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Retrato do poeta por Tarsila do Amaral

 

SÉRGIO MILLIET

(1898-1966)

 

 

Sérgio Milliet da Costa e Silva nasceu em São Paulo, em 20 de setembro de 1898. Em 1913 segue para a Suiça onde prossegue seus estudos na Escola de Comércio de Gnebra e freqüenta um Curso de Ciências Econômicas e Sociais. É em Genebra que publica seus primeiros livros de poesia, em francês, e com seu nome afrancesado, Serge. Na Europa, naturalmente, tomou contato com os primeiros movimentos de renovação literária e começa o aprendizado modernista.

Voltando ao Brasil, pouco antes da “Semana de Ar te Moderna”, engajou-se no movimento, sendo mesmo um dos declamadores da noite de 15 de fevere3iro. Colaborou na primeira revista do grupo paulista posterior à Semana, Klaxon, com seus poemas em francês e, mais tarde, como crítico literário, e dos mais respeitados por seu equilíbrio, em Terra Roxa.

 

Desempenhou em São Paulo vários cargos de destaque: Diretor da Biblioteca da Faculdade de Direito, Secretário da Universidade de São Paulo, Presidente da Sociedade Paulista de Escritores, da União Brasileira de Escritores, além de membro a Academia Paulista de Escritores. Sua atividade artística não se limitou à poesia: foi também crítico literário e das artes plásticas (“um dos mais hábeis exegetas do modernismo”, no dizer de Alceu Amoroso Lima), ensaísta, ficcionista, professor e jornalista.

 

Obra poética: Par le Sentier (Genebra, 1917); En Singeant, em colaboração com Charles Reber (Genebra, 1918); Le Départ sou la Pluie  (São Paulo, 1920); L´Oeil de Boeuf (Antuérpia, 1923), Poemas Análogos (São Paulo, 1927), Poemas (São Paulo, 1937); Oh! Valsa Latejante (São Paulo, 1943); Poesias (Porto Alegre, 1946, reunindo produções de volumes anteriores), Poema do Trigésimo Dia (São Paulo, 1950); Alguns Poemas entre muitos (São Paulo, 1957).

 

Textos e Poemas extraídos da obra POETAS DO MODERNISMO, organização geral de Leodegário A. de Azevedo Filho, edição comemorativa dos 50 anos da Semana de Arte Moderna de 1922, obra em 6 volumes, editada pelo Instituto Nacional do Livro (Brasília, 1972).

 

 

PARIS

 

         “Crepúsculos longos impressionistas

         A luz não cai

                   escorrega

         sobre os patins das nuvens

         O Sena foge

         Levando o gosto da posse”

 

LISBOA

 

         “A cidade tomou banho

         Água suja do Tejo

         A Torre de Belém

         no poente decadente

         sonha com impossíveis caravelas”

 

OBERLAND

 

         “Lagos

         Vaquinhas bem pintadas

         Neves eternas para inglês ver

         Palace Hotel”

 

HAVRE          

 

         Mastros... guindastes... armazéns

         Canção dos caminhões

         sobre os paralelepípedos anárquicos

         Apitos taciturnos... Velas ao vento

 

GENEBRA

 

         “Longe dos olhos perto do coração

         A nostalgia cresce como meu bigode”

 

NOVA YORK

 

         “Fui a Nova York

         Não de avião ou transatlântico

         Nem com ajuda de Orfeus hoje impotentes

         Fui de cinema.”

 

Comentário: Tendo estudado na Europa e tomado contato direto com os movimento europeu, Sérgio Milliet apresenta uma poesia das mais avançadas no que concerne à técnica cubo-futurista, como podermos ver (...): falta quase total de pontuação, superposição de idéias e imagens em lugar da seqüência lógica, técnica analógica, simultaneidade, versos elíticos, independentes, dando idéia de descontinuidade”. Leodegário A. de Azevedo Filho

 

 

         POEMA IX

 

         Viajante, fecha os olhos para os campos dromedário, para o espanto

                                                        emplumado dos coqueiros...

         Abre-os para dentro de tua alma!

         Porque não importa a forma da paisagem nas tão-somente o reflexo

                                                        que ela projetou dentro de ti.

         Os poetas de minha terra sonham o eterno feminino.

         Este diz que os lábios dela são como a taça do rei de Tule.

         Outro, que os seios dela cabem entre os cinco dedos da mão.

         Os poetas da minha terra cantam os choros do coração.

         Este diz que a vida inteira a mágoa brilhou em seus olhos.

         Outro, que seus desejos são orvalho ao sol da manhã.

         Outro comenta a saudade roxa com seu sabor de Fernet no fundo...

         Mas nenhum poeta da minha terra fixou

         sobre aquela gravidez esfarrapada

         um olhar apiedado.

         Nenhum condescendeu ainda em catar o rito amargo

         daquele homem vestido de oleado

         que pacientemente

         vazio

         vencido

         cata detritos pelas ruas

         oh poeta de minha terra

         abre os braços bem abertos para que venha a ti

         a voz profunda do mundo...

 

Comentário: “Não é esta a missão do poeta: o poeta dever ser o receptáculo da dor do mundo, a caixa acústica, através da qual o mundo tome consciência dessa dor (...)”  Leodegário A. de Azevedo Filho

 

 

         COVARDIA

 

         Eis o veneno, eis o punhal, que esperas?

         O horror à terra, de repente,

         o passo atrás,

         o apego ao quadro, ao livro,

         que sei mais!

         O apego à própria miséria...

 

         Há que buscar a solidão

         entrar no reino do silêncio,

         à espera,

         à espera...

 

         Mas ainda aí a nossa própria voz ecoa.

         Não queremos confissão,

         eu vos digo, porém,

         em verdade vos digo:

         existir, embora surdo,

         olhos abertos, apenas, para a vida;

         embora cego,

         ouvidos atentos aos ruídos misteriosos;

         embora mudo,

         mãos ávidas em reconhecimento;

         ainda que imóvel,

         boca e narina percebendo

         o gosto e o cheiro do mundo!

        

         Existir...

         Em que pese o absurdo!

 

 

Comentário: “Para finalizar, o poeta nos mostra que o desejo de existir é tão arraigado em nós, que desejamos qualquer partícula de vida, por menor que seja; sejamos surdos, cegos, mudos, imóveis, só tomemos conhecimento do mundo através da olfação e da gustação, importa-nos existir, apesar do absurdo que isso representa (...)”.

 

“À guisa de conclusão, podemos dizer que Sérgio Milliet é um poeta que está a merecer uma valorização crítica no conjunto. Evoluindo do parnasianismo para o modernismo, não cedeu a todas as imposições do movimento, que aliás nunca foi uniforme, procurando uma linguagem própria para sua mensagem, o que conseguiu magistralmente com sua poesia vanguardista na utilização de novas técnicas cubo-futuristas. Não se filiou a nenhuma corrente em que se fragmentou o movimento modernista brasileiro, conservando-se eqüidistante e equilibrado, o que lhe valeu o respeito de todos na crítica literária que também exerceu com brilho”.

         Leodegário A. de Azevedo Filho

 

 

Página publicada em janeiro de 2008.



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