GUSTAVO TEIXEIRA
Gustavo de Paula Teixeira (São Pedro, 4 de Março de 1881 — São Pedro, 22 de Setembro de 1937) foi um poeta brasileiro, de tendências literárias entre o Parnasianismo e Simbolismo, peculiares as primeiras décadas do Século XX. Gustavo Teixeira publicou dois livros apenas em vida. Ementário, publicado em 1908, trazia um prefácio de Vicente de Carvalho e poemas nos estilos romântico e parnasiano, notadamente utilizando versos alexandrinos, comuns à sua época. Em Poemas Líricos, de 1925, suas composições passaram a predominar em estilo através da estética simbolista. (Dados extraídos da Wikipedia)
Quem prefaciou e deu notoriedade à obra poética de Gustavo Teixeira foi o modernista Cassiano Ricardo ao prefaciar a antologia do autor que estava no esquecimento. "O poeta de "Martim Cererê" elaborou um autêntico ensaio sobre Gustavo Teixeira, analisando-o com a sua sensibilidade e agudezaa crítica, de forma a compreendê-lo e situá-lo, com o devido recuo no tempo", referindo-se à "idade" que condicionava seus versos monocórdios "próprios de épocas de ritmo mais sossegado e sem problemas".
Capa de Darcy Penteado, a partir de uma
fotografia da casa em que o poeta viveu.
Mantivemos a ortografia original da época:
O ARANHOL
Entre bromélias, junto à quérula torrente
Que do plaino em que habito um longo tracto banha,
Num contínuo labor, uma operosa aranha
Fia o rico enxoval de noiva, sutilmente.
O tecido brumal, que nunca se emaranha,
É feito de um só fio, um tênue fio albente,
Que vai, de volta em volta, ininterruptamente,
Tramando o brocatel de contextura estranha...
Quando o sol se levana enviando olhares d´oito
E a aranha, distendendo a fibra, no tesoiro
Da renda leve embala as ilusões raiosas,
Na teia, que, filtrando orvalho, oscila e pende,
A luz, que se refrange em cada gôta, acende
Uma aurora boreal de pedras preciosas!
À ESPERA DA BEM AMADA
Soa ligeiro ruído fora...
O coração, glorioso e satisfeito,
Como a ave que saúda o rosicler da aurora,
Pôe-se a cantar baladas no meu peito!
Levanto-me de um salto e, ansioso, olho à janela
Escancarada para a noite morta:
Foi uma fôlha que, ao cair, tõda amarela,
Bateu de leve à minha porta...
ANCHIETA
Nimbado de celestes claridades,
Na mata, entre um fremir de asas velozes,
Cisma Anchieta, já velho, ouvindo as vozes
Doces e tristes da hora das trindades.
E o canto sente, como nós, saudades...
Nas saudades das ânsias mais atrozes
Que sofrera por Deus em mãos ferozes,
Pregando as evangélicas verdades!
Lembra os versos escritos sôbre a areia,
O ardor com que ia, ao sol das primaveras,
Levar a fé à mais remota aldeia.
E cisma, cisma... À extrema luz do dia,
Vêem-se a seus pés, guardando-o, ruivas feras,
E alvas pombas rezando a Ave-Maria...
BALADA
Havia festa na capela.
E eu, que alimento uma ilusão,
Pus um crisântemo à lapela
Para assistir à procissão...
Rompendo a custo a multidão
Onde, querida, te sumiste,
Cheio de estranha comoção,
Passei por ti e não me viste!
Para adorar-te a imagem bela,
Três dias fui à igreja: em vão!
Depois, defronte da janela
Da tua quieta habitação,
Estrela, dentro de um clarão,
Te descobri, formosa e triste,
E sem rumor, com lentidão,
Passei por ti e não me viste!
Quando num poente de aquarela
Desmaia o Sol, — na solidão
Funda saudade me flagela,
Punge-me atroz recordação!
Amo-te! E eu hoje a confissão
Não fiz do amor maior que existe
Porque (meu Deus! que distração!)
Passei por ti e não me viste!
OFERTÓRIO
Meu anjo! atende-me senão
Minha alma em lágrimas insiste
Em repetir, numa aflição:
"Passei por ti e não me viste!"
Página publicada em setembro de 2010
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