ALCIDES BUSS
Nasceu na localidade de Ribeirão Grande, atual município de Salete, no Alto Vale do Itajaí, em 1948. Professor de Teoria Literária da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e diretor da EdUFSC. Organizou oficinas literárias e o varal literária com o objetivo de levar o texto ao público e promover a criação literária, projetos de grande impacto cultural.
Obras publicadas: Círculo quadrado, Joinville, edição do autor,1970; O bolso ou a vida, Florianópolis, DCE/UFSC, 1971; Ahsim, Florianópolis, editora Lunardelli, 1976;
O homem e a mulher, Joinville, edição do autor, 1980; O homem sem o homem, Florianópolis, editora Noa Noa, 1982; Sete pavios no ar, Florianópolis, Edições Sanfona, 1985; ' Transação, Florianópolis, M. A.L. Edições, 1988; Natural, afetivo,frágil, Florianópolis, Edições Athanor, 1992; Nenhum milagre, Florianópolis, editora Letras Contemporâneas, 1993; Sinais/Sentidos, Florianópolis, M. A.L. Edições, 1995; Cinza de Fênix e três elegias, Florianópolis, editora Insular, 1999; Contemplação do amor – trinta anos de.poesia escolhida. FlorianQpoli.â,Editora da UfSC, 2002; Cadernos da Noite, M.A.L. Edições, 2004
“Olhar a vida acentua todas as qualidades já evidenciadas nestas décadas de atuação e produção poética de Alcides Buss. Especialmente, sua integridade e coerência. Alcides Buss é íntegro: o poeta, o animador e agitador literário, o editor e dirigente cultural, o professor; são sempre a mesma pessoa, com uma atuação marcante na cena contemporânea brasileira nas últimas décadas, sempre em favor da palavra poética.” CLÁUDIO WILLER
“Eis um poeta cuja limpidez discursiva não transforma a elipse, o verso curto, em esconderijo retórico de uma possível anemia existencial; em sua obra, ao contrário, o metro conciso parece operar como dique de controle a uma voragem da vida. Buss é um poeta culto em que a cultura não pesa, nem se transforma em fala vedada aos não-iniciados. Nele, é sensível o apego à matéria do mundo, em sua misteriosa e complexa simplicidade.” ANTONIO CARLOS SECCHIN
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
POEMAS EXTRAÍDOS DE
OLHAR A VIDA
(Florianópolis: Insular, 2007)
PROVISÕES
Em minhas mãos detenho
objetos infundados do futuro.
Amoldo-os ao íntimo querer
necessitado.
Lentamente dou a eles
um código secreto.
Depois, deixo-os
partir para o mundo
inexistente. Comigo sei
que um dia ganharão,
de alguém, os nomes.
E, quem sabe, servirão
pra vida.
AMOR PRÓPRIO
Perversos ensejos transitam
no tempo. De nada sabemos.
À cata de escassas migalhas
de sonhos, corremos o risco
de, o pouco que temos, perder:
Sem riscos, porém,
que graça há em viver?
Por sobre o aparente descaso
da sorte, germinam, copiosas,
as flores do absurdo.
PERCEPÇÃO, NEM ISSO
A noite perpassa
o riso encoberto.
No fundo do corpo,
a sobra de luz
ainda organiza
um frágil desejo:
rever os adornos
de certos caprichos.
Mais nada, depois.
Solene silêncio,
as formas do nada
retomam o poder
(que nunca perderam)
e põem-se a reinar;
como se tudo tão-só
existisse pra elas.
MOTIVO DE MENOS
Tudo o que vemos
começa e finda.
As árvores caminham,
lentamente, para a sombra.
Os peixes multiplicam-se
no oco da memória.
Entre tantos e diversos
viventes de passagem,
borboletas transformam-se
em mudas litanias.
Do início ao fim,
tudo é assim
e bem sabemos
nos neurônios sôfregos.
Mas por que esta cena,
dois pássaros mortos
no mesmo lugar;
nesta mesma hora,
estendidos no chão
sob o silêncio da forma?
PÓS-MODERNO
O que falta dizer
depois do adeus?
A alma, qual roseira
no deserto, reconhece
a algema de sal
que prende o algoz
a si próprio.
Um resíduo de luz
assinala um desejo,
a flâmula dum erro,
um frêmito
nas cordas vocais.
Eu, tu, nós:
rumamos para onde menos dói
estar na esteira dos fatos.
Se pudéssemos, lentamente
deixaríamos tudo como era
e lembraríamos as coisas
como quem adormece.
LEALDADE
Tropeço no banco interior:
à deriva do acerto, me guio
por outros incertos caminhos.
O acaso me é o consolo.
Se nada te dizem as palavarfas,
tampouco me digo
o que devo pensar. Tão-só,
a cada minuto, inauguro
um novo sentido à margem
das coisas e seus conteúdos.
Nada mais quero que isto:
morrer nos signos em curso,
depois nascer como quem
apenas passeia
na própria insignificância.
ASSIM E DOUTRAS FORMAS
O murmúrio da vontade
infunde-se na alma sensual
da noite. O caos,
que em tudo impera,
adquire um rosto, tão factível
que despótico, sob o manto
de suspeitas. Pouco a pouco
se organiza e já transpõe
a cena inominável
que antecede a cópula divina.
É assim, e de outras formas,
que os seres incriados
intrometem-se no mundo,
confundindo-se com diabos.
ENCRUZILHADA
Sou agora refém
de razões encobertas.
Meu todo vacila.
Atrás e adiante
verdades insuflam
o viés do presente.
Que faço de mim?
Me dou ao semblante
que, mudo, me estranha?
Me faço suspeito
de antigo começo,
de falas sem nexo?
Vontade e inércia
me atam e desatam.
Que faço de mim?
TESTAMENTO
Sou de carne, de osso
e de nuvens. Exponho-me
aos ventos. Se meu ser
falhar; darei as sobras
de mim ao deserto
dum único amor.
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O NOME DA VIDA
O silêncio fala:
notai a palavra
da boca calada.
Uma voz se alça
abrindo o caminho,
unindo o disperso.
Atentos, notai
a marcha daqueles
que buscam o dia.
Em silêncio avançam
em torno da luz
que brota no peito.
Oh, nada dirão,
mas claro sentido
virá da vontade
em forma de flor
ou feito um tufão,
em nome da vida.
INCUMBÊNCIA
Descubro meu ser
distante da voz que ordena
e faz, do homem,
sapatos, suor e cansaço.
Descubro-me longe
das leis e mais leis
nascidas por graça dos fortes;
dos mitos plantados
à porta das casas, dos olhos,
das bocas.
Des-
cubro-me perto de mim,
do centro vital que palpita,
do núcleo que é claro
e humano.
Cubro-me
de poucos sentidos
e vasto silêncio: feto
dos anos dois mil.
(Transação, 1994)
PROFANAÇÃO
Dois sentimentos distantes,
dois sentimentos do ano 1871
sobrevivem
e neste momento se encontram.
Um, é uma sentimento de morte;
o outro, um sentimento de vida.
A face de ambos se mantém
escondida, mas ambas as faces vibram
neste cair de dia
e eu as sinto
como se fossem minhas.
Lentamente me figuro
— desfiguro: cachorros
se revestem de rochedos; pássaros
se transformam em sons; palmeiras
se desfazem em vento.
Indevidamente mergulho
na imanência
de alheios fins.
REDONDILHA
Em cápsulas frias,
incrédulos seres
percorrem as ruas.
Divertem-se em ver
no abismo dos outros
a própria aventura.
Os outros são eles!
O duplo tramita
na face vazia.
O ser e o não-ser
dividem a mesma
carcaça do dia.
Mil vezes a vida
começa, mil vezes
a vida termina.
Incrédulos seres,
permitem-se crer
que tudo é mentira.
A imagem do corpo
Mergulha no sonho.
O mundo imagina.
(Sinais, 1995)
De
Contemplação do Amor
30 anos de poesia escolhida
Florianópolis: Editora da UFSC, 2002
O ciclista
A Afonso Imhof
I
Em sua montaria
o ciclista pedala
a fantasia.
Do seu corpo a energia
passa às rodas,
da mente corre às mãos
a direção.
O vento roça a pele
mas é como se o ciclista o rasgasse
sempre,
para entrar
no seu sumo bom.
E toca e corre!
Mergulhos de alegria,
as curvas beiram o coração.
No pedal está o pé.
No guidão está a mão.
O homem unido à bicicleta
leva o ser em transição.
Chegando ao seu destino,
o ciclista chega ao fim.
É como se as rodas se rompessem,
o corpo se partisse...
Mas, do ciclista sai um homem
para outra iniciação.
II
Mentira, mentira!
O ciclista não pedala;
ao contrário, é pedalado.
A engrenagem em que assenta
determina-lhe o fado.
Sua rota está traçada
e o seu tempo demarcado.
E o seu destino é o trabalho
obrigatório, renovado.
O ciclista não pedala
— é pedalado.
Seu salário é menor
do que o seu mês.
O resto, ao contrário,
é maior que o seu poder.
Tristemente, o ciclista
é pedalado, pedalado.
Em sua boca, o beijo
já morreu. E se a cabeça
alienada vive, a engrenagem
do ciclismo
não consegue ver.
Um
Há um princípio de fim
no r omper do dia;
há um pr incípio de fim
no cheg ar da onda;
há um princ ípio de fim
no cair d a noite.
Há um findar -se
saindo do cé u;
há um findar-se
volvendo no mar;
há um findar-se
entrando na terra.
Há um princípio de fim
na voz das pessoas;
há em tudo
o jaguar do batismo;
um viés
— precipício.
Sentimento da metrópole
O mundo está em chamas
e eu o vejo
porque queima.
Aproximo-me do fogo
sob a força que irradia.
Já sou pouco, já sou nada;
sou a noite e, enfim,
o dia.
De meu íntimo retrato
componho, impossível
de ouvir-se, um único grito:
que ressoa
na imensa ruína.
Ninguém está comigo
e já nem eu estou em mim.
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TEXTOS EN ESPAÑOL
Extraídos de
ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA
Org. e trad. de Xosé Lois García
Santiago de Compostela: Laiovento, 2001.
ISBN 84-8487-001-4
EL NOMBRE DE LA VIDA
El silencio habla:
notad la palabra
de la boca callada.
Se alza una voz
abriendo el camino,
uniendo lo disperso.
Atentos, notad
la marcha de aquellos
que buscan el día.
En silencio avanzan
en torno a la luz
que brota del pecho.
Oh, no dirán nada,
pero un claro sentido
vendrá de la voluntad
en forma de flor
o hecho un tifón
en nombre de la vida.
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