ZECA BALEIRO interpreta uma composição sua baseada em poema do poeta mineiro MURILO MENDES.
METAFÍSICA DA MODA FEMININA
Tudo o que te rodeia e te serve
Aumenta a fascinação e o enigma.
Teu véu se interpõe entre tie meu corpo,
É a grade do meu cárcere.
Tuas luas macias ao tato
Fazem crescer a nostalgia das mãos
Que não receberam meu anel no altar.
Tua maquilagem
É uma desforra sobre a natureza.
Tuas jóias e teus perfumes
São necessários a ti e à origem do mundo
Como o pão ao faminto.
Eu me enrolo nas tuas peles nos teus boás
Rasgo teu peitilho de seda
Para beijar teus seios brancos
Que alimentam os poemas
Entreabro a túnica fosforescente
Para me abrigar no teu ventre glorioso
Que ampliou o mundo ao lhe dar um homem a mais.
Teus vestidos obedecem a um plano inspirado
Correspondem-se com o céu com o mar as estrelas
Com teus pensamentos teus desejos tuas sensações.
A natureza inteira
É retalhada para ornar teu corpo
Os homens derrubam florestas
Descem até o fundo das minas e dos mares
Movem máquinas teares
Soltam aviões pelos ares
Lutam pela posse da terra matam e roubam pelo teu corpo.
O mundo sai de ti, vem desembocar em ti
E te contempla espantado e apaixonado,
Arco-íris terrestre,
Fonte da nossa angústia e da nossa alegria.
Tudo que faz parte de ti — desde teus sapatos
Está unido ao pecado e ao prazer,
À teologia, ao sobrenatural.
(A Poesia em Pânico, 1937)
GRANADA
Ninguém soube até hoje se o céu é macho ou fêmea:
Mas o céu de Granada é macho e fêmea.
Granada, dei-te apenas uma semana da minha vida.
Tu me deste séculos de outrora rudes estandartes,
O gênio africano enxertado no castelo da Europa,
A tensão de duas culturas dispares;
E no limite desse tempo épico
A certeza geométrica da cruz.
Dás-me agora arquiteturas vermelhas e desertas,
A floresta reduzida no teu centro,
A água árabe explodindo nos jardins do Generalife;
Dás-me a Sierra Nevada e a vega próxima,
O tom vital, altíssimo.
Diviso as marcas digitais do Oriente,
Retomo o caminho de Manuel de Falla;
E o problema español nutre meu sangue.
Distingui na noite de Granada o sol,
O fogo central da terra
Comunicando a gana da vida a qualquer um.
Distingui o sol da noite demarcar torres vermelhas.
Vi gitanos dançando a roa
Nas galerias secretas do Albaicin,
Tocados pelo duende e o sol da noite:
Inventam sem cessar o canto e a dança,
Homem, mulher e criança inventam o ritmo.
Os minutos aumentados aprestavam os dentes:
E tive gana da vida, não quis morrer para sempre.
(Tempo Espanhol, 1959)
MURlLOGRAMA A GABRlELA MISTRAL
Num território de trigo
& cobre te criaste criança
De vôo sólidoterrestre.
Eu te datilotoquei:
Encorpada tal a terra.
Horizonte semovente.
Mesa posta afeto aceso.
Índia de alto coturno
Incorporas maia & quíchua
Ao teu espaço de família.
Os pés giróvagos traçam-te
Mapa total, periferia & centro
Do teu toque corpóreo, dom.
Andina. Transandina. Íntegra
Integras tua saga,
humana Linguagem de vinho culto
Nutrindo um hóspede áspero
Chegado de qualquer vento.
Portavas o sal, a raiz
No prato, na própria boca
Comunicando homem & cosmo.
(Convergência, 1970)
NATAL 1961
Deslocados por uma operação burocrática — -o recenseamento da terra-a Virgem
e o carpinteiro José aportam a Belém.
«Não há lugar para esta gente», grita o dono do hotel onde se realiza um congresso
de solidariedade.
o casal dirige-se a uma estrebaria, recebido por um boi branco e um burro cansado
do trabalho.
Os soldados de Herodes distribuem alimentos radioativos a todos os meninos de menos
de dois anos.
Uma poderosa nuvem em forma de cogumelo abre o horizonte e súbito explode.
O Menino nasce morto.
(Roma, 1961
MODINHA DO EMPREGADO DE BANCO
Eu sou triste como um prático de farmácia,
sou quase tão triste como um home que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.
Lá fora chove e a estátua de Floriano fica limpa.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos pra não fazerem nada com eles.
Também se o Diretor tivesse a minha imaginação
O Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro luar.
(De Poemas 1925-1974)
CAVALOS
Translated by W. S. Merwin
Pela grande campina deserta passam os cavalos a galope.
Aonde vão eles?
Vão buscar a cabeça do Delfim rolando na escadaria.
Os cavalos nervosos sacodem no ar longas crinas azuis.
Um segura nos dentes a branca atriz morta que retirou das águas,
Outros levam mensagens do vento aos exploradores desaparecidos,
Ou carregam trigo para as populações abandonadas pelos chefes.
Os finos cavalos azuis relincham para os aviões
E batem a terra dura com os cascos reluzentes.
São os restos de urna antiga raça companheira do homem
Que os vai substituir pelos cavalos mecânicos
E atirá-los ao abismo da história.
Os impacientes cavalos azuis fecham a curva do horizonte,
Despertando clarins na manhã.
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Leila Maria Fonseca Barbosa
Marisa Timponi Pereira Rodrigues
Ismael Nery e Murilo Mendes: reflexos.
Juiz de Fora: UFJF / MAMM, 2009. 216 p. ilus. color.
ISBN 978-85-62136-00-9
A biblioteca do poeta Murilo Mendes, depois de sua morte repentina em Lisboa, em 1977, foi doada pela viúva Maria da Saudade Cortesão Mendes para a Universidade Federal de Juiz de Fora, em sua terra natal. Leila Maria Fonseca Barbosa e Marisa Timponi Pereira Rodrigues, professoras e pesquisadoras da área de Letras da UFJF dedicaram-se ao estudo do acervo e surgiram duas obras extraordinárias que revelam textos e imagens importantes sobre o nosso grande poeta: A trama poética de Murilo Mendes (2002, já esgotada) e Ismael Nery e Murilo Mendes: reflexos.
Como se sabe, o pintor e poeta Ismael Nery exerceu, na fase final da obra e da vida de Murilo Mendes, uma influência transformadora, convertendo-o ao cristianismo ao catolicismo expresso no "essencialismo" de pintor-poeta-filósofo, de forma profunda, o que teve um reflexo decisivo sobre sua poesia.
Eu, particularmente, confesso que é a fase do poeta que menos me interessa embora sabe-se que toda a obra dele é excelente e merece atenção, como atestam as duas pesquisadores desta obra descrita acima. Elas intitulam "Ismael Nery: um ente magnético no espelho de Murilo Mendes" o primeiro artigo da obra supra citada. E registram: "Murilo Mendes elege-o e, como porta-voz, registra as teorias estéticas, a visão de mundo, a exuberância intelectual desse múltitplo ente: poeta-filósofo-pintor-desenhista-arquiteto-dançarino-teólogo."
Murilo Mendes faz o retrato poético de seu amigo:
SAUDAÇÃO A ISMAEL NERY
Acima dos cubos verdes e das esferas azuis
Um Ente magnético sopra o espírito da vida.
Depois de fixar os contornos dos corpos
transpõe a região que nasceu sob o signo do amor
e reúne num abraço as partes desconhecidas do mundo.
Apelo dos ritmos movendo as figuras humanas.
Solicitação das matérias do sonho, espírito que não nunca descansa.
Ele pensa desligado do tempo,
as formas futuras dormem nos seus olhos.
Recebe diretamente do Espírito
a visão instantânea das coisas, ó vertigem!
penetra o sentido das ideias, das cores, a totalidade da Criação,
olho do mundo,
zona livre de corrupção, música que não para nunca,
forma e transparência.
(1930)
As autoras apresentam a "Cronologia de uma amizade" e uma foto dos dois:
Ismael Nery também pinta o retrato de seu amigo Murilo Mendes, de 1923, aquarela sobre papel (29,5x17 cm):
Nasceram no início do século 20, Ismael em 1900 e Murilo em 1901. Os dois se conhecem no Rio de Janeiro na década de 20 e têm em comum o interesse pelo surrealismo, além do modernismo brasileiro, e colaboram na Revista de Antopofogia e Verde. Em 1929 Murilo apresenta uma exposição de quadros do amigo Ismael e em 1930 Murilo publica Poemas (1925-1929). A morte de Ismael Nery em 1934 teria provocado "uma crise religiosa que o devolverá a um cristianismo das origens", crêem as autoras que traçam as biografias. Mas foi Pedro Nava, segundo elas, que descreveu a cena do velório em que Murilo entrou em transe.
Quem quiser, deve continuar a leitura na obra de Lella Maria e Marisa que nos brindaram esta fanaástica coleção de imagens e de revelações sobre os dois gênios i(r)manados pela criação.
Antonio Miranda, julho 2010
De
Murilo Mendes
POESIA LIBERDADE
Rio de Janeiro: Agir, 1947. 157 p.
DESEJO
OBSCURA vida
O que te peço
É que reveles teus desígnios
Obscura vida
Que sejas transparente
E concisa
Como por exemplo a morte
- Clara esperança.
POEMA DE ALÉM – TÚMULO
DAQUI de cima
Vejo homens e bichos combatendo
Ao mesmo tempo pelos bens e pela fome
Vejo campos de sangue e ossada
Faixas de terror
Mas vejo essencialmente uma coisa branca
Um castelo branco e simples
Feito de um só diamante
Que da terra não se vê.
POST - POEMA
O ANTEONTEM – não do tempo mas de mim –
Sorri sem jeito
E fica nos arredores do que vai acontecer
Como menino que pela primeira vez põe calça
[comprida.
Não se trata de ilusão, queixa ou lamento,
Trata-se de substituir o lado pelo centro.
O que é da pedra também pode ser do ar.
O que é da caveira pertence ao corpo.
Não se trata de ser ou não ser,
Trata-se de ser e não ser.
MEMÓRIA
1
NASCI nu.
Quando eu vim me sussurraram:
“Adeus”.
Estrelas voando,
Frutos de árvores da inocência
Inclinavam-se.
Mulheres cheirosas
Deslizando no mosaico.
Seriam para mim esses corpos
Terrestres e celestes
Rolando sem parar na ampulheta divina?
Na cerração do dilúvio
Sanfonas ainda se ouviam
Por detrás da terra.
2
Ilhas e montanhas
Fugi do vosso lugar
Um homem aparece
Lutando com o batismo
- Arriscava a danação –
E . . . mereceu a cruz?
Dizei-mo cronistas futuros
Músicos da corte popular celeste
Aprontai flautas e pianos
Louvai o homem com tímpanos
Com Xilofones saxofones
Louvai o homem
Que se arrisca e luta.
Louva-o, posteridade dos famintos.
De
MENDES, Murilo
Contemplação de Ouro-Preto
Rio de Janeiro: Ministério da Educação e
Cultura, Serviço de Documentação, 1954.
171 p. Ilustrado com fotos em p&b de Ouro Preto, sem o nome do fotógrafo.
Os títulos dos poemas em páginas independente em vinhetas.
Formato 16 x 23 cm. (EE)
MONTANHAS DE OUTRO PRETO
A Lourival Gomes Machado
DESDOBRAM-SE as montanhas de Ouro Preto
Na perfurada luz, em plano austero.
Montes contemplativos, circunscritos
Entre cinza e castanho, o olhar domado
Recolhe vosso espectro permanente.
Por igual pascentais a luz difusa
Que se reajusta ao corpo das igrejas,
E volve o pensamento à descoberta
De uma luta antiquíssima com o caos,
De uma reinvenção dos elementos
Pela força de um culto ora perdido,
Relíquias de dureza e de doutrina,
Rude apetite dessa cousa eterna
Retida na estrutura de Ouro Preto.
Murilo Mendes, retrato
por Cândido Portinari, pintura a óleo/tela
1934 – Rio de Janeiro, 81x65,5 cm.
TEXTOS EN ESPAÑOL
De
Murilo Mendes
Tiempo Español
Trad. Pablo del Barco.
s.l.: Almuzara, 2008. 201 p. (Serie Noche Española, 8)
Impresso con la colaboración de la Embajada de Brasil en España.
NUMANCIA
Prefigurando Guernica
E a resistência espanhola,
Uma coluna mantida
No espaço nulo do outrora.
Fica na paisagem térrea
A dura memória da fome,
Lição que Espanha recebe
No seu sangue, e que a consome.
NUMANCIA
Configurando Guernica
Y la resistência espanola,
Una columna mantenida
En el nulo espacio dei ayer,
Queda en el paisaje térreo
La dura memória dei hambre,
Lección que Espana recibe
En su sangre, y Ia consume.
O SOL DE GRANADA
Á memória de Manuel Altolaguirre
O sol de Granada aspira
Arquiteturas abstraías.
O sol de Granada gira
O corpo de Lindaraja.
O sol de Granada inspira
Sangue e ritmo de gitanos.
O sol de Granada mira
As duas faces de Espanha.
EL SOL DE GRANADA
A la memória de Manuel Altolaguirre
El sol de Granada aspira
Arquitecturas abstractas.
El sol de Granada gira
El cuerpo de Lindaraja.*
El sol de Granada inspira
Sangre y ritmo de gitanos.
El sol de Granada mira
La doble cara de Espana.
* Hay testimonio de la existência dei mirador de Lindajara en la Alhambra granadina en 1362, por un texto dei poeta Ibn aljatib; era el sólio para el trono de Muhammad V. Tiene ventana de arcos gemelos, peraltados y angrelados, y se abre a los jardines de Daraja, a través de Ia cual se podia contemplar Ia ciudad de Granada, antes de que füera reformado el espacio por el emperador Carlos V. (N. dei T.)
PUEBLO
A Blas de Otero
O pueblo subsiste no ar, no sol de poeira,
Nos quadrados de cal e na secura.
Subsiste na conversa organizada
Em torno da água pública da fonte.
Um som qualquer ressoa prolongado
No ouvido de animal, pessoa ou casa.
Os minutos pacientes limam os dias.
O pueblo destacando-se da história
Participa do obscuro de cada um.
E participam todos deste pueblo
Que rejeitando a ideia do aniquilamento
Joga aos dados a ressurreição da carne.
PUEBLO
A Blas de Otero
El pueblo subsiste en el aire, en el sol de polvo,
En los cuadrados de cal y en la sequía.
Subsiste en la conversación organizada
En torno ai agua pública de la fuente.
Cualquier son resuena prolongado
En el oído de animal, persona o casa.
Los minutos pacientes liman los dias.
El pueblo ai destacarse de Ia historia
Participa de lo oscuro de cada uno.
Y participan todos de este pueblo
Que ai rechazar la idea dei aniquilamiento
Juega a los dados la resurrección de la carne.
NA CORRIDA
Soubesse eu distinguir
O milésimo de instante
Em que o olho do touro e o do toureiro
Se cruzam no vértice da luta,
Conhecendo cada um
Que irá matar, ou ser morto.
EN LA CORRIDA
Si supiera distinguir
La milésima de instante
En que el ojo dei toro y del torero
Se cruzan en el vértice de la lucha,
Sabiendo cada uno
Que vá a matar, o a ser muerto.
ANTONIO MIRANDA ENTREVISTA... PABLO DEL BARCO
poeta, ensaista e tradutor de Murilo Mendes, sobre a importância
da obra "Tiempo Español".
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Traducciones de Rumen Stayanov,
Dámaso Alonso y Angel Crespo
METAFÍSICA DE LA MODA FEMENINA
Todo lo que te rodea y te sirve
Aumenta la fascinación y el enigma.
Tu velo se interpone entre tú y mi cuerpo,
Es la reja de mi cárcel.
Tus guantes suaves al tacto
Hacen crecer la nostalgia por las manos
Que no recibieron mi alianza en el altar.
Tu maquillaje
Es una venganza sobre la naturaleza.
Tus joyas y tus perfumes
Te son necesarios a ti y al orden del mundo
Como el pan al hambriento.
Me envuelvo en tus pieles y en tus boas
Rasgo tu pechera de seda
Para besar tus senos blancos
Que alimentan los poemas
Entreabro la túnica fosforescente
Para abrigarme en tu vientre glorioso
Que amplió al mundo dándole un hombre más.
Tus vestidos obedecen a un plano inspirado
Se corresponden con el cielo con el mar las estrellas.
Con tus pensamientos tus deseos tus sensaciones.
La naturaleza toda
Está siendo destruida para ornar tu cuerpo
Los hombres talan bosques
Bajan hasta el fondo de las minas y los mares
Mueven máquinas telares
Sueltan aviones por los aires
Luchan por la posesión de Ia tierra matan y roban por tu cuerpo
El mundo sale de ti, viene a desembocar en ti
Y te contempla asombrado y apasionado,
Arcoiris terrestre,
Fuente de nuestra angustia y de nuestra alegria.
Todo lo que forma parte de ti — desde tus zapatos —
Está unido al pecado y al placer,
A la teología, a lo sobrenatural.
(Traducción de Rumen Stayanov)
LLANTO DEL POETA ACTUAL
Me dieron un cuerpo, !sólo uno!
Para soportar callado
Tantas almas desunidas
Que se empujan unas a otras,
De tantas edades diferentes;
Una nació mucho antes
Que yo apareciera en el mundo,
Otra nació con este cuerpo,
Otra está naciendo ahora,
Bay otras, no sé bien cuántas,
Son mis hijas naturales,
Deliran dentro de mí,
Quieren cambiar de lugar,
Cada una quiere una cosa,
Nunca ya tengo sosiego.
Oh, Dios, si existes, junta
Mis almas extraviadas.
(Traducción de Rumen Stayanov)
GRANADA
Nadie supo hasta hoy si el cielo es macho o hembra:
Pero el cielo de Granada es macho y hembra.
Granada, te di apenas una semana de mi vida.
Tú me diste siglos de antaño rudos estandartes,
El genio africano injertado en el castillo de Europa,
La tensión de dos culturas dispares
Y en el limite de ese tiempo épico
La certidumbre geométrica de la cruz.
Me das ahora arquitecturas rojas y desiertas,
EI bosque reducido en tu centro,
EI agua árabe estallando en los jardines de Generalife;
Me das Sierra Nevada y la vega cercana,
EI tono vital, altísimo.
Diviso las marcas digitales del Oriente,
Retomo el camino de Manuel de Falla;
Y el problema español nutre mi sangre.
Distinguí en la noche de Granada el sol,
El fuego central de Ia tierra
Comunicando a cualquiera las ganas de vivir.
Distinguí al sol de la noche demarcando torres rojas
Vi a gitanos bailar la roa
En las galerias secretas del Albaicín,
Tocados por el duende y el sol de la noche:
Inventan sin cesar el canto y el baile,
Hombre, mujer y nino inventan el ritmo.
Los minutos añadidos preparan los clientes:
Y tuve ganas de vivir, no quise morir para siempre.
CIERTO MAR
El mar no me quiere,
El mar no sé por qué me abomina,
El mar autárquico:
Él me echa aletas y algas podridas,
Destrozos de maniquís y papeles viejos,
Arrastrando para lejos barco y sirena.
El mar tiene ideas singulares sobre mí,
Me manda recados insolentes
En botellas hace mucho olvidadas y sucias.
Suprime de repente el velero de 1752
Que venía costeando el muelie.
Suprime el velero y un bando de fantasmas
— Yo 10 sé bien —
Únicos, pulidos, casi nada solemnes.
No aguanto más este canalia
Ni siquiera lo admito en el otro mundo:
Felizmente la eternidad es límpida,
Sin playas y sin lamentos,
He de espiarlo de Ia Gran rosácea,
He de verlo un día aliá, abajo,
Inútil: esponja exprimida, caparazón de canoa,
Dorso de fotografía.
(Traducción de Rumen Stayanov)
Traducciones de Rumen Stayanov extraídas de la antología: POETAS PORTUGUESES Y BRASILEÑOS DE LOS SIMBOLISTAS A LOS MODERNISTAS/ Organización y estudio introductorio de José Augusto Seabra. Buenos Aires: Instituto Camões; Brasília: Thesaurus, 2002. Edición bilingüe.
MURILOGRAMA A GABRIELA MISTRAL
En un territorio de trigo
& cobre te criaste niña
De vuelo sólidoterrestre.
Yo te dactilotoqué:
Sustantiva como la tierra.
Horizonte movible.
Mesa puesta afecto encendido.
India de alto coturno
Incorporas maya & quechua
A tu espacio de familia.
Los pies giróvagos te trazan
Mapa total, periferia & centro
De tu toque corpóreo, don.
Andina. Transandina. Íntegra
Integras tu saga, humano
Lenguaje de vino culto
Nutriendo un huésped áspero
Llegado de cualquier viento.
Portabas la sal, la raíz
En el plato, en la propia boca
Comunicando hombre & cosmos.
(Traducción de Rumen Stayanov)
NAVIDAD 1961
Desplazados por una operación burocrática —-el censo de la tierra— la Virgen y el
carpintero José llegan a BeIén.
“No hay sitio para esta gente”, grita el dueiño del hotel donde se celebra
un congreso de solidaridad.
El matrimonio se dirige a un establo, recibido por un buey blanca y un burro
cansado de trabajar.
Los soldados de Herodes distribuyen alimentos radiactivos a todos los niños
de menos de dos anos.
Una poderosa nube en forma de hongo abre el horizonte y estalla de repente.
El Niño nace muerto.
Roma, 1961.
Trad. de Dámaso Alonso y Ángel Crespo
Extraído da REVISTA DE CULTURA BRASILEÑA, Tomo IV, Numero 12, marzo 1965. Publicación de la Embajada de Brasil en Madrid, España.
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LAMENTO DEL POETA ACTUAL
Trad. Rodolfo Mata
Me dieron un cuerpo, sólo uno
Para soportar callado
Tantas almas desunidas
Que chocan unas con otras
De tan variadas edades;
Una nació mucho antes
De que yo apareciera en el mundo,
Otra nació con este cuerpo,
Otra está naciendo ahora,
Hay otras, ya ni sé bien,
Son mis hijas naturales,
Deliran dentro de mí.
Quieren cambiar de lugar,
Cada una quiere una cosa,
Ya no tengo más sosiego.
Oh Dios, si existes, junta
mis almas desencontradas.
De O visionário (1941)
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De
Murilo Mendes
Al otro lado del mundo
Trad. de José Javier Villarreal.
Monterrey: Ediciones Sin Nombre, 2009.
116 p. ISBN 978-968-579-355-1
Conheci o poeta e tradutor José Javier Villarreal em Morelia, México, durante o XII Encuentro de Poetas del Mundo Latino e passamos horas conversando... sobre Poesia Brasileira. Sabe mais do que alguns de nossos especialistas... Traduziu Drummond, Bandeira... E o nosso Murilo Mendes. Ao traduzir, adotou a fórmula proposta por Murilo: “No debe existir desproporción entre la sustância y la forma.” José Javier seguiu à risca!
ANTONIO MIRANDA
EL POETA EN LA IGLESIA
Entre tu etemidad y mi espíritu
se mece el mundo de las formas.
No consigo rebasar la línea de los vitrales
para descansar en tus caminos de perfección.
Mi pensamiento se tropieza en los senos, en los muslos y
nalgas de las mujeres,
inexorablemente.
Estoy aquí, desnudo, paralelo a tu voluntad,
sitiado por las imágenes exteriores.
¡En vano mi ser busca romper su propio molde!
Noche del espíritu
donde los círculos de mi voluntad se agotan.
Tajado de la etemidad de las ideas
¡ay! ¿Quién vendrá a llenar el vacío de mi alma?
Vestidos sudados, cabezas volviéndose de pronto,
piemas rompiendo la penumbra, axilas tibias,
senos escolados no me dejan ver la cruz.
¡Me separan dei mundo de Ias formas!
(De Poemas, 1925-1929)
SOLIDARIDAD
Estoy unido por la herencia dei espíritu y la sangre
al mártir, al asesino, al anarquista;
estoy unido
a las parejas en la tierra y en el aire,
al vendedor de la esquina,
al padre, al mendigo, a la mujer de la vida,
al mecánico, al poeta, al soldado,
al santo y al demónio
hechos a mi imagen y semejanza.
(De El visionário, 1930-1933)
EL HOMBRE Y EL AGUA
Las manos tienen hélices, tempestades y brújulas.
Los pies guardan navios
que enfilan hacia Oriente
el ojo tiene peces,
la boca, arrecifes de coral;
los oídos tienen noches, poios y lamentos de olas.
La vida es tan marina.
(De Los cuatro elementos, 1935)
Murilo Mendes
Pintura de Cândido Mendes