FRANCISCO PERNA FILHO
FRANCISCO PERNA FILHO (ou Chico Perna) a nasceu em Miracema do Norte (TO), em 24 de novembro de1963. Após os estudos primários e secundários em sua terra natal, deslocou-se para outras regiões do país, parando em Goiânia, onde vem construindo sua careira literária.
Já em Goiânia, formou-se em Letras Vernáculas, pela Universidade Católica de Goiás e tornou-se Mestre em Estudos Literários, pela Universidade Federal de Goiás(UFG). Com o passar do tempo, fez-se Professor da Faculdade de Ciências e Letras de Morrinhos, lecionando no Curso de Letras, Faculdade Cambury, lecionando nos Cursos de Publicidade e Propaganda, Administração em Comércio Exterior, Turismo, Jornalismo, Administração de Empresas, sendo também Supervisor Geral de Cursos e Coordenador de Formação Humana; Faculdades Alfa, professor do Laboratório de Linguagem (LAP); Universidade Anhanguera, professor de Linguagem Jurídica; Universidade Católica de Goiás, professor de Língua Portuguesa I e II, para o curso de Direito, Português, praticamente todos os cursos de graduação, criador e professor da matéria interdisciplinar Sarau de Literatura, do Departamento de Letras.
Encontra-se na Estante do Escritor Tocantinense, da Biblioteca Pública do Espaço Cultural de Palmas. Membro da União Brasileira de Escritores – Goiás, onde é membro do Conselho Consultivo da atual gestão. Um dos fomentadores da Revista Bula (http://www.revistabula.com).
A poesia em Francisco Perna Filho, poeta telúrico, cônscio de seu laborar poético, recende a grãos de terra esmiuçados ao vento das águas da chuva acendendo, nos dias, o espírito dos homens, sob o que tange e locupleta o fôlego, a estética e sabedoria das horas, em sua essência e memória humanística.
Delermando Vieira
Bibliografia: Refeição, poesia, Ed. Kelps, 2001, com prefácio de Goiamérico Felício Carneiro dos Santos, notas de orelha de Luiz Serenini Prado e ilustrações de João Pedro Tavares Perna; As mobílias da tarde, poesia, Perna e Leite Editores, 2006,com prefácio de Valdivino Braz, notas de orelha de Edival Lourenço, capa de M. Cavalcanti e ilustrações de Maria Júlia Tavares Perna e Fernanda Nolêto Perna Jordão.
VISGO
As pernas daquela moça eram longe
e distantes de tudo;
Longínquas
e humildes.
As pernas dela
souberam dos meus olhos,
ignoraram distâncias.
Fechamos a porta.
POR UM SONO
O pássaro pousa no sonho
um cantar de prata,
e a densa plumagem que o abriga
é de um verde inacabado,
de um amarelo rubro,
de presumida ferida.
O homem que sonha o pássaro,
aos olhos do pássaro,
é um gigante e,
por um instante,
parece tocá-lo com um grito.
O pássaro sonhado carrega
nas asas muitas pedras,
perseguições
e desencantos,
por estar preso ao sonho,
a um visgo tão ilusório quanto a sua existência.
O homem ainda é um menino
e acostumou-se a sonhar pássaros
para aprisioná-los nos seus poemas.
ESTADO
Embora presa,
a água borbulha solta na chaleira
efervescente.
É de fora
a sua natureza líquida.
Não há fôrma que a aprisione,
não há temperatura que a molde.
Embora verso,
embora prosa,
A poesia sabe-se leve,
sabe-se solta.
Amorfa,
não se prende ao vocábulo.
AUTOBIOGRAFIA
Nasci,
tomei conhecimento do mundo
e de mim.
Além dos outros,
somente eu:
UM.
Um a contabilizar os dias,
os goles e os livros,
a jurar amores
às cartomantes.
A correr sem medo,
sem dinheiro e sem rumo,
espantava a velhice escovando as horas.
Quando cresci,
fui jogado no mundo,
bati com a cabeça na vaidade alheia,
conheci mulheres
e espelhos,
e descobri-me sobrevivente
ao brindar com o inimigo.
Acumulei perdas
e desilusões.
Talvez, por ter nascido bem mais tarde,
não me calaram a voz.
Chorei.
Persegui amores,
como os cães do interior
perseguem carros:
uma luta vã.
Sobrevivi,
tive bem mais sorte
do que o Latim.
Historicamente me fizera,
na repetição dos dias
e dos filhos,
descobri o amor.
ABOIO
Oh, Jerusalém!
A palestina sangra na menina dos teus olhos.
E pálida fica a tarde aturdida pelos canhões
amortecidos nos corpos espalhados pelo rio dos meus sentimentos.
Sentir o arranque do carro,
a distância da bala consumida pelo peito inocente da menina que vende flores em Copacabana.
Praga se faz aqui,
E em toda primavera nos sentimos invadidos
pelos soldados da incompreensão,
que marcham enraivecidos como os canhões na praça vermelha;
como os pássaros nas torres gêmeas;
quando as suas caras pálidas transbordam incertezas,
soldados que estão na própria máquina que conduzem.
Deuses do próprio umbigo,
amaldiçoados em rastros de ferro e fogo.
Famintos,
Os governantes desconhecem as águas na quais se banham.
Infelizes, não se comovem com o aboio da terra maltratada,
estriada, ressequida.
Infames, são a pura erva que mata o gado que somos.
Muitas outras dores passam a largo,
E não há remédio que possa acalmá-las.
Muitos outros gritos repercutem,
Como a mulher que grita desesperada
Pelas ruas de Bagdá.
Cavalos marcham em disparada.
Fora os ídolos!
Somente a idéia dos reis em marcha,
Os santos quebrados a cada um que se desfaz.
As aldeias estão às escuras,
A estrela não brilha mais,
E os homens gravitam no velho ábaco.
Olvidados o grito da terra,
Os sons metálicos das dores milenares,
e a menina órfã é rasgada como brinquedo de exploradores,
tão sedentos como os senhores da guerra.
Cravam-nas, as lanças, fardo de suas misérias capitalistas,
no corpo ingênuo da menina
de pernas finas,
bracinhos frágeis,
ventre deformado,
gestando o martírio de cana e etanol.
Oh, malditos!
Cearão a lama que produzem,
Nadarão nos tanques dos seus martírios.
Depois, embriagados chorarão a fome
A miséria da alma,
Os sons da fúria de uma cegueira ensaiada.
Oh, infames!
Visionários da própria destruição.
Acestarão os seus olhos para além do que podem entender,
E não enxergarão nada mais do que terra degradada,
Silêncio em decomposição,
Saudade e desmantelo
Na dor profunda do cerrado que se desintegra.
Ei boi! Ei boi! Ei boi!
* * *
The bird
sees the city.
Slowly / deadly
dives.
The bird
is of metal
and only notices its own flight,
disregarding the colors
and dreams it carries.
The bird sees
but doesn´t listen.
The city listens
but doesn´t see.
Life copies art:
the bird burns up
in flames,
the city
cries
debris.
(versão de Ricardo Kazuo )
|