O PARNASIANISMO / OS PARNASIANOS / POESIA PARNASIANA
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VICENTE DE CARVALHO
(1866-1924)
Nasceu em Santos , estado de São Paulo, Brasil e publicou seu primeiro livro de poesias, Ardentias, em 1885. Formou-se bacharel na Faculdade de Direito de São Paulo SP. participou na Boemia Abolicionista, encaminhando escravos fugitivos para o Quilombo Jabaquara. Candidatou-se a deputado provincial no Congresso Republicano, em 1887, em São Paulo. foi redator do Diário de Santos, e fundou o Diário da Manhã em Santos. Tornou-se Deputado no Congresso Constituinte do Estado em 1891, participando então na Comissão Redatora da Constituinte.
Foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 1909. No período de 1914 a 1920 foi Ministro do Tribunal de Justiça do Estado, em Santos. Em 1924 publicou Luizinha, comédia em dois atos.
Obra poética: Ardentias (1885), Relicário (1888), Rosa, Rosa de Amor (1902), Poemas e Canções (1908), Verso e Prosa (1909), Páginas Soltas (1911) e Versos da Mocidade (1912). É considerado um dos principais nomes da poesia parnasiana brasileira.
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
VELHO TEMA
I
Só a leve esperança em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.
Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos
II
Eu cantarei de amor tão fortemente
Com tal celeuma e com tamanhos brados
Que afinal teus ouvidos, dominados,
Hão de à força escutar quanto eu sustente.
Quero que meu amor se te apresente
— Não andrajoso e mendigando agrados,
Mas tal como é: — risonho e sem cuidados,
Muito de altivo, um tanto de insolente.
Nem ele mais a desejar se atreve
Do que merece; eu te amo, e o meu desejo
Apenas cobra um bem que se me deve.
Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo;
E vou de olhos enxutos e alma leve
À galharda conquista do teu beijo.
III
Belas, airosas, pálidas, altivas,
Como tu mesma, outras mulheres vejo:
São rainhas, e segue-as num cortejo
Extensa multidão de almas cativas.
Têm a alvura do mármore; lascivas
Formas; os lábios feitos para o beijo;
E indiferente e desdenhoso as vejo
Belas, airosas, pálidas, altivas...
Por quê? Porque lhes falta a todas elas,
Mesmo às que são mais puras e mais belas,
Um detalhe sutil, um quase nada:
Falta-lhes a paixão que em mim te exalta,
E entre os encantos de que brilham, falta
O vago encanto da mulher amada.
IV
Eu não espero o bem que mais desejo:
Sou condenado, e disso convencido;
Vossas palavras, com que sou punido,
São penas e verdades que sobejo.
O que dizeis é mal muito sabido,
Pois nem se esconde nem procura ensejo,
E anda à vista naquilo que mais vejo:
Em vosso olhar, severo ou distraído.
Tudo quanto afirmais eu mesmo alego:
Ao meu amor desamparado e triste
Toda a esperança de alcançar-vos nego.
Digo-lhe quanto sei, mas ele insiste;
Conto-lhe o mal que vejo, e ele, que é cego,
Põe-se a sonhar o bem que não existe.
V
Alma serena e casta, que eu persigo
Com o meu sonho de amor e de pecado;
Abençoado seja, abençoado
O rigor que te salva e é meu castigo.
Assim desvies sempre do meu lado
Os teus olhos; nem ouças o que eu digo;
E assim possa morrer, morrer comigo
Esse amor criminoso e condenado.
Sê sempre pura! Eu com denodo enjeito
Uma ventura obtida com teu dano,
Bem meu que de teus males fosse feito".
Assim penso, assim quero, assim me engano
Como se não sentisse que em meu peito
Pulsa o covarde coração humano.
A FLOR E A FONTE
"Deixa-me, fonte!" Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Cantava, levando a flor.
"Deixa-me, deixa-me, fonte!
" Dizia a flor a chorar:
"Eu fui nascida no monte...
"Não me leves para o mar".
E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.
"Ai, balanços do meu galho,
"Balanços do berço meu;
"Ai, claras gotas de orvalho
"Caídas do azul do céu!...
Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror,
E a fonte, sonora e fria
Rolava levando a flor.
"Adeus, sombra das ramadas,
"Cantigas do rouxinol;
"Ai, festa das madrugadas,
"Doçuras do pôr do sol;
"Carícia das brisas leves
"Que abrem rasgões de luar...
"Fonte, fonte, não me leves,
"Não me leves para o mar!...
" As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor...
PALAVRAS AO MAR
Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pêlo!
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada, à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas - a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.
Quando eu nasci, raiava
O claro mês das garças forasteiras:
Abril, sorrindo em flor pelos outeiros,
Nadando em luz na oscilação das ondas,
Desenrolava a primavera de ouro;
E as leves garças, como olhas soltas
Num leve sopro de aura dispersadas,
Vinham do azul do céu turbilhonando
Pousar o vôo à tona das espumas...
É o tempo em que adormeces
Ao sol que abrasa: a cólera espumante,
Que estoura e brame sacudindo os ares,
Não os saco de mais, nem brame e estoura;
Apenas se ouve, tímido e plangente,
O teu murmúrio; e pelo alvor das praias,
Langue, numa carícia de amoroso,
As largas ondas marulhando estendes...
Ah! vem daí por certo
A voz que escuto em mim, trêmula e triste,
Este marulho que me canta na alma,
E que a alma jorra desmaiado em versos;
De ti, de tu unicamente, aquela
Canção de amor sentida e murmurante
Que eu vim cantando, sem saber se a ouvia,
Pela manhã de sol dos meus vinte anos.
O velho condenado,ao cárcere
das rochas que te cingem!
Em vão levantas para o céu distante
Os borrifos das ondas desgrenhadas.
Debalde! O céu, cheio de sol se é dia,
Palpitante de estrelas quando é noite,
Paira, longínquo e indiferente, acima
Da tua solidão, dos teus clamores...
Condenado e insubmisso
Como tu mesmo, eu sou como tu mesmo
Uma alma sobre a qual o céu resplende
- Longínquo céu - de um esplendor distante.
Debalde, o mar que em ondas te arrepelas,
Meu tumultuoso coração revolto
Levanta para o céu como borrifos,
Toda a poeira de ouro dos meus sonhos.
Sei que a ventura existe,
Sonho-a; sonhando a vejo, luminosa.
Como dentro da noite amortalhado
Vês longe o claro bando das estrelas;
Em vão tento alcançá-la, e as curtas asas
Da alma entreabrindo, subo por instantes...
O mar! A minha vida é como as praias,
E o sonho morre como as ondas voltam!
Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias!
Tigre de que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pêlo!
Ouço-te às vezes revoltado e brusco,
Escondido, fantástico, atirando
Pela sombra das noites sem estrelas
A blasfêmia colérica das ondas...
Também eu ergo às vezes
Imprecações, clamores e blasfêmias
Contra essa mão desconhecida e vaga
Que traçou meu destino... Crime absurdo
O crime de nascer! Foi o meu crime.
E eu expio-o vivendo, devorado
Por esta angústia do meu sonho inútil.
Maldita a vida que promete e falta,
Que mostra o céu prendendo-nos à terra,
E, dando as asas, não permite o vôo!
Ah! cavassem-te embora
O túmulo em que vives - entre as mesmas
Rochas nuas que os flancos te espedaçam,
Entre as nuas areias que te cingem...
Mas fosses morto, morto para o sonho,
Morto para o desejo de ar e espaço,
E não pairasse, como um bem ausente,
Todo o infinito em cima de teu túmulo!
Fosse tu como um lago,
Como um lago perdido entre as montanhas:
Por só paisagem - áridas escarpas,
Uma nesga de céu como horizonte...
E nada mais! Nem visses nem sentisses
Aberto sobre ti de lado a lado
Todo o universo deslumbrante - perto
Do teu desejo e além do teu alcance!
Nem visses nem sentisses
A tua solidão, sentindo e vendo
A larga terra engalanada em pompas
Que te provocam para repelir-te;
Nem buscando a ventura que arfa em roda,
A onda elevasses para a ver tombando,
- Beijo que se desfaz sem ter vivido,
Triste flor que já brota desfolhada...
Mar, belo mar selvagem!
O olhar que te olha só te vê rolando
A esmeralda das ondas, debruada
Da leve fímbria de irisada espuma...
Eu adivinho mais: eu sinto... ou sonho
Um coração chagado de desejos
Latejando, batendo, restrugindo
Pelos fundos abismos do teu peito.
Ah, se o olhar descobrisse
Quanto esse lençol de águas e de espumas
Cobre, oculta, amortalha!... A alma dos homens
Apiedada entendera os teus rugidos,
Os teus gritos de cólera insubmissa,
Os bramidos de angústia e de revolta
De tanto brilho condenado à sombra,
De tanta vida condenada à morte!
Ninguém entenda, embora,
Esse vago clamor, marulho ou versos,
Que sai da tua solidão nas praias,
Que sai da minha solidão na vida...
Que importa? Vibre no ar, acode os ecos
E embale-nos a nós que o murmuramos...
Versos, marulho! Amargos confidentes
Do mesmo sonho que sonhamos ambos!
NO TEU ANIVERSÁRIO
No lar cercam-te vozes d´alegria
em bando, em nuvens doiro, mariposas
que o teu olhar atrai. Canções e rosas
sob os teus pés desfolham-se à porfia.
A noite, alva corbelha de mimosas
sobre ti volta o arcanjo da poesia.
Nublam-te o sono as ondas vaporosas
do turib´lo do amor, como de dia.
Vives feliz no angélico ambiente
de fortuna, feliz. Mas considera,
que em um pobre, misérrimo, eu doente,
eu vibraria a lira, se pudera
vibrar a lira frágil e inocente
a bruta e hedionda garra duma fera.
De
Vicente de Carvalho
POEMAS E CANÇÕES
(SEGUNDA EDIÇÃO)
Porto: Livraria Chardon, 1909
250 p. 18 cmx 12 cm.
(Conservamos a ortografia antiga, original)
CAIR DAS FOLHAS
“Deixa-me, fonte”! Dizia
A flôr, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Cantava, levando a flor.
“Deixa-me, deixa-me, fonte!””
Dizia a flor a chorar:
“Eu fui nascida no monte...
“Não me leves para o mar”.
E a fonte, rapida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flôr.
“Ai, balanços do meu galho,
“Balanços do berço meu;
“Ai, claras gotas de orvalho
“Caídas do azul do céu!...”
Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror,
E a fonte sonora e fria,
Rolava, levando a flor.
“Adeus, sombra das ramadas,
“Cantigas do rouxinol;
“Ai, festa das madrugadas,
“Doçuras do pôr do sol;
“Caricia das brizas leves
“Que abrem rasgões de luar...
“Fonte, fonte, não me leves,
“Não me leves para o mar!...”
*
As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor...
SAUDADE
Belos amores perdidos,
Muito fiz eu com perder-vos;
Deixar-vos, sim: esquecer-vos
Fôra de mais, não o fiz.
Tudo se arranca do seio,
— Amor, dezejo, esperança...
Só não se arranca a lembrança
De quando se foi feliz.
Rozeira cheia de rozas,
Rozeira cheia de espinhos,
Que eu deixei pelos caminhos,
Aberta em flor, e aprti:
Por me não perder, perdi-te;
Mas mal posso assegurar-me
— Com te perder e ganhar-me
Si ganhei, ou si perdi...
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Foto de Vicente de Carvalho
“Poemas e Canções – Segunda edição”
Porto: Livraria Chardon, 1909
TEXTOS EN ESPAÑOL
Traduções de ANGEL CRESPO
publicadas originalmente en la REVISTA DE CULTURA BRASILEÑA,
n. 17 Junio 1966 – Editada por la Embajada del Brasil en Madrid, España.
SUGESTIONES DEL CREPÚSCULO
Trad. de Àngel Crespo
I
Al caer el sol, por la tristeza
Que trae la luz crepuscular,
Tiene el acento de quien reza
La voz del mar.
Crece, se arrastra y va pausado
Por las laderas del otero
De sombra el yermo, vago y huero,
De un cielo de astros despojado.
Todo se apaga; en todo anida
Una fatiga, un desconsuelo...
Cual la mirada dolorida
Que ai muerto empaña triste velo.
Vencida, pues, por un instante,
Por la escena que le rodea,
Melancólica, balbucea
La voz piadosa del gigante.
Cede la ola y ya no lucha,
Se humilla, empieza a murmurar...
¿Quê pide al cielo que no escucha
La voz del mar?
II
Extranñ voz, extraño salmo
Aquel salmo y aquella voz,
Cuya humildad y acento calmo
No parecen dei mar feroz;
Del mar pagano, en desenvueltas
Distancias libre, cuya vida
Corre, agitada y desabrida,
En tempestad de olas revueltas;
Cuya ternura asustadora
Agride a todo cuanto ama
Y una vez muerde y otra adora
A Ia playa en que se derrama...
Torvo gigante repelido
En su pasión lasciva y loca,
Es todo furia: y en su boca
Aúlla el dolor, mora el rugido.
La desnudez sueña: e impuro,
Blanco de espuma, ébrio de amor,
Desnudar quiere el seno duro,
Virginal, de Ia tierra en flor.
La tierra en flor teme y se apoca,
Quiere escapar: huye y se apena
Tras los montículos de arena
Y dei granito tras Ia roca.
Trás de Ias huellas de Ia amante
Que se lê hurta, sigue el mar;
Suelta Ias olas adelante,
Como jauría, a olfatear.
Y, hallado el rastro, con sus blancos
Penachos de olas, y su airada
Fuerza, en Ia tierra devastada
Lame Ias rocas y barrancos...
III-
Más formidable se revela,
Más amenaza y más asombra
Aullando, anilando entre Ia sombra
Las hondas noches de procela.
Tremendo y próximo se advierte,
Llenando el aire y devastando,
El ruído- de un combate a muerte
Que cielo y mar van disputando.
En cada ráfaga violenta
El viento agride ai mar sanudo,
Roza su faz con el agudo
Latigazo de Ia tormenta.
De entre el estruendo, un estampido
Crece y estalla, alto y mayor,
Cuando, tirano enfurecido,
Truena el cielo amenazador.
De cuando en cuando, leve huella
De Ilama vese, entre Io obscuro...
Y el mar recibe el golpe duro
Que le descarga una centella.
Mas Ia batalla es suya: cede
El viento al fin... Sosiega el vuelo.,,
La somnolencia le sucede
Y Ia luna ilumina el cielo...
Del campo su agua se apodera
Y el monstruo, lleno de osadía,
Maldice, insulta, desafia
Y al cielo escupe su salmuera.
IV
El alma torva y libertina
De ese tenaz batallador
Que dei escombro y de Ia ruina
Hace trofeos de su amor;
El alma osada y descompuesta
De ese pagano y descreído
Que se desquita y da respuesta
Al mismo cielo enfurecido;
El alma altiva, alma bravía,
Dei mar, que vive combatiendo,
Se entrega a Ia melancolia
Conventual, atardeciendo...
En su clamor desfallecido,
Confuso y espiritual
Vibra un trasunto del gemido
De un órgano de catedral.
Y por Ias playas donde el cielo
Sombras y paz dejando va;
Y por Ias vegas donde el vuelo
Mudo detiene el sabïá;
Oyen los yermos espantados
Dei mar contrito en el clamor
La confesión de los pecados
De aquel eterno pecador.
*
Escucha bien... De atardecida,
Bajo Ia luz crepuscular,
Es cual plegaria conmovida
La voz tristísima deilmar..,
AVES FUGITIVAS
Trad. de Àngel Crespo
Aves fugitivas que pasáis en bando
Por Ia tarde azul sobre el azul mar,
Aves huidizas que pasáis cantando,
iQué hacéis, pues? Pasar.
Pasáis de repente. En el vasto cielo
Blanco torbellino de repente crece,
Pasa, se retira como vino, en vuelo,
Y desaparece.
De plumas blancura blanda, rumor leve
De alas que se mueven sin prisa,
Pasáis como copos de nieve
Que en el viento susurran y disuelve Ia brisa.
De todo esto ¿ que queda? ün casi nada: en suma
Contemplo distraído
Una vaga impresión de blancura de pluma
Y el eco de un rumor cantándome ai oído.
Página ampliada e republicada em outubro de 2008 |