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DORA FERREIRA DA SILVA
(1918-2006)
Autora de livros como Andanças, Talhamar, Retratos de Origem, Poemas da Estrangeira e Hídrias. Foi três vezes ganhadora do Prêmio Jabuti. Recebeu também o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, em 2000, por sua obra Poesia Reunida, editado pela Topbooks.
Como tradutora, destacam-se seus trabalhos com autores como Rilke, Saint-John Perse, San Juan de la Cruz, Hörderlin e Jung. Também atuou como editora, fundando a revista Diálogos, juntamente com seu marido, o filósofo Vicente Ferreira da Silva. Depois, criou a revista Cavalo Azul, para difusão da poesia. Atualmente, funcionava em sua casa, um Centro de Estudos de Poesia com o mesmo nome.
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTO EN ESPAÑOL
CÂNTICOS
I
Tenho-te um amor de mansidões
rebanho lento e branco passeando na alvorada
tenho-te um amor tranqüilo e trêmulo
não se música ou se constelações
tenho-te um amor de eternidades
em vagas renascentes — brando som de flauta
chamando as superfícies distraídas
para a reconcentração definitiva
II
Como um ramo de úmidas rosas
quisera estar na sala em que respiras
o aroma de tuas primaveras
Como um cesto de frutos derramados
quisera ser a oferta abandonada
na mesa simples da tua eternidade
AO SOL
Naufragas na noite
em pompas de luz e imensidade
todo germe palpita na semente
e da nova manhã ressurges
clara divindade
nua a carnação sob o manto escarlate.
NOTURNO II
Nossos olhos nos pertencem —
não o dia.
Amor não nos pertence
nem a morte.
Apenas pousam na pérola mais fina.
Desce o luar
No flanco de rios precipitados
folhas se alongam
caules estremecem.
A noite já desfere
seu punhal de trevas.
MADURO PARA O CANTO
Maduro para o canto
vertes, cântaro,
a água pura
e suas sete cores
unindo lago e lago.
Barco em flor
rio correndo da prece
promessa em silêncio
da messe.
Sem pressa
o agapanto floresce.
Extraído de ANDANÇAS 1948-1970. Rio de Janeiro: Edição da Autora, 1970? 120 p.
Indicado por Wagner Barja. Maio 2007.
CANTO
O pássaro cantou
e os ramos vergaram
sob o peso do fruto
e o fruto cantou
sob o peso do pássaro
e o canto pousou
sobre o fruto
e os ramos cantaram.
NOITE
No declive da altura
poço de lumes.
Entre folhas
perpassa um vôo.
(Noite e alma
toque levíssimo
de palmas.)
Uma estrela cavalga a escuridão.
O FOGO
O fogo acende-se no próprio nome
sete línguas ardem no coração da rosa
e se alastram pelo jardim
voltando depois ao próprio nome.
Se ao fogo perguntas: “É ele? És tu?”
crepitam centelhas. Um Serafim o abraça
e ao coração.
CONVERSA DOM PESSOA
Ai, não ter a vida provas de revisão
para mudar-lhe as vírgulas, acrescentar-lhe
pontos de interrogação
e sobretudo passar a limpo dores e amores
arranjar vasos de flores, ter um gato de
estimação,
ouvir a rolinha a consolar-lhe a aflição...
Ai, não ter a vida provas de revisão
para endireitar-lhe as linhas, trocar palavras
e afinal arrancar as páginas todas do livro
e suprimir-lhe a edição.
Extraído de JARDINS (esconderijos). São Paulo: Edição da Autora, 1979. 125 p.
Indicado por Wagner Barja. Maio 2007.
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De
O LEQUE
São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2007
“(...) as palavras da poeta, recortadas dos dez breves instantes desta suíte, que a um só tempo é dança e melodia, gesto e repouso, enigma e clareza. Ou, direto ao ponto: a sutil, inefável maravilha da grande poesia”.
Antonio Fernando de Franceschi
IV
Sublinham os olhos
o leve movimento
do leque. Como que anunciam
início e algo terminado.
Os dedos: promessa
ao jovem atento
esperando o que não sabe
do iluminado frêmito.
V
O sim-não do leque
rabisca sobre a face
algo que desaparece
com o sorriso.
Iluminura de renda
instrumento sutil
e sua música.
VII
O que eu daria
para ser leque em suas mãos.
O que eu seria — trêmula pérola
junto a um coração.
A aragem me levaria
A Mozart engastado a Mozart
Nessa emoção. O espaço:
Separando sonho e música.
O leque — ladrão sutil —
deixando-me apenas
um vago perfil.
Fragmentos da obra, até então inédita, que a Fundação Moreira Salles publicou em homenagem à grande poeta, e que merece ser apoiada e levada ao grande público.
De
APPASSIONATA
São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2007.
ISBN 978-85-86707-22-3
Obra póstuma publicada organizada pela filha Inês Ferreira da Silva Bianchi e editada com beleza e qualidade pelo IMS.
“Dora Ferreira da Silva se debruça sobre a coisa em si da palavra e da expressão poética, de modo que sua linguagem está de tal forma aderida à emoção e ao pensamento que nela se torna impossível vislumbrar quaisquer suturas operacionais. Trata-se, por assim dizer, de uma linguagem inconsútil, tamanha é nela a fusão entre a forma e o fundo, o que a torna desde logo imune a qualquer decodificação que tente eviscerá-la como se fosse um animal de laboratório.” Ivan Junqueira, no prefácio da obra.
(...)
Vivos e mortos
perambulam nas estradas
um sorriso nos lábios.
O que dizem
no silêncio
agora pleno
da alma?
Appassionata.
O gesto preserva a
emoção e o brusco
perpassar de folhas mortas.
Gemem pássaros noturnos
fiéis da madrugada
até que o horizonte desperte
em sua luz dourada.
Dedos da memória
afagam e são cruéis:
tudo ressurge e se transfigura
no que poderia ser
se a chuva desabasse.
Só os relâmpagos
ao longe
de raios mudos.
(...)
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De
HÍDRIAS
POEMAS DE DORA FERREIRA DA SILVA
São Paulo: Odysseus Editora, 2004
ISBN 85-88023-62-8 (capa dura)
85-8802--62-X (brochura)
[capa dura azul revestida de tela com aplique]
APOLO HIPERBÓREO
Ele ama a distância além do inverno,
onde não declinam a luz radiosa e os cantos.
Quando se afasta, pássaros silenciam e a fonte
em Delfos quase se extingue. Lobos uivam.
Imensa é a noite fria em sua ausência.
Mas ouve! O jubiloso peã de novo repercute
nas pedras brilhantes. Corpos e olivais dourados
revivem na dança: o Citaredo retorna coroado de folhas.
NARCISO (1)
Lampeja o olhar que antes a toda a beleza
se esquivara. És tu, Narciso,
teu reflexo nas águas, ou a irmã
de gêmeo rosto e forma?
Não, não te afastas, porque a unidade
em duas se faria e o mundo das sombras ulula
à espera de tal luto. Permaneces inclinado
e adoras, sem saber se és tu, ou quem queres ver
no exasperado amor que as águas refletem.
A Morte veio enfim buscar-te, consternada,
vendo os olhos do estranho amante
fixos na flor nascida de teu sonho.
NARCISO (II)
Folhas incandescentes fizeram da fonte
vale de fulgores. Bebia Narciso sobre a onda
quando uma face viu de tal beleza
que a luz mais viva se tornou.
E Amor - cujas setas jamais puderam alcançar
seu coração esquivo — nele reinou e jamais do jovem
se apartava, que a seu chamado as águas acorria.
Insidiosa veio a Morte para o levar consigo,
deixando numa flor a forma de Narciso.
De
Dora Ferreira da Silva
RETRATOS DA ORIGEM
São Paulo: Roswitha Kempf Editores, 1988
Capa: detalhe de um quadro a óleo de Edmar José de Almeida -
Retrato de Dora Ferreira da Silva (1972)
CANTO IX
Teu nome
de nada é feito
(que matéria poderá servi-lo?)
És o que antecede
o ver
e inaudível
precedes o ouvir
O tato
o sabor
o cheiro
apenas em ti se reconhecem
antes que retornes
ao moldo do vazio
Quando vens
ultrapassas ideias
pensamentos
que pretendem prender
o antes
depois
e ao mesmo tempo
agora
Menino
usas todas as máscaras para brincar
e nos surpreendes!
Poupas nossa fragilidade
com ecos
fragrâncias
(passo no caminho
és tu
e quem caminha)
Coisa não és
mas concedes graça
à curva de um caminho
às folhas aromáticas
a um contato de amor
Se te evolas
não é como quem abandona
mas pelo gosto
de repetir-te
em nós por outras vindas
grandes e pequenas
enquanto houver espaço
para o Amor
Mas este nome — o mais próximo —
também não basta!
De
Dora Ferreira da Silva
UMA VIA DE VER AS COISAS
São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1973. 124 p.
AMORES
III
Não traçarei novos caminhos.
Entrelaçados, nascemos de raízes
mais fundas que saber.
És o que virá, se vieres.
E eu espero. Véspera da morte,
agora que o amor é mudo ou canta sem parar.
E o canto um silêncio parece
de tão fundo viver, que a vida já se despe
de si mesma, e avança sem andar:
bem longe
ou perto
aberto dom
de
amar.
IV
Não o que dizíamos
nem o que víamos,
mas o olhar desviado,
taça em demasia. E o que insistia:
os mesmos pórticos, a hora
na torre austera. E tudo fazíamos
para não ouvir, calado,
o passo do passado
e não olhar, à janela cega,
um vulto debruçado
o olhar isento
do amor que não se vê
e, em fuga, se extravia.
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TEXTO EN ESPAÑOL
Koré
Versión de Consuelo Olvera T.
¿Por qué siempre regresas mendiga
com brazaletes de oro y suplicantes ojos
de violeta?
Tus sandálias te traenn en harapos
de púrpura. Es primavera.
El viento se debate
en los arbustos brillantes.
El jardín te esparce pétalos que reflejan
tu sonrisa
y se ofuscan.
Regresas. Siempre como tú
y me asedias:
vaso antiguo de cítara inspiración,
columna entre el arbolado.
Quieres cantar conmigo en el césped de mañana.
Conozco tus párpados, los rizos de tus cabellos,
la curva de tu cuello. Sin oírte
sé cómo cantas.
Regresaste, es primavera.
El jardín se adorna
con joyas de tu cofre,
perlas trémulas.
Fuerzas amiga demasiado las cuerdas
de mi canto.
Se revela en mí tu fragilidad.
Demora si puedes y con las cuentas de tus collares claros
guarda mi llanto
incluso cuando te vayas
Página ampliada e republicada em novembro de 2008; ampliada e recpublicada em agosto de 2010..
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