CARLOS FELIPE MOISÉS
Nasceu em São Paulo (SP), no dia 20 de maio de 1942. Crítico literário, colabora em periódicos especializados, desde os anos sessenta, e publicou vários livros sobre poesia moderna e contemporânea. Tradutor, e foi professor da UDP, tendo lecionado também na PUC de São Paulo (1966-1968), na Faculdade de Filosofia de São José do Rio Preto (SP) (1966-1967) e na Universidade Federal da Paraíba (1977). Passou duas temporadas nos Estados Unidos, ensinando na Universidade da Califórnia, em Berkeley (1978-1983) e na Universidade do Novo México (1986). Desde 1990, coordena oficinas de criação literária no Museu da Literatura, em São Paulo. Seus livros de poesia são —Carta de marear, 1966, Poemas reunidos, 1974, Círculo imperfeito, 1978, Subsolo, 1989, Lição de Casa & poemas anteriores, 1998 (Nankin Editorial).
Página preparada por Salomão Sousa.
TENHO TUDO
Tenho tudo o que não quero.
Perder não é senão o intervalo
entre aguardar e nada ter.
(Que melodia é esta que povoa
o espaço em meu redor?)
Tenho tudo. Nada quero.
Meu coração desconhece
o compasso que amanhece
tudo em torno.
No entanto,
meus passos seguem.
No encalço de quê?
Tenho tudo: a noite
abrigada em meu peito,
a música de meus passos,
a relva, a distância coberta
por inesquecível melodia.
Não quero mais do que tenho.
(Um canto flutua no ar vazio.)
Tenho tudo:
os pássaros que me fogem dos olhos
para saudar, no horizonte,
a úmida manhã que principia.
LAGARTIXA
para Margarida
O peito é de vidro.
Os olhos, porcelana
delicada e astuta.
Da língua
escorre
o néctar sutil.
As patas são de estanho,
mas sabem se mover
imóveis: mal flutuam.
O ventre é quase nada,
pura transparência
onde se escondem
o dorso e seus andaimes.
Não tem entranhas.
A pele
de tão fina
já não é:
limita
semovente
o nada de fora
e o quase nada
de dentro.
O peito é de vidro
mas às vezes se desmancha
em pétalas.
Dentro
pulsa um coração
que imobiliza
tudo em torno.
O rabo, sim,
é feito de algo
insuspeitado:
nuvem
algas
milhares de roldanas
e desejos
enrodilhados na engrenagem
que espaneja o chão
e foge
para o céu aberto.
FONÊMICA
Por que
mo-nos-si-lá-bi-co
requer
tantas sílabas?
CARREGO ESTAÇÕES COMIGO
Carrego as estações comigo
e tenho as mãos cansadas.
(No bolso esquerdo um riacho murmura.)
Ali, onde pequenas pedras se acumulam,
uma canção exala seu vapor,
depois se perde.
Jardins de primavera circulam no meu corpo,
um céu de ouro verte seu perfume
e um vento ignorado agita suas asas.
Pasto de segredos,
mescla de memória e desejo,
meu corpo caminha com a chuva
(carrego as estações comigo),
à procura do sonho de uma nuvem fria.
Tantas folhas trago nos braços
que um pássaro, solidário, se oferece
para carregar as estações comigo.
Do peito aberto os meus jardins se vão
e o pássaro me ajuda (memória
e desejo) a semear meu corpo.
Ali planto meus braços,
debaixo daquelas árvores meus olhos ficam,
os pés, roídos pela terra, penduro numa árvore
e o tronco multiplico em cem pedaços –
lá vai, junto com as pedras,
no bojo do riacho antigo.
E pois que carrego as estações comigo,
os lábios deixo além, no descampado,
e peço ao pássaro que pelos cabelos atire
o que sobrou de mim
àquele mar onde me espera a memória
(e o desejo) do tempo em que não soube
carregar as estações comigo.
Retrato
Ah quem viu? Quem vê?
Onde se esconde a pátina invisível
que cobrindo está (eu sei)
estas palavras
estas mãos
o sono
e quando olho é brisa?
O mundo exíguo aumenta
no soluço reticente.
Ponte rio estrada
o céu a casa
e o corpo descontente.
Mulher? Criança? Não foi.
O sol
que lentamente se levanta
e grava a solitária imagem
em pálpebras reclusas.
Absurdo, o amor desliza.
Oferta sonho recusa
repto sudário
–o amor é vário
e as vozes obtusas.
Foi? Não foi?
Palácio ou cornamusa,
o mundo nítido é fatal ausência.
O céu — destino
a intenção — certeza
e a incerteza se desnuda
na moldura breve do meu riso.
Página publicada em setembro de 2008
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