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VALÉRIO OLIVEIRA

Valério Oliveira parece querer manter-se numa certa áurea de mistério... Viveu em Portugal, mora nos Estados Unidos da América, anda por São Paulo de vez em quando... Seus temas são contemporâneos e incomuns: terroristas subterrâneos, pactos fáusticos, viagens ao centro da terra...

 

APAGÃO

 

As lanternas fraquejaram

durante meio minuto

de merda

Então nossos mapas ficaram cegos

feito morcego de cera

E agora

essa chuva de gesso e osso e olho de vidro

que não dá sossego

 

Faz dois dias que cavamos

círculo dentro do círculo dentro de círculo dentro de

sob raízes do cemitério

 

Não adianta choro

nem ranger de dentes

O jeito é assoar os olhos e molhar as mãos

no pesadelo seco dessa solidão

 

Lá longe

mugidos e cacarejos aos berros

abracadabras de cabras e cabritos

 

O cerne da solidão é oco

oco

eco

é como a cisterna sem fundo

de onde meu avô tirava água

quando meus ossos tinha só seis anos

 

“Sete”, resmungava meu avô

resmungavam seus ossos

do fundo de seu poço imundo

 

“Seis”

“Fedelho, sete!”

 

“É, pode ser

a tua conta pode estar certa”.

 

O balde despencava desaparecia

nunca mais voltava

Mesmo assim não sentíamos sede

Talvez porque já estivéssemos mortos

 

“Só os animais urravam”, ele me lembra

 

Ninguém sobreviveu à vida

de cercas e cernes solitários

da fazenda

 

Mas não me espantaria

se sob esses túmulos todos

o balde finalmente batesse no fundo

bem aqui ao lado

 

 

ÓDIO SUSTENIDO

 

Ouvi os molares desmoronando, vi sim

os molares mergulhados no ketchup

Ouvi a chacina no boteco da esquina, ah se vi

Ouvi a briga a faca a vingança – vi, não vi?

Ouvi o sujeito esquartejar o braço direito, é

o próprio braço direito

ouvi o lixo comendo o lixo, pode apostar

Ouvi a sirene da seringa assassina, vi sim

Ouvi a sereia o isqueiro a heroína

faiscando na veia do anti-herói, ah se vi

Ouvi o latido das papoulas prenhas – vi, não vi?

o nome do homem de braço metralhado

Ouvi a trilha sonora da matilha retalhada, é

o uivo do pivete no peito do canivete

Ouvi o peido o pus o pó, pode apostar

da filha do alto-falante

Ouvi os fogos de artifício, vi sim

os olhos boiando feito ilhas no vinagre

do fundo do poço sem fundo

 

Extraídos do livro Sobras do subsolo. São Paulo: Catatau, 2004.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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