IACYR ANDERSON FREITAS
Nasceu em Patrocínio do Muriaé, Minas Gerais, em 1963. Engenheiro civil e mestre em Teoria da Literatura. Publicou 13 livros de poesia e três de ensaio literário, mereceu vários prêmios e sua obra vem sendo traduzida a outros idiomas.
“Aproveitando a visibilidade dada a um Estado literalmente poético, que desde os árcades ao profundo Guimarães Rosa alcançou os cumes da originalidade, descobre-se um poeta contemporâneo, Iacyr Anderson Freitas, que representa uma recente mina entre essas tantas de inesgotável minério”. FABRICIO CARIPINEJAR
“Iacyr Anderson Freiras não é só uma promessa, mas uma afirmação, atesta-o a firmeza de sua poesia, abonada por vasta fortuna crítica relacionada no final do volume. É raro um poeta nascer pronto.” SALOMÃO SOUSA
Observación: hay una segunda página de poemas de Iacyr Anderson Freitas. Para leer texto exclusivamente en Español, ir para Poesia Iberoamericana »
PRIMEIRAS LETRAS
São Paulo: Nankin; Juiz Fora: FUNALFA, 2007
(Seleção de poemas)
APENAS ELE
tudo muito quieto
não fosse o menino
brincando
na memória
eis minha infância
entre os móveis
como o retrato
de cecília
& alguém toca o piano
apenas ele
destoa
da mobília
DUBLAGEM DOS DOMINGOS
dizer o quê? quando? onde?
domingo me não suporta
ergue potros escoiceia
em maços de missa
perco o apetite fico troncho
domingo então desunha
gordo parece um porco de tão nobre
meu hábito suportasse as etiquetas
copos para isso taças para aquilo
ordenação dos garfos os ismos
fico tolo tolo ouviram?
domingo é para mansos para
a alma a outra a semi-igual
a que nos encontra sempre
fugindo da foto pelos fundos
do quintal
IMARGEM
de todos os poemas
apenas um
não me foi possível
enquanto as horas
desfiavam
seu limo
nos quartos
mil silêncios
teimavam
em círculos
ali
à espreita de saltos
que cortassem o escuro
como se
de outros ossos
fossem caiados
os muros
IGREJA DO PILAR
guardas defloram mocinhas
santos barrocos sem ofício
no tédio
os morcegos que espiam
OUTURVO / IV
ergo-me
dos restos
que convergem
no final do idílio
sorvo
de teus olhos
a fratura
essa cópula inconclusa em teus
pentelhos
estátua de teu corpo
em demanda
de outro porto
QUARADOURO
São Paulo: Nankin; Juiz Fora: FUNALFA, 2007
(Seleção de poemas)
Iacyr extrai novos sentidos das palavras gastas, na urdidura de sua arquitextura. Ilumina discursos obscuros: ossos e cal refulgem. É um poeta de difícil abordagem mas logo se faz fluído , leve, vivaz.
Antonio Miranda
PRESENÇA
Todas as noites nesta espera.
Tudo excessivo, sufocante.
O céu, até mesmo o céu
em demasia.
Súbito
estamos sós
diante da casa.
Os viventes perderam-se: insídia,
asco? Um ramo de flores
fustiga o instante.
Ah,
a velha falta de ar, os retratos
irrefutáveis, o ruir
de datas não sentidas
e a vaga lembrança de um pomar.
Na sala,
a presença terrível. Os tumbeiros.
Um mar de ocasos
nos devora (eis que devemos
enfrentá-la, essa presença).
Ainda que pudéssemos implorar
nova permuta
- as reses imaginárias, alqueires
de sombra ou lírio –
nossa herdade não se afastaria:
passado o périplo, resistiríamos,
com o tronco
já tombando das coxias.
FOSSE A HORA DISSOLUTA
Fosse a hora dissoluta,
a ferrugem nos vidros,
o escuro fluir
de monotonais castigos,
tudo começando alhures, numa frase.
Antes não a soubesse.
Agora toma-me o quarto:
a noite
busca a forma de seu corpo.
Um rubor
de a evidência de tudo
e o conhecimento de tudo
sem palavra ou mapa.
Dos bolsos brota
a contemplação desses ocasos,
o furto que um dia corrompeu-me
para a negação de todos os dias,
até que a terra, o ar,
os apelos súbitos de um domingo
me convoquem.
ESTUÁRIO
as águas empurraram nossos antepassados
para a encosta
ficamos deserdados
nos bolsos
ainda é possível guardar
chuvas distantes
e o mesmo desamparo
que defuma nossos cargos:
tão entregue
à tirania
do que jamais
findaria
SÍSIFO NO ESPELHO 17
difícil demover o dia
em que mortos me trabalharam
o mar
tem a voz da fazenda
mas entre o muro e os autos
é impossível ouvi-lo
há muito içaram meu corpo
de cada versículo
da escritura
estou só entre os mortos deste dia
com minha ausência invento
o algoz que se afigura
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NO QUARTO
além dessas paredes
se exaure o mundo
o tempo é somente
o que se vê no quarto
lá fora
uma vertigem
que se apaga sempre
onde a vista alcança
nesta noite (a mesma
do nascimento de tudo)
só nosso quarto existe
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