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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


JORGE DE LIMA

(1895 — 1953)

 

 

Jorge de Lima nasceu em União dos Palmares (AL), em 23 de abril de 1893. Filho de José Mateus de Lima, um senhor de engenho, e de Delmina Simões de Mateus de Lima. Cursou parte do primário no município natal, e viria a ser completado no Instituto Alagoano, em Maceió. Transferiu-se para o Colégio Diocesano de Alagoas, onde completou os “preparatórios”. Iniciou, em 1911, a faculdade de Medicina, em Salvador BA, concluindo-a em 1915, no Rio de Janeiro. Ainda em 1915 retorna a Maceió para exercer a medicina. Em 1919, elegeu-se Deputado Estadual pelo Partido Republicano de Alagoas, assumindo a Presidência da Câmara por dois anos. Em 1930, transferiu-se para o Rio de Janeiro por desavenças políticas, e ali na Capital exerceu a clínica médica e foi professor de Literatura Brasileira na Universidade do Brasil. O seu consultório na Cinelândia tornou-se famoso como centro de reunião de intelectuais e amigos. Após a queda do Estado Novo, militou na política, elegendo-se vereador no antigo Distrito Federal, pela UDN. Em 1944, candidatou-se sem êxito à Academia Brasileira de Letras. Em 1952, é fundada a Sociedade Carioca de Escritores (SOCE), da qual foi o primeiro presidente provisório. Faleceu em 15 de novembro de 1953 após longa enfermidade.

 

Em entrevista ao jornal Folha da Manhã, em 1952, Jorge de Lima disse que acordava às quatro da manhã; que só fazia visitas como médico; ouvia Mompou, Strawinsky, Bach, Mozart, Beethoven; Stendhal era o escritor estrangeiro de sua predileção. Sobre o Brasil, declarou que “É um país semicolonial, com as maiores possibilidades de ser uma verdadeira democracia e o maior país do futuro”. 

 

  

Para nós, todavia, pelo menos neste momento de nossa própria evolução, é Jorge de Lima o maior, o mais alto, o mais vasto, o mais importante, o mais original dos poetas brasileiros de todos os tempos.

Mario Faustino

 

Tudo entra no poema de Jorge de Lima concebido na febre que exalta, no sonho que dilata, no transe que confunde. E o passado junta-se ao presente. Memória e invenção, sonho e realidade, história e futuro, infância e ancestralidade confundem-se, como se, em verdade, o poeta formasse com o seu poema uma espécie de caos preparatório de onde surgirá um dia uma ordem ideal.

 

João Gaspar Simões, da apresentação ao livro Invenção de Orfeu

 

A partir do instante que ninguém tiver medo de assumir que reconhece e compreende a sua obra, aí Jorge de Lima estará sagrado como o poeta brasileiro que melhor sintetiza as possibilidades de invenção da língua portuguesa em terras brasileiras.

Salomão Sousa

 

 

 

Bibliografia: XIV Alexandrinos, Artes Gráficas, 1914; O Mundo do Menino Impossível, Casa Trigueiros, 1925; Poemas, Casa Trigueiros, 1927; Novos Poemas, Pimenta de Melo & Cia., 1929; Poemas Escolhidos. Andersen Editores, 1932; Tempo e Eternidade, Livraria do Globo, 1935 - em colaboração com Murilo Mendes; A Túnica Inconsútil, Cooperativa Cultural Guanabara, 1938; Poemas Negros, Revista Acadêmica, 1947; Livro de Sonetos, Livros de Portugal, 1949; Vinte Sonetos, ilustrações do autor, Editor V. P. Brumlik, 1949; Obra Poética, Editora Getulio Costa, - inclui produção anterior, juntamente com Anunciação e Encontro de Mira-Celi, 1950; Invenção de Orfeu, ilustração de Fayga Ostrower; Livros do Brasil, 1952. Constam aqui apenas as primeiras edições de sues livros de poemas, cabendo sinalizar que ele escreveu um livro sobre Castro Alves (Castro Alves — Vidinha), um sobre Anchieta (Anchieta), alguns outros ensaios, e cinco romances (Salomão e as mulheres, O anjo, Calunga, A mulher obscura, e Guerra dentro do beco). Sua obra tem gerado apresentações teatrais e musicais, cabendo destacar o espetáculo O Grande Circo Místico, de Edu Lobo e Chico Buarque de Hollanda, que está registrado em disco.

 

Página gentilmente organizada por Salomão Sousa.

 

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS  /  TEXTOS EM ESPAÑOL

 

 

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES

 

Lá vem o acendedor de lampiões de rua!

Este mesmo que vem, infatigavelmente,

Parodiar o Sol e associar-se à lua

Quando a sobra da noite enegrece o poente.

 

Um, dois, três lampiões, acende e continua

Outros mais a acender imperturbavelmente,

À medida que a noite, aos poucos, se acentua

E a palidez da lua apenas se pressente.

 

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:

Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,

Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

 

Tanta gente também nos outros insinua

Crenças, religiões, amor, felicidade

Como este acendedor de lampiões de rua!

 

 

CANTIGAS

 

As cantigas lavam a roupa das lavadeiras.

As cantigas são tão bonitas, que as lavadeiras ficam tão tristes, tão                              pensativas!

 

As cantigas tangem os bois dos boiadeiros! ¬

Os bois são morosos, a carga é tão grande!

O caminho é tão comprido que não tem fim.

As cantigas são leves ...

E as cantigas levam os bois, batem a roupa das lavadeiras.

 

As almas negras pesam tanto, são

Tão sujas como a roupa, tão pesadas como os bois ...

As cantigas são tão boas ...

Lavam as almas dos pecadores!

Lavam as almas dos pecadores!

 

 

ALTA NOITE QUANDO ESCREVEIS

               

À senhora Heitor Usai

 

Alta noite, quando escreveis um poema qualquer

sem sentirdes o que escreveis,

olhai vossa mão — que vossa mão não vos pertence mais;

olhai como parece uma asa que viesse de longe.

Olhai a luz que de momento a momento

sai entre os seus dedos recurvos.

Olhai a Grande Mão que sobre ela se abate

e a faz deslizar sobre o papel estreito,

com o clamor silencioso da sabedoria,

com a suavidade do Céu

ou com a dureza do Inferno!

Se não credes, tocai com a outra mão inativa

as chagas da Mão que escreve.

 

 

XV

 

A garupa da vaca era palustre e bela,

uma penugem havia em seu queixo formoso;

e na fronte lunada onde ardia uma estrela

pairava um pensamento em constante repouso.

 

Esta a imagem da vaca, a mais pura e singela

que do fundo do sonho eu às vezes esposo

e confunde-se à noite à outra imagem daquela

que ama me amamentou e jaz no último pouso.

 

Escuto-lhe o mugido ? era o meu acalanto,

e seu olhar tão doce inda sinto no meu:

o seio e o ubre natais irrigam-me em seus veios.

 

Confundo-os nessa ganga informe que é meu canto:

semblante e leite, a vaca e a mulher que me deu

o leite e a suavidade a manar de dois seios.

 

 

VINHA BOIANDO O CORPO ADOLESCENTE...

 

Vinha boiando o corpo adolescente,

belo pastor e sonho perturbado.

Deus abaixou-lhe os cílios alongados

para que ele dormindo flutuasse.

 

Ressuscita-o, Senhor, essa medusa

de sangue juvenil em rosto impúbere,

desterrado da vida, flor perdida,

irmão gêmeo de Apolo trimagista.

 

Seca-lhe a espuma que lhe inunda o peito

e as convulsões mortais que o imolaram

às Sodomas ardidas em seu leito.

 

Anjo adoecido, alheio dançarino

que dançasse em Gomorras incendiadas,

estás cansado; deita-te, menino!

 

 

A TRISTEZA ERA TANTA, TANTA A MÁGOA...

 

A tristeza era tanta, tanta a mágoa

que seu anjo da guarda resolvera

lutar com ele, lutar para lutar,

que o interesse da vida perecera.

 

Ave e serpente, círculo e pirâmide,

os olhos em fuzil e os doces olhos,

os laços, os vôos livres e as escamas.

 

Que doida simetria nesses ódios!

Que forças transcendentes aros e ângulos

alguém quis que lutassem nesse dia!

 

Ave e serpente, círculo e pirâmide:

 

Que divina constante simetria

nessa luta soturna, nessa liça

em que Deus reconstrói o eterno cisne!

 

 

O grande desastre aéreo de ontem

Para Cândido Portinari

 

Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.

 

 

XVIII

 

Éguas vieram, à tarde, perseguidas,

depositaram bostas sob as vides.

Logo após as borboletas vespertinas,

gordas e veludosas como urtigas

 

sugar vieram o esterco fumegante.

Se as vísseis, vós diríeis que o composto

das asas e dos restos eram flores.

Porque parecem sexos; nesse instante,

 

os mais belos centauros do alto empíreo,

pelas pétalas desceram atraídos,

e agora debruçados formam círculos;

depois as beijam como beijam lírios.

 

 

XXVII

 

Há uns eclipses, há; e há outros casos:

de sementes de coisas serem outras,

rochedos esvoaçados por acasos

e acasos serem tudo, coisas todas.

 

Lãs de faces, madeiras invisíveis,

visão de coitos entre os impossíveis,

folhas brotando de âmagos de bronze,

demônios tristes choros nas bifrontes.

 

Tudo é veleiro sobre as ondas íris,

condores podem ser os baixos ramos,

montes boiarem, aços se delirem.

 

Vemos ao longe sombras, e são flâmulas,

lábios sedentos, lírios com ventosas,

ódios gerando flores amorosas.

 

 

Essa Negra Fulô

 

Ora, se deu que chegou

(isso já faz muito tempo)

no bangüê dum meu avô

uma negra bonitinha,

chamada negra Fulô.

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá)

— Vai forrar a minha cama

pentear os meus cabelos,

vem ajudar a tirar

a minha roupa, Fulô!

 

Essa negra Fulô

 

Essa negrinha Fulô!

ficou logo pra mucama

pra vigiar a Sinhá,

pra engomar pro Sinhô!

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá)

vem me ajudar, ó Fulô,

vem abanar o meu corpo

que eu estou suada, Fulô!

 

vem coçar minha coceira,

vem me catar cafuné,

vem balançar minha rede,

vem me contar uma história,

que eu estou com sono, Fulô!

 

Essa negra Fulô!

 

"Era um dia uma princesa

que vivia num castelo

que possuía um vestido

com os peixinhos do mar.

Entrou na perna dum pato

saiu na perna dum pinto

o Rei-Sinhô me mandou

que vos contasse mais cinco".

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

Vai botar para dormir

esses meninos, Fulô!

"minha mãe me penteou

minha madrasta me enterrou

pelos figos da figueira

que o Sabiá beliscou".

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá

Chamando a negra Fulô!)

Cadê meu frasco de cheiro

Que teu Sinhô me mandou?

 

— Ah! Foi você que roubou!

Ah! Foi você que roubou!

 

O Sinhô foi ver a negra

levar couro do feitor.

A negra tirou a roupa,

 

O Sinhô disse: Fulô!

(A vista se escureceu

que nem a negra Fulô).

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

Cadê meu lenço de rendas,

Cadê meu cinto, meu broche,

Cadê o meu terço de ouro

que teu Sinhô me mandou?

Ah! foi você que roubou!

Ah! foi você que roubou!

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

O Sinhô foi açoitar

sozinho a negra Fulô.

A negra tirou a saia

e tirou o cabeção,

de dentro dêle pulou

nuinha a negra Fulô.

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

Cadê, cadê teu Sinhô

que Nosso Senhor me mandou?

Ah! Foi você que roubou,

foi você, negra fulô?

 

Essa negra Fulô!

 

 

VII

 

Alegria achareis neste poema

como poema ilícito, como um

corpo casual ou vão, como a memória

dura e acídula, como um homem se

conhece respirando, ou como quando

se entristece sem causa ou se doente,

ou se lavando sempre ou comparando-se

às dimensões das coisas relativas;

ou como sente os ombros de seu ser,

transmitidos e opacos, e os avós

responsabilizando-se presentes.

 

São alegrias rápidas. Lugares,

reencontrados países, becos, passos

sob as chuvas que não vos molharão.

 

 

De

INVENÇÃO DE ORFEU

 

CANTO I

 

XXVI

 

Qualquer que seja a chuva desses campos

devermos esperar pelos estios;

e ao chegar os serões de os fiéis enganos

amar os sonhos que restaram frios.

 

Porém se não surgir o que sonhamos

e os ninhos imortais forma vazios,

há de haver pelo menos por ali

os pássaros que nós identificamos.

 

Feliz de quem com cânticos se esconde

e julga tê-los em seus próprios bicos,

e ao bico alheio em cânticos responde.

 

E vendo em torno as mais terríveis cenas,

possa mirar-se as asas despenadas

e contentar-se com as secretas penas.

 

 

CANTO III

 

XVIII

 

No dia seguinte:

chamados da terra,

o poema de leva,

te dana, te agita,

te vinca de cruzes,

te envolve de nuvens.

Quem sabe aonde vai

parar no outro dia?

 

 

CANTO VI