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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


ALCIDES BUSS

Nasceu na localidade de Ribeirão Grande, atual município de Salete, no Alto Vale do Itajaí, em 1948. Professor de Teoria Literária da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e diretor  da EdUFSC. Organizou oficinas literárias e o varal  literária com o objetivo de levar o texto ao público e promover a criação literária, projetos de grande impacto cultural.

Obras publicadas: Círculo quadrado, Joinville, edição do autor,1970;  O bolso ou a vida, Florianópolis, DCE/UFSC, 1971;  Ahsim, Florianópolis, editora Lunardelli, 1976;

O homem e a mulher, Joinville, edição do autor, 1980; O homem sem o homem, Florianópolis, editora Noa Noa, 1982; Sete pavios no ar, Florianópolis, Edições Sanfona, 1985; ' Transação, Florianópolis, M. A.L. Edições, 1988; Natural, afetivo,frágil, Florianópolis, Edições Athanor, 1992; Nenhum milagre, Florianópolis, editora Letras Contemporâneas, 1993; Sinais/Sentidos, Florianópolis, M. A.L. Edições, 1995; Cinza de Fênix e três elegias, Florianópolis, editora Insular, 1999; Contemplação do amor trinta anos de.poesia escolhida. FlorianQpoli.â,Editora da UfSC, 2002; Cadernos da Noite, M.A.L. Edições, 2004
 

“Olhar a vida acentua todas as qualidades já evidenciadas nestas décadas de atuação e produção poética de Alcides Buss. Especialmente, sua integridade e coerência. Alcides Buss é íntegro: o poeta, o animador e agitador literário, o editor e dirigente cultural, o professor; são sempre a mesma pessoa, com uma atuação marcante na cena contemporânea brasileira nas últimas décadas, sempre em favor da palavra poética.”  CLÁUDIO WILLER

 "Meus aplausos à sua poesia, uma das mais belas e fortes do nosso país e da nossa língua." LÊDO IVO

“Eis um poeta cuja limpidez discursiva não transforma a elipse, o verso curto, em esconderijo retórico de uma possível anemia existencial; em sua obra, ao contrário, o metro conciso parece operar como dique de controle a uma voragem da vida. Buss é um poeta culto em que a cultura não pesa, nem se transforma em fala vedada aos não-iniciados. Nele, é sensível o apego à matéria do mundo, em sua misteriosa e complexa simplicidade.”  ANTONIO CARLOS SECCHIN 


TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL

Veja também: Poesia visual

 

Alcides Buss

De
Alcides Buss
Natural. Afetivo. Frágil.
 Ilus. Rodrigo de Haro.  Florianópolis: Editora  Athanor,  1992.
 (Série Poetas Brasileiros)
Inclui 3 livros em um envelope de cartão, cada um com um breve poema.

Rodrigo de Haro é um artista renomado e reconhecido dentro e fora de Santa Catarina e Alcides Buss é um dos nomes mais prestigiosos da nova poesia brasileira. Resultado: Uma bela edição de arte, sem menção do número de exemplares.   A. M.

A seguir três fragmentos do primeiro livro (que se aproximam do que entre nós, livremente, se intitula haikai, embora os tercetos formem um conjunto homogêneo): "Natural" e uma das ilustrações.



A flor, florescida;
lá dentro do ser, tremula
a flor incutida.

Outono na árvore:
sem garra já, a cigarra
persiste no ar.

Fim do entardecer
— um pássaro apressado
cruza o horizonte.


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Alcides Buss

De
Alcides Buss
CADERNOS DA NOITE.  2a. ed.
Florianópolis: Caminho de Dentro Edições, 2010.
120 p.   ISBN978-85-629-2001-1

 

Amor, te redimo

Destroços do amor
rebuscam as formas
passadas.  Em cada
momento vivido,
um rio se permite
sonhar.  Mas nada
de fato ao que era
retorna — deriva,
tão só.  Viver é
rever — turvar-se.
De si trespassado,
o corpo deságua
no caos.  Desfeito,
compõe o que foi
bem antes de ser.

 

Descobrimentos

Amantes fortuitos
florescem nos lábios.
       Libélulas dóceis,
engendram o beijo
de breves liames.

À visa do sonho,
atendem à face incontida
do corpo.

Transformam
imagens em névoas
sob o frágil abrigo
dos olhos.
 

 

 

SABER NÃO SABER


 De
Alcides Buss
SABER NÃO SABER
Florianópolis: Caminho de Dentro Edições, 2009
ISBN  978-85-62-920-00-4

 

Alcides Buss escreveu este livro pensando no público adolescente. Acho que acertou. Os editores ficaram perplexos. Os textos parecem simples, mas são complexos, abertos a interpretações, não são fechados. Parecem escorregadios mas, no fundo, são é reflexivos, desdobráveis. Inomináveis em sua dualidade.  Ele não trata os jovens como desprovidos de imaginação e reflexão. Talvez por isso mesmo esses textos interessam também aos adultos.
Antonio Miranda

I
Sabemos um pouco
de tudo. Por exemplo,
que a Terra baila
no espaço. Não sabemos,
porém da inspiração
que permeia os pássaros.

Sabemos que dois e dois
são quatro. Não sabemos,
entanto, em que lugar
do corpo se esconde
o que quase somos.

 

VII
Sabemos de sementes,
planetas à espera
de um sulco, de uma voz
— em órbitas de lábios
                            transparentes.

Não sabemos, porém,
dos labirintos do sopro
que, dentro delas,
engraVIDA
                   o silêncio.

IX
Sabemos que cães
não são gatos, nem canários
são pintassilgos.
Não sabemos, no entanto,
porque de seus olhos
emanam esses cristais
onde nos vemos todos
no fundo tão iguais e
necessários uns aos outros.

XI
Sabemos de onde vem
o silvo da serpente
na memória.
Não sabemos, porém,
pra onde vai
essa
que nos devora.


POEMAS EXTRAÍDOS DE

OLHAR A VIDA

(Florianópolis: Insular, 2007)

 

PROVISÕES

 

Em minhas mãos detenho

objetos infundados do futuro.

Amoldo-os ao íntimo querer

necessitado.

Lentamente dou a eles

um código secreto.

Depois, deixo-os

partir para o mundo

inexistente. Comigo sei

que um dia ganharão,

de alguém, os nomes.

E, quem sabe, servirão

pra vida.

 

 

AMOR PRÓPRIO

 

Perversos ensejos transitam

no tempo. De nada sabemos.

 

À cata de escassas migalhas

de sonhos, corremos o risco

de, o pouco que temos, perder:

 

Sem riscos, porém,

que graça há em viver?

 

Por sobre o aparente descaso

da sorte, germinam, copiosas,

as flores do absurdo.

 

 

PERCEPÇÃO, NEM ISSO

 

A noite perpassa

o riso encoberto.

No fundo do corpo,

a sobra de luz

ainda organiza

um frágil desejo:

rever os adornos

de certos caprichos.

Mais nada, depois.

Solene silêncio,

as formas do nada

retomam o poder

(que nunca perderam)

e põem-se a reinar;

como se tudo tão-só

existisse pra elas.

 

 

MOTIVO DE MENOS

 

Tudo o que vemos

começa e finda.

As árvores caminham,

lentamente, para a sombra.

Os peixes multiplicam-se

no oco da memória.

Entre tantos e diversos

viventes de passagem,

borboletas transformam-se

em mudas litanias.

Do início ao fim,

tudo é assim

e bem sabemos

nos neurônios sôfregos.

Mas por que esta cena,

dois pássaros mortos

no mesmo lugar;

nesta mesma hora,

estendidos no chão

sob o silêncio da forma?

 

 

PÓS-MODERNO

 

O que falta dizer

depois do adeus?

 

A alma, qual roseira

no deserto, reconhece

a algema de sal

que prende o algoz

a si próprio.

 

Um resíduo de luz

assinala um desejo,

a flâmula dum erro,

um frêmito

nas cordas vocais.

 

Eu, tu, nós:

rumamos para onde menos dói

estar na esteira dos fatos.

 

Se pudéssemos, lentamente

deixaríamos tudo como era

e lembraríamos as coisas

como quem adormece.

 

 

LEALDADE

 

                               Tropeço no banco interior:

                               à  deriva do acerto, me guio

por outros incertos caminhos.

O acaso me é o consolo.

Se nada te dizem as palavarfas,

tampouco me digo

 o que devo pensar. Tão-só,

a cada minuto, inauguro

um novo sentido à margem

das coisas e seus conteúdos.

     Nada mais quero que isto:

morrer nos signos em curso,

depois nascer como quem

apenas passeia

na própria insignificância.

 

 

ASSIM E DOUTRAS FORMAS

 

O murmúrio da vontade

infunde-se na alma sensual

da noite.  O caos,

que em tudo impera,

adquire um rosto, tão factível

que despótico, sob o manto

de suspeitas. Pouco a pouco

se organiza e já transpõe

a cena inominável

que antecede a cópula divina.

É assim, e de outras formas,

que os seres incriados

intrometem-se no mundo,

confundindo-se com diabos.

 

 

ENCRUZILHADA

 

Sou agora refém

de razões encobertas.

Meu todo vacila.

 

Atrás e adiante

verdades insuflam

o viés do presente.

 

Que faço de mim?

Me dou ao semblante

que, mudo, me estranha?

 

Me faço suspeito

de antigo começo,

de falas sem nexo?

 

Vontade e inércia

me atam e desatam.

Que faço de mim?

 

 

TESTAMENTO

 

Sou de carne, de osso

e de nuvens. Exponho-me

aos ventos. Se meu ser

falhar; darei as sobras

de mim ao deserto

dum  único amor.

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O NOME DA VIDA

 

O silêncio fala:

notai a palavra

da boca calada.

 

Uma voz se alça

abrindo o caminho,

unindo o disperso.

 

Atentos, notai

a marcha daqueles

que buscam o dia.

 

Em silêncio avançam

em torno da luz

que brota no peito.

 

Oh, nada dirão,

mas claro sentido

virá da vontade

 

em forma de flor

ou feito um tufão,

em nome da vida.

 

 

INCUMBÊNCIA

 

Descubro meu ser

distante da voz que ordena

e faz, do homem,

sapatos, suor e cansaço.

 

Descubro-me longe

das leis e mais leis

nascidas por graça dos fortes;

dos mitos plantados

à porta das casas, dos olhos,

das bocas.

 

Des-

         cubro-me perto de mim,

do centro vital que palpita,

do núcleo que é claro

e humano.

 

         Cubro-me

de poucos sentidos

e vasto silêncio: feto

dos anos dois mil.

 

            (Transação, 1994) 

 

 

PROFANAÇÃO

 

Dois sentimentos distantes,

dois sentimentos do ano 1871

sobrevivem

e neste momento se encontram.

 

Um, é uma sentimento de morte;

o outro, um sentimento de vida.

 

A face de ambos se mantém

escondida, mas ambas as faces vibram

neste cair de dia

e eu as sinto

como se fossem  minhas.

 

Lentamente me figuro

— desfiguro: cachorros

se revestem de rochedos; pássaros

se transformam em sons; palmeiras

se desfazem em vento.

 

Indevidamente mergulho

na imanência

de alheios fins.

 

 

 REDONDILHA

 

Em cápsulas frias,

incrédulos seres

percorrem as ruas.

 

Divertem-se em ver

no abismo dos outros

a própria aventura.

 

Os outros são eles!

O duplo tramita

na face vazia.

 

O ser e o não-ser

dividem a mesma

carcaça do dia.

 

Mil vezes a vida

começa, mil vezes

a vida termina.

 

Incrédulos seres,

permitem-se crer

que tudo é mentira.

 

A imagem do corpo

Mergulha no sonho.

O mundo imagina.

 

            (Sinais, 1995)

 

 

De
Contemplação do Amor

30 anos de poesia escolhida

Florianópolis: Editora da UFSC, 2002

 

O ciclista

                    A Afonso Imhof

I

Em sua montaria
o ciclista pedala
a fantasia.

Do seu corpo a energia
passa às rodas,
da mente corre às mãos
a direção.

O vento roça a pele
mas é como se o ciclista o rasgasse
sempre,
para entrar
no seu sumo bom.
E toca e corre!
Mergulhos de alegria,
as curvas beiram o coração.

 No pedal está o pé.
No guidão está a mão.
O homem unido à bicicleta
leva o ser em transição.

Chegando ao seu destino,
o ciclista chega ao fim.
É como se as rodas se rompessem,
o corpo se partisse...
Mas, do ciclista sai um homem
para outra iniciação.

II

Mentira, mentira!
O ciclista não pedala;
ao contrário, é pedalado.

 A engrenagem em que assenta
determina-lhe o fado.
Sua rota está traçada

e o seu tempo demarcado.
E o seu destino é o trabalho
obrigatório, renovado.

 O ciclista não pedala
— é pedalado.

 Seu salário é menor
do que o seu mês.
O resto, ao contrário,
é maior que o seu poder.

 

Tristemente, o ciclista
é pedalado, pedalado.

 

Em sua boca, o beijo
já morreu. E se a cabeça
alienada vive, a engrenagem
do ciclismo
não consegue ver.

Um 

Há um      princípio de fim
      no r     omper do dia;

há um pr      incípio de fim
     no cheg    ar da onda;

há um princ      ípio de fim
      no cair d        a noite.

 

     Há um findar     -se
       saindo do cé      u;

    há um findar-se
  volvendo no mar;

    há um findar-se
  entrando na terra.

 

Há um princípio de fim
   na voz das pessoas;

          há em tudo
   o jaguar do batismo;

   um viés
                — precipício.

 

 Sentimento da metrópole

O mundo está em chamas
e eu o vejo
porque queima.

Aproximo-me do fogo
sob a força que irradia.
Já sou pouco, já sou nada;
sou a noite e, enfim,
o dia.

De meu íntimo retrato
componho, impossível
de ouvir-se, um único grito:
que ressoa
na imensa ruína.

Ninguém está comigo
e já nem eu estou em mim.

 

 

 

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TEXTOS EN ESPAÑOL

 

Extraídos de

ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA

Org. e trad. de Xosé Lois García

Santiago de Compostela: Laiovento, 2001.

ISBN 84-8487-001-4

 

EL NOMBRE DE LA VIDA

 

El silencio habla:

notad la palabra

de la boca callada.

 

Se alza una voz

abriendo el camino,

uniendo lo disperso.

 

Atentos, notad

la marcha de aquellos

que buscan el día.

 

En silencio avanzan

en torno a la luz

que brota del pecho.

 

Oh, no dirán nada,

pero un claro sentido

vendrá de la voluntad

 

en forma de flor

o hecho un tifón

en nombre de la vida.

 

 

INCUMBENCIA

 

Descubro mi ser

distante de la voz que ordena

y hace, del hombre,

zapatos, sudor y cansancio.

 

Me descubro lejos

de las leyes y más leyes

creadas gracias a las fuentes;

de los mitos plantados

a la puerta de las casas, de los ojos,

de las bocas.

 

Me descubro cerca de mí,

del centro vital que palpita,

del núcleo vital que palpita,

del núcleo que es claro

y humano.

 

         Me cubro

de pocos sentidos

y vasto silencio: feto

de los años dos mil.

 

            (Transação, 1994)

 

 

PROFANACIÓN

 

Dos sentimientos distantes,

dos sentimientos del año 1871

sobreviven

y en este momento se encuentran.

 

Uno, es un sentimiento de muerte;

el outro, un sentimiento de vida.

 

La faz de ambos se mantiene

escondidas, pero ambas faces vibran

en este caer del día

y yo las siento

como si fuesen mías.

 

Lentamente me figuro

Desfiguro: cachorros

se revisten de peñascos; pájaros

se transforman en sones; palmeras

se deshacen en viento.

 

Indebidamente buceo

en la inmanencia

de fines ajenos.

 

 

REDONDILLA

 

En cápsulas frias,

incrédulos seres

recorren las calles.

 

Se divierten al ver

en el abismo de los otros

la própria aventura.

 

¡Los otros son ellos!

Lo doble camina

por la faz vacía.

 

El ser y el no ser

dividen la misma

carcasa del día.

 

Mil veces la vida

comienza, mil veces

la vida termina.

 

Incrédulos seres,

se permiten creer

que todo es mentira.

 

La imagen del cuerpo

se sumerge en el sueño.

El mundo se imagina.

 

            (Sinais, 1995)

 

 

Página ampliada e republicada em abril de 2009; republicada em janeiro de 2010

 



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