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DÉCIO PIGNATARI 

IDEROS: STÈLE POUR VIVRE


Extraído de PIGNATARI, Décio. Poesia Pois É Poesia 1950-2000.  Cotia, SP: Ateliê Editorial; Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2004.  ISBN 85-7480-114-4; ISBN 85-268-0689-0.

 
Poema

COCA-COLA

(Texto interpretativo extraído de José FERNANDES: O Poema visual – Leitura do imaginário esotérico (Da antiguidade ao século XX)  Petrópolis, RJ: Vozes, 1996.   p. 125-126)

“O concretismo, ao oferecer possibilidades várias de leituras, como se pode verificar pela análise do poema caviar, feita por Haroldo de Campos*, empobrece, no entanto, o processo criativo do poema visual, porque descura de aspectos esotéricos e metafísicos que remontam a conhecimentos milenares da cabala, da mandala, da alquimia e da geometria. Entretanto, há poemas concretos em que o caráter esotérico é substituído por forte ideologia, como podemos observar nos poemas Coca-cola ** e Caviar, criados por Décio Pignatari.

Não obstante Haroldo de Campos falar apenas em antipropaganda, ao referir-e a este poema, analisando mais profundamente as coordenadas fonêmico-semânticas dos vocábulos que se metamorfoseiam ao longo do texto, observamos que subjaz às palavras um conteúdo que vai além do meramente verbivocovisual. Já no segundo movimento, a metátese fonêmica que redundou na passagem de beba para babe, evidencia o processo ideológico e o discurso do silêncio, subjacente ao visual.  Beber coca-cola não figura nos países do Terceiro Mundo, tão-somente como ato de sorver o liquido e matar a sede; é, antes, o ato de absorver uma cultura que se coloca por trás do discurso visual, ou se mistura com a essência da coca. Babe, além de se referir diretamente ao ato de lambuzar, próprio de quem vai ao poete sem se precaver, reserva uma carga semântica que se interconecta às conseqüências da perda da identidade cultural. Esse raciocínio se clarifica quando verificamos que babar se correlaciona, ainda, a fala melíflua, fala enganosa da propaganda e do domínio cultural que se impõe aos povos subdesenvolvidos. Alicerçando nossa interpretação, observamos que a ação de babar não se refere mais a coca, como o fizera a de beber, mas a cola. Ora, babar cola é, de certa maneira, aderir ao consumismo, que compreende toda a dinâmica do capital e, sobremaneira, do copismo cultural:  


Para substantivar as asseverações anteriores, o segundo movimento do poema inicia com a abertura do primeiro, suprimindo o vocábulo cola. O imperativo beba coca reitera, deste modo, a necessidade de se consumirem e de se assimilarem  todos os componentes culturais que, de forma implícita, a coca representa. A seqüência babe cola caco, ao proceder a aproximação com babe cola, reitera obrigatoriedade da adesão, pois dela dependerão concessões ao Terceiro Mundo e o futuro das empresas multinacionais. Todavia, a metátese da palavra coca, transformando-a em caco, esclarece a qualidade do produto e do consumidor. Afora aduzir à ordinariedade da cultura importada, caco deixa entrever a transformação do produto, reduzido a excrementos, cocô, fim de toda sociedade consumista e subdesenvolvida que perde a identidade cultural. É sintomático que, a partir desse movimento, coca, cola e caco procedem a um verdadeiro balé, em que fonemas e palavras se vão sucedendo até desembocarem na cloaca, fusão das palavras, dos corpos e das essências. Evidentemente, não se trata de uma fusão que se destina à criação de um novo ser, como se fosse um processo alquímico, mas à redução ao imundo, ao sórdido, ao imprestável, com sói acontecer ao povo que abdica de suas peculiaridades culturais.

Como evidenciar esta ideologia, quase todas as outras palavras que podem ser formadas a partir de cloaca, são impregnadas de semântica depreciativa, em que a negação do homem e da cultura se patenteia. Assim, oca lembra um estado primitivo, que se adéqua a quem se deixa influenciar por culturas estranhas e impostas de forma sub-reptícia, através da coca. Ainda pior se afiguram as semias de loca. Se oca remete a nação para o estágio pré-civilizatório, loca coloca-a  em estado animal, com potencialidades para um tipo de dominação que a reduz à condição abjeta das alimárias.

Inseto nesta ideologia, o vocábulo calo que poderia corporificar o exercício  e a prática do labor diário, desloca o campo semântico para o vil silêncio da submissão, próprio de quem não possui o grito incrustado nas formas de cultura. Encontrando-se em estado de escravo, porque subjugado culturalmente, transforma-se em ser repelente, que causa nojo, náusea, como se depreende de outro possível vocábulo composto com os fonemas de cloaca: aca, aquilo que produz mau cheiro, porque deteriorado. A um povo, visto sob esta óptica, nada mais resta que a cloaca.

Este poema joga mais com a palavra do que com o espaço em branco, o visual. O poeta, ao utilizar palavras que se alternam no espaço da folha, não apenas materializa um estado primitivo que antecede à fala, mas patenteia o estado de coisa, de dejeto, a despeito de se não apegar à tradição esotérico-semiótica, é um dos parcos que se deixa ler nas fímbrias do silêncio, é um dos poucos que resiste a uma análise mais profunda do estrato fônico-semântico.”

*CAMPOS, Haroldo de  1975. A arte no horizonte do provável.  Sâo Paulo: Perspectiva, 1975. p. 126-127.

Página publicada em junho de 2008.

 




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