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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

ARARIPE COUTINHO

 

 

Nasceu no Rio de Janeiro em 1968 mas vive em Aracajú, Sergipe, desde 1979, onde é articulista de jornais e apresentador de programa de TV. É autor de meia dúzia de livros de poesia. Recebeu os títulos de Cidadania Aracajuana e Sergipana e é membro da Academia Sergipana de Letras. Foi diretor da Biblioteca Pública Municipal.

 

Encontramos um exemplar do livro de Araripe Coutinho — “O DEMÓNIO QUE É O AMOR”  entre os muitos títulosos que o poeta Aricy Curvello doou para a Biblioteca Nacional de Brasília. Em boa hora. resgatamos este poeta de linguagem atual e instigante, de uma região que freqüenta pouco nossa página até o momento.

 

 

XLII

 

Adentro avesso e o reto

É vulva aberta, mucosa

No inferno de nossos dentros.

 

Espeto o desejo como quem

Procura o risco, o medo, a coragem

De avançar perdido por algo que sei

Desde a infância, aurido.

 

Homem é sempre treva. Mas pode

Trazer o mundo para dentro de nós.

E a arte nessa selva é sempre

A morte.

 

Invento de muros. Paredes altas.

Consumo de felicidades mortas

E a maçã no escuro é Clarice

Sem decifrar GH, seu mito.

 

Estou apodrecendo como

Quem constrói uma catedral

Sem missa. Assim rendido no portal

Avanço sempre que me vejo.

 

Sou um mesmo homem

Que não conhece deus, mas que o ama.

Seria o amor assim? Este nunca vir.

 

Sim. É desejo o que me mata.

São negros e azuis e o quarto cabe

Cada um com seu poder.

 

Eu sempre rendido.

 

 

XL

 

Aparecer no espelho e dizer: morra!

Este é o meu tempo. Fantasmas visitando

O quarto escuro. Uma mulher de unhas longas

Tez avermelhada, sombrancelhas de chagas

Mal dormidas. É a morte. Ainda que o dia

Amanheça a noite nunca chega.

Estou tateando a ogiva de um amor sem matéria.

Carregando o andor de um santo sem fé.

É minha esta prece. É vasta, solene, quase muda.

Entendo a morte como a um copo de café.

Sirvo as compotas de frutas uma a uma.

É jambo, ameixas e morangos.

Nenhum sabor

Decifra esta ira. Estou incendiado

Desde amor.

 

 

XLIV

 

Tenho dito sempre

Que genet e Jeanne moreau

Estão certos: “todo homem mata aquilo que ama”.

Os negros na vidraça ensaboados

E o quarto aguardando bater seis horas.

É deu visitando a estrebaria.

Pondo fogo no feno, impedindo que se durma

Ao longo de uma costela larga.

Mas pode o desejo fraturado

Acender outra chama? Pode.

Desce as escadarias. Põe o colchão

De sombras na varanda. Deixa os glúteos

À mostra. Concentra o verde da vida

Entre os lábios. Deserta a última

Claridade. É ele quem ama.

Mesmo escuro põe vida nas coisas.

E inflama.

 

 

Página publicada em janeiro de 2008.



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