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VINICIUS DE MORAES
(1913-1981)
1913-1981. Nasceu e morreu no Rio de Janeiro, cidade que cantou e onde amou fervorosamente. Poeta, diplomata, compositor em parceria com os maiores nomes da música popular brasileira desde a bossa nova ao samba e outros ritmo, até composições eruditas, com Tom Jobim, Baden Powel, etc.
TEXTOS EN ESPAÑOL
En Français
See also: TEXTS IN ENGLISH & PORTUGUESE
EN ITALIANO
POESIA INFANTIL
De
O FALSO MENDIGO
Poemas de Vinicius de Moraes
Ilustrados com xilogravuras de
Luis Ventura
Rio de Janeiro: Editora Fontana, 1978
Poemas selecionados por Marilda Pedroso
Projeto gráfico de Gastão de Holanda e Robson Schiamé,
edição limitada a 200 exemplares numerados, assinadas pelo Autor, em 1978.
Livro impresso em papel fitrante, com gravuras assinadas pelo artista, folhas soltas
em estojo de luxo. Exemplar n. 67 da coleção Antonio Miranda.
O FALSO MENDIGO
Minha mãe, manda comprar um quilo de papel almaço na venda
Quero fazer uma poesia.
Diz a Amélia para preparar um refresco bem gelado
E me trazer muito devagarinho.
Não corram, não falem, fechem todas as portas a chave
Quero fazer uma poesia.
Se me telefonarem, só estou para Maria
Se for um trote, me chama depressa
Tenho um tédio enorme da vida.
Diz a Amélia para procurar a "Patética" no radio
Se houver um grande desastre vem logo contar
Se o aneurisma de dona Ângela arrebentar, me avisa
Tenho um tédio enorme da vida.
Liga para vovó Nenem, pede a ela uma ideia bem inocente
Quero fazer uma grande poesia.
Quando meu pai chegar tragam-me logo os jornais da tarde
Se eu dormir, pelo amor de Deus, me acordem
Não quero perder nada na vida.
Fizeram bicos de rouxinol para o meu jantar?
Puseram no lugar meu cachimbo e meus poetas?
Tenho um tédio enorme da vida.
Minha mãe estou com vontade de chorar.
Estou com taquicardia, me da um remédio
Não, antes me deixa morrer, quero morrer, a vida
Já não me diz mais nada
Tenho horror da vida, quero fazer a maior poesia do mundo
Quero morrer imediatamente.
Fala com o Presidente para fecharem todos os cinemas
Não aguento mais ser censor.
Ah, pensa uma coisa, minha mãe, para distrair teu filho
Teu falso, teu miserável, teu sórdido filho
Que estala em força, sacrifício, violência, devotamento
Que podia britar pedra alegremente
Ser negociante cantando
Fazer advocacia com o sorriso exato
Se com isso não perdesse o que por fatalidade de amor
Saber ser o melhor, o mais doce e o mais eterno da tua
[puríssima carícia.
SONETO DO CAFÉ LAMAS
No Largo do Machado a pedida era o "Lamas"
Para uma boa média e uma "canoa" torrada
E onde a noite cumpria ir tomar umas Brahmas
E apanhar uma zinha ou entrar numa porrada.
Bebendo, na tenção de putas e madamas
Batidas de limão até de madrugada
Difícil era prever se o epílogo das tramas
Seria algum michê ou alguma garrafada.
E em meio a cafetões concertando tramóias
Estudantes de porre e mulatas bonitas
Sem saber se ir dormir ou ir na Lili das Jóias
Ordenar, a cavalo, um bom filé com fritas
E ao romper da manhã, não tendo mais aonde
Morrer de solidão no reboque de um bonde.
Itapuã, 1973
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De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vive-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como uma bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-=se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
POEMA DE NATAL
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
De
Vinicius de Moraes
MEU TEMPO É QUANDO
Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil/
Arvoredo Produções, 1990.
Capa: retrato por Scliar
O VERBO NO INFINITO
Ser criado, gerar-te, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar.
Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.
E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito
E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...
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TEXTOS EN ESPAÑOL
Traducción de José Antonio Pérez
En todo, le seré a mi amor atento
Antes, y como tal celo, y siempre, y tanto
Que incluso en frente del mayor encanto
De él se encante más mi pensamiento.
Quiero vivirlo ya cada momento
Y en su loar he de esparcir mi canto
Y mi reír y derramar mi llanto
A su pesar o a su mayor contento.
Y así, cuando más tarde me procure
Quizás la muerte, angustia del viviente
Quizás la soledad, fin de quien ama
Decir yo pueda de mi amor ardiente:
Que no sea inmortal, puesto que es llama,
Mas que sea infinito mientras dure.
Trad. de Dámaso Alonso y Ángel Crespo
De la risa de pronto se hizo llanto
Tan silencioso y blanco como bruma
Y de las bocas juntas se hizo espuma
Y de manos abiertas el espanto.
De pronto de la calma se hizo el viento
Que extingue del mirar la última llama
De la pasión se hizo el presentimiento
Y del momento inmóvil se hizo el drama.
De repente, no más que de repente,
Volvióse triste lo que se hizo amante
Y solitario lo que sonriente.
Y del amigo próximo el distante,
Y de la vida una aventura errante
De repente, no más que de repente.
De
MORAES, Vincius de
Historia Natural de Pablo Neruda
(La elegia que viene de lejos),
Grabados de Calaasans Neto
Santiago de Chile: Lom ediciones / Emabaja de Brasil, 2004. 56 p. ilus. 24x32 cm
ISBN 956-282-654-6
Tradução de Violea Romero, com a colaboração de Adán Méndez e María Eugenia Losa. Não informa sobre a tiragem, mas inclui uma lista de pessoas que supostamente subscreveram a edição.
Obs. A 1ª. ed. Da obra aconteceu em Salvador, Bahia, pelas Edições Macunaíma, em 1’97e, uma 2ª. ed. pla Bigra, também de Saolvador, em 1996.
“Eu, Antonio Miranda, em meus dezoito anos de idade, e uma paixão total pela poesia, fui ao lançamento dos livros de canção e amor exacerbados dos grandes poetas — Vinicius de Moraes e Pablo Neruda , lá no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Como o dinheiro era curto em minha juventude, comprei apenas os “20 poemas de amor e uma canção desesperada”, para merecer um autógrafo e o prazer de aproximar-me, ainda que por breve momento, do (já, naquela época) célebre poeta chileno universal.” Antonio Miranda
TARDE DE AUTÓGRAFOS NO MAM
e viagem a São Paulo
No Museu de Arte Moderna
(Depois de uma entrevista à imprensa
Em casa de Rubem Braga)
Autografamos juntos nossos poemas>
Dia seguinte, em São Paulo
Para onde partimos de trem
E nos hospedamos no Cà d´Oro
Inauguraste a estátua
De Flávio de Carvalho
Em homenagem a Lorca
E que pouco mais tarde
Amanheceu no chão desmantelada
Pelo homens do Ódio.
TARDE DE AUTÓGRAFOS EM EL MAM
y viaje a São Paulo
En el Museo de Arte Moderno
(Después de una entrevista a la prensa
En la casa de Rubem Braga)
Autografiamos juntos nuestros poemas.
Al día siguiente, en São Paulo
Donde fuimos en tren
Y nos hospedamos em Cà d´Oro
Inauguraste la estatura
De Flavio de Carvalhos
Em homenaje a Lorca
Y que poco más tarde
Amaneció en el suelo desmantelada
Por los hombres del odio.
ORAÇÃO PARA AS PERNAS DE NERUDA
Ó desveladas pernas, que tão longe
Carregaste o poeta em sua fuga
Eu vos mirei, enormes e largadas
E roxas da gangrena subjacente.
ò não amputeis, homens de branco
Que rondais essas pernas apreensivos
Enquanto o poeta, pálido e prostrado
Lê “Canto General” para os amigos.
Que se não verifiquem os maus presságios
Que volte o sangue a circular nas pernas
E o poeta se erga, majestoso e mágico
E beba em meio a alegres mariaches
Cantando alto e bom som canções eternas
Nos caminhos sem fim da liberdade.
ORACIÓN A LAS PIERNAS DE NERUDA
Oh desveladas piernas que tan lejos
Soportasteis al poeta que escapaba
Yo os miré, enormes y descuidadas
Y roas de gangrena subyacente.
Oh no las amputeis, hombres de blanco
Que rondáis esas piernas apreensivos
del poeta que pálido y postrado
El “Canto General” a amigos lee.
Que los malos presságios sean falsos
Que la sangre otra vez circule en ellas
Y el poeta se yerga rey y mágico
Y em médio de mariachis feliz beba
Cantando alto y afinado canciones eternas
En la ruta infinita de los libres.
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