HAROLDO DE CAMPOS
(1929-2003)
Nasceu em São Paulo em 1929. Formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo em 1952, e no mesmo ano fundou, com o irmão Augusto de Campos e Décio Pignatari, o Grupo Noigandres de poesia concretista. Trabalhou como tradutor, crítico e teórico literário e foi professor no curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da Literatura da PUC-SP. Em 1992, recebeu o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano e, em 1999, o Jabuti de poesia, com o livro Crisantempo: No Espaço Curvo Nasce Um.
Principais obras: Auto do Possesso (1950), Servidão de Passagem (1962), Xadrez de Estrelas (1976), Galáxias (1984), A Educação nos Cinco Sentidos (1985), Finismundo (1990), Os Melhores Poemas (1992), Crisantempo (1998), A Máquina do Mundo Repensada (2000).
Veja sitio: http://www2.uol.com.br/haroldodecampos/
TEXTO EM PORTUGUÊS / TEXTO EN ESPAÑOL /
TEXTS IN ENGLISH
THALASSA THALASSA
I
Não sabemos do Mar.
O Mar varonil com seus testículos de ouro
O Mar com seu coração cardial de folhas verdes
E suas imensas brânquias de peixe aprisionado
O Mar, não esse que dá às nossas costas
Pantera de espuma que as mulheres domesticam
Em suas redes de látex
Rei de bizâncio e ungüento movendo entre as esposas
As mãos manicuradas.
Não sabemos do Mar.
O dia nos confina entre a pobre matéria a madeira calada
Entre os pássaros ocos, os cavalos de força e a mucosa eletrônica
E à noite adoramos o Sol de Galalite e o Poderoso Az de Espadas
Enquanto os cinocéfalos correm sobre os nossos telhados
Aguardando a Mulher-Nua que há de aparecer com seus pequenos seios
Bela como o almíscar que rói as pituitárias E as zibelinas mortas em torno de suas nádegas de prata.
A obra inclui VII partes e apresentamos a I como representativa do longo poema.
Extraído de De NOIGANDRES I: Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos.
Prólogo y selección de Hilda Scarabótolo de Codima; traducción de Antonio Cisneros.
Lima: Centro de Estudos Brasileiros, 1983.
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De
Denise Milan / Haroldo de Campos
metapoemas / metapoems
tradução Regina Alfarano
São Paulo: DCL Difusão Cultural do Livro
patrocínio: Grupo Votorantim
a escultura da voz a pedra
uma voz que brilha e tem forma
uma voz que tem volume
voztactil
a pulsão do cristal
quer
a vocação do cristal
quer a forma
o cristal quer cristalografar-se
gramática do cristal:
a língua que falta ao minério
é o cristal
o cristal é o poeta do minério
descarna os corpos solidos
e chega ao ectoplasma
do sol
o cristal aclara
o sol ensolara
a escultura transmuda a pedra
a pedra muda fala
escultura: metáfora da tradução
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o seccionar do mundo
o circunlóquio do círculo
o circum-volver do cérebro
a escultura
o círculo a cesura
labirinto de ranhuras
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o sol das entranhas
rebenta
no ventre da vida
olho polifêmico
pólen
de um girassol roxo
labareda
oclusa
numa gruta
azul
na calota urbana
acesso ao mundo subterrâneo
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Denise Milan (escultura) Urbe Cristalina,l995
Photos: TV Cultura - Metropolis - instalação / installationn
são paulo
urbe multilingue
sob o signo taumatúrgico de anchieta
escrevendo na areia
versos de areia
para o ouvido do vento
português espanhol latim tupi
signo poliglota da origem
são paulo
orquidário de arranha-céus
mandíbula carbonária
movendo mós de cimento
no trópico entrópico
migração de línguas
nestiçagem de línguas
mastigação de línguas
português tupi iorubé
italiano alemão
francês inglês
espanhol árabe hebraico
japonês chinês coreano
russo armênio grego
ecumênico de línguas
a areia
se concreta
denise urbaniza
um polipeiro de formas
cristais multitudinários
TEXTO EN ESPAÑOL
El poeta y ensayista brasileño Haroldo de Campos (São Paulo, 1929) es una de las más relevantes figuras de la actual literatura latinoamericana. Fundador, en los años 50, del movimiento de la poesía concreta, su obra lírica – ya traducida a numerosas lenguas – abarca – ya traducida a numerosas lenguas – abarca desde Auto del poseso (1949-1950) hasta el reciente La educación de los cinco sentidos (1985). Autor, asimismo, de una ya larga y decisiva obra crítico-ensayística, Haroldo de Campos representa en la literatura de nuestro tiempo la más lúcida y comprometida recepción del legado de la modernidad literária, a la que há contribuído, a su vez, con la aportación de una radicalidad y una amplitud de miras que han supuesto una redefinición de lo moderno mismo.
Traducción de Antonio Cisneros.
THALASSA THALASSA
I
Nada sabemos del Mar.
EI Mar varonil con sus testículos de oro
El Mar con su corazón cardial de hojas verdes
Y sus inmensas branquias de pez aprisionado
EI Mar, no el que da a nuestras costas
Pantera de espuma que las mujeres domestican
En sus redes de látex
Rey de ungüento y bizancio que entre esposas agita
Las manos maquilladas.
Nada sabemos del Mar.
EI día nos confina en la pobre materia de madera calada
Entre los pájaros huecos, los caballos de fuerza y la mucosa
electrónica
Y llegada la noche adoramos el Sol de Galalite y el As de Espadas
Poderoso
Mientras los cinocéfalos recorren nuestros tejados
A la espera de la Mujer-Desnuda que habrá de aparecer con sus
pequeños senos
Bella como el almizcle que roe las pituitarias
Y las cibelinas muertas en torno a sus nalgas de plata.
[POEMA]
Traducción de Jorge Boccanera
y Saúl Ibargoyen
1.
poesía en tiempo de hambre
hambre en tiempo de poesía
poesía en lugar del hombre
pronombre en lugar del nombre
hombre en lugar de poesía
nombre en lugar del pronombre
poesía de dar el nombre
nombrar es dar el nombre
nombro el nombre
nombro el hombre
en medio del hambre
nombro el hambre
2.
de sol a sol
soldado
de sal a sal
salado
de paliza a paliza
apaleado
de jugo a jugo
chupado
de sueño a sueño
soñado
sangrado
de sangre a sangre
De
Haroldo de Campos
LA EDUCACIÓN DE LOS CINCO SENTIDOS
Traducción, prólogo y notas complementarias de
ANDRÉS SÁNCHEZ ROBAYMA
Barcelona: AMBIT, 1990
ISBN 84-87342-57-4
esses trigênios’ vocalistas
/ que idéia é essa de querer plantar
ideogramas no nosso quintal
(sem nenhum laranjal Oswald)?
e (Mário) desmanchar
a comidinha das crianças?
poesia pois é
poesia
te detestam
lumpenproletária
voluptuária
vigária
elitista piranha do lixo
porque não tens mensagem
e teu conteúdo é tua forma
e porque és feita de palavras
e não sabes contar nenhuma estória
e por isso és poesia
como Cage dizia
ou como
há pouco
augusto
o augusto:
que a flor flore
o colibri colibrisa
e a poesia poesia
a esos trigenios vocalistas
/ ¿ qué Idea es esa de querer plantar
ideogramas en nuestro corral
(sin ningún color local Oswald)?
y (Mario) estropear
la comidita de los niños?
poesía pues si
poesía
te detestan
lumpenproletaria
voluptuária
falsaria
elitista piraña de la basura
porque no tienes mensaje
y tu contenido es tu forma
y porque estás hecha de palabras
y no sabes contar ninguna historia
y por eso eres poesía
como Cage decía
o como
hace poco
augusto
el augusto:
que la flor flora
el colibri colibriza
y la poesía poesía
JE EST UN AUTRE: AD AUGUSTUM
irmão
neste re / verso do ego
te vejo
mais plus que mim
plusquanfuturo poetamenos
mais
e no trobar clus
desse nó de nós
a poesia
sister incestuosa
prima pura impura
em que
siamesmos
uni-
somos
outro
JE EST UN AUTRE: AD AUGUSTUM
hermano
en este re/verso del ego
te veo
más plus que mi
plusquanfuturo poetamenos
más
y en el trobar clus
de esa nuez de lo
nuestro
la poesía
sóror incestuosa
prima pura impura
en que
siamismos
uni-
somos
outro
MINIMA MORALIA
já fiz de tudo com as palavras
agora eu quero fazer de nada
MINIMA MORALIA
ya hiced de todo con las palabras
ahora quiero hacer de nada
LE DON DÚ POÈME
um poema começa
por onde ele termina:
a margem de dúvida
um súbito inciso de gerânios
comanda seu destino
e, no entanto ele começa
(por onde ele termina) e a cabeça
grisalha(branco topo ou cucúrbita
albina laborando signos) se
curva sob o dom luciferino –
domo de signos: e o poema começa
mansa loucura cancerígena
que exige estas linhas do branco
(por onde ele termina)
LE DON DÚ POÈME
un poema comienza
allí donde termina:
el margen de la duda
súbito inciso de geranios
ordena su destino
sin embargo comienza
(allí donde termina) y la cabeza
grisácea (blanca cima o cocúrbita
albina laborando signos)
se curva bajo el Don luciferino –
domo de signos: y el poema comienza
mansa locura cancerígena
que exige estas líneas al Blanco
(allí donde termina)
EX/PLICAÇÃO
não há um
sentido único
num
poema
quando alguém
começa a ex-
plicá-lo e
chega ao fim
en-
tão só fica o
ex
do ponto de
partida
beco
(tente outra
vez)
sem saída
EX/PLICACIÓN
no hay un
sentido único
en un poema
cuando alguien
comienza a ex-
plicarlo y
Ilega hasta el fin-
al entonces
sólo queda el
ex
del punto de
partida
callejón
(inténtelo de
nuevo)
sin salida
O HOMEM E SUA HORA
(IN MEMORIAM: MÁRIO FAUSTINO)
é o demônio de Maxwell
deus termodinâmico?
é o diabo na garrafa
lançada no oceano?
é a bruxa solta no vento
ganhando no olho mecânico?
é o acaso todo de branco
na curva do meridiano?
é o anjo com seu archote?
é o demo com seu fagote?
é o homem com sua sorte?
é a morte com seu serrote
é a morte – serra de lima
é a morte – e serra de cima
EL HOMBRE Y SU HORA
(IN MEMORIAM: MARIO FAUSTINO)
¿es el demônio de Maxwell
dios termodinámico?
¿es el diablo en la garrafa
lanzada en el oceano?
¿es la bruja suelta en el viento
que gana en el ojo mecânico?
¿es el azar todo de Blanco
en la curva del meridiano?
¿es el Angel con su na antorcha?
¿es el diablo con su fagot?
¿es el hombre con su suerte?
es la muerte con su serrucho
es la muerte – sierra de lima
es la muerte – sierra por cima
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TEXTS IN ENGLISH
De
Denise Milan / Haroldo de Campos
metapoemas / metapoems
tradução Regina Alfarano
São Paulo: DCL Difusão Cultural do Livro
patrocínio: Grupo Votorantim
the sculpture bestowb voice to the stone
a voice that glistens and bears a shape
a voice that carries volume
tactile voice
the pulsing of the crystal
searches for
the urging of the crystal
searches for form
the crystal in its search for crystallography
the grammar of crystal:
the language minerals lack is
crystal
crystal is the poet among the minerals
it strips solid bodies
and reaches the ectoplasm
of the sun
the crystal cleans
the sun beams
the sculpture transforms the stone
the silent stone speaks
sculpture: translation's metaphor
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the sectioning of the world
the circumloquium of the circle
the circum-volution of the brain
the sculpture
the circle the caesura
labyrinth of grooves
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the sun from the bowels
bursts out
in the womb of life
polyphemic eye
pollen
of a purple sunflower
sheltered
flame
in a blue
cave
in the urban calotta
access to the underground world
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Denise Milan (escultura) Urbe Cristalina,l995
Photos: TV Cultura - Metropolis - instalação / installationn
são paulo
multilingual city
under the thaumaturgical seal of anchieta
writing on sand
verses of sand
for the ears of wind
portuguese spanish latin tupi
polyglot sign of origins
são paulo
orchid bed of skyscrapers
carbonary mandible
stirring chunks of cement
in the entropic tropic
migration of languages
blending of languages
mastication of languages
portuguese tupi Yoruba
italan german
french english
Spanish Arabic hebrew
japanese chinese Korean
russian armenian greek
ecumenism of languages
sand
solidities
info mineral
denise urbanizes
a polypary of forms
multitudinary crystals
polis of prisms
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