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RETRATO DE MÁRIO DE ANDRADE
1935, óleo s/ tela, 73,5x60 cm
Instituto de Estudos Brasileiros
USP - São Paulo

 

MÁRIO DE ANDRADE
(1893-1945)

 

em Português   y Español


Mário Raul de Morais Andrade nasceu e morreu em São Paulo, deixando uma valiosa obra literária em que se destacam Paulicéia Desvairada (1922), Losango Cáqui (1926) e Clã do Jabuti (1927). Sua obra prima é o romance Macunaíma , um clássico da literatura brasileira com adaptações de grande impacto também no teatro e no cinema.

Menino, tu me recordas
A minha presença em mim!
                     M. de A.

 

Traducciones de José Antonio Pérez

 

 

Ode ao Burguês

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel

O burguês-burguês!

A digestão bem-feita de São Paulo!

O homem-curva! O homem-nádegas!

O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,

é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

 

Eu insulto as aristocracias cautelosas!

Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!

Que vivem dentro de muros sem pulos,

e gemem sangue de alguns mil-réis fracos

para dizerem que as filhas da senhora falam o francês

e tocam os "Printemps" com as unhas!

 

Eu insulto o burguês-funesto!

O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!

Fora os que algarismam os amanhãs!

Olha a vida dos nossos setembros!

Fará Sol? Choverá? Arlequinal!

Mas à chuva dos rosais

o êxtase fará sempre Sol!

 

Morte à gordura!

Morte às adiposidades cerebrais!

Morte ao burguês-mensal!

Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!

Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!

"— Ai, filha, que te darei pelos teus anos?

— Um colar... — Conto e quinhentos!!!

Más nós morremos de fome!"

 

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!

Oh! purée de batatas morais!

Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!

Ódio aos temperamentos regulares!

Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!

Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados

Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,

sempiternamente as mesmices convencionais!

De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!

Dois a dois! Primeira posição! Marcha!

Todos para a Central do meu rancor inebriante!

 

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!

Morte ao burguês de giolhos,

cheirando religião e que não crê em Deus!

Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!

Ódio fundamento, sem perdão!

 

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...

(Paulicéia Desvairada,1922)

 

Oda al Burgués

¡Yo insulto al burgués! ¡Al burgués-plata,

al burgués-burgués!

¡La digestión bien hecha de São Paulo!

¡Al hombre-panza!, ¡al hombre-culón!

¡Al hombre que siendo francés, brasileño, italiano,

es siempre un cauteloso poco-a-poco!

 

¡Yo insulto a las aristocracias cautelosas!

¡A los barones bandidos!, !a los condes Juanes!, a los duques rebuznos!

que viven dentro de muros sin saltos;

y gimen sangre de unos cuantos duros débiles

para decir que las hijas de su señora hablan francés

y tocan el “Printemps” aporreando el piano!

 

¡Yo insulto al burgués-funesto!

¡Al indigesto puchero con tocino, señor de las tradiciones!

¡Fuera los que guarisman las mañanas!

¡Mira la vida de nuestros setiembres!

¿Hará Sol?

Pero a la lluvia de los rosales,

¡el éxtasis dará siempre Sol!

 

¡Muerte a la gordura!

¡Muerte a las adiposidades cerebrales!

¡Muerte al burgués-mensual!,

¡al burgués-cine!, ¡al burgués-coche!

¡Panadería Suiza! ¡Muerte viva al Adriano!

“-Ay, hija, ¿qué te regalaré para tu cumpleaños?

-Un collar… -¡¡¡Mil quinientos!!!

¡Pero nosotros nos morimos de hambre!”

 

¡Come! ¡Cómete a ti mismo!, oh, gelatina pasmada!

!Oh! !Puré de patatas morales!

!Oh!, !pelos en las narices!

!Odio a los temp

¡Odio a los relojes de carne y hueso!

¡Odio a las cuentas! !Odio a los colmados!

¡Odio a los sin desfallecimientos ni arrepentimientos,

sempiternamente a las rutinas convencionales!

Con las manos atrás!

¡Dos a dos! !Posición primera! ¡ Marcha!

¡Todos para el Central de mi rencor embriagante!

 

¡Odio e insulto!

¡Muerte al burgués de hinojos,

en olor de religión y que no cree en Diós!

¡Odio rojo!

¡Odio fundamento, sin perdón!

 

¡Fuera!


 

Eu Sou Trezentos...

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

As sensações renascem de si mesmas sem repouso,

Ôh espelhos, ôh ! Pirineus ! Ôh caiçaras !

Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro !

Abraço no meu leito as milhores palavras,

E os suspiros que dou são violinos alheios;

Eu piso a terra como quem descobre a furto

Nas esquinas, nos táxis,

nas camarinhas seus próprios beijos !

 

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

Mas um dia afinal toparei comigo...

Tenhamos paciência, andorinhas curtas,

Só o esquecimento é que condensa,

E então minha alma servirá de abrigo.

 

 

Soy trecientos...

Yo soy trescientos, soy trescientos y cincuenta,

La sensaciones renacen de sí mismas sin reposo,

¡Oh, espejos, oh! ¡Pirenos! ¡Oh, caizaras!

Si muerte un dios, iré a Piauí a buscar otro!

¡Abrazo en mi lecho las mejores palabras,

Y los suspiros que doy son violines ajenos;

Piso la tierra, como quien descubre a hurtadillas

En las esquinas, en los taxis, en las alcobas sus propios besos!

 

Yo soy trescientos, soy trescientos y cincuenta,

mas por fin un día toparé conmigo…

Tengamos paciencia, golondrinas breves,

 

Sólo el olvido es lo que condensa,

Y entonces mi alma servirá de abrigo.

 

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OUTROS POEMAS

QUARENTA ANOS

A vida é para mim, está se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.

Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso, persisto em me enganar... Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi meu pecado... Horrendo

Seria, agora que a velhice avança,
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida.

Vou fazer do meu fim minha esperança,
Oh sono, vem!... Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.
                   (A Costela do Grã Cão, 1933)


LOSANGO CÁQUI, 1923
(fragmentos)


E marcho tempestuoso noturno.
Minha alma cidade das greves sangrentas,
Inferno fogo INFERNO em meu peito,
Insolências blasfêmias bocagens na língua.

Meus olhos navalhando a vida detestada.

A vida renasce na manhã bonita.
Paulicéia lá em baixo epiderme áspera
Ambarizada pelo Sol vigoroso,
Com o sangue do trabalho correndo nas veias das ruas.

Fumaça bandeirinha.
Torres.
Cheiros.
Barulhos.
E fábricas...
Naquela casa mora,
Mora, ponhamos: Guaraciaba...
A dos cabelos fogaréu!...
Os bondes me acompanham pro trabalho...

Minha casa...
Tudo caiado de novo!
               É tão grande a manhã!
           É tão bom respirar!
       É tão gostoso gostar da vida!...

        A própria dor é uma felicidade!

 


 

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