 

 

(Traducción de Rumen Stayanov)

 

 

 

NAVIDAD 1961

 

Desplazados por una operación burocrática —-el censo de la tierra­— la Virgen y el

                 carpintero José llegan a BeIén.

 

“No hay sitio para esta gente”, grita el dueiño del hotel donde se celebra

                un congreso de solidaridad.

 

El matrimonio se dirige a un establo, recibido por un buey blanca y un burro

                cansado de trabajar.

 

Los soldados de Herodes distribuyen alimentos radiactivos a todos los niños

               de menos de dos anos.

 

Una poderosa nube en forma de hongo abre el horizonte y estalla de repente.

 

El Niño nace muerto.

 

 

 Roma, 1961.

 

 

Trad. de Dámaso Alonso y Ángel Crespo

Extraído da REVISTA DE CULTURA BRASILEÑA, Tomo IV, Numero 12, marzo 1965.  Publicación de la Embajada de Brasil en Madrid, España.
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LAMENTO DEL POETA ACTUAL

 

Trad. Rodolfo Mata

 

Me dieron un cuerpo, sólo uno

Para soportar callado

Tantas almas desunidas

Que chocan unas con otras

De tan variadas edades;

Una nació mucho antes

De que yo apareciera en el mundo,

Otra nació con este cuerpo,

Otra está naciendo ahora,

Hay otras, ya ni sé bien,

Son mis hijas naturales,

Deliran dentro de mí.

Quieren cambiar de lugar,

Cada una quiere una cosa,

Ya no tengo más sosiego.

Oh Dios, si existes, junta

mis almas desencontradas.

 

 

De O visionário (1941)

 

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De
Murilo Mendes
Al otro lado del mundo
Trad. de José Javier Villarreal.
Monterrey:  Ediciones Sin Nombre, 2009. 
116 p.  ISBN 978-968-579-355-1

Conheci o poeta e tradutor José Javier Villarreal em Morelia, México, durante o XII Encuentro de Poetas del Mundo Latino e passamos horas conversando... sobre Poesia Brasileira. Sabe mais do que alguns de nossos especialistas... Traduziu Drummond, Bandeira... E o nosso Murilo Mendes. Ao traduzir, adotou a fórmula proposta por Murilo: “No debe existir desproporción entre la sustância y la forma.”  José Javier seguiu à risca!

ANTONIO MIRANDA

 

 

EL POETA EN LA IGLESIA

 

Entre tu etemidad y mi espíritu

se mece el mundo de las formas.

No consigo rebasar la línea de los vitrales

para descansar en tus caminos de perfección.

Mi pensamiento se tropieza en los senos, en los muslos y

         nalgas de las mujeres,

inexorablemente.

Estoy aquí, desnudo, paralelo a tu voluntad,

sitiado por las imágenes exteriores.

¡En vano mi ser busca romper su propio molde!

Noche del espíritu

donde los círculos de mi voluntad se agotan.

Tajado de la etemidad de las ideas

¡ay! ¿Quién vendrá a llenar el vacío de mi alma?

 

Vestidos sudados, cabezas volviéndose de pronto,

piemas rompiendo la penumbra, axilas tibias,

senos escolados no me dejan ver la cruz.

 

¡Me separan dei mundo de Ias formas!

 

                   (De Poemas, 1925-1929)

 


SOLIDARIDAD

 

Estoy unido por la herencia dei espíritu y la sangre

al mártir, al asesino, al anarquista;

estoy unido

a las parejas en la tierra y en el aire,

al vendedor de la esquina,

al padre, al mendigo, a la mujer de la vida,

al mecánico, al poeta, al soldado,

al santo y al demónio

hechos a mi imagen y semejanza.

 

                   (De El visionário, 1930-1933)


EL HOMBRE Y EL AGUA

 

Las manos tienen hélices, tempestades y brújulas.

Los pies guardan navios

que enfilan hacia Oriente

el ojo tiene peces,

la boca, arrecifes de coral;

los oídos tienen noches, poios y lamentos de olas.

La vida es tan marina.

 

         (De Los cuatro elementos, 1935)

 

 

Murilo Mendes
Pintura de Cândido Mendes

 

 

 



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