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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




IACYR ANDERSON FREITAS

 

Nasceu em Patrocínio do Muriaé, Minas Gerais, em 1963.  Engenheiro civil e mestre em Teoria da Literatura. Publicou 13 livros de poesia e três de ensaio literário, mereceu vários prêmios e sua obra vem sendo traduzida a outros idiomas.

“Aproveitando a visibilidade dada a um Estado literalmente poético, que desde os árcades ao profundo Guimarães Rosa alcançou os cumes da originalidade, descobre-se um poeta contemporâneo, Iacyr Anderson Freitas, que representa uma recente mina entre essas tantas de inesgotável minério”.            FABRICIO CARIPINEJAR

“Iacyr Anderson Freiras não é só uma promessa, mas uma afirmação, atesta-o a firmeza de sua poesia, abonada por vasta fortuna crítica relacionada no final do volume. É raro um poeta nascer pronto.”    SALOMÃO SOUSA 
Observación: hay una segunda página de poemas de Iacyr Anderson Freitas. Para leer texto exclusivamente en Español, ir para Poesia Iberoamericana »

 


PRIMEIRAS LETRAS

São Paulo: Nankin; Juiz Fora: FUNALFA, 2007

 

(Seleção de poemas)

 

APENAS ELE

 

tudo muito quieto

não fosse o menino

brincando

na memória

 

eis minha infância

entre os móveis

como o retrato

de cecília

& alguém toca o piano

    apenas ele

    destoa

    da mobília

 

 

DUBLAGEM DOS DOMINGOS

 

dizer o quê? quando? onde?

 

domingo me não suporta

ergue potros      escoiceia

 

em maços de missa

perco o apetite         fico troncho

domingo então desunha

gordo parece um porco de tão nobre

 

meu hábito suportasse as etiquetas

copos para isso taças para aquilo

ordenação dos garfos  os ismos

fico tolo tolo ouviram?

domingo é para mansos para

a alma a outra a semi-igual

a que nos encontra sempre

fugindo da foto pelos fundos

do quintal

 

 

IMARGEM

 

de todos os poemas

apenas um

não me foi possível

 

enquanto as horas

         desfiavam

                   seu limo

nos quartos

         mil silêncios

                   teimavam

         em círculos

 

ali

à espreita de saltos

que cortassem o escuro

         como se

de outros ossos

                   fossem caiados

os muros

 

 

IGREJA DO PILAR

 

guardas defloram mocinhas

 

santos barrocos sem ofício

no tédio

 

os morcegos que espiam

 

 

OUTURVO / IV

 

ergo-me

dos restos

que convergem

no final do idílio

 

sorvo

de teus olhos

a fratura

         essa cópula inconclusa em teus

     pentelhos

 

estátua de teu corpo

em demanda

de outro porto

 

 

 

 

 

QUARADOURO
São Paulo: Nankin; Juiz Fora: FUNALFA, 2007

 

(Seleção de poemas)

 

Iacyr extrai novos sentidos das palavras gastas, na urdidura de sua arquitextura. Ilumina discursos obscuros: ossos e cal refulgem. É um poeta de difícil abordagem mas logo se faz  fluído , leve, vivaz.

Antonio Miranda

 

PRESENÇA

 

Todas as noites nesta espera.

Tudo excessivo, sufocante.

O céu, até mesmo o céu

em demasia.

 

Súbito

estamos sós

diante da casa.

Os viventes perderam-se: insídia,

asco? Um ramo de flores

fustiga o instante.

 

Ah,

a velha falta de ar, os retratos

irrefutáveis, o ruir

de datas não sentidas

e a vaga lembrança de um pomar.

 

Na sala,

a presença terrível. Os tumbeiros.

Um mar de ocasos

nos devora (eis que devemos

enfrentá-la, essa presença).

 

Ainda que pudéssemos implorar

nova permuta

- as reses imaginárias, alqueires

de sombra ou lírio –

nossa herdade não se afastaria:

 

passado o périplo, resistiríamos,

com o tronco

já tombando das coxias.

 

 

FOSSE A HORA DISSOLUTA

 

Fosse a hora dissoluta,

a ferrugem nos vidros,

o escuro fluir

de monotonais castigos,

tudo começando alhures, numa frase.

 

Antes não a soubesse.

Agora toma-me o quarto:

a noite

busca a forma de seu corpo.

 

Um rubor

de a evidência de tudo

e o conhecimento de tudo

sem palavra ou mapa.

Dos bolsos brota

a contemplação desses ocasos,

o furto que um dia corrompeu-me

para a negação de todos os dias,

até que a terra, o ar,

os apelos súbitos de um domingo

me convoquem.

 

 

ESTUÁRIO

 

as águas empurraram nossos antepassados

para a encosta

ficamos deserdados

 

nos bolsos

ainda é possível guardar

chuvas distantes

e o mesmo desamparo

que defuma nossos cargos:

 

tão entregue

à tirania

 

do que jamais

findaria

 

 

SÍSIFO NO ESPELHO  17

 

difícil demover o dia

em que mortos me trabalharam

 

o mar

tem a voz da fazenda

mas entre o muro e os autos

é impossível ouvi-lo

 

há muito içaram meu corpo

de cada versículo

da escritura

 

estou só entre os mortos deste dia

com minha ausência invento

o algoz que se afigura

 

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NO QUARTO

 

além dessas paredes

se exaure o mundo

 

o tempo é somente

o que se vê no quarto

 

lá fora

uma vertigem

que se apaga sempre

onde a vista alcança

 

nesta noite (a mesma

do nascimento de tudo)

só nosso quarto existe