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Eu nasci no Mearim
um rio barrento e lento
lá no fundo da memória
carcomida, como a mim
corroeu o mesmo tempo
e o desalento; também
o rio corrompeu, assoreou.
Um rio perdido ou esquecido
o rio e eu, frente a frente
como um eu diante de outro
eu, desconhecendo-se
outros eus que ficaram
ao longo do caminho
todos irreconhecíveis!
Paisagens deformadas
agora imperceptíveis
não fosse por sua imanência
ou permanência, indefectíveis
lembranças redivivas
imagens esclerosadas
de natimortos renitentes.
O rio torto e incerto
de minha infância esquecida
com aquelas palmeiras
decapitadas; eu, ribeirinho
assustado, imaginando
caminhos nas águas
moventes e errantes.
Lá adiante, quem sabe
o mar, o continente
lá no futuro, o passado
presente e instigante
de um desterro e
destino de emigrante
portanto inveterado.
Que migra e singra
mares nunca dantes
navegados, levando
o próprio rio e seu
desmoronamento e
permanecendo ancorado
mesmo em movimento.
Ou é o porto que vai
enquanto o rio petrifica
na lembrança estagnada.
O Mearim das lavadeiras
já falecidas, meninos
que já se foram
ou mesmo se afogaram.
Porque o rio segue
seu curso indiferente
numa geografia absurda
de ausentes desterrados
de águas turvas, tépidas
desmemoriadas de seus sobreviventes.
Rio Mearim, Bacabal, Maranhão. 1998
“O MEARIM”, letra de Antonio Miranda, música de Xulio Formoso, na voz de George Duran.
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