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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PÉRICLES PRADE

 

 

Péricles Prade nasceu em Rio dos Cedros, Santa Catarina. É poeta, contista, ensaísta, crítico literário e de artes plásticas. Presidiu a União Brasileira de Escritores/SP e o Instituto Brasileiro de Filosofia. É autor de dezenas de obras literárias, históricas, filosóficas e jurídicas. Na poesia escreveu Este interior de serpentes alegres, Sereia e castiças, Nos limites do fogo, Os faróis invisíveis, jaula amorosa, Pequeno tratado poético das asas, Além do símbolos e Em forma de chama; variações sobre o unicórnio. Publicou, ainda, os livros de contos Os milagres do cão Jerônimo e Alçapão para gigantes.

 

Em 31 de março de 1973 foi empossado na cadeira 28 da Academia Catarinense de Letras. Nasceu em Timbó, no Vale de ITAJAÍ, Santa Catarina (Rio dos Cedros, SC, 1942). Escritor (poeta, contista, historiador, crítico literário e de artes plásticas), advogado e professor universitário. Escreveu mais de sessenta obras nos campos da poesia, ficção, história, filosofia, literatura e artes plásticas.

 

Péricles Prado

De

Péricles Prado

Sob a faca giratória
 Palhoça, SC: Ed. Papa-Terra, 2010. 
88 p.  ISBN  978-85-61894-01-4


 

DORSO INQUIETO

 

Casulo de peixes

felizes, provedor

de sóis e luas,

dorso

Inquieto de ondas suicidas.

 

Úmidas

a memória

neste jogo incolor

em que me perco

quando a viagem não consola.

 

 

NÃO SÓ O CORPO PRENDI

 

Nas raízes dos sonhos,

não só o corpo prendi.

Também minh´alma, em quatro

separada comos as Estações de Vivaldi.

 

Nas raízes dos sonhos,

não só o corpo prendi.

Também o desejo, como o dos pardais

nas rendas do amanhecer.

 

E nelas por favor

não me enforque

com esses fios quase invisíveis.

 

 

O QUE ME RESTA

 

Resta-me o tambor.

Aonde foram parar

os outros instrumentos?

 

Se no couro bato,

bato até doer

o que nos dedos resta.

 

E agora, Senhor,

por que diante do altar

ainda minto?

 

De
NOS LIMITES DO FOGO

Desenhos de Cavani Rosas
2ª. Ed. São Paulo: Massao Ohno, 1979

 

 

O ESCORPIÃO SONOLENTO
(fragmentos)

Os rios não se partem,partem a mim

que  apenas os conheço como afogado

em suas entranhas, sábio ou despido

entre vegetais, oh cobertor marinho

 

0 olho não vê a carruagem da morte

que conduz no liquido o corpo azul

Sem rede o prisioneiro laçou o sol

Assim pôde o herói salvar o menino

 

0 mergulho é passageiro, uma viagem

ao interior da água  para conquista

da estrela farsante entre  espinhos

 

Na volta o ar não surpreende,soprei

outra vez mantendo  o passo contido

pelo relógio que não  quer as horas

 

 ---------

 

0 tesouro é procurado nos centros

das metrópoles, mas é nos infernos

que ele esta, guardado nos altares

que cobrem o rosto do desesperado

 

Não quero as moedas, as espalhadas

pelos errantes círculos, as doidas

construtoras,as pesadas, as fartas

que na cor já  revelaram os tempos

 

No bolso ha o estranho ritmo, sede

do ouro; nem se quisesse o demônio

ele saltaria  para o viciado corpo

 

Faca é de prata,  a morte vale mais

assim, mais respeitada, pois morrer

é bom se  presente a nobre  matéria

 

Péricles Prade

De
Péricles Prade
EM FORMA DE CHAMA
Variações sobre o Unicórnio.

Florianópolis: quaisquer, 2005.    79 p.
ISBN  978-85-89866-0303


Úmida Serpe 

Úmida serpe, a ti retorno
dependente, água pura, substância sorvida
por Tales de Mileto. Generosa
umidade, metáfora radical
em aquário antigo, espiral divina cifrada
pela permanência, nervo imortal
que se arrasta, escama sagrada, oratório,
beleza semovente entre vegetais ciganos 

 

Serpente da Arábia & Cia 

Com a sua metade-mulher
esconde-se a lagarta menor
dentro da madeira gemente. Água
profunda, imortal como a planta,
refaço-me hoje e sempre. Ah mercúrio,
a serpente da Arábia é jóia fatal
em meu frágil pescoço. E o que faz
no sexo a salamandra enlaçada? Melusina,
Melusina, onde estás celebraremos o casamento 

 

Antídoto 

No bebedouro a serpente
com seu beijo envenenava
toda a água corrente
que dele então brotava 


Os animais o chamaram
para o líquido sujo beber
E se o Unicórnio invocaram
é porque queriam viver
 

Ele anula o veneno
ao entrar na fonte impura,
transformando-o a gole pleno
novamente em água pura

Péricles Prade

 

De

Péricles Prade
PANTERA EM MOVIMENTO
breves poemas de muito amor

Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2006.
62 p.  ISBN  87- 85-7662-017-0


                                    INCENSO 

                            Teu cheiro é essência,

                   erva sagrada que na cama incensa. 

 

                            Todo o odor o corpo

                      impregna, se em vez de um

                     são dois os que se entregam. 

 

                     À noite dormem os amantes

                       se o faro dela como o meu

                          o próprio sonho aspira. 

  

                                      PERDIÇÃO    

  

                              Perco-me na selva doce 

                                        desses pêlos. 

 

                                      E se me perco, 

                                                 levito 

                                entre um gozo e outro. 

 

                                               Vê-la, 

                                                        revê-la, 

                                         muda caverna 

                                      que às vezes canta. 

 

 

                                      SE GIRA O SOL

                            

                               Giro quando amor eu faço,

                               se não giro, então desfaço.

 

                               Giro quando amor eu faço.

                             O sexo é o sol porque te enlaço.

 

                                Giro quando amor eu faço,

                                Se gira o sol no teu espaço.

 

                                 Giro quando amor eu faço,

                                e se for agora, então refaço. 

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A partir da obra Em forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, localizam-se na produção poética de Péricles Prade singularidades afetas às imagens e ao logos poético em esquiva do signo e da cultura, na perspectiva do Endobarroco. Porém, não se trata de retomada do Barroco nem de um “eterno barroco” de expressão universal. Ao Endobarroco relacionam-se contrastes implícitos às imagens, que, insurgindo-se na Literatura desde os alvores da Cultura Moderna, chegam aos nossos dias, traduzindo-se como desvio do princípio de identidade.

            Neste ensaio, o nome Endobarroco compreende traços comuns à Literatura e às Artes, abrangendo características subjacentes a estratos imagísticos e ideativos, que, passando por transformações e períodos diversos, se insurgem nos dias de hoje. Na poesia, trata-se da convivência de oposições e diferenças afetas a palavras e idéias, deixando transparecer tensões intrínsecas ao nascedouro das imagens, no plano da imaginação poética. Trata-se da dinâmica refletida no Logos, que nasce junto à imagística, e subsume contrastes no plano do dizer. Porém, nessa fusão, o conceito de Endobarroco refere-se a uma dinâmica pertencente não só às imagens e à semântica, mas extensiva a estratos morfossintáticos e sonoros, caracterizados por oposições e/ou diferenças. Abarcando e insuflando ambivalências, paradoxos e oximoros, dentre outras possibilidades imagísticas, o Endobarroco revela como característica básica o desvio do princípio de identidade, afluindo na instância imagético-semântica da poesia. Caracterizando uma poética desconstrutora de modelos, em certo sentido esse desvio deixa transparecer insurgência de pensamento divergente quanto ao plano sociocultural.

            Mas ao abordarmos o Endobarroco na poesia de Prade, tangenciamos outras questões. Dando continuidade à fundamentação dos argumentos aqui apresentados, recorremos a vários outros autores, além dos já mencionados, cujas idéias traduzem neste ensaio base filosófico-epistemológica, adequando-se a temáticas e questões próprias da poética de Prade. Para compreender sua poética como desvio de discurso, recorremos ao pensamento de Jacques Derrida, visitando a noção de descontrução. Mas interpretando-a através de desdobramentos. E, para tratar a questão da poesia como desvio de cultura, recorremos à filosofia de Gaston Bachelard, igualmente através de desdobramentos. Na poética bachalardiana, enfatizamos as noções de matéria, imagem, imaginação, espaço e tempo poéticos. Considerando essas instâncias, localizamos na poesia de Prade tensões endobarrocas a partir das matérias que lhes servem de estofo imaginativo: O fogo e a água.

Texto de Mirian de Carvalho, extraído da obra METAMORFOSES NA POESIA DE PE´RICLES PRADE. (Florianópolis: quaisquer, 2006.  p. 11-12

 

 Página publicada em setembro de 2009; ampliada e republicada em junho de 2010


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