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PANTANAL – MAR DE XARAÉS

 

Poema de Antonio Miranda

 

para o Reitor Pedro Chaves dos Santos Filho - UNIDERP

 

 

vêem chuvas inclementes, suores, temores

na estação das águas incessantes, águas

vazantes, tamanhas águas, emendadas.

 

águas subterrâneas, aflorantes, sazonais

desde os limites do Alto Paraguai

—capivaras, veados saltitantes, serpentes ondulantes.

 

águas formando banhados,  extravagantes,

cobrindo pastos, terras afogadas, águas

inundando as várzeas, baixios,  águas!!!

 

águas intermináveis interligando corixos,

vastidões, descampados,  animais assustados,

os peixes excitados, jacarés expectantes.

 

garças, tuiuiús, siriemas errantes.

tamanduás,  araras azuis,  coatis, piranhas.

poças, lagos, vertentes, afluentes — o Pantanal.

 

inundados caminhos, as passagens

interrompidas,  águas correntes, torrentes,

aves em debandada, os homens ilhados.

 

tropeiros em comitivas, vão migrando

com o gado, a natureza impondo-se

sobre qualquer vestígio de civilização.

 

Êxodo e desolação até que a estação estanque, reverta:

um pranto copioso, saudoso, pungente,

uma guarânia distante, feijão tropeiro, tereré.

 

 

Pousada Araraúna, MS, 15/12/2006
Fotos do Autor

 

 

Ecocrítica de “PANTANAL – MAR DE XARAÉS”
  por  VALTER GOMES
DIAS JUNIOR:

 

                O título do ecopoema Pantanal Mar de Xaraés remete-nos além da localidade à história e à constituição geográfica do lugar. O Pantanal divide-se entre o Brasil, o Paraguai e a Bolívia. Em terras brasileiras, ele ocupa o sul do Mato Grosso e o noroeste do Mato Grosso do Sul. Por se tratar de uma planície alagada, sob ele foi construído o mito de Mar de Xaraés. Essa nomenclatura marítima é antiga, data do século XVI, porém mítica. Xaraés é um nome de origem indígena que significa dono do rio. Com os três nomes que intitulam este ecopoema, o eu ecopoético referencia uma natureza aquática, própria do espaço, e tal característica é assaz reiterada nos versos do texto.

 

                No aspecto formal, percebemos que o ecopoeta equilibra estruturas tradicionais com livres, porque enquanto há estrofes metrificadas, como a primeira composta por versos alexandrinos, existem também estâncias com a metrificação mista. E, com exceção de um  único verso, ocorre a liberdade de expressão através das iniciais minúsculas na introdução das linhas ecopoéticas. A liberdade conteudística com que os seres da natureza interligam-se coaduna-se à liberdade de o poeta exprimir-se em sua escrita. Mais uma vez, conteúdo e forma interagem no aspecto libertário e a proposta ecocrítica se fortifica também nesse tipo de associação. Adentraremos mais na leitura do ecopoema a fim de captarmos da mensagem ecocrítica do texto.

 

         Na primeira estrofe, há uma recorrência grande da presença e da ação da água no espaço do Pantanal. Além de ela ser em grande quantidade, pois o eu ecopoético afirma que são tamanhas águas, elas se entrelaçam, devido ao fluxo das chuvas inclementes que intensificam o volume aquático ao ponto de este ser incessante, vazante, provocando suores e temores na estação das águas. A singularidade do adjetivo “inclemente” no primeiro verso sugere que a inundação controla tudo sem clemência alguma. A aliteração do fonema /s/ nas letras em itálico dos vocábulos “chuvas”, “suores”, “temores”, “estação”, “águas”, “incessantes”, “vazantes”, “entrelaçadas” possui sonoridade fricativa o que denota a postura avassaladora dessas águas. E, consoante o eu ecopoético, este volume aquático intenso é sazonal, isto é, próprio de um fenômeno natural que ocorre sempre em uma determinada época do ano, fazendo com que as águas subterrâneas aflorem, além também da intensidade pluviométrica que inunda mais a região, desde os limites do alto Rio Paraguai.

 

                Em meio a esse universo líquido, desponta a fauna pantaneira: capivaras, veados saltitantes e serpentes ondulantes. Animais estes que estão referenciados com ações que os caracterizam o que demonstra o grau de liberdade vivido por eles para habitarem o Pantanal saltitando, como os veados, ou rastejando de maneira ondulante como as serpentes. Esses seres sencientes convivem harmonicamente com o ambiente aquoso do Pantanal. As águas vão modulando o espaço e os seres que vivem neste território adequam-se às “águas formando banhados, extravagantes”, “cobrindo pastos, terras afogadas, águas”, “inundando as várzeas, baixios”. Isto é, a força da água é tão incrível ao ponto de a voz ecopoética exclamar reiterando três vezes o sinal exclamativo: “águas!!!”.

 

        As linhas ecopoéticas acrescem expondo e registrando a presença, a ação e a intensidade das águas em confluência com os seres e os espaços grandes e pequenos: “águas intermináveis interligando corixos”, “vastidões, descampados, animais assustados,”, “os peixes excitados, jacarés expectantes”, “garças, tuiuiús, siriemas errantes.”, “tamanduás, araras azuis, coatis, piranhas.”, “poças, lagos, vertentes, afluentes – o Pantanal.”. Percebamos a antítese entre as águas intermináveis interligando corixos e vastidões. Estes se destacam pela grandeza e aqueles são pequenos rios perenes. Os opostos no Pantanal unem-se e harmonizam-se gerando a beleza de todo ecossistema que o compõe, ao ponto de a voz ecopoética singularizar tudo o que foi elencado em um único nome: Pantanal. Este substantivo próprio surge no final do terceto da quinta estrofe como o representante de toda essa pluralidade ecológica, isto é, Pantanal é o sujeito cuja identidade é definida através dos seres vivos que o compõe e, mormente, retratam-no. Ressaltamos também a presença do artigo definido masculino que precede o vocábulo Pantanal especificando ainda mais quem é o sujeito detentor de tantas características naturais, as quais ocupam um destaque maior no texto, porque das oito estâncias deste ecopoema, cinco destinam-se a retratar o cenário pantaneiro e as outras três designam a ação humana ante o ecossistema que o circunvizinha. Isso demonstra a importância dada bem mais à natureza que ao homem a fim de que a subjetividade dela seja realmente evidenciada.

 

                Na sexta estrofe, o eu ecopoético retrata as consequências geradas pelo acúmulo de água: “inundados caminhos, as passagens”, “interrompidas, águas correntes, torrentes,”, “aves em debandada, os homens ilhados”. A metáfora de que o homem ficara ilhado aponta que o sujeito tem a liberdade cerceada em decorrência dos caminhos inundados e as passagens interrompidas. Seria como que a natureza podasse deste indivíduo a liberdade que ele retera dela. E, interessantemente, as enchentes prenderam o homem, mas as aves que compartilham de similar liberdade que as águas retiraram-se em debandada. Ao ser humano, é-lhe imposta a expulsão sem outra alternativa: “tropeiros em comitivas, vão migrando”, “com o gado, a natureza impondo-se”, “sobre qualquer vestígio de civilização.”. Essas linhas da sétima estância demarcam bem a subjetividade da natureza pelo fato de ela se impor sobre a humanidade, mostrando assim quem é maior e pode mais. A imagem redutora construída com as palavras “vestígio de civilização” estabelece o caráter de coisificação do homem. A partir daí, edifica-se uma grande antítese neste ecopoema: a subjetividade da natureza e a coisificação do humano, porque a natureza reclama pelo seu espaço.

 

         Esse entendimento aprofunda-se no último terceto quando o eu ecopoético intertextualiza uma narrativa bíblica através do nome “Êxodo” o qual designa bem a saída forçada e abrupta de um povo sofrido de uma região à outra. Reportando-nos à retirada do homem neste ecopoema, registram-se a desolação e a tristeza que acometeram o indivíduo por causa deste êxodo até que a estação das águas estanque, isto é, cesse e reverta o quadro de dor que foi erigido. O eu ecopoético intensifica bem essa imagem de sofrimento através da gradação crescente: “um pranto copioso, saudoso, pungente”. Essas adjetivações fortalecem a agonia sofrida pelo homem, até que fique apenas as memórias do que de bom existia: “uma guarânia distante, feijão tropeiro, tereré”. A guarânia é uma balada em ritmo lento própria da música paraguaia, o feijão tropeiro é um prato tipicamente regional característico do estado de Goiás que é próximo do Pantanal e o tereré é uma bebida elaborada com infusão de erva-mate em água fria.

 

          Esse último verso indica alguns traços da identidade do homem pantaneiro que foi deixada para trás devido ao êxodo provocado pelas enchentes. Mais uma vez percebemos outra significativa antítese: enquanto a identidade da natureza é elevada e registrada em liberdade como um sujeito, a do homem ficara na lembrança gerando dor e isolamento e, dessa forma, a voz ecopoética finda a história relatada. A ecopoesia foi erigida numa fusão de características da lírica e da narrativa a fim de que os fatos fossem narrados poeticamente e, principalmente, qual o eu que deveria ser evidenciado: a natureza.

 

                O título do ecopoema Pantanal – Mar de Xaraés remete-nos além da localidade à história e à constituição geográfica do lugar. O Pantanal divide-se entre o Brasil, o Paraguai e a Bolívia. Em terras brasileiras, ele ocupa o sul do Mato Grosso e o noroeste do Mato Grosso do Sul. Por se tratar de uma planície alagada, sob ele foi construído o mito de Mar de Xaraés. Essa nomenclatura marítima é antiga, data do século XVI, porém mítica. Xaraés é um nome de origem indígena que significa dono do rio. Com os três nomes que intitulam este ecopoema, o eu ecopoético referencia uma natureza aquática, própria do espaço, e tal característica é assaz reiterada nos versos do texto.

 

                No aspecto formal, percebemos que o ecopoeta equilibra estruturas tradicionais com livres, porque enquanto há estrofes metrificadas, como a primeira composta por versos alexandrinos, existem também estâncias com a metrificação mista. E, com exceção de um  único verso, ocorre a liberdade de expressão através das iniciais minúsculas na introdução das linhas ecopoéticas. A liberdade conteudística com que os seres da natureza interligam-se coaduna-se à liberdade de o poeta exprimir-se em sua escrita. Mais uma vez, conteúdo e forma interagem no aspecto libertário e a proposta ecocrítica se fortifica também nesse tipo de associação. Adentraremos mais na leitura do ecopoema a fim de captarmos da mensagem ecocrítica do texto.

         Na primeira estrofe, há uma recorrência grande da presença e da ação da água no espaço do Pantanal. Além de ela ser em grande quantidade, pois o eu ecopoético afirma que são tamanhas águas, elas se entrelaçam, devido ao fluxo das chuvas inclementes que intensificam o volume aquático ao ponto de este ser incessante, vazante, provocando suores e temores na estação das águas. A singularidade do adjetivo “inclemente” no primeiro verso sugere que a inundação controla tudo sem clemência alguma. A aliteração do fonema /s/ nas letras em itálico dos vocábulos “chuvas”, “suores”, “temores”, “estação”, “águas”, “incessantes”, “vazantes”, “entrelaçadas” possui sonoridade fricativa o que denota a postura avassaladora dessas águas. E, consoante o eu ecopoético, este volume aquático intenso é sazonal, isto é, próprio de um fenômeno natural que ocorre sempre em uma determinada época do ano, fazendo com que as águas subterrâneas aflorem, além também da intensidade pluviométrica que inunda mais a região, desde os limites do alto Rio Paraguai.

 

                Em meio a esse universo líquido, desponta a fauna pantaneira: capivaras, veados saltitantes e serpentes ondulantes. Animais estes que estão referenciados com ações que os caracterizam o que demonstra o grau de liberdade vivido por eles para habitarem o Pantanal saltitando, como os veados, ou rastejando de maneira ondulante como as serpentes. Esses seres sencientes convivem harmonicamente com o ambiente aquoso do Pantanal. As águas vão modulando o espaço e os seres que vivem neste território adequam-se às “águas formando banhados, extravagantes”, “cobrindo pastos, terras afogadas, águas”, “inundando as várzeas, baixios”. Isto é, a força da água é tão incrível ao ponto de a voz ecopoética exclamar reiterando três vezes o sinal exclamativo: “águas!!!”.

 

        As linhas ecopoéticas acrescem expondo e registrando a presença, a ação e a intensidade das águas em confluência com os seres e os espaços grandes e pequenos: “águas intermináveis interligando corixos”, “vastidões, descampados, animais assustados,”, “os peixes excitados, jacarés expectantes”, “garças, tuiuiús, siriemas errantes.”, “tamanduás, araras azuis, coatis, piranhas.”, “poças, lagos, vertentes, afluentes – o Pantanal.”. Percebamos a antítese entre as águas intermináveis interligando corixos e vastidões. Estes se destacam pela grandeza e aqueles são pequenos rios perenes. Os opostos no Pantanal unem-se e harmonizam-se gerando a beleza de todo ecossistema que o compõe, ao ponto de a voz ecopoética singularizar tudo o que foi elencado em um único nome: Pantanal. Este substantivo próprio surge no final do terceto da quinta estrofe como o representante de toda essa pluralidade ecológica, isto é, Pantanal é o sujeito cuja identidade é definida através dos seres vivos que o compõe e, mormente, retratam-no. Ressaltamos também a presença do artigo definido masculino que precede o vocábulo Pantanal especificando ainda mais quem é o sujeito detentor de tantas características naturais, as quais ocupam um destaque maior no texto, porque das oito estâncias deste ecopoema, cinco destinam-se a retratar o cenário pantaneiro e as outras três designam a ação humana ante o ecossistema que o circunvizinha. Isso demonstra a importância dada bem mais à natureza que ao homem a fim de que a subjetividade dela seja realmente evidenciada.

 

                Na sexta estrofe, o eu ecopoético retrata as consequências geradas pelo acúmulo de água: “inundados caminhos, as passagens”, “interrompidas, águas correntes, torrentes,”, “aves em debandada, os homens ilhados”. A metáfora de que o homem ficara ilhado aponta que o sujeito tem a liberdade cerceada em decorrência dos caminhos inundados e as passagens interrompidas. Seria como que a natureza podasse deste indivíduo a liberdade que ele retera dela. E, interessantemente, as enchentes prenderam o homem, mas as aves que compartilham de similar liberdade que as águas retiraram-se em debandada. Ao ser humano, é-lhe imposta a expulsão sem outra alternativa: “tropeiros em comitivas, vão migrando”, “com o gado, a natureza impondo-se”, “sobre qualquer vestígio de civilização.”. Essas linhas da sétima estância demarcam bem a subjetividade da natureza pelo fato de ela se impor sobre a humanidade, mostrando assim quem é maior e pode mais. A imagem redutora construída com as palavras “vestígio de civilização” estabelece o caráter de coisificação do homem. A partir daí, edifica-se uma grande antítese neste ecopoema: a subjetividade da natureza e a coisificação do humano, porque a natureza reclama pelo seu espaço.

 

         Esse entendimento aprofunda-se no último terceto quando o eu ecopoético intertextualiza uma narrativa bíblica através do nome “Êxodo” o qual designa bem a saída forçada e abrupta de um povo sofrido de uma região à outra. Reportando-nos à retirada do homem neste ecopoema, registram-se a desolação e a tristeza que acometeram o indivíduo por causa deste êxodo até que a estação das águas estanque, isto é, cesse e reverta o quadro de dor que foi erigido. O eu ecopoético intensifica bem essa imagem de sofrimento através da gradação crescente: “um pranto copioso, saudoso, pungente”. Essas adjetivações fortalecem a agonia sofrida pelo homem, até que fique apenas as memórias do que de bom existia: “uma guarânia distante, feijão tropeiro, tereré”. A guarânia é uma balada em ritmo lento própria da música paraguaia, o feijão tropeiro é um prato tipicamente regional característico do estado de Goiás que é próximo do Pantanal e o tereré é uma bebida elaborada com infusão de erva-mate em água fria.

 

          Esse último verso indica alguns traços da identidade do homem pantaneiro que foi deixada para trás devido ao êxodo provocado pelas enchentes. Mais uma vez percebemos outra significativa antítese: enquanto a identidade da natureza é elevada e registrada em liberdade como um sujeito, a do homem ficara na lembrança gerando dor e isolamento e, dessa forma, a voz ecopoética finda a história relatada. A ecopoesia foi erigida numa fusão de características da lírica e da narrativa a fim de que os fatos fossem narrados poeticamente e, principalmente, qual o eu que deveria ser evidenciado: a natureza.

 

Texto extraído do ensaio:

Texto crítico e analítico intitulado “ A NATUREZA COMO SUJEITO NOS ECOPOEMAS DE ANTONIO MIRANDA”, apresentado pelo Prof. Dr. Valter Gomes Dias Junior, no III Congresso Internacional de Literatura e Ecocrítica e I Conferência Bienal Asle Brasil, realizado na Universidade Federal da Paraíba, nos dias 29, 30 e 31 de agosto de 2016. ISBN: 978-85-66224-12-2

 

Linha Temática: Poesia e Narrativas Ecocêntricas DIAS JUNIOR, Valter Gomes (UFPB)

 

 

 



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