MARCO AQUEIVA
Marco Aqueiva é nome literário de Marco Antonio Queiroz Silva. Bacharelado e Licenciatura em Letras pela Universidade de São Paulo (1993 e 1995) e Mestrado em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (2006), tendo apresentado dissertação em torno da representação do artista no órfico português Mário de Sá-Carneiro. Atualmente exerce o cargo de Coordenador do Curso de Letras da Faculdade de Ciências e Letras de Bragança Paulista (FCLBP/FESB), onde ainda vem dedicando-se ao ensino de disciplinas relacionadas à literatura: Literatura Portuguesa e Teoria da Literatura. Ministra também Literatura Brasileira abordando notadamente poesia e prosa brasileira (séculos XIX e XX). Ademais, como poeta, assinando Marco Aqueiva faz parte presentemente da Diretoria da União Brasileira de Escritores, gestão 2008-2010. Desenvolve, ainda na web, o Projeto Valise 2008 no endereço http://aqueiva.wordpress.com/
De:
NESTE EMBRULHO DE NÓS
São Paulo: Scortecci, 2005
“À página 16 deste livro, o poeta pergunta se haverá um temporal imposto ao sol da escrita. O poema em questão parecerá, tal como outros, obscuro. Porque nesta poesia culta, e com frequência difícil, há zonas de sombra. Não porque o poeta queira fazer-se hermético. Sua visão do mundo, expressa com riqueza de imagens em léxico inusitado, é que turva parcialmente o entendimento do leitor. (...) No livro há nós, becos, farpas, cicatrizes. Há coisas soterradas, há asfixias, uma urbe “sem lá” (...)” Izacyl Guimarães Ferreira
ECO AOS BECOS SEM ECO
I
Sonhos meus em círculos de águas e terras infindas —
voz desorientada, lugar sem rumor, desafio entre beiras
de rigor e guincho, sílabas que me confrangem em falsas e vivas
etimologias e regras, a boca tão cheia de chios e guizos sem
[origem,
dobrados de roque em samba, versos dobados na escala de dó ao
[indizível.
Com o baque destas pedras atiradas contra o lasso centro
[inacessível
— e o próprio poético arremessado ao impossível.
ÍGNEO RETRATO
Sonho crescendo antes de pleno à vista
: ígneo engenho modelando ao fogo
líquida resistência da ânsia à escrita —
mãos aos ferros de um barro inda sem voz.
Quanto de vã suficiência em voz!
Febre-limite queima-me esta escrita.
Tanto a perder no débil sonho à vista...
pele escamando ao fogo — ígneo rosto
ígneo retrato de um sonho sem rosto!
ALMAS MORTAS
Poeta no cálculo de sua obra
se edipimático à esfinge toma
jocastros seios, eles mesmos primários
matermásticos e direitos
quanto
não se esfolava o incesto então semântico?
Sei que outro agora está cheio de sua obra
como os americanos entre músculos
de iraquianos franzinos como sombras
de suas obras que fedem como o imundo
bastão sobre o qual corpos não se apoiam
Americanos cheios de suas obras
tão narcisos que a esfinge mal devoram
iraquianos franzinos bem pressentem
entre estampidos gritos cheios de vespas
convertendo um só verso decassílabo
no fogo que o apanha veloz zunindo
no rosto que sustenta corpo e espanto
no espanto de unha e carnes entranhando
terror
rojam-se à merda os mortos vivos
TOMBER DANS LE LAC
Uma grande noite
: um sortilégio em roda?
Que me há além de mim rente
aqui dentro destas paredes?
Sei-me visto pelo que não vejo
Presas as entranhas de véspera
: ó chão pênsil neste momento
fios e teia, fímbria espelhos
Meus olhos presos ao esfíngico
tentacular de tuas aparições — brilho
brilho sobre brilho, pirilampeante, tua aura
no corpo da grande noite pinça-me a alma.
— a aranha onde eu, um sol que não se deita
Página publicada em fevereiro de 2009
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