PÉRICLES PRADE
Péricles Prade nasceu em Rio dos Cedros, Santa Catarina. É poeta, contista, ensaísta, crítico literário e de artes plásticas. Presidiu a União Brasileira de Escritores/SP e o Instituto Brasileiro de Filosofia. É autor de dezenas de obras literárias, históricas, filosóficas e jurídicas. Na poesia escreveu Este interior de serpentes alegres, Sereia e castiças, Nos limites do fogo, Os faróis invisíveis, jaula amorosa, Pequeno tratado poético das asas, Além do símbolos e Em forma de chama; variações sobre o unicórnio. Publicou, ainda, os livros de contos Os milagres do cão Jerônimo e Alçapão para gigantes.
Em 31 de março de 1973 foi empossado na cadeira 28 da Academia Catarinense de Letras. Nasceu em Timbó, no Vale de ITAJAÍ, Santa Catarina (Rio dos Cedros, SC, 1942). Escritor (poeta, contista, historiador, crítico literário e de artes plásticas), advogado e professor universitário. Escreveu mais de sessenta obras nos campos da poesia, ficção, história, filosofia, literatura e artes plásticas.
De
Péricles Prado
Sob a faca giratória
Palhoça, SC: Ed. Papa-Terra, 2010.
88 p. ISBN 978-85-61894-01-4
DORSO INQUIETO
Casulo de peixes
felizes, provedor
de sóis e luas,
dorso
Inquieto de ondas suicidas.
Úmidas
a memória
neste jogo incolor
em que me perco
quando a viagem não consola.
NÃO SÓ O CORPO PRENDI
Nas raízes dos sonhos,
não só o corpo prendi.
Também minh´alma, em quatro
separada comos as Estações de Vivaldi.
Nas raízes dos sonhos,
não só o corpo prendi.
Também o desejo, como o dos pardais
nas rendas do amanhecer.
E nelas por favor
não me enforque
com esses fios quase invisíveis.
O QUE ME RESTA
Resta-me o tambor.
Aonde foram parar
os outros instrumentos?
Se no couro bato,
bato até doer
o que nos dedos resta.
E agora, Senhor,
por que diante do altar
ainda minto?
De
NOS LIMITES DO FOGO
Desenhos de Cavani Rosas
2ª. Ed. São Paulo: Massao Ohno, 1979
I O ESCORPIÃO SONOLENTO
(fragmentos)
Os rios não se partem,partem a mim
que apenas os conheço como afogado
em suas entranhas, sábio ou despido
entre vegetais, oh cobertor marinho
0 olho não vê a carruagem da morte
que conduz no liquido o corpo azul
Sem rede o prisioneiro laçou o sol
Assim pôde o herói salvar o menino
0 mergulho é passageiro, uma viagem
ao interior da água para conquista
da estrela farsante entre espinhos
Na volta o ar não surpreende,soprei
outra vez mantendo o passo contido
pelo relógio que não quer as horas
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0 tesouro é procurado nos centros
das metrópoles, mas é nos infernos
que ele esta, guardado nos altares
que cobrem o rosto do desesperado
Não quero as moedas, as espalhadas
pelos errantes círculos, as doidas
construtoras,as pesadas, as fartas
que na cor já revelaram os tempos
No bolso ha o estranho ritmo, sede
do ouro; nem se quisesse o demônio
ele saltaria para o viciado corpo
Faca é de prata, a morte vale mais
assim, mais respeitada, pois morrer
é bom se presente a nobre matéria
De
Péricles Prade
EM FORMA DE CHAMA
Variações sobre o Unicórnio.
Florianópolis: quaisquer, 2005. 79 p.
ISBN 978-85-89866-0303
Úmida Serpe
Úmida serpe, a ti retorno
dependente, água pura, substância sorvida
por Tales de Mileto. Generosa
umidade, metáfora radical
em aquário antigo, espiral divina cifrada
pela permanência, nervo imortal
que se arrasta, escama sagrada, oratório,
beleza semovente entre vegetais ciganos
Serpente da Arábia & Cia
Com a sua metade-mulher
esconde-se a lagarta menor
dentro da madeira gemente. Água
profunda, imortal como a planta,
refaço-me hoje e sempre. Ah mercúrio,
a serpente da Arábia é jóia fatal
em meu frágil pescoço. E o que faz
no sexo a salamandra enlaçada? Melusina,
Melusina, onde estás celebraremos o casamento
Antídoto
No bebedouro a serpente
com seu beijo envenenava
toda a água corrente
que dele então brotava
Os animais o chamaram
para o líquido sujo beber
E se o Unicórnio invocaram
é porque queriam viver
Ele anula o veneno
ao entrar na fonte impura,
transformando-o a gole pleno
novamente em água pura
De
Péricles Prade
PANTERA EM MOVIMENTO
breves poemas de muito amor
Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2006.
62 p. ISBN 87- 85-7662-017-0
INCENSO
Teu cheiro é essência,
erva sagrada que na cama incensa.
Todo o odor o corpo
impregna, se em vez de um
são dois os que se entregam.
À noite dormem os amantes
se o faro dela como o meu
o próprio sonho aspira.
PERDIÇÃO
Perco-me na selva doce
desses pêlos.
E se me perco,
levito
entre um gozo e outro.
Vê-la,
revê-la,
muda caverna
que às vezes canta.
SE GIRA O SOL
Giro quando amor eu faço,
se não giro, então desfaço.
Giro quando amor eu faço.
O sexo é o sol porque te enlaço.
Giro quando amor eu faço,
Se gira o sol no teu espaço.
Giro quando amor eu faço,
e se for agora, então refaço.
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A partir da obra Em forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, localizam-se na produção poética de Péricles Prade singularidades afetas às imagens e ao logos poético em esquiva do signo e da cultura, na perspectiva do Endobarroco. Porém, não se trata de retomada do Barroco nem de um “eterno barroco” de expressão universal. Ao Endobarroco relacionam-se contrastes implícitos às imagens, que, insurgindo-se na Literatura desde os alvores da Cultura Moderna, chegam aos nossos dias, traduzindo-se como desvio do princípio de identidade.
Neste ensaio, o nome Endobarroco compreende traços comuns à Literatura e às Artes, abrangendo características subjacentes a estratos imagísticos e ideativos, que, passando por transformações e períodos diversos, se insurgem nos dias de hoje. Na poesia, trata-se da convivência de oposições e diferenças afetas a palavras e idéias, deixando transparecer tensões intrínsecas ao nascedouro das imagens, no plano da imaginação poética. Trata-se da dinâmica refletida no Logos, que nasce junto à imagística, e subsume contrastes no plano do dizer. Porém, nessa fusão, o conceito de Endobarroco refere-se a uma dinâmica pertencente não só às imagens e à semântica, mas extensiva a estratos morfossintáticos e sonoros, caracterizados por oposições e/ou diferenças. Abarcando e insuflando ambivalências, paradoxos e oximoros, dentre outras possibilidades imagísticas, o Endobarroco revela como característica básica o desvio do princípio de identidade, afluindo na instância imagético-semântica da poesia. Caracterizando uma poética desconstrutora de modelos, em certo sentido esse desvio deixa transparecer insurgência de pensamento divergente quanto ao plano sociocultural.
Mas ao abordarmos o Endobarroco na poesia de Prade, tangenciamos outras questões. Dando continuidade à fundamentação dos argumentos aqui apresentados, recorremos a vários outros autores, além dos já mencionados, cujas idéias traduzem neste ensaio base filosófico-epistemológica, adequando-se a temáticas e questões próprias da poética de Prade. Para compreender sua poética como desvio de discurso, recorremos ao pensamento de Jacques Derrida, visitando a noção de descontrução. Mas interpretando-a através de desdobramentos. E, para tratar a questão da poesia como desvio de cultura, recorremos à filosofia de Gaston Bachelard, igualmente através de desdobramentos. Na poética bachalardiana, enfatizamos as noções de matéria, imagem, imaginação, espaço e tempo poéticos. Considerando essas instâncias, localizamos na poesia de Prade tensões endobarrocas a partir das matérias que lhes servem de estofo imaginativo: O fogo e a água.
Texto de Mirian de Carvalho, extraído da obra METAMORFOSES NA POESIA DE PE´RICLES PRADE. (Florianópolis: quaisquer, 2006. p. 11-12
Página publicada em setembro de 2009; ampliada e republicada em junho de 2010
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