ÉSIO MACEDO RIBEIRO
Nasceu em Frutal, Minas Gerais, Brasil, em 1963. Mestre em Letras – Teoria Literária e Literatura Comparada e Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo – USP. É fotógrafo, bibliófilo, pesquisador e curador de exposições. Autor dos livros de poesias E Lúcifer dá seu beijo (1993), Marés de amor ao mar (1998), Pontuação circense (2000) e 40 anos (2007), e dos ensaios Brincadeiras de palavras: a gênese da poesia infantil de José Paulo Paes (1998) e O riso escuro ou pavão de luto: um percurso pela poesia de Lúcio Cardoso (EDUSP/Nankin, 2006). Organizador, com Marília de Andrade, do livro de memórias Maria Antonieta d’Alkmin e Oswald de Andrade: marco zero (2003). Sua tese de doutorado está sendo preparada para se transformar no livro Poesia completa (edição crítica), de Lúcio Cardoso.
O poeta ÉSIO MACEDO RIBEIRO numa das sessões magnas da I BIENAL INTERNACIONAL DE POESIA DE BRASILIA (de 3 a 7 de setembro de 2008), no auditório do Museu Nacional de Brasília.
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
pontuação circense
Penso em colocar vírgulas em pontos interrogativos
e transformar o fim no meio da frase,
nem que coloque uma crase onde não case.
O círculo bonito do ponto final na agenda do santo mal,
que escorre por esta pestilenta exclamação: Oh!
E ponto-e-vírgula na brincadeira de roda que rodeia
a circense melancolia da melancia pendurada no pescoço do porco,
que estrebucha de peso e de medo diante da platéia mais do que atônita,
que foge e vai de encontro a uma barra
seguida por dois pontos e começando aí, duas lindas
e esguias aspas entre o que ocorre e o que já-foi,
fechando aí as aspas com duas ou três divisões
dos leões que já fugiram das jaulas,
que estavam entre parênteses
ao lado esquerdo do picadeiro.
as amigas
Na casa do avô,
no tempo das mangueiras pejadas,
Jacira e uma prima enlaçavam-se
num tambor cheio d'água.
No quintal,
líquidos desejos saciados.
Naquele tempo o roçar das coxas delas
nunca roçou nossos cérebros.
Enquanto elas gozavam,
a gente chupava bourbons perfumadas.
Às três da tarde sempre era "hora do lanche".
do sacrossanto
Um buraco negro fere a noite.
Hóstias e hostilidades são entregues
pelos sacrílegos profetas de Deus.
Sacolinhas correm de mão em mão,
menos óbolos são dados
e menos ósculos são deitados
nas faces pias.
As igrejas carregam o ouro e a solidão do mundo.
no limiar do fim
Viver hoje é angústia.
A intoxicação aumenta continuamente.
Febres, silêncios, dias sem-fim.
Consomem váliuns em noites férteis
homens de outras vertigens.
A igreja ainda peca na figura de seus papas.
Os monstros vêm dos esgotos
e dão na extensão do cotidiano.
Não mais se houve o balir das ovelhas
nem o ladrar dos cães.
A mosca insignificante
ainda pousa em nossa sopa monumental.
A angústia ociosa e melancólica
busca o nada absoluto, resoluta.
Ainda são postos ovos doentes
em ninhos nunca permitidos.
Filhos nascem a toda hora
e proliferam as águas salobras dos rios poluídos
até que não possam mais respirar.
os homens-caracóis
Os homens-caracóis
estão soltos pelas ruas do mundo.
Dos mundos terceiros.
Os homens-caracóis
carregam suas casas pelas avenidas.
Cobertores listrados.
Flatos, solstícios,
fogos de verdade são soltos,
nas nesgas do dia,
nas glebas da agonia.
Os homens-caracóis se enfeitam de caixotes, papelões
e os holofotes dos autos brilham suas escuridões.
Desassossego.
Sob as marquises,
sob as pontes,
sob o sub.
Os homens-caracóis
vivem nos centros,
nos dentros,
nos antros,
reis de todos os palácios modernos.
Os homens-caracóis contornam os ohs, os uis, os ais,
em silêncios fractais
fundamentais,
necrosando a noite dos doces mortais.
conteúdo
Minha poesia não contém corantes,
acidulantes, conservantes,
vitaminas, sais minerais,
proteínas ou qualquer outro produto químico ou natural.
Minha poesia não tem dobras,
curvas enigmáticas,
compostura, não anda atrás de ninguém.
Só é, só se mantém e o tempo faz vento
sobre as folhas de papel.
Minha poesia é meu choro longo,
largo, solto, amplo.
Minha poesia vive a vida das coisas obscuras.
Poemas extraídos de PONTUAÇÃO CIRCENSE. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2000.128 p.
Indicado por Ronaldo Cagiano, em maio 2007.
LIVROS ANTERIORES
E LUCIFER D’A SEU BEIJO
São Paulo: Massao Ohno, 1993
FOME OU SERTÃO
Veja
o verde vasto, pasto morto.
Chore
o louco pouco resto.
Reto,
resta sol rol de mãos,
enquadrando espaços,
enchendo o chão de capim.
MARÉS DE AMOR AO MAR
São Paulo: Arte Pau Brasil, 1998
VI
Estirados corpos em cio,
entontecidos, não-imunes, inumanos,
besuntados,
chamando gaivotas e golfinhos
e a areia se partindo pelo riso dos pés.
Trilhos de brilhos,
águas abissais, colossais,
túmidas e tímidas,
acalentando corpos e calores.
Placidez vertical em luz.
40 ANOS
Edição comemorativa dos 40 anos do poeta,
40 exemplares numerados e autografados.
São Paulo: Giordanus, 2007.
II
As noites são o estrume semeado nas roseiras
de ontem.
Luz cega que o ventre verte pelas guelras.
Viagens reais e irreais.
Nem palafita nem palácio
¾ a minha vida.
Quantas vezes
entre a masmorra
e o precipício?
Quantas vezes terei
enxovalhado a precisão do ritmo?
Quantas vezes terei vestido
e despido
meus princípios e fantasias?
Quantas vezes se multiplicou em mim
o dilúvio das sensações?
Quanto tempo
quarenta anos de estrada
mede de vida?
Antonio Miranda e Esio Macedo Ribeiro (Brasília 2007)
Foto: Robson Corrêia de Araújo |
TEXTOS EN ESPAÑOL
el niño vladimiro
Baja de la montaña
con sus piernas cortas,
con su frágil cuerpo,
con su poco tiempo.
Pero la voz suena en mi corazón,
baja por mi alma,
hace erizar mis pelos.
El niño lnka de Machu Picchu
nos despide,
en nombre de su país,
en nombre de Dios, de todo los dioses
y su grito de hambre y dolor,
y de fuerza rompe
todo,
flota por el aire,
como un condor de guardia,
bajando pronto,
junto al autobús,
que zigzaguea por la montaña.
El sonido de su voz
y su gesto tan decidido,
apasionado,
queda en mí:
GOOOOOOOOOOOOD BYEEEEEEEEEEEEE!!!!!!!!!!!
Out. 1998
La rueda de la locura
A Rubens Corrêa
Traducción de Leo Lobos
La “o” de locura,
Es un círculo
Que gira gira gira
La rueda de la locura,
Gira a la persona
Que gira gira gira
El dolor de la locura,
Duele en la persona
Que gira gira gira
La fe de la locura,
Cree en la persona
Que gira gira gira
Girar con la locura
Es gritar
Que gira gira gira
María
Traducción de Leo Lobos
Después de dar clases un día cualquiera
María volvió a casa,
como siempre,
Para dar almuerzo a los pequeños.
Pero aquel no era un día cualquiera.
Al entrar
vio a uno de sus hijos muerto sobre el fuego de la cocina.
No dijo nada.
Cubierta por una manta vaga por las calles.
Todos ríen de ella.
Gritan
La ofenden.
Ella les devuelve reverencias de reina
destronada.
En las tardes los niños en coro cantan su nombre.
Ella corre tras ellos, que corren
Hechizados e inocentes.
Lo estético lo concreto
A Oswald de Andrade
Traducción de Leo Lobos
Hay una mujer
sobre
el Viaducto del Té
que se contorsiona
sin pensar
ira ella a saltar sobre el Jardín suspendido
del Valle de Anhangá,
o saltara al cajón de autos que
rápidos van sobre los excrementos concretos
Riesgos
Traducción de Leo Lobos
Entro debajo de los autos en movimiento.
Salto de los viaductos.
Salto de las ventanas de los edificios.
Buceo en las cataratas del Iguazú.
Nado en el mar de Hawai.
Vuelo en alas delta.
Navego en balsa en un mar bravío.
Salto de paracaídas.
Son riesgos que quiero correr.
Ya no quiero estar aquí.
Enigma
Traducción de Leo Lobos
Hay un niño
Que llora por una cosa
Que ni nombre tiene
La gente mira al niño
La cosa.
Reímos,
pues sabemos que encima de las nubes
hay estrellas
en caos danzantes
El velador
Traducción de Leo Lobos
Ningún sonido
de bocina,
de agitación,
de locura.
El silencio sería sepulcral,
si no fuera por ese despierto,
que vela el sueño del mundo.
Espacios
Traducción de Leo Lobos
El día es soledad
el dolor es soledad
el amor es soledad
y yo estoy solo
solo eso.
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