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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




Parte I 

DE ORNATU MUNDI

 

Canto 2  -   Vasta e vária geografia

Canto 3  -   O Nome do Brasil

Canto 4  -   Grande Sertão, Veredas

Canto 5  -   Kerribrasilian Sea

Canto 6  -   Cidades Barrocas

Canto 7  -   Hiléia Amazônica

Canto 8  -   O Índio

Canto 9  -   Os Índios

Canto 10 -  Homens-Totens

Canto 11 -  O Poeta Viandante

Canto 12 -  Ode à Soja

Canto 13 -  As fronteiras

Canto 14 –  Mochileiro no Tempo

 

Canto 2

 

VASTA E VÁRIA GEOGRAFIA

Senhor, escutai, o Brasil é um país

de vasta e vária geografia

física e humana

e qualquer afirmação

– pelo sim e pelo não –

deve começar pelo se não.

 

Senão, é erro e destempero

alucinação. Ilha e continente

– Insula fortunatae- em que medra

leite da pedra

(em se plantando tudo dá)

terras dadivosas a entregar

Quanto delas os olhos cobiçaram”

no dizer camoniano

e, no entanto, o homem

morre de fome.

 

Como pode haver miséria

em horto tão vicejante?

Se existe riqueza mesmo sem ser criada

e o gentio colhe o que não planta?!

 

Espanta, Senhor, em espaço sagrado

e consagrado, tão imenso

e até desabitado,

não se ter onde morar.

 

“São terras sem ter lugar”

já definiu Fernando Pessoa

de sua distância, a vislumbrar

tapetes vegetais, relvas, jardins das delícias

selvas.

 

Camões: “fermosa ilha, alegre e deleitosa”

um locus amoenus, de eterna primavera

talvez o Paradisus terrestris,

mas, pela dialética, também

horrenda, triste e defeituosa

porque assim é a Natureza.

 

Ou não. Porque a Natureza

nada sabe dos oxímoros,

menos de suas contradições

num equilíbrio crítico

e indefinitivo.

 

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Canto 3

 

O NOME DO BRASIL

 

Brasil,

Meu Brasil brasileiro...

                 ARY BARROSO

 

I

Brasil

Breazail

Breasil

Hy-Brazail

ou se preferem, Brazil...

 

Que importa um nome?

de onde o nome vem?

 

Quem batiza um país

pelos recursos que ele tem?

 

Pau-brasil, especiaria...

 

Vermelhos os nossos índios

no seu reconhecimento

um Brasil vermelho em sua

consistência de tingimento

natural

mas, afinal,

e a palavra brasil

de onde vem?

 

Vem da fala local

ou veio de Portugal?

 

Vem de braza

da madeira cor de brasa?

 

 

III

Breazil é mesmo vermelhidão...

sim ou não

pois sim, mas em celta...

 

 

IV

Desde 1339... – garantem!–

o nome Brasil aparece em mapas

planisférios, cartas geográficas...

 

Uma Ilha Brasil a oeste dos Açores...

Mediceu, Solleri, Pinelli e Branco:

 

cartógrafos mapearam

e grafaram as terras

desterrrrrrradas, aquelas

narrrrrrrrradas pelos viajantes

e cronistas...

 

Lendárias, verdadeiras.

Fantasias de artistas...

Fábulas, poesias.

 

Brasil – uma lenda céltica!

umas “terras de delícias”

vistas entre nuvens...

 

um topônimo irlandês?

 

Hy-Brazail – Ilha do Atlântico...

 

Terra de vermelhidão...

 

Antes, bem antes:

gregos e fenícios

(“descendentes do vermelho”)

buscavam os corantes

em terras distantes...

 

 

V

 

Que importa um nome

e a sua origem?

Dá renome ou dá vertigem?

 

Vestígios, testemunhos...

 

Manuel Bandeira queria Pasárgada...

 

Dorival Caymmi: Maracangalha...

 

Lima Barreto, julgado canalha,

preferia Bruzundanga...

 

Terra de Vera Cruz

e da Santa Cruz

que em vida sustentamos.

 

Brasil Brasis.

 

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Canto 4 

GRANDE SERTÃO, VEREDAS

 

Uma inalcançável geografia

estende-se além de toda percepção:

país-continente, numa projeção

insondável

sem limites visíveis, apenas perceptíveis

por convenções e descrições

a um tempo vagas e imprecisas.

 

Nos extremos, a selva, o mar, as pradarias.

 

Mapa de relevos acanhados

planícies interpostas

a intervalos, por arestas

e frestas, por várzeas

e vales e rios

avolumando-se

articulando-se como vértebras

ou veias tributárias.

 

Altiplanos e chapadões enfileirados

escarpas, escombros, anteparos de serras

como muramentos abruptos

ou são encostas fracionadas, contrapostas

entre os mares e os campos gerais.

 

São degraus, camadas, terraços,

tabuleiros suspensos

desde as costas argênteas e as extensas areias

até aos elevados da Serra do Mar

detendo os ventos e os movimentos

humanos.

 

Cerros aspérrimos, escarificados

onde nascem as águas emendadas

que descem em todas as direções

para todos os quadrantes

pelo leito dos mares extintos

da antiguidade de Goiás:

seu vulcão calado,

suas fissuras cortantes,

suas águas aflorantes, vazantes

por ignotos e remotos

percursos.

 

São verões abrasantes, decomposições

elementos variantes

dilatações e contrações

da rocha degradada e fria

das estações contrastantes;

são chuvas torrenciais

aguaceiros diluvianos

mananciais

por vertentes, desfiladeiros;

são as cheias inclementes

alternando-se com

a secura dos ares no estio

com os vaus secos

dos rios efêmeros

das secas penitentes.

 

Paredões talhados, erodidos

como recifes pontiagudos

(flagelos de antigos degelos)

até aos espinhaços planaltinos

– cortes meridionais paralelos –

por onde vaza o rio São Francisco

unindo e aproximando

os povos e os lugares.

 

Por patamares declinantes

por flancos e barrancos

pendores resvalantes, derruídos

– níveis, andares, patamares –

até a garganta fraturada

do salto de Paulo Afonso

no sertão adusto

e dali aos estuários queixosos

e amplos, ermos e rasos

dos depósitos sedimentários.

 

Ao mar e sua imensidão.

 

Do outro mar, das alturas

e planuras

altiplanas

terras do sem-fim.

 

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Canto 5

 

“KERRIBRASILIAN SEA”

 

           (James JOYCE, no Finnegans Wake”)

 

 

O Brasil é antes de tudo mar.

 

Mar-oceano ou terrestre, ondino

mares-chapadões, mares-selváticos

mares ermos, bravios, marés.

 

Pessoa: “Cala a voz, e é só o mar”.

Sertão-mar, arrebentações, maravilha.

 

Areias ondulantes, praias, vastidões,

rios-mares, mangues, dunas, pântanos,

espumas rendadas, areias ondulantes.

 

Espelhos líquidos, marítimos, orlas,

vagas, ilhas, pampas, alagados,

mares artificiais, pantanais.

 

O Brasil está voltado para o mar

sabe a maresias desterradas,

a mares antediluvianos.

 

Todos os caminhos levam ao mar

 

e pelo mar foi descoberto

desde tempos imemoriais:

mares tão reais quanto imaginários.

 

Mar de Ulisses, de Ojeda, de Cabral.

Mar aberto e mar interior,

dos sargaços, dos anfíbios transmarinos

dos desbravadores,

dos escravagistas,

dos comerciantes,

dos piratas e pescadores,

mar dos imigrantes.

 

Tanto mar sem horizontes!

 

(Um horizonte mutante, líquido

de miragens e miríades

 orbicular, intransponível).

 

La mar que es el morir.

 

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Canto 6 

CIDADES BARROCAS

 

    “De tudo que deixei perco a memória”.

             CLÁUDIO MANOEL DA COSTA 

 

I

Naquela madrugada fria e umbrosa

chego a Ouro Preto, de ônibus

pelas corcovas dos montes

vencendo estreitos caminhos:

 

jovem, na neblina, farejo

odores curtidos, madeiras

carcomidas, pedras suadas

sob os passos apressados.

 

Das janelas antigas e severas

mortos observam os transeuntes

como fogos-fátuos assustados

em chama eterna, inquietos.

 

Cruzo “régias pontes sobre

grossos arcos” na companhia

de Cláudio Manoel da Costa

– nubívago árcade inconfidente.

 

Gonzaga, Cláudio, Alvarenga

tocando albas ovelhas e frautas

num conspiração de sarau

que acabou em desterro e esquartejo.

 

Em que “foi preso simples alferes

que só tinha um bacamarte”

– diz-nos Cecília Meireles

no Romanceiro de Minas.

 

II

Cimalhas e gelósias de sobrados

enobrecidos, envergonhados, encardidos

nas ladeiras lúbricas, ladeados

ostentando luxos esquecidos.

 

Visão fugaz de tempos idos

de ilustres gentis-homens, foragidos

escravos prófugos, clérigos possessos

Marílias e Dirceus em versos.

 

Na Igreja, São Francisco pintado

no teto, numa cabana de índios.

As velhas minas feridas, violadas

violentadas, vazias, esgotadas.

 

Em Congonhas, a genialidade

mulata do Aleijadinho (no dizer

de Afonso Arinos de Melo Franco)

na pedra-sabão de sua agonia.

 

Em Mariana, lado a lado

janelas e portas de igrejas

na praça, dialogam, seculares

e revelam graves segredos.

 

Igrejas brancas, debruadas

em azuis imorredouros

co´as paredes debruçadas

sobre as luzes de seus ouros.

 

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Canto 7

 

HILÉIA AMAZÔNICA

   

       “Para vê-la deve renunciar-se

        ao propósito de descortiná-la”. 

                 EUCLIDES DA CUNHA

 

 

I

Céus exacerbados e águas abusivas

numa enormidade desumana.

 

Horizontes indefinidos, repetitivos,

numa perspectiva infinita,

mesmada,

de mares interiores, vegetais,

no discurso monótono das águas,

no estrépito uniforme das aves,

nas bátegas de chuvas copiosas.

 

Mares sobre mares diluvianos,

terras sobre mares aterrados,

de mares e terras em movimento

formando e derruindo ilhas, margens,

degredando as vertentes, correntes,

corroendo barrancos e aplainando,

construindo e reconstruindo

na sedimentação pantanosa

e transfigurando

numa esculturação sediciosa.

 

Transportando desde os Andes

ao Atlântico e à África

o continente diluído

na direção das Guianas,

por fluxos e refluxos e influxos

dos caudais extintos. 

 

II

Sedimentos, detritos, correntezas,

contornos imprecisos, indecisos,

de ilhas cambiantes, degradantes,

desmoronamentos

refazendo a sua rota líquida,

volúvel, por meandros e igapós

inundados, represados,

transbordamentos.

 

Nem a pororoca estanca

e menos reconquista

a força contida, vencida do rio

na batalha final, impossível

mas previsível

com o mar-oceano.

 

Depositando-se extraterritorialmente

em praias estrangeiras, além mar,

na costa leste americana,

em outro hemisfério,

na “imigração telúrica”

— tese euclidiana:

“um território em marcha,

mudando-se pelos tempos adiante”. 

 

III

O homem errante, nômade

como o rio provisório e ermo,

como o pássaro arribante.

 

Na fervura equatorial de seus humores

a umidade oxida e degrada

inexoravelmente

e excita as flores e os animais

na luxúria promíscua

de seus afrodisíacos

odores.

 

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Canto 8 

 

ÍNDIO 

 

Imensidões vegetais, meandros de rios abundantes,

peixes, pássaros, árvores momumentais e vastidões

insondáveis, animais errantes e oclusas  paisagens.

 

Margens, vergéis, vargens, mundaréus e miragens.

 

O índio – pés miúdos – a andar sobre raízes

camadas espessas de folhagens decompostas,

o ar saturado de águas e aromas estivais.

 

Em suas entranhas correm seivas vegetais.

 

Sangue turvo de resíduos minerais decompostos

— algas, aguapés, cipós tentaculares, ervas, sais

recompostos em tessituras fibrosas, musculares.

 

Pelos olhos dele passam capivaras errantes,

arrebóis, araras espalhafatosas, macacos

saltitantes, sóis e luas itinerantes.

 

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Canto  9 

 

OS ÍNDIOS

 

I

Também vieram de longe

e plantaram raízes

imemoriais

no jardim de sua eleição,

desde a diáspora primeva

da Criação.

 

Não sabemos se temos

a mesma origem

ou se nascemos já divididos

disputando o mesmo espaço.

 

Descimentos e preamentos,

bandeirantes

dizimaram e escravizaram

índios sem religião

como animais

errantes.

 

 

II

 

Os sobreviventes estão confinados

em reservas

como num zoológico humano.

 

Duas culturas não podem

ocupar o mesmo lugar:

ou o índio é integrado

à sociedade

e perde a identidade tribal

ou refugia-se na comunidade.

 

Garimpeiros, pecuaristas,

seringueiros e extrativistas

(caraíbas)

avançam com moto-serras.

 

O índio não é ambicioso

nem ocioso.

 

A terra é a existência do índio

— terra de todos, comunitária,

terra que é partícula

em movimento e assimilação.

 

Terra e índio: um vive da outra.

Mãe e filho, indivisíveis.

 

Terra sagrada

de húmus vivo e fértil

de seus antepassados

com que o índio abona

o inhame, o cará e a taioba.

 

Em que cultiva, caça e pesca

e colhe, apenas quando

e quanto necessita.

 

 

III

 

Para o índio não há amanhã

em qualquer sentido

pois o tempo não existe

em sua percepção:

o movimento do corpo

num ímpeto contínuo

(da vontade em ação)

é que move a rede

(e não os pés e a mão)

como move a vida.

 

Dias alternam-se sem

alterações e altercações

— de pesca, de fruta acesa

que logo vai compartilhar

no complemento do beiju,

do pirarucu e do tucunaré.

 

O fogo está sempre aceso

na aldeia e almas intermitentes

de dormir e despertar,

de morrer e renascer:

um tempo dentro de outro

tempo infinito e cego.

 

Fogo feito para irmanar-se

depois de buscar a lenha

que não armazena jamais

para não quebrar a rotina.

 

Um grande poder de concentração

— e de dedicação extrema —

com todo o tempo do mundo

mas sem a noção de tempo.

 

IV

 

“Tem presença de espírito

e raciocínio rápido”

— atestam os irmãos Villas-Boas —

como a onça e o peixe

(que o imitam)

e muito senso de humor

para rir gostoso e largo.