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Sobre Antonio Miranda
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


www.estadao.com.br/arteelazer/letras/noticias/2006/abr/06/309.htm

 

 

DORA FERREIRA DA SILVA

(1918-2006)

 

Autora de livros como Andanças, Talhamar, Retratos de Origem, Poemas da Estrangeira e Hídrias. Foi três vezes ganhadora do Prêmio Jabuti. Recebeu também o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, em 2000, por sua obra Poesia Reunida, editado pela Topbooks.

 

Como tradutora, destacam-se seus trabalhos com autores como Rilke, Saint-John Perse, San Juan de la Cruz, Hörderlin e Jung. Também atuou como editora, fundando a revista Diálogos, juntamente com seu marido, o filósofo Vicente Ferreira da Silva. Depois, criou a revista Cavalo Azul, para difusão da poesia. Atualmente, funcionava em sua casa, um Centro de Estudos de Poesia com o mesmo nome.

 

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTO EN ESPAÑOL

 

 

 

CÂNTICOS

 

I

 

Tenho-te um amor de mansidões

rebanho lento e branco passeando na alvorada

tenho-te um amor tranqüilo e trêmulo

não se música ou se constelações

 

tenho-te um amor de eternidades

em vagas renascentes — brando som de flauta

chamando as superfícies distraídas

para a reconcentração definitiva

 

II

 

Como um ramo de úmidas rosas

quisera estar na sala em que respiras

o aroma de tuas primaveras

Como um cesto de frutos derramados

quisera ser a oferta abandonada

na mesa simples da tua eternidade

 

 

AO SOL

 

Naufragas na noite

em pompas de luz e imensidade

todo germe palpita na semente

e da nova manhã ressurges

clara divindade

nua a carnação sob o manto escarlate.

 

 

NOTURNO II

 

Nossos olhos nos pertencem —

não o dia.

Amor não nos pertence

nem a morte.

Apenas pousam na pérola mais fina.

Desce o luar

No flanco de rios precipitados

folhas se alongam

caules estremecem.

 

A noite já desfere

seu punhal de trevas.

 

 

MADURO PARA O CANTO

 

Maduro para o canto

vertes, cântaro,

a água pura

e suas sete cores

unindo lago e lago.

Barco em flor

rio correndo da prece

promessa em silêncio

da messe.

 

Sem pressa

o agapanto floresce.

 

 

         Extraído de ANDANÇAS 1948-1970.  Rio de Janeiro: Edição da Autora, 1970? 120 p.

 

            Indicado por Wagner Barja. Maio 2007.

 

CANTO

 

O pássaro cantou

e os ramos vergaram

sob o peso do fruto

e o fruto cantou

sob o peso do pássaro

e o canto pousou

sobre o fruto

e os ramos cantaram.

 

 

NOITE

 

No declive da altura

poço de lumes.

 

Entre folhas

perpassa um vôo.

 

(Noite e alma

toque levíssimo

de palmas.)

 

Uma estrela cavalga a escuridão. 

 

 

O FOGO

 

O fogo acende-se no próprio nome

sete línguas ardem no coração da rosa

e se alastram pelo jardim

voltando depois ao próprio nome.

Se ao fogo perguntas: “É ele? És tu?”

crepitam centelhas. Um Serafim o abraça

e ao coração.

 

 

CONVERSA DOM PESSOA

 

Ai, não ter a vida provas de revisão

para mudar-lhe as vírgulas, acrescentar-lhe

                                     pontos de interrogação

e sobretudo passar a limpo dores e amores

arranjar vasos de flores, ter um gato de

                                                         estimação,

ouvir a rolinha a consolar-lhe a aflição...

 

Ai, não ter a vida provas de revisão

para endireitar-lhe as linhas, trocar palavras

e afinal arrancar as páginas todas do livro

e suprimir-lhe a edição.

 

 

            Extraído de JARDINS (esconderijos).  São Paulo: Edição da Autora, 1979.  125 p.

 

            Indicado por Wagner Barja. Maio 2007.

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De

O LEQUE

São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2007

 

“(...) as palavras da poeta, recortadas dos dez breves instantes desta suíte, que a um só tempo é dança e melodia, gesto e repouso, enigma e clareza. Ou, direto ao ponto: a sutil, inefável maravilha da grande poesia”.

    Antonio Fernando de Franceschi

 

IV

 

Sublinham os olhos

o leve movimento

do leque.  Como que anunciam

início e algo terminado.

Os dedos: promessa

ao jovem atento

esperando o que não sabe

do iluminado frêmito.

 

 

V

 

O sim-não do leque

rabisca sobre a face

algo que desaparece

com o sorriso.

Iluminura de renda

instrumento sutil

e sua música.

 

VII

 

O que eu daria

para ser leque em suas mãos.

O que eu seria — trêmula pérola

junto a um coração.

A aragem me levaria

A Mozart engastado a Mozart

Nessa emoção. O espaço:

Separando sonho e música.

O leque — ladrão sutil —

deixando-me apenas

um vago perfil. 

 

 

Fragmentos da obra, até então inédita, que a Fundação Moreira Salles publicou em homenagem à grande poeta, e que merece ser apoiada e levada ao grande público.

 

APPASSIONATA

De
APPASSIONATA
São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2007.
ISBN 978-85-86707-22-3

 

Obra póstuma publicada organizada pela filha Inês Ferreira da Silva Bianchi e editada com beleza e qualidade pelo IMS.

 

“Dora Ferreira da Silva se debruça sobre a coisa em si da palavra e da expressão poética, de modo que sua linguagem está de tal forma aderida à emoção e ao pensamento que nela se torna impossível vislumbrar quaisquer suturas operacionais.  Trata-se, por assim dizer, de uma linguagem inconsútil, tamanha é nela a fusão entre a forma e o fundo, o que a torna desde logo imune a qualquer decodificação que tente eviscerá-la como se fosse um animal de laboratório.”  Ivan Junqueira, no prefácio da obra.

 

(...)

Vivos e mortos
perambulam nas estradas
um sorriso nos lábios.
O que dizem
no silêncio
agora pleno
da alma?
Appassionata.


O gesto preserva a
emoção e o brusco
perpassar de folhas mortas.
Gemem pássaros noturnos
fiéis da madrugada
até que o horizonte desperte
em sua luz dourada.

Dedos da memória
afagam e são cruéis:
tudo ressurge e se transfigura
no que poderia ser
se a chuva desabasse.
Só os relâmpagos
ao longe
de raios mudos.

(...)

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De
HÍDRIAS
POEMAS DE DORA FERREIRA DA SILVA

São Paulo: Odysseus Editora, 2004
ISBN 85-88023-62-8 (capa dura)
85-8802--62-X (brochura)

[capa dura azul revestida de tela com aplique]

 

 

 

APOLO HIPERBÓREO

Ele ama a distância além do inverno,

onde não declinam a luz radiosa e os cantos.

Quando se afasta, pássaros silenciam e a fonte
em Delfos quase se extingue. Lobos uivam.
Imensa é a noite fria em sua ausência.

Mas ouve! O jubiloso peã de novo repercute
nas pedras brilhantes. Corpos e olivais dourados
revivem na dança: o Citaredo retorna coroado de folhas.

 

 

 

NARCISO (1)

 

Lampeja o olhar que antes a toda a beleza

se esquivara. És tu, Narciso,

teu reflexo nas águas, ou a irmã

de gêmeo rosto e forma?

Não, não te afastas, porque a unidade

em duas se faria e o mundo das sombras ulula

à espera de tal luto. Permaneces inclinado

e adoras, sem saber se és tu, ou quem queres ver

no exasperado amor que as águas refletem.

 

A Morte veio enfim buscar-te, consternada,

vendo os olhos do estranho amante

fixos na flor nascida de teu sonho.

 

 

 

NARCISO (II)

 

Folhas incandescentes fizeram da fonte

vale de fulgores. Bebia Narciso sobre a onda

quando uma face viu de tal beleza

que a luz mais viva se tornou.

E Amor - cujas setas jamais puderam alcançar

seu coração esquivo — nele reinou e jamais do jovem

se apartava, que a seu chamado as águas acorria.

Insidiosa veio a Morte para o levar consigo,

deixando numa flor a forma de Narciso.

 

Dora Ferreira da Silva

De
Dora Ferreira da Silva
RETRATOS DA ORIGEM
São Paulo: Roswitha Kempf Editores, 1988

Capa: detalhe de um quadro a óleo de Edmar José de Almeida -
Retrato de Dora Ferreira da Silva (1972)

 

CANTO IX

Teu nome
              de nada é feito
(que matéria poderá servi-lo?)
És o que antecede
                           o ver
                                   e inaudível
precedes o ouvir
                            O tato
                           o sabor
                           o cheiro
apenas em ti se reconhecem
antes que retornes
ao moldo do vazio

Quando vens
                   ultrapassas ideias
                                            pensamentos
que pretendem prender
                                  o antes
                                               depois
e ao mesmo tempo
                            agora

Menino
usas todas as máscaras para brincar
                                 e nos surpreendes!

Poupas nossa fragilidade
                                   com ecos
                                                fragrâncias
(passo no caminho
                            és tu
                                    e quem caminha)

Coisa não és
                   mas concedes graça
à curva de um caminho
                   às folhas aromáticas
a um contato de amor
                               Se te evolas
não é como quem abandona
                               mas pelo gosto
de repetir-te
                    em nós por outras vindas
grandes e pequenas
                            enquanto houver espaço
para o Amor
                  Mas este nome — o mais próximo —
também não basta!
                           

 

 

De
Dora Ferreira da Silva
UMA VIA DE VER AS COISAS
São Paulo: Livraria Duas Cidades,  1973.  124 p.

 

AMORES

III
Não traçarei novos caminhos.
Entrelaçados, nascemos de raízes
mais fundas que saber.
És o que virá, se vieres.
E eu espero.  Véspera da morte,
agora que o amor é mudo ou canta sem parar.
E o canto um silêncio parece
de tão fundo viver, que a vida já se despe
de si mesma, e avança sem andar:
bem longe
ou perto
aberto dom
de
amar.

IV
Não o que dizíamos
nem o que víamos,
mas o olhar desviado,
taça em demasia.  E o que insistia:
os mesmos pórticos, a hora
na torre austera.  E tudo fazíamos
para não ouvir, calado,
o passo do passado
e não olhar, à janela cega,
um vulto debruçado
o olhar isento
do amor que não se vê
e, em fuga, se extravia.

 


 

 

 

 

 

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TEXTO EN ESPAÑOL

 

Koré

 

         Versión de Consuelo Olvera T.


¿Por qué siempre regresas mendiga
com brazaletes de oro y suplicantes ojos
de violeta?
Tus sandálias te traenn en harapos
de púrpura.  Es primavera.
El viento se debate
en los arbustos brillantes.
El jardín te esparce pétalos que reflejan
tu sonrisa
y se ofuscan.

Regresas. Siempre como tú
y me asedias:
vaso antiguo de cítara inspiración,
columna entre el arbolado.
Quieres cantar conmigo en el césped de mañana.
Conozco tus párpados, los rizos de tus cabellos,
la curva de tu cuello. Sin oírte
sé cómo cantas.

Regresaste, es primavera.
El jardín se adorna
con joyas de tu cofre,
perlas trémulas.

Fuerzas amiga demasiado las cuerdas
de mi canto.
Se revela en mí tu fragilidad.
Demora si puedes y con las cuentas de tus collares claros
guarda mi llanto
incluso cuando te vayas

 

 

Página ampliada e republicada em novembro de 2008; ampliada e recpublicada em agosto de 2010..

 

 

 

 



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